sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A HISTÓRIA DOS TRILHOS E O BONDE DA HISTÓRIA


O Brasil registra um caso raro no seu modelo de desenvolvimento: a substituição de trens por caminhões. Trocaram estradas de ferro por estradas de terra ou asfalto. No mundo todo o que se viu foi uma soma, modernizaram as estradas de ferro e os veículos ferroviários, como acontece no setor rodoviário. Aqui acabamos por constituir a prova de que o desprezo de uma das alternativas é um grande prejuízo.

Mesmo assim, há quem defenda a exclusão ferroviária. O argumento é de que a indústria automotiva puxou uma cadeia produtiva imensa, alavancando a economia. Mas se você não é fabricante de automóveis sabe que esse álibi é fraco. Há vários indicadores de que as ferrovias teriam trazido tanto desenvolvimento que hoje, as indústrias brasileiras em geral, estariam maiores e mais fortes, até as de carros.

A via que se quer extinguir agora é a radiodifusão. Interessados no que seria o espólio da TV aberta, já divulgam até a data do "switch off apocalíptico": o ano de 2030! Isso porque estão falando do mais eficiente canal publicitário, tanto comercial como institucional, para vender e convencer com produtos públicos e privados. A via da radiodifusão, inteiramente construída e mantida sem gastar dinheiro público, une o Brasil de Norte a Sul, através de uma infraestrutura de alta qualidade. Reúne profissionais altamente especializados e articula importantes cadeias tecnológicas. Será que é só isso?

GRANDE NEGÓCIO


Se não fosse um grande negócio, a TV aberta não teria formado um hábito mais doméstico e familiar do que macarrão com frango aos domingos. Criou assentos cativos na sala, horários da chegada em casa, ou de saída para a balada. No Brasil, em função do sucesso da TV aberta, o hábito é nacional. Por isso, mesmo em meio a muita coisa inútil, tem campanhas importantes, difusão cultural e mobilizações sociais que acontecem pela TV. É o que está levando agora um setor do governo a lutar por uma causa que deveria ser também de todos os radiodifusores. A EBC - Empresa Brasileira de Comunicação, do Governo Federal, está propondo a criação de um grande sistema de integração nacional a partir da TV digital aberta. André Barbosa, Superintendente da EBC, acha que o momento nunca foi tão oportuno.

Com a antecipação do leilão da banda de 700 MHz, que vai ser liberada para a Internet 4G, as empresas de telefonia assumiram compromissos com o governo. A banda é ocupada por algumas emissoras analógicas, que precisarão antecipar obrigatoriamente a mudança para o sinal digital. Isso significa que o "apagão analógico" vai acontecer mais cedo em algumas regiões do Brasil. O custo dessa pressa das teles vai ser a doação de equipamentos para emissoras e de set-top boxes, os chamados "conversores", para famílias de baixa renda. No caso, cerca de 14 milhões de lares atendidos pelo Bolsa Família. Os set-top boxes precisam ter o programa Ginga, o middleware desenvolvido no Brasil que permite interatividade.

A questão é que existem vários perfis do Ginga. O Fórum da TV Digital optou por desenvolver inicialmente um perfil que não suporta a execução de vídeos pelas aplicações interativas, limitando as possibilidades de aplicações que atualmente devem ser baseadas apenas em conteúdo de texto e imagens estáticas. Por isso, André Barbosa quer que seja padronizado o perfil utilizado no programa "Brasil 4D" (aqui não é 4G!). Segundo ele, trata-se de um perfil avançado do Ginga que possibilita aplicações mais ricas em conteúdo audiovisual e que funciona com uma banda de celular de baixo tráfego de Internet - que tem em qualquer lugar - e o sinal da TV. Aí sim, daria para universalizar o acesso a Internet através da TV digital.

"PREST'ATENÇÃO!"


A segunda tela é um acessório que está sendo incluído muito rapidamente no hábito de assistir à TV. Uma tela é broadband (banda larga de Internet, normalmente via tablet) e a principal é broadcast (via radiodifusão, que é o sinal de TV aberta). Pelo que se ouve, a briga entre as duas telas já começou. Por que não "turbinar" o sinal de TV aberta onde ainda vale a pena?

Nos testes que estão sendo feitos com famílias da Paraíba e do Distrito Federal, o Ginga 4D permite consultas bancárias na Caixa Econômica Federal e no Banco do Brasil, confirmação de consultas médicas na rede pública, consulta de vagas de emprego e outros serviços. Quando esse potencial estiver em 14 milhões de lares, a tendência é que muitos outros tele-serviços públicos sejam criados, inclusive em níveis municipal e estadual. Isso sem contar as redes privadas de vários serviços, como os bancos, consultórios médicos, salões de beleza. Daí sim, o público que já tem banda larga em casa, poderia voltar a olhar a interatividade da TV aberta com outros olhos.

O salto do analógico para o digital na TV aberta foi enorme. Porém, até agora, por falta de interesse dos radiodifusores, um potencial gigantesco continua desprezado, sem uso. Enquanto isso, a Internet banda larga tenta comer pelas beiradas o espaço comercial da TV aberta. Se em outros países do mundo isso é muito fácil, no Brasil, onde a TV digital aberta ainda lidera, pode ser diferente. Funcionando aqui o Ginga 4D, pode ser exportado para toda a América do Sul. É um "carro extra" do bonde da história que está passando em frente aos radiodifusores e produtores de softwares brasileiros. Interessa!?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

OS ECOS DO APAGÃO


Você sabe em que dia e mês começa o próximo carnaval? Ou o dia da semana em que caem os feriados prolongados dos próximos anos? É, mas muito provavelmente, antes dessas datas felizes você vai saber em que dia o sinal analógico de TV vai ser desligado na sua região. Ah, vai saber sim! Uma portaria publicada no dia primeiro deste mês determina que, durante um ano antes do desligamento, cada emissora veicule diariamente anúncios sobre a data e o novo canal de sintonia digital. Você vai ter de assistir durante um ano, em todos os canais, a data na qual o sinal analógico vai ser desligado na sua região.

Começa com 3 anúncios por dia por canal e, a cada 2 meses, mais 3 anúncios diários. Isso significa que quando faltar dois meses para o desligamento, você pode assistir 15 anúncios diários, sobre a mesma coisa que já sabe há 10 meses. Um sério problema para os especialistas em comunicação, que precisam tornar a programação atraente!

A data de desligamento vai variar de uma região para outra. O sinal apaga no dia 3 de abril de 2016 em Brasília, então a campanha informativa começa logo por lá, em menos de 4 meses. Em maio é na cidade de São Paulo e assim vai, numa agenda com 16 datas para desligar a TV analógica em cada setor de radiodifusão do país. O desligamento do último setor vai ser no dia 25 de novembro de 2018. Daí acabou a TV analógica no Brasil.


TESTE DE RESISTÊNCIA


Contagens regressivas costumam ser momentos de grande emoção. Nos filmes são lançamentos de foguetes, de mísseis, bombas que vão detonar. Mas regressiva de um ano!? É como se, em plena ressaca do reveillon, você começasse a contar quanto falta para o fim do ano que veio.

Uma propaganda de TV dificilmente fica no ar por dois meses. O público cansa. Aqueles anunciantes que nunca saem da tela inventam um comercial diferente atrás do outro, justamente para não irritar o telespectador, cansado da mesma mensagem. E ainda, mesmo para campanhas publicitárias intensivas, 15 inserções diárias é algo que praticamente não acontece. É justamente o que está programado para os dois últimos meses antes do "switch off", como é chamado tecnicamente o desligamento do sinal. No jargão das emissoras é só "apagão analógico".

O hábito do público de televisão é de uma relação passiva com o aparelho. Ele senta no sofá e fica ali, esperando ser seduzido, envolvido. Se isso não acontece ele muda de canal. E se mesmo assim não melhorar, ele desliga. Por isso não pode irritar aquele ser passivo tão disputado. Tem que preencher o tempo dele de maneira agradável, com muita habilidade. Diante desse desafio, possivelmente emissoras vão inventar artifícios curiosos para fazer passar pela goela do telespectador a contagem regressiva mais demorada do que o novo milênio.


PORÉM...


Se não são poucas as preocupações dos donos das emissoras com o apagão analógico, pelo menos uma delas ficou 70% menor. Porque essa é a redução de custo proporcionada por um sistema compacto que a EiTV desenvolveu para implantar a sinal digital. Para emissoras menores, o MVE-100 e o Remux Datacaster, da EiTV, podem representar a alternativa que vai viabilizar a mudança. O sistema recebe a chamada "banda base", que sai do controle mestre, e gera um BTS para o modulador, que prepara o sinal para ir ao ar.

A programação gerada na emissora chega ao MVE-100 em SDI. O equipamento faz a codificação e a compressão transformando tudo num TS - Transport Stream, com qualidade e baixo delay. Em seguida o Remux Datacaster faz a multiplexação, remultiplexação , adiciona as tabelas SI/PSI, guia de programação, closed caption e o carrossel enviando aplicações interativas. Os dois equipamentos do sistema fazem tudo que antes era distribuído por 4 equipamentos e custava pelo menos 3 vezes mais. A confiabilidade é a mesma. Essa compactação de sistemas é uma otimização típica da informática, e deve se firmar como regra nas próximas gerações de equipamentos para TV digital. Tanto que grandes emissoras estão adquirindo o novo sistema da EiTV para rodar em paralelo com os sistemas maiores já implantados. A EiTV desenvolveu essas inovações em parcerias com fabricantes americanos e canadenses, que até então operavam apenas com sistemas ATSC e DVB.

O desligamento do sinal analógico é irreversível. As emissoras que ainda não se equiparam não podem esperar mais. Afinal, quando estiver em cima da hora, vai ser absolutamente impossível convencer alguém de que não sabia a data exata.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

AS FRONTEIRAS DA TECNOLOGIA




A manhã daquela segunda-feira estava chuvosa e antes das equipes saírem a campo fomos apresentados a um novo executivo da empresa: era o Gerente de Redes de Informática, que prometia dar um endereço eletrônico para cada um de nós. Na época, era uma novidade. O gerente daquele novo cargo queria impressionar a equipe. Mas só conseguiu quando estava saindo, esticando a conversa no hall de acesso. Ele disse que um e-mail enviado para o colega do lado poderia passar pelo Japão antes de chegar ao destinatário. Diante da estranheza de todos ele se empolgou e resolveu explicar, fechando a porta de vidro para faze-la de lousa.

O desespero do Dimas foi ilustrativo. Era o office boy que ficava na copiadora. Ele passou mal no churrasco da equipe no dia anterior e já tinha entrado pelo menos 3 vezes no banheiro naquele início de manhã. O único banheiro que não estava em reforma e ficava no fundo da grande sala, depois de todas as divisórias de vidro. Ele bem que tentou, mas o novo Gerente já tinha trancado a porta e ignorou a aflição que vinha de dentro daquela farda de estafeta. O Dimas desapareceu subindo a escada da superintendência e depois de alguns segundos reapareceu do outro lado, no fundo da sala. Quase deslizou pela escada metálica em espiral, por onde só descia a secretária do dono. De lá, até o banheiro foram mais alguns passos. Então eu entendi o e-mail: chegando a tempo, no local desejado, o que importa o caminho?

Parecia que a velocidade da luz iria encerrar de vez o problema com trajetos. Mas agora vem os protestos de alguns setores contra a Netflix na Europa. A Associação dos Produtores de Cinema da França protesta porque a Netflix tem a sede europeia em Amsterdã, assim não paga os impostos recolhidos dos canais franceses para subsidiar o cinema. E não é só isso. Estando presente há poucos meses nos 6 maiores países do Velho Continente, a gigante americana de streaming já mudou muita coisa naquele mercado.


PIOR PARA QUEM?

Em área física a Europa é o menor continente do mundo. Mas em termos digitais, talvez seja o maior. A Internet tem alta velocidade em cada canto da Europa. São fronteiras eletrônicas imensas no território cibernético. Para um serviço de streaming, como o Netflix, é o país das maravilhas. Os políticos europeus denunciam veementemente a invasão. Será que os cidadãos também se preocupam? As TVs a cabo da Alemanha já baixaram os preços, a maior rede suíça também. Você se incomodaria vendo tudo isso acontecer, do seu sofá?

Ah, mas tem os produtores europeus de conteúdos. Excetuando os "descendentes dos Lumière", do cinema oficial francês, parece que as coisas tendem a melhorar. A rede suíça apressou a produção de uma série de comédias. A própria Netflix, carente de produções para aquele mercado, está financiando uma série francesa baseada em um drama envolvendo poder e política. Está bancando também uma série inglesa sobre a Rainha Elisabeth e até uma comédia mexicana, sobre uma família que é dona de um time de futebol. No caso, para clientes europeus que falam espanhol. O produtor de animação francês Olivier Comte, que acabou de assinar a venda da série "Wakfu" para a Netflix, comemora a chegada da empresa americana no mercado. Ele explica que as produções de animação são caras e só podem prosperar com perspectivas globais.


MELHOR NÃO APARECER

Com todo o respeito que merecem, mais uma vez, os incomodados com a concorrência tecnológica são os atravessadores. São as grandes redes de distribuição de conteúdo que simplesmente entregam o produto no mercado e ganham dos dois lados, tanto do público como dos produtores. É claro que eles não seriam tão poderosos se não fossem igualmente importantes. Pelo menos, algum dia já foram.

O tráfego de conteúdo audiovisual já sofreu várias mudanças recentes e tende a sofrer outras em breve. Quais, ninguém sabe, o que acaba tornando a situação tragicômica. Trágico para quem esta arrecadando bilhões há anos, estando à frente das tecnologias de TV por assinatura; cômico para quem já pagou muito e agora só ouve falar em promoções e planos "smart". É o caminho natural dos produtos tecnológicos. O sinal terrestre de TV digital, por exemplo, está sub utilizado e a Internet cresce em capacidade e cobertura a cada dia.

Diante dessa realidade, a EiTV smartBox já foi lançada dentro de um conceito multitarefas. Pode receber conteúdos por streaming, sintonizar canais digitais abertos, jogos e até portais de serviços. É uma regra geral a ser observada. Essa regra tem levado a EiTV a projetar produtos para o amplo território da criatividade. Assim as inovações que chegarem vão encontrar alternativas para serem universalizadas. O mesmo conceito pode ser observado também no EiTV Cloud ou no EiTV Datacasting, entre outros produtos da empresa.

Do lado de cá da tela, a luta europeia contra a invasão Netflix é mais um dramalhão para o público acompanhar. A mídia local, que tem um alto poder de mobilização, sempre atraiu uma infinidade de amigos políticos. São eles que levam a público, com tanta encenação, essas "questões relevantes". E acabam passando pelos vários estilos: começam como dramas, atravessam a fase de poder e política e acabam sempre se revelando uma grande comédia.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O PREÇO DA EFICIÊNCIA


Um exemplo bem popular de salto de eficiência foi a injeção eletrônica nos automóveis. Ela substituiu os carburadores que, muitas vezes, mandavam gasolina em excesso para o motor. O consumo era maior, a poluição também. Com a injeção eletrônica o fluxo de gasolina para o motor é regulado instantaneamente. Se o carro está subindo uma ladeira e depois alcança uma reta plana, a injeção reduz a entrada de combustível de forma automática. Ganha o cliente, ganha o meio ambiente, todo mundo sai ganhando.

O dono do posto de gasolina pode não pensar exatamente assim. A média de consumo por cliente tende a cair. Para compensar, ele pode investir no aumento da eficiência do posto, oferecendo novos serviços e inovações. Assim vai atrair mais clientes e continuar crescendo. O dono de outro posto pode achar mais fácil aumentar o preço do combustível, como forma de continuar com o mesmo faturamento, sem fazer novos investimentos.

A chegada da TV digital trouxe muita eficiência para a radiodifusão de som e imagem. Até em detalhes como o consumo de energia. A potência exigida é menor e o conjunto de emissoras brasileiras vai propiciar uma economia de energia considerável quando o sinal analógico for desligado definitivamente. Porém, a maior eficiência está no serviço em si. O sinal da TV digital transmite som e imagem de qualidade muito superior ao analógico, e ainda livre de interferências. Mesmo assim, sobra espaço na banda de 6 MHz, padronizada pelo governo. É claro que, se a empresa tem que se preparar para os 6 MHz, investe todos os recursos para tal e fica com uma faixa da banda sobrando. Enquanto isso, no mercado muita gente precisa transmitir dados, com sons e imagens. Uma tecnologia específica pode dar outra utilidade à faixa de banda que sobra nas TVs. Mais eficiência!
  

DATACASTING SOB MEDIDA


Como a regra é eficiência, a EiTV desenvolveu um sistema Datacasting simples, mas de alto desempenho para tarefas de envio de dados, por satélite ou via terrestre. O Datacasting começa pelo EiTV CMS, que trabalha com um software de gerenciamento de conteúdo totalmente desenvolvido na casa. Ele pode preparar qualquer conteúdo para distribuição em tablets, smartphones ou set-top boxes, para exibição em qualquer tipo de tela. Faz agendamentos, levantamento de acessos, estatísticas e todo o gerenciamento das exibições. Do CMS o conteúdo vai para o EiTV Datacaster Professional, conectado via IP. É lá onde tudo é transformado num TS, que é uma espécie de streaming e pode ser transmitido em radiofrequência, por satélite ou via terrestre. A saída ASI do Datacaster pode ser ligada ao multiplexador da emissora, que transmite os dados com velocidade de 3 a 4 mbps, sem interferir na programação da TV. Ou seja, o transmissor coloca no ar tanto a programação da TV como o conteúdo que o Datacasting está distribuindo. Portanto, de um único sinal, pode ser sintonizada a programação da TV ou, usando outra sintonia, podem ser captados os dados que estão na sobra da banda. Existe ainda a alternativa de direcionar o sistema para set-top boxes, que vão exibir o conteúdo em aparelhos de TV ou outros tipos de telas multimídia.

A solução EiTV Datacasting opera hoje o maior sistema do gênero em base satelital no Brasil. Uma grande rede de varejo utiliza o sistema para gerenciar a exibição de conteúdos em milhares de pontos de venda pelo país. Mais uma experiência de sucesso que coloca a solução EiTV Datacasting no mais alto nível de eficiência.
  

ETERNO "SÓCIO"


Quando se fala em eficiência logo se pensa em governo. Não que os governos sejam exatamente um modelo de eficiência, mas eles gostam de fazer como o dono do posto de gasolina que não quer investir, só quer aumentar o preço, quando a eficiência aumenta na praça.

No caso da sobra de sinal, o governo já está pensando na parte dele. O PL 6915 está tramitando há 8 anos na Câmara Federal e prevê a cobrança por esta eventual venda da sobra de banda. Uma sobra que o radiodifusor, o dono da emissora, não pediu. A concessão é de uma banda de 6 MHz, padrão adotado pelo governo. Se a sobra for desprezada, jogada fora, então fica tudo bem. Mas se o radiodifusor investir no aumento da eficiência, implantando um sistema Datacasting como o desenvolvido pela EiTV, ele vai ter que pagar parte do faturamento como imposto. Pelo menos é o que está previsto no PL 6915, que ainda não foi votado.

A boa notícia é que, mesmo pagando a mais pela própria eficiência, o sistema é lucrativo. Economiza recursos operacionais e tende a ser cada vez mais demandado pelo mercado. Quem está acostumado a andar na frente já sabe que sempre estará investindo parte do esforço para puxar quem insiste em ficar parado lá atrás.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

ELES SÃO ESSENCIAIS À VIDA


Quando o homem veio ao mundo ele demorou pra se dar conta do quanto dependia de algumas coisas da natureza. Como o ar e a água, por exemplo. São tão indispensáveis à vida que a disponibilidade é quase absoluta. É o que torna tão acessível a qualquer um, o valor dessas riquezas imprescindíveis. Sem elas, só se pode pensar no caos, por isso tem que estar por toda parte.

Eis que o Século XXI chega com mais um desses bens onipresentes, indispensável à vida. É a "tela", o metro quadrado mais precioso do mundo! O mais incrível é que se trata do lugar mais barato e acessível que se pode imaginar. Lá encontra-se a paisagem e o retrato, o vídeo e o áudio, o professor e o livro, o hoje e ontem, amanhã e depois, o aqui e acolá, e também eu, tu, ele, ou nós, vós, eles. Tá tudo lá.

A fase mais aguda do nível tela, na escala evolutiva da humanidade, começou a partir de uma brincadeira chamada Youtube. As máquinas de captação audiovisual, que são as câmeras, já existiam em profusão pelo planeta. Daí só precisa gravar e colocar lá, na tela. O caminho era o Youtube. Agora os caminhos são muitos outros. Na verdade, aparecem muitos a cada dia, sob o domínio de pessoas e organizações. A tela está acessível a quem quiser. A tecnologia permite postar qualquer coisa, em áudio e vídeo, para todos ou apenas para quem for escolhido. E isso diz respeito a todo tipo de empreendimento, dos mais lucrativos aos mais puros e idealistas. Quem usa um pouco de imaginação logo vê como as telas mundo afora podem resolver problemas.


ONDE ISSO VAI PARAR


As soluções implementadas a partir de canais privativos de vídeo estão longe de encontrar um limite. Transformam o inimaginável em realidade. Multinacionais ou microempresas criam canais de treinamento, de vendas, compartilham soluções, empreendem campanhas. E podem também criar canais específicos em pontos de venda para atender consumidores ou parceiros comerciais. Criam alternativas tão exclusivas que fica difícil catalogar tudo que já foi resolvido através desses canais privativos.

Inventar ou implementar as soluções mais surpreendentes é o desafio que algumas empresas especializadas em TV digital estão assumindo no Brasil. São empresas que conseguem visualizar, em qualquer situação, onde uma câmera e uma tela podem ser usadas como ferramentas de transformação e/ou conservação. E ainda sabem como manipular as imagens, dota-las de outros recursos, coloca-las para interagir com usuários de várias categorias. Esse já é um outro passo na evolução do uso das telas. Com conteúdos cada vez mais diversificados, cada vez maiores, para usuários de várias categorias, é indispensável contar com ferramentas de gestão desses conteúdos. Assim eles vão se tornar mais preciosos ainda.


É COMO ESTAR NAS NUVENS


A EiTV tem experiência no desenvolvimento e implementação de vários projetos desse tipo. E agora criou o EiTV Cloud, que oferece canais privativos hospedados no ambiente de nuvem. É a maneira mais prática e econômica de começar a utilizar esse recurso, que a cada dia passa a ser mais importante mais essencial na vida das organizações. Daqui a algum tempo, para algumas empresas o canal privativo pode se tornar algo tão indispensável como o telefone.

Com a massificação da Internet 4G no Brasil esses canais vão ganhar importância muito maior. Quem já estiver preparado pode viver um salto de crescimento do dia para a noite. Por isso as empresas de todos os portes já estão antecipando a adequação de seus negócios às possibilidades criadas pelos canais privativos.

A EiTV está investindo numa alternativa muito especial para as organizações que estão implantando canais privativos. É a sintonia desses canais através da EiTV smartBox. Com isso, vai ser possível levar o sinal dos canais privativos do EiTV Cloud para qualquer aparelho de TV, em qualquer lugar do Brasil. Vai ser possível distribuir conteúdo aberto para qualquer cliente, cadastrado ou não, e também poderão ser cadastrados usuários para acessar conteúdos exclusivos. A sua organização já pode estar presente em qualquer lugar, a qualquer hora, para todos ou para cada uma das pessoas que você escolher.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A DISTÂNCIA DO CONTEÚDO


Houve um tempo em que a televisão era uma caixa totalmente fechada. O que aparecia na tela era enviado por um número limitado de emissoras, sobre as quais o telespectador não tinha nenhuma interferência direta. O conteúdo era inviolável. Depois de ligar o aparelho, o máximo que você poderia fazer era escolher um, entre meia dúzia de canais.

Uma realidade que criou situações inusitadas. O tio e a tia chegaram de viagem do Exterior e trouxeram de lá muitos slides. A sala toda desarrumada pra montar o projetor e a gente achava o máximo do automático aquelas trocas das imagens, sem que ninguém precisasse colocar as mãos. Quando era coisa muito importante mesmo, vinha gravado em super-8. O projetor parecia uma tecnologia tão espetacular para o ambiente que, depois do primeiro filme, olhava-se mais para a máquina do que para a tela - normalmente improvisada num lençol da casa.

Veio a TV a cabo, a programação "lacrada" da TV foi ficando mais democrática, até que chegou o vídeo cassete e compartilhou aquela tela quase sagrada com a programação doméstica, o vídeo do casamento, do aniversário do netinho, da viagem dos tios. Um longo salto tecnológico, num curto espaço de tempo, e chegam as smartTVs. Mais do que isso, chegaram as "caixas" e OTTs, que criaram a "TV não linear". É a TV que não segue uma linha de programação, ela exibe o que você escolhe. Hoje, os serviços OTT, como a Netflix, representam a maior ameaça contra as grandes distribuidoras de sinal a cabo. Pode ser o fim!


SIMPLICIDADE É O SEGREDO


A denominação OTT pode parecer narcisista: "Over The Top", sobre o topo, numa tradução livre. Mas, eletronicamente, alguns engenheiros entendem que o significado é bem o contrário. Porque faz referência a um sinal que não exige qualquer aplicação, vai direto da Internet para a exibição ou para o arquivo onde se quer armazenar. Se passa sobre o topo ou por baixo, tanto faz, a questão é que o acesso é direto à fonte do conteúdo, sem exigir aplicação específica.

Essa simplicidade era exatamente o que Apple, Roku, Amazon, Google e algumas outras buscam com as suas "caixas", na verdade, os set-top boxes que estão vendendo no mercado, para rodar streamings de vídeo. Nos países ricos, onde os telespectadores são escravos das grandes operadoras de TV a cabo, as caixas já representam um grito de liberdade. Mas os sistemas OTT, usando simplesmente o streaming da Internet, levaram a simplicidade de conexão e operação ao limite.


SOLUÇÃO BRASILEIRA


O Brasil já teve uma onda de TV a cabo que refluiu. Agora uma nova onda está aparecendo, na cola das novas tecnologias de TV e dos novos hábitos sociais. Mas ainda somos o maior país do mundo onde a TV aberta domina. E é justamente por causa dessas peculiaridades brasileiras que a EiTV desenvolveu um equipamento sob medida: a EiTV smartBox, a caixa inteligente. Uma solução que deve permanecer por um bom tempo, porque atende várias tendências num mesmo equipamento.

A smartBox é capaz de sintonizar todos os canais digitais com perfeição de detalhes e ainda tem um portal OTT exclusivo, incluindo vídeos e aplicativos de jogos e serviços. Tem até uma especificidade profissional, voltada para desenvolvedores Ginga. Ele permite que aplicativos Ginga, para os mais diversos usos, sejam desenvolvidos e testados, utilizando unicamente uma TV comum conectada à smartBox.

A distância entre o gerador de qualquer conteúdo e uma tela de TV não existe mais para a EiTV. As possibilidades digitais já mostraram o que podem e agora estão a desafiar os produtores de conteúdo, os profissionais de mídia, de treinamento, marketing e até os de saúde, de construção. Agora as verdadeiras "antenas", que captam qualquer conteúdo, são os especialistas em TV digital. Tudo pode passar pela TV, desde que você procure o profissional certo para desenvolver as formas de divulgar seu conteúdo.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

OS SENTIDOS FÍSICOS SE COMPLETAM


No começo, todo mundo entendeu. Nas salas de exibição do início do século passado as imagens animadas na tela, reproduzindo ambientes e pessoas reais, fizeram todos perderem a fala. A admiração era tanta que nem precisava ouvir o que os personagens diziam. A trilha sonora musical já era suficiente para chamar aquele milagre tecnológico de audiovisual.

Atualmente essa possibilidade é tão inaceitável que precisa até apelar para o resgate de relatos históricos. Nos dias de hoje, mesmo que o telespectador tenha alguma dificuldade para receber a parte audível da mensagem, uma alternativa tem que ser apresentada. O closed caption está incluindo no espaço televisivo milhões de telespectadores pelo mundo. No Brasil é um direito garantido a todo cidadão, pelo menos durante dois terços da programação diária das emissoras.

Por enquanto, a portaria 310 do Ministério das Comunicações exige que cada emissora garanta pelo menos 16 horas da grade com closed caption, entre as seis da manhã até às duas da madrugada. Esse percentual da programação com closed caption cresce gradativamente até atingir 100%, em 2017. Para as grandes redes, que geram o closed caption há algum tempo, o aumento recente da exigência pouco foi percebido. Mas, para a imensa maioria das emissoras, afiliadas que geram pequena parte do que vai ao ar, acrescentando à programação das redes, a experiência de geração de closed caption está surgindo agora. Durante algumas horas do dia elas são obrigadas a gerar o closed caption na programação local, para completar o total de horas exigidas pela lei. Isso tem obrigado a uma série de mudanças, dependendo da tecnologia que utilizam.

O que existe de mais eficiente no momento é a estenotipia. Através de um teclado simplificado, o operador digita em alta velocidade tudo que escuta da programação que entra no ar. Eletronicamente os caracteres digitados são inseridos na tela, o que inclui as legendas das falas e de outros efeitos sonoros, como músicas, ruídos do ambiente, etc. A questão é que um bom estenotipista precisa praticar durante muitos anos para chegar aos níveis de qualidade máximos. E só pode trabalhar durante algumas horas do dia, devendo revezar com outros operadores do mesmo nível. A rara disponibilidade desses profissionais no mercado torna proibitiva a contratação de uma equipe para atender uma emissora com faturamento regional.

A outra alternativa passa a ser a utilização de softwares para reconhecimento de voz. Os sistemas mais eficientes exigem o cadastramento, em perfis separados, de cada voz que fará transcrições. Uma vez cadastrada, uma voz deve repetir tudo que é falado durante a programação para que o sistema faça a transcrição, a inclusão de outros caracteres e insira nas imagens que vão para o ar. A terceira alternativa são os sistemas que reconhecem qualquer voz e fazem a transcrição diretamente porém, o nível de acerto não atende as especificações de muitos clientes.

As emissoras começaram a viver dias difíceis em função da nova exigência legal. São necessários novos equipamentos, manutenção específica, profissionais com perfil específico e espaço físico para instalar. Sem esquecer que, até junho de 2017, toda a programação deve contar com o closed caption, o que já coloca, desde já, a necessidade de ampliação da estrutura, escala de narradores e outros cuidados técnicos e legais. Foi a partir dessa realidade que uma solução surpreendente foi criada: a prestação integral do serviço remoto.

Quando os engenheiros da EiTV desenvolveram a solução, enfrentaram como principal desafio o delay para recebimento da programação e envio dos caracteres a serem inseridos no closed caption. A dificuldade foi logo superada, a ponto da EiTV ter alcançado o melhor desempenho, em nível nacional, na avaliação para a TV Câmara Federal, em Brasília. A comparação vale entre as concorrentes que utilizavam tecnologia de reconhecimento de voz.

O sistema da EiTV permite que emissoras disponham do serviço, praticamente, de um dia para o outro. Sem precisar adquirir equipamentos, selecionar e treinar profissionais, fazer contratações. A central de closed caption da EiTV faz a conexão com a emissora e entrega o serviço diretamente aos telespectadores. Daqui em diante fica fácil tornar acessível a qualquer cidadão não apenas os filmes de Charles Chaplin, mas também os clássicos de Ingmar Bergman, o Diretor de Cinema que ficou conhecido pelos extensos e detalhados roteiros de seus filmes.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

UMA DECISÃO ACERTADA



A consolidação da TV Digital na América do Sul começa a revelar um acerto histórico do Brasil no setor. Quando grupos técnicos e científicos locais consultados pelo governo sugeriram o sistema japonês (ISDB-tb), com as adaptações brasileiras - incluindo o middlleware Ginga - eles estavam traçando um rumo estratégico para todo o continente. Além de dotar da melhor qualidade técnica esse serviço público tão essencial, o Brasil estava abrindo um espaço integrado para o desenvolvimento de novas tecnologias.

Este foi o cenário evidente durante a feira argentina do setor, a Caper, realizada nos três últimos dias de outubro. A cada edição da feira percebe-se que o SBTVD está se tornando, cada vez mais, um sistema sul-americano. E este é o endosso mais inquestionável da decisão tomada há quase dez anos aqui no Brasil. Durante a Caper, houve uma movimentação de clientes brasileiros tentando conhecer o que os engenheiros argentinos já desenvolveram, com o Ginga, para "interatividade cidadã". É que a TV digital oferece perspectivas de interação entre usuários e canais de Internet, utilizando apenas o controle remoto. Isso permite que governos desenvolvam plataformas para serviços públicos on-line, como marcação de consultas médicas na rede pública, matrículas escolares, informações sobre recolhimentos trabalhistas, dentre outros. Nesse sentido, a TV estatal argentina já caminhou mais do que o Brasil e agora oferece alternativas para iniciativas semelhantes aqui. Sinal de que, mesmo sendo criadores do sistema, os brasileiros podem contar com apoio no continente para o desenvolvimento de inovações.

Aliás, tudo isso está muito integrado a uma realidade sócio econômica. Nos países mais desenvolvidos a "segunda tela", em tablets e smartphones, acabou aumentando as possibilidades de interatividade com a TV. Microcomputadores são muito mais presentes nas casas e a banda larga de Internet está praticamente universalizada. Do lado de baixo do Equador é tudo muito diferente. A possibilidade de transformar um simples aparelho de TV num terminal de acesso a Internet - adaptando apenas um set-top box - é uma preciosa alternativa. Tanto que a estatal EBC - Empresa Brasil de Comunicação, tenta implantar o "Programa 4D", voltado para atendimento de famílias de baixa renda.

Além de ser o organizador do sistema de TV digital, o Brasil tem a particularidade de ser o único país da América do Sul onde o idioma é o português, e não o espanhol. Isso faz com que a Caper, em solo portenho, deixe mais à vontade boa parte dos técnicos de países vizinhos. Um termômetro mais fiel da onda digital na engenharia de televisão sul-americana. O sinal "quadrado" já cobre todos os países da região com a tecnologia adotada pelo Brasil - exceção da Colômbia e do Panamá, que adotaram o sistema europeu (DVB). Porém, na maioria dos países do continente, o sinal digital ainda não está universalizado. Em alguns casos, só as TVs estatais já adotaram. Por isso, o cenário é semelhante ao que vivia o Brasil há 5 anos ou mais. Isso significa que há muito a ser feito no setor. Tanto no que diz respeito ao suprimento de equipamentos para implantação do sinal, como no desenvolvimento de sistemas de interação social baseados em aparelhos de TV.

A televisão, depois da tecnologia digital, passou a ser um nicho específico de desenvolvimento e pesquisa. Com a especial vantagem de que essas possibilidades acontecem nos mais diversos níveis, acolhendo diversos gradientes de desenvolvimento. A importância das soluções encontradas pode ser maior mesmo nos níveis mais modestos de pesquisas. Por isso, eventos como a Caper, como a Feira da SET aqui no Brasil, devem ganhar mais importância a cada nova edição.

Numa visão mais regional, uma certa concorrência entre governos pode ser muito útil a essas pesquisas. Por exemplo, no caso do programa 4D. É visível o desinteresse do núcleo do governo brasileiro pela implementação do programa no nível em que está sendo proposto pela EBC. Mas, o desconforto de ver técnicos brasileiros buscando soluções argentinas, baseadas num sistema desenvolvido aqui, coloca as autoridades locais em cheque. Os custos e a eficiência desses sistemas de interatividade cidadã podem ser um diferencial eleitoral para governos sul americanos. Clientes governamentais passam a ser importantes para projetos de empresas de tecnologia de TV baseados no sistema brasileiro, o SBTVD.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

COMEÇANDO PELO TELHADO


Na escola a gente aprende que o Brasil teve ciclos econômicos. O ciclo do açúcar, o ciclo da mineração, o do café e por aí vai. O mundo mudou muito nesses quinhentos anos, mas os tais ciclos ainda seguram as pontas por aqui. O Brasil depende muito do dinheiro que entra com as exportações de açúcar, com as exportações de café e também de minérios, como o ferro. Possivelmente porque o açúcar, o café e o ferro que são exportados hoje, praticamente são iguais ao que era exportado há séculos. Os produtos pouco mudaram, os hábitos de consumo dessas commodities também. Então dá pra gente continuar produzindo e vendendo.

Não é o que acontece com produtos eletrônicos, por exemplo. Pouco adianta inventar agora uma política para o setor. Já pensou o tempo que seria necessário para formular a tal política!? Seria muita conversa, palanque para alguns políticos e acadêmicos de prestígio e um monte de ideias para redução de impostos. Enquanto isso, o portfólio de produtos eletrônicos já teria mudado duas vezes, pelo menos. No final, as mesmas fabricantes estrangeiras viriam fazer contas para ver o quanto vale a pena colocar uma montadora de gadgets da moda, mandando para cá todos os componentes de alto valor agregado prontos.

Ideias desse tipo inspiraram a criação de um "aeroporto industrial" em Viracopos, que fica em Campinas-SP. Atualmente, já é o maior aeroporto do Brasil em movimentação de cargas, já foi privatizado, nem se fala mais no tal projeto industrial. A ideia era abrir espaço para "plataformas de exportação", plantas industriais que receberiam componentes de alto valor agregado para a montagem de equipamentos eletrônicos. Em geral, são componentes leves e pequenos, o custo do transporte aéreo desaparece. O imposto de importação não seria cobrado, porque tudo vai virar produto acabado no próprio aeroporto e vai sair de lá mesmo com destino a clientes de exportação. Ah, com a plaquinha "made in Brazil", é claro. Desse jeito, a estratégia favorece a exportação brasileira de mão de obra barata. É isso que temos aqui em abundância. Mas, nos balanços oficiais sobre as exportações, vai parecer que as nossas vendas de produtos com alto valor agregado cresceram. Portanto, iniciativas desse tipo são baseadas na busca de novas rubricas para os mesmos números da economia, com a criação de um Brasil à parte. Um Brasil que não tem PIS, ou não tem Cofins, ou Imposto de Importação, ou IPI, ICMS, coisas impensáveis para um Brasil real.

Outra experiência típica da industrialização brasileira que não acontece com eletrônicos é a dos pólos regionais. A cidade de Americana tem um polo têxtil porque há quase cem anos uma grande fabricante de tecidos foi instalada lá. Os operários mais espertos aprenderam as técnicas, conheceram os clientes e montaram muitas pequenas tecelagens e confecções. Assim se tornaram um centro industrial e comercial têxtil, reduzindo custos e atraindo grandes blocos compradores. O mesmo aconteceu em Sorocaba, também em Pedreira com a indústria cerâmica e em muitos outros pequenos polos industriais regionais. Imagine se é possível um trabalhador da Foxcom, de Jundiaí-SP, sacar o fundo de garantia para montar uma fábrica de smartphones ou de tablets! Não é o caso. Antes de sonhar com isso, o governo deveria socorrer os tais pólos industriais regionais, aqueles antigos, os de tecidos, cerâmica ou sapatos, cujo valor que agregam, ainda que pequeno, já está inviabilizando os negócios, principalmente pela carência tecnológica.

A indústria eletrônica não pode depender de políticas de apoio, porque é ela que muda o mundo, portanto, muda as políticas também. Até hoje, a tributação de serviços pela Internet é uma polêmica jurídica em muitos lugares. Por isso, a indústria eletrônica depende só de empreendedores, capitalizados e determinados a levar adiante um investimento muito complexo. É aí onde o Brasil de hoje não se encaixa. Os empreendedores de alto nível planificam qualquer negócio a partir das condições mais básicas. No Brasil, a indústria eletrônica se ressente dos altos custos de transporte, por exemplo, até por falta de segurança. Caminhões precisam de escoltas com homens, armas e carros especiais, senão nem chegam aos destinos. Some-se a isso as más condições de estradas, a burocracia alfandegária, as filas nos portos, a carga tributária, os juros astronômicos, etc. Sim, é a própria história do Brasil que precisa começar a mudar para sonharmos com uma indústria eletrônica competitiva. Por enquanto, sem uma base bem edificada, não adianta pensar no telhado.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O LIMITE DA HONESTIDADE

"Monja Coen"

Década de 70, século passado. Os amigos costumavam emprestar até dois livros durante a vida toda. Era o suficiente para se arrepender. Livro emprestado dificilmente volta e, nas raras exceções, costuma chegar estragado. Música, então!? Na época eram os discos de vinil, riscam à toa, voltavam estalando. As fitas K-7, tão pequenas, eram fáceis de sumir. Isso quando o cabeçote de um "tape" não mastigava meio metro de música. Então, melhor deixar aqui do meu lado, mesmo que não me sirva mais pra nada.

Será que é a era digital que está deixando as pessoas mais solidárias? Agora todos querem compartilhar os streamings musicais, literários e cinematográficos com os amigos. E dizem que egoístas são os detentores dos direitos autorais. Eles já fizeram de tudo para controlar as cópias, mas os bits são mais espertos. Não precisam mais do que um click para atravessar o mundo.

Eis que agora a família começa a ser considerada uma extensão legítima de cada individualidade. Pelo menos é o que os empreendedores digitais dizem. A Spotify, um serviço de streaming de música, aceita incluir até 4 membros da família num mesmo contrato. Desde que cada um dos quatro pague 50% do preço de um plano. Alguns vão argumentar que a família que baixa unida, permanece unida. Os mais realistas vão dizer que o objetivo verdadeiro é usar a precisão digital para tentar medir o limite da honestidade das pessoas. Na prática, sabe-se que muita gente compartilha a mesma senha do serviço de streaming. Com inconvenientes. Enquanto uma pessoa está baixando alguma coisa, não tem como outra acessar a mesma senha, por exemplo. A questão, portanto, passa a ser: -quanto vale a pena pagar para não ter o trabalho de burlar as regras digitais? Algum valor deve ser compensador para o cliente. Para a indústria do setor, com certeza.

A indústria digital tem uma particularidade surpreendente. Ela recriou a tese da "geração espontânea". Era nisso que acreditavam alguns estudiosos há séculos atrás: "deixe roupa suja e restos de alimentos num canto escuro e, com o tempo, vai perceber que ratos vão nascer ali." A indústria digital é assim, as coisas surgem do nada. Milhões de cópias surgem e são entregues em diferentes endereços do mundo em poucos minutos. E não se usa nenhuma matéria prima pra isso. Não precisa nem olhar para o cliente, nem responder alguma pergunta pessoal dele. A conversa fica limitada ao menu de opções que a empresa disponibiliza. Ah, sim, o dinheiro é o mesmo daquele antigo, a empresa recebe e usa onde quiser.

Essas facilidades todas para vender, tornam mais fáceis também a apropriação indevida dos bits. Muito fácil! E é aí onde questões morais entram em jogo. Quem afana um pacotinho de bolachas em um supermercado fica mal diante do conceito de muitas pessoas. Porque tem que dissimular, esconder, falsear. Mas quem baixa indevidamente um filme, que custa dez vezes o pacote de bolachas, fica numa boa. Ninguém viu, não precisou esconder nada. E ainda tem um argumento irrefutável: a distribuidora não perdeu nada, nem um grama de vinil, uma lasca de um CD. Só perdeu a oportunidade de ganhar mais dinheiro. No caso da Spotify é muito fácil perceber que o preço de venda não tem relação com o custo de produção, mas com as características de cada mercado. Nos Estados Unidos, a assinatura do serviço custa US$ 10,00. O equivalente pelo câmbio, no Brasil, seria superior a R$ 20,00. Mas aqui, o mesmo serviço custa R$ 14,90. Por que aqui seria mais barato do que nos Estados Unidos? Será que alguma matéria prima é mais barata por aqui? Possivelmente, isso acontece só porque lá o poder aquisitivo é maior, o cliente aguenta pagar mais, então a empresa pede mais pelo mesmo serviço.

Daí a coisa fica dividida assim: de um lado, as empresas querem saber quanto dá para ganhar em cima dos consumidores rebeldes, pelos bits que eles estão tentando baixar clandestinamente? Do outro, quanto eu aceitaria pagar para não ter o incômodo de inventar ou perguntar para alguém o que fazer para burlar as regras? No meio dessa discussão rola um discurso de culpa, de cidadania, de cultura e até de solidariedade, que não passa de uma chantagem moral por parte dos dois lados.

Esta discussão não está começando agora. Na verdade, existe desde que o mundo é mundo. Ser honesto não passa por um aplicativo que pode ser manipulado, mas é um único algoritmo, que faz parte do sistema operacional de todas as pessoas, tanto consumidores como empresários. A questão é aceitar manter o programa no modo auto start.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

TRANQUILIDADE ATÉ QUANDO!?


Noite escura, a chuva começou e o casarão da fazenda longe, nem dava pra ser avistado. O jeito foi parar na casa do Donizete, na pequena vila de colonos que ainda resistia. Já tinha eletricidade e funcionava bem, até que meia dúzia de clarões cortassem por cima do riacho, trazendo no rastro o estrondo das trovoadas. Naquela hora a luz era de querosene, nos pavios de dois lampiões. O pai do Doni disse que deveríamos esperar, porque a enxurrada que cortava a estrada, numa voçoroca, era perigosa para as crianças. E se fosse pelo lado de baixo, perto do riacho, o risco era pisar em cobras. Acabou sendo esse o tema da sessão lampião: as cobras! Hoje eu entendo que o sucesso que o pai do Doni fazia com as estórias estava no fato de sempre terem um final feliz. O que mais me marcou foi sobre uma noite que ele passou perdido numa clareira, ainda criança, e adormeceu sobre um pedaço de couro macio que estava jogado lá. Pela manhã, ele viu que se tratava de uma enorme sucuri. O final feliz? A sucuri tinha engolido um bezerro no dia anterior e, quando alimentadas, essas cobras gigantes e poderosas são incapazes de fazer mal a um inseto.

É mais ou menos assim que alguns analistas podem se sentir em relação ao leilão de outorgas da faixa de 700MHz para o sinal de Internet 4G. As chamadas teles, gigantes e poderosas, pareciam muito inapetentes durante o certame. Uma delas, a Oi, nem quis participar. E, dentre as outorgas nacionais oferecidas no pregão – quatro no total - uma delas sequer foi arrematada. É difícil, ainda, entender por que nenhuma tele sem operações no Brasil, sequer tenha se interessado por um mercado tão promissor, nem quiseram participar. O leilão, que teria sido antecipado a pedido das operadoras locais, acabou tendo pouco interesse até da parte delas. No mínimo estranho.

O governo insiste em dizer que fez um bom negócio. De fato, os R$ 5,8 bilhões que ele arrecadou, em princípio, devem custar apenas a tinta da caneta que assinou as outorgas. O governo está simplesmente licenciando um serviço que a natureza faz sozinha. Só precisa organizar e fiscalizar as faixas de uso para evitar interferências. A questão é que a arrecadação prevista era de R$ 8 bilhões. O ágio pago acima do preço mínimo foi de 1%, o mais alto. Teve outorga que saiu com zero de ágio, outra com 0,02%. Sem contar que, a cada outorga arrematada, além do valor do lance o comprador teria que pagar um valor estipulado para o fundo de compensações. É o dinheiro que será destinado para famílias e até para emissoras que terão de adquirir equipamentos que serão utilizados para livrar o sinal digital de TV de interferências. Afinal, quando entrar o 4G na faixa leiloada, só vai ter transmissão digital de televisão, a analógica vai acabar no Brasil. Quem não tem condições de pagar os equipamentos de filtragem de interferências, precisará do dinheiro do fundo para não ficar sem o sinal de TV digital. Como duas outorgas não tiveram interessados, a parte que seria depositada para o fundo de compensações vai ter que ser coberta pelo governo.

As faixas de radiofrequência estão se transformando num negócio cada vez mais lucrativo para o governo. Em maio deste ano foram arrecadados R$ 153 milhões com o leilão de quatro posições orbitais, para satélites. Ainda em 2014 o governo planeja leiloar pelo menos mais 4 posições, além das duas sobras do leilão para 4G. Outros dois leilões de outorgas para uso de radiofrequência devem ser realizados no ano que vem.

O que há de concreto nisso tudo, ainda é pouco para fazer previsões. Primeiro, sabe-se que o governo teve problemas nas contas deste ano, justamente quando acontecem eleições. Segundo, o modelo de telecomunicações do país está envelhecendo, ainda é fortemente caracterizado pelos tempos em que as tecnologias a cabo e de telefonia fixa eram as mais utilizadas. O terceiro ponto é que o poder financeiro gigantesco das operadoras de telefonia torna aquisições ou fusões em nível planetário prováveis a qualquer instante, podendo alterar bruscamente o quadro de concorrência. E finalmente, o mais preocupante: o padrão de qualidade dos serviços prestados pelas teles no Brasil é muito baixo. Está baseado em consumidores pouco exigentes e leis pouco eficientes para defende-los. Os concorrentes, do lado de fora, talvez não se interessem em participar de um mercado onde lucra-se muito por vender e não entregar. E o pior é que agora, esses serviços estão meio "juntos e misturados" com parte dos serviços de TV aberta que, historicamente, são ótimos.

Por enquanto, o "pai do Donizete" não sabe nem o nome da poderosa cobra sobre a qual está dormindo. Pode ser o governo ou o grupo das teles. Seja o que for, depois de digerir o bezerro, o comportamento da sucuri é absolutamente imprevisível. Para chegar a um lugar seguro precisa, logo que despertar, definir um bom caminho e começar a correr o quanto antes.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A SEGUNDA VISÃO DA POLAROID


Se você acredita que o homem já teve um terceiro olho, localizado bem no centro das duas sobrancelhas, certamente vai ser considerada uma pessoa esotérica. Mas a tese tem alguns fatos concretos associados. A glândula pineal, ou epífise neural, para quem não ouviu falar tem o tamanho e a forma semelhantes a um caroço de laranja. Fica bem no centro do cérebro e lá, naquela escuridão, é constituída por membrana cristalina e receptores de cor! A pineal está envolvida em tecido conjuntivo, muito semelhante ao do globo ocular e possui uma inervação parassimpática proveniente inclusive de gânglios óticos. Palavras da Wikipedia. Pelo que está lá, dá pra começar a considerar mais a hipótese da terceira visão, até então puramente esotérica.

Os hindus dizem que a glândula está associada à capacidade intuitiva e à percepção sutil. No Século XVII, René Descartes, o criador do método científico utilizado até hoje, acreditava "ser a glândula o ponto da união substancial entre corpo e alma - um órgão com funções transcendentes". Quase quatro séculos depois, o que a ciência de hoje sabe é que a pineal está relacionada à regulação dos chamados ciclos circadianos, os ciclos vitais (principalmente o sono) e o controle das atividades sexuais e de reprodução. Mas a mesma ciência atual também se rende à algumas revelações aparentemente místicas. Num artigo publicado no ano passado na revista científica Neuroendocrinology Letters, o conhecimento médico recente sobre a glândula foi comparado com doze obras psicografadas pelo médium Chico Xavier atribuídas ao espírito André Luiz. Os cientistas identificaram diversas informações corretas altamente complexas sobre a fisiologia da glândula pineal, que só puderam ser confirmadas cientificamente cerca de 60 anos após a publicação das obras.

Parece pouco provável que engenheiros leiam revistas científicas da medicina, mas alguns deles já se entregaram ao desafio de produzir uma terceira visão. Nas melhores boutiques da moda "gadgets" a terceira visão fica na seção "câmeras de ação". A GoPro, no momento, é a grande vedete nas vitrines. Mas outra novidade acaba de chegar com um apelo vintage, sob a marca Polaroid, ícone da fotografia instantânea analógica. A Polaroid registrou flagrantes surpreendentes na década de 60, marcando com um contraste inconfundível a rebeldia daqueles tempos. Agora os momentos que a Polaroid quer flagrar, pelas câmeras de ação, estão nos ângulos improváveis, nos locais proibidos, nas situações inesperadas. Tanto que a empresa acaba de lançar um modelito mais popular que a GoPro, nada que US$ 99,00 não possam pagar. A "Cube", como é chamada a câmera, é pra jogar nas mãos de crianças, de adolescentes e de indiscretos de todas as classes sociais.

O produto traz mais do que uma nova categoria no mercado de imagem digital. A Cube é fruto também de um novo modelo de negócio para uma empresa que foi um ícone dos anos 70 e uma requerente de falência em 2001. Hoje a Polaroid administra parcerias com startUps para desenvolver layouts e softwares para seus produtos. Não tem mais como assumir departamentos próprios de pesquisa e desenvolvimento. O importante é que a "hippie" quase sexagenária está demonstrando plena competência para se manter em alta. Chegou à uma nova visão do mercado e da realidade do que é competir no mundo da tecnologia.

A Cube tem arestas de 35 milímetros, é toda emborrachada, suporta quedas e é à prova d'água. Com um clique no botão fotografa, com dois, filma. Não tem sequer um view finder, o visor por onde se enquadra a foto. Vai na base da mira do cowboy. Por uma pequena abertura troca-se o cartão de memória e pode escolher entre definição de 720p ou 1080p. Tem também um imã na base que facilita a fixação da câmera em qualquer superfície metálica, evitando o uso de acessórios. Sim, evitando mas não excluindo os acessórios, que já existem aos montes, para pregar a terceira visão no capacete, em membros do corpo e até entre as próprias sobrancelhas, onde já pode ter ficado o olho que regrediu para a glândula pineal.

A grande diferença prática entre a cube e a tese dos esotéricos é que, para parte deles, a terceira visão teria o poder de enxergar o futuro. Já a Cube é justamente para registrar para sempre o passado, aquelas coisas incríveis que acontecem em situações que dificilmente alguém tem uma câmera para acionar. Daqui em diante, pode ter certeza de que, se aparecer alguém com um terceiro olho no meio da testa, alguma Cube vai estar por perto para registrar.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A CRIATIVIDADE QUE DÁ NOVA VIDA À TECNOLOGIA


Vai chegar o dia em que vamos avacalhar os navegadores que atracaram na Bahia, nos idos de 1.500:"-Os caras eram tão 'manés' que os índios conseguiram trocar espelhos por meras pepitas de ouro." Já tem discurso pra isso. O espelho, componente de razoável valor agregado, tecnologia de ponta à época, poderia ser usado na montagem de telescópios, microscópios e até para dar brilho nas orelhas das peruas, como seria com o ouro. E, com brincos de ouro ou de vidro, a aprovação só viria depois de passar por um bom espelho.

Entra era, sai era e pouca coisa muda na essência do que é o mundo. Até o início do século passado era gente se matando para conseguir mais ouro ou mais pedrinhas brilhantes, de valor absolutamente subjetivo. Nesses tempos, de muito mal gosto, uma boa guerra se faz por petróleo, nada decorativo. Justo agora que estão descobrindo um valor de utilidade para aqueles penduricalhos mais tradicionais. Por exemplo, o diamante nas telecomunicações, o ouro e outros metais preciosos na micro eletrônica. O Apple Watch, apresentado no começo do mês, depois de tanta expectativa, tem tela de safira, que dá mais resistência e conforto visual. Ah, também tem modelos revestidos de ouro, mas nesse caso é em atenção ao objetivo maior do lançamento, ou seja, adular a peruagem.

O Apple Watch é exatamente o que todos já sabiam: um smartphone no lugar do relógio, o inverso da novidade de 10 anos atrás, que trazia um relógio no celular. Todas as inovações fazem parte do que se entende pelo pacote "smartphone": iTunes, iCloud, Facebook, Twitter, Mapas e o que mais? Dizer que tem um relógio com medidor de pressão arterial e monitor de frequência cardíaca é demais. Nada que já não existisse antes mas que agora foi repaginado pela Apple.

É justamente aí onde a tecnologia patina. O que pode ser tão útil que supere a vontade que o ser humano tem de ostentar, de aparecer? Quando uma menina me perguntou como é possível um telefone que está numa placa de vidro transparente, que não se pode ver, eu tentei explicar dizendo que os componentes eram muito pequenos, menores do que fios de cabelo. "-Por que não se faz então celulares nos cabelos, já que ficam perto das orelhas e da boca?" Ainda bem que era só uma piada, ela riu em seguida e não esperou resposta. Hoje ela já está quase mocinha, e se me perguntar de novo, eu vou dizer que um celular formado por fios de cabelos precisaria também brilhar quando tocasse, para que as pessoas ao redor pudessem perceber a presença dele.

Eis o grande negócio que move a Nasdaq! Não serão os instrumentos cirúrgicos mais sofisticados, capazes de curas surpreendentes, que vão disparar os gaps nas cotações. A tecnologia que se quer é o ópio do povo. Precisa ser encantadora, lúdica e de consumo compulsivo. Tem que ser o grande barato de um período em que vão ferver nas prateleiras, nas vitrines. Elas são um fim em si mesmas. Assim como os celulares chegam a ser adereços de mão, a exemplo das pequenas bolsinhas que as jovens carregavam com a maquiagem no começo do século passado. Possivelmente, é por isso que até hoje não inventaram um bolso específico para celular, porque o objetivo é mostrar a geração em que você está.

As necessidades humanas estão cada vez mais subjetivas. Os agricultores, que produzem os alimentos, recebem pequenas frações do que é pago por aquilo que é transformado lá na outra ponta. Por exemplo, o cafezinho servido num balcão de acrílico, sob o ar condicionado, custa mais de cem vezes do que foi pago pelos poucos grãos usados para produzir aquela xícara de sabor. O valor está no sexto sentido, e não em nenhum dos outros cinco com os quais você nasceu. A utilidade objetiva é coisa para quem trabalha, para quem está lá no nível do agricultor, suportando todo o peso que a natureza impõe à vida. Essas pessoas sabem o que é útil, dependem do valor objetivo de tudo que carregam. São pessoas que bebem água, não vinhos franceses, que comem frango, não salpicão. Para elas, saber as horas é muito mais importante do que ler os emails. E essa vida sem graça não aumenta as cotações das ações em nenhuma bolsa do mundo. Verdade seja dita, a despeito das honrarias que merecem todos esses trabalhadores, que carregam o mundo nas costas, se não fosse o delírio dos antigos navegadores, ou dos babacas cibernéticos atuais, até hoje estaríamos vendo nossas caras apenas no reflexo dos rios, pouco antes das 10 da manhã, quando se pesca com arco e flecha para garantir o almoço.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

POR QUE PAROU, PAROU POR QUE!?


A pressa era tanta que as empresas que operam a telefonia móvel no Brasil - as "teles" - estavam dispostas a gastar alguns bilhões de dólares para antecipar. Mas agora enxergam problemas em quase tudo. Trata-se da massificação do serviço 4G no Brasil, a quarta geração de Internet móvel. Se você já sabe como vai funcionar, ou se acabou de almoçar, pule os próximos três parágrafos e continue lendo a partir do quarto parágrafo. Agora, se tiver estômago para entender a confusão, siga para a próxima linha.

Para viabilizar o serviço em larga escala em todo o Brasil as operadoras precisam utilizar a faixa de frequência de 700 MHz, que atualmente é usada por parte das emissoras de TV. A liberação dessa faixa de frequência exige novos equipamentos para as emissoras operarem em outras faixas - a serem cedidas pelo governo - no padrão digital. Aí está parte dos bilhões que as teles vão gastar, como compensação para essas emissoras. As outras compensações ficariam por conta dos set-top boxes, os conversores digitais, que devem ser dados para os quase 14 milhões de lares atendidos pelo bolsa família. As famílias carentes precisam do conversor para não ficarem sem TV, já que o sinal analógico vai ser desligado de uma vez antes do prazo previsto. Finalmente, são necessários filtros de sinal em muitos lares, onde eventualmente o tráfego 4G atrapalhe a sintonia de canais de TV. Isso é tudo que precisa acontecer para que as teles possam, o quanto antes, massificar o 4G no Brasil. A questão é como isso vai acontecer.

O edital publicado pela Anatel - encarregada de descascar o abacaxi - determinou um leilão onde vão ser oferecidos três lotes para operar 4G em todo o Brasil (nacional), mais outros 3 lotes para operar, cada um deles, em 3 regiões diferentes do país (regional). As empresas que ganharem devem, em seguida, constituir a EAD - Entidade Administradora do Processo de Redistribuição e Digitalização dos Canais de TV e RTV. Guarde bem o nome dessa nova empresa, porque ela deve dar muito o que falar nos próximos anos! Tem ainda um grupo que vai ser criado pela Anatel só para acompanhar toda a transição. Vai ser o GIRED - Grupo de Implantação do Processo de Redistribuição de Canais. O grupo vai ser formado por representantes da Anatel, do Ministério das Comunicações, das empresas vencedoras do leilão e de entidades representantes dos radiodifusores.

O edital exige que as empresas vencedoras constituam um fundo de cerca de R$ 3,6 bilhões para a EAD. É esse dinheiro que vai pagar as compensações para as emissoras de TV, os conversores que vão para as famílias carentes, os filtros de frequência, estudos de qualidade do sinal e até campanhas publicitárias para explicar à população o que está acontecendo. O processo todo - concorrências públicas para compra de equipamentos, conversores, filtros, contratação de especialistas, espaço publicitário, etc - vai ser administrado pela EAD. Sempre sob a supervisão do GIRED, que terá a responsabilidade de não deixar o abacaxi azedar.

Claro que é tudo muito complicado! Mas é o jeito que o governo encontrou para fazer tantas coisas acontecerem de uma só vez. E ainda, faturar cerca de R$ 8 bilhões com a venda das outorgas. Cada um dos três lotes nacionais e cada um dos três lotes regionais representa uma outorga. O preço mínimo somado das 6 outorgas chega a mais de R$ 7,9 bilhões. Como cada outorga vai a leilão na base do "quem dá mais", a concorrência entre os participantes deve levar a soma dos valores a R$ 8 bilhões, segundo previsões do mercado. Isso é dinheiro para o Governo Federal, pela concessão do serviço. Não tem nada a ver com os outros R$ 3,6 bilhões que vão constituir o fundo da EAD, para pagar as compensações.

A grande disputa vai ser em cima dos 3 lotes nacionais. E, à época do planejamento do edital, o grupo das teles estava formado pelas quatro grandes operadoras, Oi, Claro, Vivo e Tim. De algumas semanas para cá começaram as especulações em torno da venda da Tim, que seria dividida entre as outras 3 grandes. E parece muito óbvio que é melhor pagar por áreas de exploração de serviço de telefonia e Internet móveis - dividindo a Tim - do que ver o valor de cada outorga crescer lance a lance, numa disputa mais concorrida no leilão. Esse parecia ser um dos motivos que estaria levando as teles a tentar adiar o leilão, com tantas contestações do edital. Elas estariam ganhando tempo para primeiro dividir a Tim entre elas, e depois entrarem no leilão sem disputas, com uma outorga nacional para cada empresa. Definitivamente, a tal concorrência de mercado é algo que, no Brasil, sempre tentam sufocar.

Mas na semana anterior ao leilão a concorrência ficou desenhada: a Tim apareceu como uma das concorrentes, num confronto onde também sentam à mesa Telefonica/Vivo, Claro e Algar Telecom. A surpresa ficou por conta da Oi, que preferiu ficar fora do leilão. Vale lembrar que o Brasil é um dos maiores mercados do mundo em telecomunicação móvel, com potencial para elevar valores em qualquer disputa desse tipo.

O outro lado curioso desse grande negócio público é a disposição do governo em levar adiante um empreendimento. Nesse momento, os R$ 8 bilhões são fundamentais para fechar a conta do déficit primário. Então a gente percebe que, no Brasil, quando um governo quer - seja ele de qualquer corrente partidária - ele faz acontecer.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

"MÃO PRA CABEÇA!" SEU COMPUTADOR ESTÁ SENDO INICIALIZADO



O Brasil tem hoje mais de 150 milhões de computadores, segundo a última pesquisa da Escola de Administração FGV. Em média, a cada segundo um computador é vendido no país. No entanto, se você quiser comprar capas para cobrir a torre, o monitor e o teclado, vai ter dificuldade em encontrar quem venda. Há 20 anos, as capas eram acessórios obrigatórios nas empresas. Uma recomendação técnica dos especialistas que chegou a balançar o emprego de alguns funcionários mais distraídos.

Na cibernética, até as lendas são rápidas. Quase todo mundo cai numa, quase todo mundo nega. Mas não tenha dúvida de que isso vai continuar acontecendo. O computador é a janela do foguete onde estamos sentados, de onde olhamos o que vem chegando. E é por esta janela que entram em nossas vidas as coisas mais surpreendentes e ameaçadoras.

As primeiras gerações a receberem os computadores no escritório, em casa, tinham uma reação curiosa. Uma geração que vinha de uma relação muito diferente com qualquer tipo de máquina. Sabia-se que operar erradamente uma máquina levava a algum tipo de prejuízo, como uma avaria, ou até poderia provocar um machucado. De repente, aquela nova máquina era a primeira que saía dos filmes de ficção científica e caía na nossa escrivaninha. Tinha que assustar! Mas o computador veio para ser algo que até pode ser operado erradamente. O que ele não admite é ser operado ingenuamente.

Começaram a aparecer os vírus. No começo, circulavam pelos disquetes (quem não ouviu falar em disquetes, favor procurar no Google). Depois, com a Internet, criaram asas. E dentes, boca de dragão, tudo que possa representar ameaças assustadoras. A mais recente dessas ameaças - ou uma das mais momentosas - é da família ransomware. Trata-se de um malware que, ao infectar seu computador, tem o poder de criptografar todos os arquivos que encontrar. Pronto, eles estão sequestrados, correndo o risco de serem liquidados. No capítulo seguinte um hacker faz contato com você pedindo um resgate em dinheiro - alguns exigem pagamento em bitcoins - para liberar a chave que lhe permita ter seus arquivos de volta. Se você achou engraçado, abra os seus diretórios de arquivos e comece a pensar como ficaria a sua vida se tudo aquilo desaparecesse agora. Se continuar rindo não conte para os seus amigos, eles vão achar que você não faz nada sério na vida.

Para aqueles que se assustaram, poderia ser recomendado acender uma vela, pendurar uma fita do Senhor do Bonfim no monitor ou até comprar uma capa de computador a prova de ransomwares. No desespero, muitos seguiriam as recomendações. Mas como se trata de um assunto muito sério, é melhor você perguntar para o gestor da rede da sua empresa o que pode ser feito. Se ele disser que trata-se apenas de um vírus que fecha a sua tela e pode ser eliminado com um simples software de segurança, peça para ele fazer o teste imediatamente. Porque esses foram os primeiros ransomwares, que circularam há alguns anos e eram apenas um blefe. Os atuais são perigosíssimos.

A mídia especializada já fala de uma versão desse tipo de malware chamada CryptoWall. De acordo com uma pesquisa da Dell SecureWorks, ele já teria infectado cerca de 625 mil sistemas e criptografado mais de 5,25 bilhões de arquivos desde meados de março deste ano. Uma vítima desesperada dos EUA teria pago aos hackers US$ 10 mil. A média dos resgates é de US$ 500 a US$ 1.000. Quadrilhas já faturaram muitos milhões de dólares nesse novo tipo de delito. E muito dinheiro ainda vai rolar, entre bandidos e mocinhos, aqueles que vendem proteção a todos nós, que já aprendemos a fazer de tudo com microcomputadores, mas ainda não acostumamos a gravar backups sistematicamente.

Não importa quantas vezes vamos ser objeto das gozações alheias. O computador continuará trazendo ameaças, as mais diversas e curiosas. Imagine, por exemplo, uma tela hipnótica que tenha o poder de sequestrar a sua libido. Ou ainda, uma melodia que tenha a capacidade de aumentar a vontade da sua sogra falar. Se acontecer, não conte a ninguém, mas leve em consideração cada possibilidade dessas. Prevenir é indispensável. Afinal, mesmo que você visse alguém de capa preta por aí, com um plug instalado na nuca, não deveria se iludir. Do jeito que andam as coisas dentro dos computadores, mesmo que esse alguém de capa preta seja o Neo, de Matrix, ele vai se recusar a correr os riscos que hoje trafegam por aqueles nanicos circuitos.