sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A CRIATIVIDADE QUE DÁ NOVA VIDA À TECNOLOGIA


Vai chegar o dia em que vamos avacalhar os navegadores que atracaram na Bahia, nos idos de 1.500:"-Os caras eram tão 'manés' que os índios conseguiram trocar espelhos por meras pepitas de ouro." Já tem discurso pra isso. O espelho, componente de razoável valor agregado, tecnologia de ponta à época, poderia ser usado na montagem de telescópios, microscópios e até para dar brilho nas orelhas das peruas, como seria com o ouro. E, com brincos de ouro ou de vidro, a aprovação só viria depois de passar por um bom espelho.

Entra era, sai era e pouca coisa muda na essência do que é o mundo. Até o início do século passado era gente se matando para conseguir mais ouro ou mais pedrinhas brilhantes, de valor absolutamente subjetivo. Nesses tempos, de muito mal gosto, uma boa guerra se faz por petróleo, nada decorativo. Justo agora que estão descobrindo um valor de utilidade para aqueles penduricalhos mais tradicionais. Por exemplo, o diamante nas telecomunicações, o ouro e outros metais preciosos na micro eletrônica. O Apple Watch, apresentado no começo do mês, depois de tanta expectativa, tem tela de safira, que dá mais resistência e conforto visual. Ah, também tem modelos revestidos de ouro, mas nesse caso é em atenção ao objetivo maior do lançamento, ou seja, adular a peruagem.

O Apple Watch é exatamente o que todos já sabiam: um smartphone no lugar do relógio, o inverso da novidade de 10 anos atrás, que trazia um relógio no celular. Todas as inovações fazem parte do que se entende pelo pacote "smartphone": iTunes, iCloud, Facebook, Twitter, Mapas e o que mais? Dizer que tem um relógio com medidor de pressão arterial e monitor de frequência cardíaca é demais. Nada que já não existisse antes mas que agora foi repaginado pela Apple.

É justamente aí onde a tecnologia patina. O que pode ser tão útil que supere a vontade que o ser humano tem de ostentar, de aparecer? Quando uma menina me perguntou como é possível um telefone que está numa placa de vidro transparente, que não se pode ver, eu tentei explicar dizendo que os componentes eram muito pequenos, menores do que fios de cabelo. "-Por que não se faz então celulares nos cabelos, já que ficam perto das orelhas e da boca?" Ainda bem que era só uma piada, ela riu em seguida e não esperou resposta. Hoje ela já está quase mocinha, e se me perguntar de novo, eu vou dizer que um celular formado por fios de cabelos precisaria também brilhar quando tocasse, para que as pessoas ao redor pudessem perceber a presença dele.

Eis o grande negócio que move a Nasdaq! Não serão os instrumentos cirúrgicos mais sofisticados, capazes de curas surpreendentes, que vão disparar os gaps nas cotações. A tecnologia que se quer é o ópio do povo. Precisa ser encantadora, lúdica e de consumo compulsivo. Tem que ser o grande barato de um período em que vão ferver nas prateleiras, nas vitrines. Elas são um fim em si mesmas. Assim como os celulares chegam a ser adereços de mão, a exemplo das pequenas bolsinhas que as jovens carregavam com a maquiagem no começo do século passado. Possivelmente, é por isso que até hoje não inventaram um bolso específico para celular, porque o objetivo é mostrar a geração em que você está.

As necessidades humanas estão cada vez mais subjetivas. Os agricultores, que produzem os alimentos, recebem pequenas frações do que é pago por aquilo que é transformado lá na outra ponta. Por exemplo, o cafezinho servido num balcão de acrílico, sob o ar condicionado, custa mais de cem vezes do que foi pago pelos poucos grãos usados para produzir aquela xícara de sabor. O valor está no sexto sentido, e não em nenhum dos outros cinco com os quais você nasceu. A utilidade objetiva é coisa para quem trabalha, para quem está lá no nível do agricultor, suportando todo o peso que a natureza impõe à vida. Essas pessoas sabem o que é útil, dependem do valor objetivo de tudo que carregam. São pessoas que bebem água, não vinhos franceses, que comem frango, não salpicão. Para elas, saber as horas é muito mais importante do que ler os emails. E essa vida sem graça não aumenta as cotações das ações em nenhuma bolsa do mundo. Verdade seja dita, a despeito das honrarias que merecem todos esses trabalhadores, que carregam o mundo nas costas, se não fosse o delírio dos antigos navegadores, ou dos babacas cibernéticos atuais, até hoje estaríamos vendo nossas caras apenas no reflexo dos rios, pouco antes das 10 da manhã, quando se pesca com arco e flecha para garantir o almoço.

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