sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O GRITO DA PRIMEIRA DAMA




Não tem nada a ver com alguma trama policial. O “grito” de Michelle Bolsonaro, esposa do Presidente Jair Messias Bolsonaro, ecoou um chamamento corajoso entre milhões de brasileiros surdos e vibrou nos corações de toda a nação. No primeiro dia deste 2019, durante a posse presidencial, a bela e discreta imagem feminina da Primeira Dama quebrou o protocolo da cerimônia e discursou em libras – língua brasileira de sinais – antes do próprio presidente falar. Colocou em destaque, no mais alto lugar do Planalto, os portadores de deficiências.

Estatisticamente esse contingente gira em torno de 10% da população. A maioria desse percentual não tem deficiências totalmente incapacitantes. Eles representam um imenso potencial intelectual e de mão de obra. Mais um recurso precioso que o Brasil desperdiça. Dessa vez, foram eles os primeiros a receberem os agradecimentos pela jornada eleitoral vitoriosa. Foram os primeiros a receberem uma promessa oficial de que “serão valorizados e terão seus direitos respeitados.”

Na posse do presidente, que há muitos anos é acusado de misoginia, foi exatamente sua mulher que tomou a frente do evento, para dizer por quem vai lutar. Um contraponto simbólico de afirmação política para o presidente! Mas também um compromisso difícil de ser escamoteado, uma vez que repercutiu muito além das fronteiras e com intensidade.

Historicamente o Brasil tem demonstrado uma vocação para o assistencialismo, a despeito dos vários significados desse termo em diferentes juízos de valores. Algumas alcunhas acompanham essa tradição, apontam um destino selado metafisicamente para o país. Porém, no mundo concreto, o Brasil tem justificado em parte essa expectativa com uma expressiva contribuição tecnológica.

Dentre outros exemplos, são vários os aplicativos desenvolvidos aqui para ajudar no cotidiano de pessoas portadoras de diferentes tipos de deficiências. De acordo com o site UOL, do grupo Folha, em seguida ao discurso da Primeira Dama estouraram as buscas por um aplicativo desenvolvido em uma empresa alagoana, de Maceió. O app da empresa Hand Talk traz um avatar, o Hugo, que traduz frases escritas ou faladas em português para a língua de sinais.


O “GOOGLE DA CAATINGA” E MAIS


Quando Michelle Bolsonaro falou em “direitos respeitados” ela foi técnica. A legislação brasileira já consagrou muitos direitos para pessoas com deficiência que não são respeitados. Como exemplo, os sites de órgãos do governo e de estatais que, por força de uma lei federal de 2015, são obrigados a tornarem acessíveis seus conteúdos a pessoas com deficiência. Não é o que se vê em todas as páginas eletrônicas abrangidas pela lei.

O que se observa nesses casos é uma dinâmica peculiar. Uma lei entra em vigor e algumas grandes organizações adotam as exigências. Depois de um período o setor envolvido vai avaliar se a lei “pegou”, se está sendo fiscalizada pelo governo e pelo mercado. Só então o ordenamento vai se consolidar. Ou não.

A EiTV é atuante nesse viés tecnológico de inclusão. Recebeu prêmio Finep pelo aprimoramento nas legendas de closed caption. E agora, junto a outra empresa, prepara o desenvolvimento de uma ferramenta para inclusão de um avatar libras, como opção da TV digital para surdos. Mas o vaivém da fiscalização – ora rigorosa, ora excessivamente tolerante – atrapalha os investimentos nessas tecnologias.

O site UOL destaca o prêmio que a Hand Talk recebeu em 2013 da ONU, pelo Melhor Aplicativo Social do mundo! Uma conquista surpreendente, uma vez que a libras, como diz o próprio nome, é brasileira. Não é eficiente utiliza-la para se comunicar com um surdo formado em outra cultura.

Como no Brasil a fiscalização não garante o mercado que o aplicativo mereceria – e merecem, principalmente, os surdos brasileiros – essa notoriedade tem servido para atrair parceiros internacionais de peso. O Google, que oferece aplicativo para tradução de dezenas de idiomas entre si, é um deles. Fez um convite para um programa de “aceleração” da empresa.

Por iniciativa própria a Hand Talk agora desenvolve um aplicativo do para a ASL, a língua americana de sinais. Como não há equivalência com a libras, o trabalho deve ser longo. A inteligência artificial, que já está turbinando o aplicativo para libras, vai fazer parte do aplicativo que será lançado no mercado americano.

Aqui no Brasil, por enquanto, somos uma razoável referência quando se trata de criar leis e de desenvolver tecnologias para a inclusão de pessoas com deficiência. Falta agora a necessária seriedade, que a Primeira Dama está prometendo, para que a nossa criatividade encontre retorno no mercado.


NO ESPAÇO E TAMBÉM NO TEMPO


Tudo indica que, quando fez a promessa, Michelle Bolsonaro sabia do que estava falando. Há tempo ela trabalha voluntariamente para pessoas com deficiências, o que deve lhe valer conhecimento de causa.

No próprio discurso a Primeira Dama deu sinais da visão de liderança que para esse ambiente. Ela fez questão de agradecer e enaltecer o trabalho dos intérpretes de libras, numa demonstração de que, a valorização dos vários segmentos nesse tipo de trabalho, é fundamental para se atingir qualquer meta de atendimento e de eficiência.

A dúvida fica por conta do Presidente. Será que, ao concordar com a promessa, ele tinha uma visão real do tamanho do desafio? Em muitos aspectos o Brasil é uma prisão para grande parte das pessoas com deficiência. Os próprios órgãos públicos de assistência e promoção social, de saúde, educação e mesmo de apoio à recolocação profissional, não estão preparados para atender esses brasileiros.

Os programas de moradias populares não oferecem as condições desejáveis para um cadeirante, por exemplo. Portas muito estreitas, cômodos apertados que não permitem um acesso confortável. Faltam rampas em várias repartições, elevadores também, piso tátil para cegos e indicações em braile também são raros. As calçadas, que seriam o primeiro passo para fora de casa, não têm qualquer especificação legal para projetos que garantam o direito de ir e vir de portadores de deficiências em geral.

Ao atentar para esses detalhes o Presidente vai precisar também de uma longa conversa com o Ministro Marcos Pontes. Pois a inovação tecnológica, principalmente com o apoio da inteligência artificial (AI), internet das coisas (IoT) e conexão imediata (5G), representa a maior esperança, no momento, de um mundo mais inclusivo. Engenhos dos mais diferentes tipos e tamanhos vão ser associados às nossas vidas, desde os nano robôs imersos na corrente sanguínea, ou conectados a neurônios, até os exoesqueletos que podem nos livrar de cadeiras de rodas ou suprir sequelas de mutilações.

É importante lembrar que, com o crescimento da expectativa de vida, a “quantidade de vida” tende a avançar um pouco sobre a qualidade de vida. O que pode nos tornar, durante algum tempo, portadores de determinadas deficiências. Por isso, o grito de Michelle, que ecoou amplamente pelo espaço, precisa avançar também ao longo do tempo.

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A CHINA NA LUA



Quando Neil Armstrong pisou na Lua, em 1969, consolidou-se um dos mais ambiciosos programas de marketing já preparados na Terra. É o que garantem alguns executivos americanos que acompanharam a fase áurea do programa espacial dos Estados Unidos.

Reza a lenda que foi o presidente John Kennedy quem teve o insight. Com o avanço do programa espacial soviético, a bordo do Sputinik, Kennedy teria colocado como missão a chegada do primeiro homem à Lua. O feito buscava colocar os Estados Unidos como a meca da tecnologia, o máximo em ciência, a locomotiva do conhecimento humano. Conceitos que deveriam refletir nas vendas de produtos americanos pelo mundo. Parece que deu certo.

Agora é a China, a meca dos camelódromos, quem exibe credenciais lunares. As missões Chang’e já tinham chegado à Lua em 2013, com o Chang’e-3. Porém, o destaque histórico da missão Chang’e-4, que chegou à Lua nesta semana, foi o local de aterrissagem (desculpem, alunissagem, porque o pouso foi na Lua, não na Terra). A sonda pousou no chamado “lado afastado” do satélite natural. Um ponto do Universo especialmente importante para nós.

O que isso deve representar para o marketing dos produtos chineses? Muito provavelmente o governo de Pequim não está pensando em usar esse feito numa manobra de varejo. É mais provável que se encontre justificativas militares ou de algum valor estratégico no tabuleiro geopolítico. Mas é inegável que, a partir de agora, começa a mudar nosso olhar sobre os produtos chineses.

A China sempre teve a marca de “estranheza”, de difícil compreensão entre os ocidentais. Uma língua muito diferente, escrita diferente, hábitos e cultura muito diferentes, até o fenótipo. Agora é o maior país comunista do mundo mas é o segundo mais capitalista. Fez uma revolução marxista, onde o foco é o trabalhador, mas está entre os países com piores condições de trabalho. Vai entender...


THE DARK SIDE OF THE MOON


Menos de 4 anos após a chegada do homem a Lua a banda inglesa Pink Floyd lançou seu álbum de maior sucesso, The Dark Side of the Moon, ou “o lado escuro da Lua”, em tradução livre. Para os leigos, era uma referência meramente poética. Na verdade, trata-se de uma realidade astronômica e também poética, mais ainda.

Há uma sincronia entre os movimentos de rotação e translação da Terra e da Lua. Isso faz com que uma parte do nosso satélite natural nunca seja observável de qualquer ponto da Terra. Mais ou menos como um casal que dança uma valsa no salão, rodopiando pra lá e pra cá, mas sempre face a face, um encarando o outro. Se durante uma valsa, o cavalheiro quiser olhar alguma coisa nas costas da moça, ele não tem como faze-lo, a não ser que passem em frente a algum espelho.

Até isso a China teve que inventar. Lançou o satélite Queqiao, que fica numa “vaga gravitacional” entre as órbitas da Terra e da Lua. Ele faz mais ou menos o papel de um espelho, uma antena que rebate as ondas eletromagnéticas de comunicação da China com a sonda.

E se você ficou pensando por que o cavalheiro se interessaria em olhar alguma coisa nas costas de sua parceira de valsa, nas “costas” da Lua há indícios de que muita coisa pode ser encontrada. Começa pela cratera Von Kármán que tem uma área equivalente a cerca de metade do território brasileiro e profundidade de 13 Km. Bem grande, em se tratando de um astro que tem uma superfície quase 14 vezes menor do que a da Terra. Acredita-se que ela surgiu de um mega impacto de algum asteroide. Na prática, ele teria feito um trabalho de estratigrafia, ou seja, aprofundou muito a visão de camadas da formação da Lua. Informações importantes sobre todo o Sistema Solar.

Além disso, por não ter qualquer ponto “de visada” em relação a nós, o lado afastado, ou lado oculto da Lua não deve ter recebido antes qualquer onda eletromagnética artificial emitida daqui. Ou seja, não há qualquer interferência para estudos astronômicos, é um privilegiado boulevard para se observar o resto do Universo.

Além do “jipinho” Yutu-2 que a sonda já colocou em solo, levou também um espectrômetro, para rastrear a presença de minerais e um experimento curioso. Um pequeno contêiner, do tamanho de um nécessaire, onde funciona uma micro biosfera, com sementes de batata, de um outro vegetal muito usado em pesquisas biológicas e ovos do bicho da seda. É que o lado afastado da Lua só é “escuro” para nós, mas recebe normalmente a luz solar. A expectativa é de que as plantas produzam oxigênio por fotossíntese – além do que já está no contêiner – e contribuam para o desenvolvimento das larvas do bicho da seda.


O LADO ESCURO DA CHINA


A China é um estado abertamente fechado. Diferente do que acontecia aqui nos anos 70 do século passado, quando se dizia que o cidadão brasileiro não tinha qualquer limitação em suas liberdades, lá a chamada “revolução” não está muito preocupada com o que o povo pensa sobre o governo. Cumpra-se, e estamos conversados.

Isso reflete até no tráfego de Internet e deve ter repercussão também na divulgação de informações científicas. Não se sabe quanto do que vai ser descoberto na Lua chegará ao resto do mundo, pois nem os cientistas têm autonomia para divulgarem o que acham necessário.

Em cima desse suspense tem um suspense maior, ou seja, o que a China vai fazer a partir dos conhecimentos que pode obter por lá. O sonho de supremacia que todas as potências mundiais aspiram, no caso da China não leva nenhum disfarce. Eles querem o poder para fazerem o que acharem necessário, onde acharem necessário, segundo os objetivos da revolução. Que ninguém sabe exatamente quais são.

Há algum tempo já se sabe que os chineses produzem tecnologia competitiva nas várias áreas mas agora, o que acaba de acontecer, aos olhos do mundo todo, é a conclusão de um feito científico histórico de destaque, com repercussão global. O fato em si já é glorioso, mas revela ainda o sucesso de todo um projeto educacional, tecnológico e científico, que permitiu a eles chegarem onde estão.

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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

OS MERCADOS E AS BATALHAS




Especialistas podem ter argumentos para contestar, mas o marketing para vender pipoca na rua deve estar no cheiro. Difícil resistir! No carrinho do lado, os doces não saem pelo cheiro, a força do apelo deve ser mais visual. Sofisticando mais, o hamburger vende pelo cheiro e pelo visual. É só notar quanta arquitetura tem nessa indústria. Ah, o sabor, é claro! Tudo bem, é importante, mas está mais para um detalhe de qualidade.

Parece que produtos mais elaborados tendem a exigir mais em termos de marketing. Vender chocolates finos, roupas, pacotes turísticos, carros... Imagine a sofisticação do marketing pra se vender uma guerra! Até o cigarro pode propiciar algum prazer para contrabalançar com o mal que provoca. Mas guerra!? Fora do cinema é só aterrorizante, não sobra nenhum glamour. 

Um poema de Carlos Drumond de Andrade parece parafraseado numa recente “peça” desse marketing hediondo. Jornalistas investigativos de grandes empresas de mídia acusam uma rede de influências envolvendo André, que amava Teresa, que amava Viktor, que amava Stormy, que amava Trump, que amava Putin, que não amava ninguém. Os nomes, aqui colocados aleatoriamente, fazem parte de uma trama real que poderia estar minando o poderio militar norte-americano.

Esse é o marketing da guerra. Ele se baseia em fatos reais para levantar suspeitas, gerar instabilidade, insegurança, medo, terror. É marketing porque, no final disso tudo, tem o grande negócio chamado guerra. São esses sentimentos, difundidos em massa, que geram as condições para justificar compras de armas, de suprimentos, mobilização de tropas e aquilo tudo que se sabe, mas ninguém gosta de lembrar.

No momento, o que se persegue são sinais de influência russa em empresas que podem se envolver no maior projeto militar americano no momento. O nome do projeto é bem sugestivo: Jedi - Joint Enterprise Defense Infrastructure, em português, algo como Empreendimento Conjunto de Infraestrutura de Defesa. É marketing ou não é!?


A HEGEMONIA AMEAÇADA


O Jedi está orçado em US$ 10 bilhões, equivalente ao valor total que o orçamento federal brasileiro prevê para investimentos durante todo o ano de 2019. É uma nuvem cibernética, um ultra sistema cloud, que armazenaria todos os códigos militares americanos, informações de inteligência, localização de tropas aliadas e inimigas, especificações de armamentos, detalhes de operações. Hoje esses dados estão todos em servidores menores, distribuídos em alguns departamentos do Pentágono. Na nuvem, o acesso a esses dados e o abastecimento de informações de campo seria muito mais rápido, o que representaria uma vantagem militar.

E se...

Pois é, tudo muito bonito, até que um dia entre um boi na linha. É exatamente o que jamais pode acontecer, “combinar com os russos”, como disse, numa ironia histórica, o grande craque Garrincha. Era uma outra “batalha”, aquela sim, glamourosa e saudável.

A perigosa rede de influências relaciona as várias pessoas citadas num quebra cabeças, onde aparecem o Kremlin e a empresa americana que deve desenvolver todo o sistema. A Amazon Web Services (AWS), que domina um terço do setor empresarial em questão, é a maior provedora de serviços na nuvem pelo mundo. Franca favorita para vencer o certame marcado para o próximo mês de abril, a AWS teria negócios com a C5, empresa financeira sob forte influência do magnata russo Viktor Vekselberg. Ele é considerado um homem forte de Putin e está também relacionado entre os interlocutores de um advogado de Trump.

O Jedi seria a resposta americana à mais recente “neura” instalada no governo. Congressistas, militares e especialistas afirmam que os Estados Unidos estariam perdendo a vantagem que sempre mantiveram na tecnologia de defesa em relação à Rússia e à China.

Em recente artigo publicado no portal da BBC, o Jornalista Jonathan Marcus lança um olhar revelador sobre a questão. Ele observa a inversão histórica de determinados paradigmas relacionados à guerra. No passado, a guerra foi a principal inspiradora de avanços tecnológicos importantes. Nos tempos atuais a Tecnologia de Informação, largamente aplicada e desenvolvida na vida civil, é a base também para os engenhos militares. Dessa realidade surge o stress que a Defesa americana está enfrentando. Ela depende de empresas voltadas prioritariamente às necessidades civis, para conseguir atualizar as forças armadas.

Um relatório elaborado por especialistas independentes, tema principal do referido artigo de Marcus, cita ainda a preparação das forças americanas, estrategicamente treinadas para lutar com aliados. Um fator que Trump parece não ter considerado em recentes entreveros diplomáticos. Ele criticou os outros países da OTAN por estarem investindo pouco em defesa. Faria melhor se tivesse sido mais discreto na forma de abordagem.


O BRASIL E A OUTRA GUERRA


Todos esses fatos giram em torno do marketing da guerra. Relatórios, ações no Congresso e nos pontos mais nevrálgicos do governo americano insistem na necessidade de investir na superioridade militar. Os Estados Unidos continuam ostentando os maiores investimentos do mundo em defesa, porém, especialistas dizem que não são os melhores investimentos. A questão parece mesmo ser apenas vender armas.

A tecnologia de guerra, no entanto, pode ser fragmentada em diferentes ações, que não estão exatamente nos planos da indústria bélica. Como bem coloca Marcus, o espaço entre a paz e a guerra vem aumentando e incluindo uma série de situações que não se encaixam exatamente em nenhum dos dois extremos. Trata-se de agressões através de ataques cibernéticos, assassinatos políticos, ações de grupos dispersos que só são identificados mais tarde. Não é essa a guerra dos sonhos para quem fabrica tanques de guerra, carros de combate, mísseis, aeronaves de caça. A artilharia pesada não quer perder seu lugar de vedete no orçamento.

Se o nome Jedi remete à ideia de “guerra nas estrelas”, um projeto militar antigo que acabou não se concretizando, na verdade fica pelo meio do caminho, com a “guerra na nuvem”. De fato, uma vantagem que o pedigree americano tem em relação aos seus concorrentes: a tecnologia cloud.

A nuvem cibernética é a mãe das principais tecnologias que vão transformar o mundo nos próximos anos, como o 5G e a IoT (Internet das Coisas). Se, nessas duas últimas, a concorrência chinesa e a europeia podem rivalizar com a tecnologia americana, por enquanto não se pode dizer o mesmo em relação ao cloud. Os Estados Unidos mantêm uma razoável vantagem.

Melhor ainda é saber que o Brasil está desenvolvendo aplicações de alto nível para o uso empresarial, educacional e de interesse social, na nuvem. Isso pode representar um forte diferencial competitivo para o país no uso das mais recentes soluções tecnológicas. Essa sim, uma “guerra” onde se luta com dignidade.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O FÔLEGO DE UM PORTFOLIO




Nota longa: você está assistindo à uma ópera e, de repente, o tenor dá aquela esticada numa nota. Isso acontece num momento muito marcante da trama.

Para um leigo parece um vinil riscado, mantendo o mesmo som, a mesma nota durante um longo tempo. Mas, para o aficionado pelo canto lírico, aquilo é uma catarse! O personagem chega naquela nota alta, segura a voz firme, como um alarme que dispara sobre os sentimentos mais eloquentes dos espectadores. E vai...

Nos primeiros segundos o público fica hipnotizado, ouvindo e, lá no fundo, imaginando até onde vai aquele fôlego. O tenor vai ficando roxo mas sustenta, e começam os aplausos aqui e ali. Vão aumentando até que o tenor chegue ao seu limite e mude o tom para, enfim, respirar. A essa altura todos já estão aplaudindo, então levantam, intensificam os aplausos e gritam: bravo!

Nota preta: um ativo financeiro começa a valorizar no mercado, as cotações vão subindo. As corretoras incluem o negócio em seus portfólios e saem fazendo propaganda, a mídia repercute, muita gente entra comprando. Alguns vendem para realizar lucros, mas o ativo ainda valoriza... O problema é que ativos não ficam roxo. Todos têm certeza de que há um limite para aquela nota preta que circula em torno do negócio. Mas não há um sintoma que indique.

A parte emocional é a mais complicada. Diferente do ouvinte da ópera, que relaxa numa cadeira confortável, fruindo aquele momento gozoso, o investidor faz contas, analisa gráficos e vive o risco de quem pode perder muito.

No ano passado, por três vezes este blog dedicou espaço à saga do bitcoin e outras criptomoedas. Foram três diferentes patamares na história desses ativos, enquanto os valores traçavam uma exponencial apontando para cima mais e mais. A abordagem do assunto contou com toda prudência e fez os alertas necessários para essas situações. Porém, o leitor atento deve ter percebido uma certa paixão.

E tinha como ser diferente!? Uma moeda virtual surge do nada, desafiando governos e o setor financeiro do mundo todo. Uma criação tecnológica, intangível, derrotando bravamente todas as tentativas de fraude eletrônica. Impõe respeito, passa a ser aceita no mercado japonês como moeda, entra como derivativo na Bolsa de Chicago e se torna o ativo que mais valorizou na história, num espaço de tempo tão curto. É de desmaiar na ópera.


BOM DEMAIS PARA SER VERDADE


O bitcoin e as criptomoedas em geral colocaram às claras a essência do mercado financeiro. Revelou-se o jogo puro e simples, onde especula-se em torno de um ativo qualquer, entre fatos e boatos. Pois daquela vez especulou-se em torno do nada! Algo que não está em lugar nenhum, não cheira, não tem gosto e não pesa. Mas dá sinais de existência que não podem ser fraudados.

Isso foi suficiente para que as criptomoedas alcançassem o status de “reserva de valor”. Tornou-se especulável.

Quando o bitcoin foi criado, em 2010, foi possível convencer o dono de uma pizzaria que valeria a pena entregar uma pizza de US$ 25,00, em troca daquele delírio tecnológico. Ele recebeu 10.000 bitcoins pela pizza histórica, o primeiro negócio realizado com uma criptomoeda no mundo. Mesmo tendo desvalorizado 15% na semana passada, acumulando uma perda de 80% só neste ano, aquela pizza hoje está rendendo US$ 43,93 milhões. Chegou a valer mais de US$ 193 milhões, quase R$ 750 milhões.

O que aconteceu com as criptomoedas em geral em 2017 foi um surto insano. Bitcoin, Ethereum e outras que já existiam há algum tempo, cresceram num ritmo surpreendente. Muita gente comprou em busca de enriquecimento rápido. Novas criptomoedas surgiam diariamente. Uma delas, a AllSafe, chegou a valorizar 15.808%, o que representa mais de 150 vezes. Um salto que aconteceu em menos de 24 horas, de um dia para outro. Dezenas de outras moedas virtuais chegaram a registrar valorização de 3 a 10 vezes num só dia.

Corretoras aumentaram em 5 vezes o número de clientes, chegando a ultrapassar o número de clientes pessoa física da Bolsa de São Paulo, a B3.

Alguns levantamentos estimam que o mundo chegou a ter mais de 1.200 criptomoedas circulando. Muitas desapareceram, mas apareceram outras no lugar. Pelo Youtube há vários vídeos ensinando como criar uma criptomoeda e você pode fazer isso ao terminar esta leitura. Se conseguir associar sua criptomoeda a alguma motivação para que alguém queira adquiri-la, pode ficar rico. Porém, sem uma estrutura para popularizar o novo ativo, o mais provável é que isso se torne uma perda de tempo.


CAIU MUITO PORQUE SUBIU MUITO


Não se trata de otimismo. Mas, depois desse curto histórico de 8 anos, as criptomoedas parecem que estão consolidadas como um tipo de negócio que nunca mais vai desaparecer do mercado. Afinal, depois de ter levado tanta gente  à bancarrota no ano passado, ainda sobrevive.

O detalhe a ser considerado é que trata-se de um negócio altamente perigoso, envolve muito risco. Uma “advertência” que tem uma sonoridade musical para muitos agentes de mercado. Segundo estudos da Bolsa de Nova York é a condição patológica que domina a maior parte dos players pessoa física. Algo muito semelhante ao que acontece com os jogadores compulsivos.

O professor de finanças Michael Viriato, do Insper, que publica um blog no portal UOL, listou algumas limitações das moedas virtuais, que dificilmente serão superadas. Uma delas é a facilidade técnica de criação de criptomoedas. Elas sempre vão proliferar nos momentos de alta, aumentando muito a oferta. Ainda do ponto de vista técnico, essas moedas têm uma séria limitação, que é a capacidade das redes efetivarem as negociações. Não chega a dez transações por segundo. Isso impede, na prática, que se tornem meio de pagamento em massa. No caso dos cartões de crédito, por exemplo, são milhares de operações por segundo.

Além disso, os governos estão bem próximos da regulamentação das criptomoedas. Isso deve impedir que milhões de dólares envolvidos em negociações criminosas continuem circulando nesse mercado. Sem dúvida, uma boa para a sociedade. Mas terá um forte impacto de baixa nesses ativos digitais.

Com base nesses fatos citados por Viriato, pode-se esperar maior pressão de baixa para os próximos meses. Ao final desse ciclo de queda, digamos que o mercado terá “testado o piso” do bitcoin e das outras moedas virtuais de maior circulação. Vai se estabelecer, diante dos atores do mercado, um valor mínimo para cada uma dessas moedas. O resultado pode ser mais segurança para voltar a investir.

No caso do bitcoin em particular, mesmo após essa perda de 80% em 2018, ele mantém uma valorização de 370% nos últimos 24 meses. O preço atual da moeda é o equivalente ao de setembro do ano passado. Portanto, não é a queda do bitcoin que surpreende. O difícil é entender por que a moeda valorizou tanto no final de 2017.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

PROGRESSO PARA QUÊ!?




Muita criatividade, espírito empreendedor, sensibilidade para inovação, alta capacitação técnica. Se o conjunto dessas qualidades se assemelha ao seu perfil, cuidado! Você pode se tornar alvo de processos e outras represálias por parte de grupos poderosos.

Há uma certa articulação de alguns grupos econômicos pelo direito (?) ao atraso, senão ao retrocesso. Eles entendem que o mundo existe apenas e tão somente para que eles estejam aqui, cada vez mais ricos, poderosos e ... reclamando.

O Brasil, principal paraíso judicial do mundo, chegou a sediar causas célebres. Na explosão do WhatsApp operadoras internacionais de telefonia escolheram ajuizar aqui ações contra o aplicativo. A fama do meio forense nacional é semelhante à dos restaurantes baianos: demora uma eternidade para chegar, mas quando vem, mesmo que seja diferente do pedido, vai deixar o freguês muito satisfeito. Nesta semana mesmo, foi cassada uma liminar que impedia uma negociação de ações ordinárias entre duas empresas privadas, a Embraer e a Boeing. A motivação da ação era puramente nacionalista, tema que não diz respeito às lides judiciais.

A colocação entre os maiores mercados do mundo, quinta maior extensão territorial da Terra, oitava economia e mais aquele monte de coisas que evidenciam o potencial brasileiro, nunca foram suficientes para que nossos políticos deixassem produtores e consumidores se entenderem civilizadamente. Fábricas de dificuldades e lojas de facilidades se retroalimentam nas casas legislativas, produzindo autênticas pérolas, dentre as quais algumas são escolhidas pelo Judiciário, para encrustar nas joias da coroa.

Muitas delas estão entre as concessões de serviços públicos. Entregam verdadeiros feudos tarifários a grandes empresas, com garantias que nenhum outro tipo de agente econômico pode obter no mercado. Sem prejuízo de prerrogativas da iniciativa privada, como sigilo sobre vários detalhes do negócio.

Nessa tela abstrata empresas de ônibus concessionárias de transporte urbano protestam contra “concorrência desleal”. Sabe de quem? Do Uber e outros aplicativos! Para elas, um motorista conduzindo um ônibus, por uma única rota, onde centenas de passageiros sobem e descem ao longo de vários pontos, fica mais caro do que manter um motorista, num carro de passeio, carregando duas ou três pessoas. Se isso é verdade, por que então as grandes cidades precisariam de ônibus?


“VOU DE TÁXI” 


O serviço, denominado UberPool, está mudando o nome para Uber Juntos. Já funciona há algum tempo em grandes cidades brasileiras e de outras partes do mundo. A ideia é compartilhar um carro, com vários itens de conforto a mais do que os ônibus, com no máximo 3 pessoas. De acordo com o aplicativo, para embarcar ou desembarcar, o passageiro vai andar no máximo um quarteirão de sua origem, e até seu destino. O preço, informado antes do passageiro decidir, é maior do que a tarifa do ônibus. Sinal de que os passageiros que podem pagar um pouco a mais, fogem dos ônibus. As empresas já se perguntaram por quê?

O retrato mais fiel dos efeitos desse progresso – pernicioso, na visão das empresas de ônibus – foi divulgado nesta semana em São Paulo. A pesquisa “Origem e Destino Metrô” é realizada a cada dez anos, desde 1967. Os últimos resultados se referem ao período de 2007 a 2017, apurados a partir do levantamento em 32 mil domicílios. O único modal que perdeu espaço foi o ônibus. Eram 9 milhões de viagens por dia em 2007 na capital paulista. Em 2017 foram 8,6 milhões. No mesmo período, o metrô aumentou de 2,2 milhões para 3,4 milhões de viagens/dia. Ainda nos trilhos, os trens cresceram de 800 mil viagens/dia para 1,3 milhão.

Pela primeira vez a pesquisa incluiu as viagens de carros por aplicativos, que começam anotando 362,4 mil viagens/dia em média, o triplo dos táxis. Mas os dados permitem inferir que talvez seja apenas o suprimento de uma demanda reprimida. Afinal, a média atual de 112,9 mil viagens/dia realizadas por táxis em São Paulo, é 24,5% maior do que há dez anos. Também cresceram!

A reação por parte da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, que representa mais de 500 empresas do setor pelo Brasil, foi notificar as prefeituras de grandes capitais, como Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo. Hahã! De certa forma, o que estão pedindo é para voltarmos dez anos no tempo. Quer dizer, desde que as tarifas continuem as mesmas e os subsídios, milhões e milhões pagos diretamente pelas prefeituras todo ano, se mantenham como sinal de progresso no período.

E se as empresas revissem seu modelo de negócios? Por exemplo, utilizar aplicativos semelhantes para planejar um transporte on demand, ou quase isso. Em muitas linhas é possível observar vários lugares vazios em certos períodos do dia. Poderiam ser utilizados veículos menores, mais econômicos. Na medida em que passageiros confirmassem interesse pelos seus celulares – ou em aparelhos fixados nos principais pontos do percurso – entrariam mais ônibus na linha, diminuindo a previsão de espera. Os ônibus maiores ficariam estacionados em locais estratégicos para voltarem a circular nos horários de pico.

Ainda não se ventilou qualquer upgrade tecnológico na gestão/operação do sistema, além de algumas melhorias daquelas bem “gastas”. O que as empresas querem é que o mundo pare para não afetar seus lucros.


NA DESORDEM NÃO TEM PROGRESSO


Os serviços públicos são de longe os maiores financiadores de campanhas políticas e de enriquecimento ilícito no Brasil. Tanto por meio de concessionárias, como prestadoras de serviços, empreiteiras, fornecedores. Fontes que abastecem um Brasil muito pequeno, rico e soberbo que, logicamente, não utiliza nenhum dos serviços públicos.

Nesse Brasil, que manda e acontece, com desmandos que nunca permitem acontecer os avanços, estar up to date é adotar algumas frases feitas. O juiz que conduz a recuperação judicial da Oi ignorou alguns princípios legais sob o argumento altruísta de que “ninguém quer que a Oi feche suas portas”. Não era verdade. No decorrer do processo restou claro que o grupo Pharol, acionista da empresa, tinha muito interesse na derrocada da Oi. Uma briga de touros em que o erário público acabou sendo rudemente pisoteado.

A dívida negociada da Oi chegou a R$ 68 bilhões. Mais do que o orçamento de praticamente cada um dos estados brasileiros, à exceção de Paraná e São Paulo. Só de multas devidas ao órgão regulador eram R$ 20 bilhões. Imagine que uma empresa, pelas suas falhas nos serviços, acumule dívida maior que o próprio ativo. E ainda assim a Anatel, o executivo, o judiciário e o legislativo, se mobilizam para salvar a empresa.

Agora o PLC 79 quer transferir mais de R$ 100 bilhões em bens reversíveis para as empresas de telefonia, que não pagaram por esses bens no arremate das concessionárias. Os congressistas dizem que elas têm direito. E que as empresas vão se comprometer a contrapartidas em investimentos. Ora, se é direito delas, por que precisariam se comprometer com contrapartidas?

Talvez hoje o Brasil esteja se comprometendo mais com a evolução dos lucros de determinadas empresas privadas, do que com a evolução do país como um todo.