sexta-feira, 15 de junho de 2018

AS MACRO ESTRUTURAS CRESCEM NA REDE




Para o lado mais sério do mundo a grande invenção humana foi a roda. Mas, para o lado mais divertido do cérebro, foi a bola. A revolução diametral que, no idioma falado, seria uma coisa muito diferente, na lógica geométrica quer dizer que a roda e a bola são quase a mesma coisa. E assim a Fórmula 1 fica bem próxima de futebol, é tudo esporte e tá redondo.

Não é porque começou a Copa da Rússia que bola aqui é futebol, porque na verdade futebol é que é bola (isso me lembra alguém...). Assim como basquete é bola, vôlei também é, assim como o tênis, o ping pong, baseball, golfe, até sinuca. A revolução 3D da roda pré-histórica é o grande elemento de convergência, que vai do campo plano ao acidentado, dos pés para as mãos, da mesa à rede, sempre divertindo e promovendo cultura.

Invenções geniais tendem a gerar convergência. Essa é a moral da história. E, no caso, a invenção genial convergente da vez é o computador. A gente se espanta com tanta coisa nova que aparece a cada dia, mas na verdade são só computadores dedicados. A boa e velha CPU explica tudo. Do bilhete do metrô à Internet, a AR, VR, IoT, a pqp. É só olhar para os lados e perceber quantos computadores nos cercam, porque se olhar pra frente, é até covardia.

Um estudo recente da Price Waterhouse Coopers (PwC), uma das maiores empresas de auditoria do mundo, acaba de descobrir – ou simplesmente constatar – a “Convergência 3.0”. Entitulado Global Entertainment & Media Outlook o estudo indica que, ao falar de conteúdos de mídia ou de entretenimento, cada vez mais estaremos falando de tecnologias e telecomunicações. A tendência é de que esses conteúdos migrem progressivamente para as plataformas digitais de telecomunicações, numa sequência natural do que já vem sendo observado há tempo.

Na prática, parcerias improváveis, como as que tratamos nas duas últimas edições deste blog, estão aproximando os grandes provedores e plataformas de entrega, como o Netflix, Amazon, Apple TV e tantas outras. É uma verticalização dos serviços dos quais o consumidor depende para ter acesso a conteúdos. Isso acontece sustentado por um espraiamento sem limites da produção de conteúdos, de mídia e de entretenimento, em todas as direções. O fenômeno é esse.


CONVERGIR É SOBREVIVER


É bem um caso de convergência. Não se nota mais aquela tendência “fagocital”, de um querendo engolir o outro. Até porque cada um desses atores é extremamente grande e profundamente especializado, a ponto de não se imaginar a Comcast engolindo o Netflix, nem vice versa. Cada um na sua, todos numa boa.

O que tende a alterar esse equilíbrio seria alguma invenção tecnológica disruptiva, capaz de tornar irrelevante o que acontece em um desses níveis da parceria. Ou alguma mudança regulatória, por exemplo, se as cidades decidirem universalizar o acesso à Internet como serviço público gratuito.

As perspectivas de expansão da grande rede são gigantescas. O estudo aponta para um aumento de 2,2 bilhões de acessos à banda larga até 2022. Para 2020 a previsão revela ainda outra tendência: vai ser quando o tráfego de dados para smartphones vai superar a banda larga fixa. O consumo móvel, neste ano de 2018, já deve elevar os investimentos globais em publicidade na Internet móvel, para um patamar maior do que na rede fixa.

Um detalhe curioso, em meio a uma produção imensa e crescente de conteúdo, é que a vida alheia continua atraindo as atenções. Os conteúdos de mídias sociais estão em alta e fazem sombra ao conteúdo tradicional disponibilizado na rede. A reação das empresas de produção tradicional deve vir na forma de novas plataformas, com marcas fortes como, por exemplo, a Disney passando a ser uma grife da Internet.

Isso pode implicar numa outra tendência apontada pelo estudo, divulgado pelo site Tela Viva. É o uso crescente de inteligência artificial nas grandes plataformas, para atender de forma mais personalizada alguns segmentos de consumidores. Investimentos desse tipo possivelmente serão mais oportunos em plataformas de tráfego intenso de visitantes, interessados numa ampla variedade de produtos e serviços.

Para o público brasileiro, de hábito festivo, a boa notícia é que a tendência de crescimento do interesse para eventos ao vivo está confirmada. Os estádios que se preparem! E não é só para o futebol, não. A taxa de crescimento anual composta (CAGR) para competições de e-sports deve crescer em 21,1% até 2022.


E O BRASIL NESSA?


Embora o blog esteja apostando no Hexa em 2018, nem precisa ser fanático para afirmar que o Brasil ainda vai brilhar por muito tempo no futebol. Mas não é só por aí. Do lado glamuroso das câmeras tudo indica que vamos brilhar. O Brasil já está isolado na ponta dos e-sports em nível mundial. Temos tradição na Fórmula 1, MMA, vôlei e muitas outras modalidades de destaque internacional.

A questão é quanto vamos protagonizar na – enfim confirmada – aldeia global. É comum haver, mesmo em regimes democráticos, reservas em relação à propriedade de órgãos de imprensa por parte de estrangeiros. No Brasil as leis nesse sentido foram aliviadas recentemente, mas não desapareceram.

Esse cuidado aponta para a importância que a comunicação de massa tem na formação de uma nação autônoma e soberana. Eis que a tal convergência começa a apagar essas tênues fronteiras de pensamento, de cultura e de valores. E nada indica que essa abertura virá para fortalecer cada nação, pelo contrário, deve importar hábitos e padrões de consumo.

Não há como reverter a inegável convergência. E não haverá lei capaz de conduzir esse movimento em direção à interesses nacionais. Exceção clara às nações competitivas nessas tecnologias, o que não é o caso do Brasil.

Podemos aprimorar conteúdos jornalísticos, levando em conta o alto nível dos profissionais brasileiros nessa área. Mas a apresentação visual das notícias ao público, as possibilidades de personalização do atendimento e a quantidade de opções de conteúdo e entretenimento que cada plataforma poderá oferecer, podem desviar a audiência. Em outros endereços, a política nacional deve ser muito menos importante. As nossas mobilizações, candidatos e partidos, tudo pode ser visto e interpretado por olhos que não estão fisicamente aqui.

O avanço tecnológico é uma realidade humana, por isso deve ser bem vindo em todas as nações. O atraso nunca será uma alternativa. Mas o momento mostra claramente que a soberania das nações está se consolidando sobre o conhecimento e a capacidade de realização internalizados. Daqui onde estamos fica difícil enxergar como chegar onde deveríamos estar. Mas já dá para concluir que, os caminhos que trilhamos nas últimas décadas, não vão nos levar a lugar nenhum.

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sexta-feira, 8 de junho de 2018

O FUTURO QUE SE VÊ NA TV




O anúncio do tvOS12, para bons observadores, permite ver mais do que imagens com qualidade 4K HDR, sob som tridimensional imersivo Dolby Vision ou Dolby Atmos. Traz vestígios de um futuro próximo, pelo menos daquele no qual a Apple acredita.

Foi no início desta semana, durante a abertura da WWDC, a conferência anual de desenvolvedores Apple. O tvOS12, sistema operacional da Apple TV 4K, apareceu com novidades não apenas para o cliente final, que tem o set-top box do produto. Mas também para as operadoras de TV por assinatura, que podem adotar o equipamento como conversor para seus clientes.

No começo deste século, quando as “caixas” (os set-top boxes) surgiram no mercado americano, tinham um jeito de concorrentes das TVs por assinatura. Afinal, Roku, Chromecast, Fire TV, Apple TV, dentre outras, oferecem alternativas de conteúdo audiovisual na TV. Acontece que a TV está se sofisticando, exigindo mais “inteligência” do set-top box, e esse não é o expertise das operadoras, que estão mais para empresas de telecomunicações.

Para a Apple essas empresas de telecomunicações se tornaram parcerias especialmente interessantes, observa Paolo Pescatore, da CCS Insight. Ele vê esse movimento de aproximação no mesmo rumo das parcerias que o Netflix tem feito com operadoras. É uma ampliação do acesso ao cliente final. Para a Apple tem ainda a vantagem de representar um mercado também para o hardware que ela fabrica. Com o tvOS12, a Apple TV vai ser o conversor da Charter Communications, a segunda maior operadora de TV a cabo dos Estados Unidos.

O sistema tem um atrativo especial para essa união. É o zero-sign-on, que permite à Apple TV reconhecer a banda larga do usuário e autentica-la automaticamente. Ele funciona quando o provedor de TV é o mesmo provedor de Internet – o que é comum em países como Brasil ou Estados Unidos. Basta abrir qualquer aplicativo do Apple TV e o usuário já estará logado, sem precisar repetir senhas ou configurar detalhes.

O Canal +, primeiro por assinatura da França, fechou uma parceria, em maio, que permite aos seus clientes alugar o Apple TV 4K por 6 euros, sem precisar de qualquer outro conversor. Na Suíça, também neste ano, o provedor Salt entrou na telefonia fixa e ofereceu o serviço de TV por assinatura baseado no Apple TV 4K como conversor.


ALARGANDO POSSIBILIDADES


A banda larga é um desafio especial desses tempos. Tornou-se uma infraestrutura que não tem refletido toda sua importância no faturamento dos provedores. Principalmente depois que as teles, as empresas de telefonia móvel, passaram a oferecer o sinal na modalidade sem fio.

No caso das operadoras de TV o sinal de banda larga chegou como um serviço secundário oferecido aos clientes. Os milhares de quilômetros de cabos se tornaram as freeways naturais do sinal de Internet. Hoje, em alguns mercados, é a banda larga que mantém essas empresas.

Também a banda larga móvel era uma praticidade a mais nos telefones celulares. Com os aplicativos de voz os celulares deixaram de ser telefones e a receita das teles afundou. Elas passaram a ser fornecedoras de uma infraestrutura fundamental para enriquecer empresas que desenvolvem aplicativos ou oferecem serviços através deles.

Essa aproximação, portanto, parece natural – entre provedores e desenvolvedores de aplicativos. Mas demorou um pouco para que os provedores percebessem isso. Em princípio, acostumados que estavam a negociar diretamente com olhos (TV por assinatura) e ouvidos (celulares), nem pensavam em ter clientes enviesados por uma infinidade de códigos que não dominam.

Ainda bem que os desenvolvedores não guardaram rancor dos tempos em que foram perseguidos, até sabotados, pelos provedores. E agora chegam para oferecer parcerias em novos negócios. Tirando essa visão de conto de carochinha, as possibilidades para o futuro desses negócios são infinitas. Até porque novos players devem invadir esse cenário a qualquer momento. O IoT é um deles, com potencial econômico e empresarial incomensuráveis.

É por aí onde a Apple parece ensaiar mais alguns passos com o tvOS12. O sistema tem suporte para plataformas de controle doméstico, como o Crestron, já instalado aqui no Brasil, e o Control4. Essas plataformas gerenciam automaticamente a iluminação, ventilação, segurança e outros recursos importantes para residências e empresas.

Nos países desenvolvidos, com condições climáticas muito diferentes das nossas, esses serviços são bem populares. Com novos recursos que estão surgindo e as mudanças nos hábitos pessoais e de trabalho, a tendência é de que esses serviços ganhem importância em outros mercados, como no Brasil.


IDEIAS QUE ABREM CAMINHOS


A importância da infraestrutura teve uma demonstração severa aqui no Brasil até há poucos dias, com a greve dos caminhoneiros. Aquelas coisas mais corriqueiras, aparentemente naturais, como o alimento na gôndola do supermercado, simplesmente desapareceram. O país esteve à beira de um colapso.

Esses dias ajudaram a compreender melhor como funciona essa coisa que faz todas as outras coisas funcionarem. A maioria das pessoas, que vive nos grandes centros, não sabia que só 20% das estradas brasileiras são asfaltadas. Portanto, a qualidade dos caminhões e a competência dos condutores ganham importância quando se fala em infraestrutura de transporte como um todo. É o “aplicativo” compensando algumas carências da “rede”.

Não dá para saber de quais infraestruturas e em que dimensões vamos precisar nos próximos anos. Recursos naturais importantes estão chegando ao limite, há um hábito de desperdício generalizado e os padrões de conforto não podem ser reduzidos. Tudo isso aponta para a necessidade de sistemas mais eficientes, geridos de maneira integrada. Quais, exatamente?

Se você tem muito dinheiro para apostar no que será o mundo daqui a cinco anos, talvez prefira gastar esse dinheiro agora com algo que lhe traga alguma satisfação. Como as grandes empresas não têm essa alternativa, acabam desenhando cenários cada vez mais curiosos. Os produtos que surgem desses “ambientes de prancheta” acabam influindo muito no rumo que a sociedade vai seguir. Assim como a invenção do tear, da luz elétrica ou do automóvel, mudaram tanto o mundo que existia antes deles. 

Diferentemente das infraestruturas mais tradicionais, a Internet é uma estrada que nos coloca a uma única distância uns dos outros. Lugares passam a ser apenas combinações de sinais, que podem ser inventados a cada instante. Muitos bens, de importância vital, já trafegam por ela. Não é o caso dos alimentos, mas o conhecimento de um médico americano já pode mover um bisturi na África, para operar um paciente.

Observar essa realidade já não causa tanto espanto. O que admira é perceber, na configuração de uma caixa de TV, os acessos que estão sendo criados para as marcas de hoje, nas necessidades do amanhã.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

TEMPO DAS ALIANÇAS IMPROVÁVEIS




Tem a estória de amor “água com açúcar”. É aquela em que os dois se amam desde o começo até o fim. Mas quando o romance se desenrola entre cenários de amor e ódio, fica bem mais emocionante. É o que se tem visto nessa adolescência tecnológica de tantos produtos e serviços.

No Brasil, Telefónica e Netflix acabam de anunciar as bodas, com lua de mel que passa por toda a América Latina e também pela Europa. O serviço OTT, que já foi odiado pelas distribuidoras de TV por assinatura, agora tem cara de galã. A promessa é de que, ainda este ano, a plataforma de IPTV da Vivo deva oferecer possibilidade de uso integrado com o Netflix.

A moda já pegou em outras partes do mundo, junto à operadoras europeias e também às americanas, como Liberty Global, Altice e Comcast. E pensar que foi principalmente por conta da guerra contra o Netflix que se moldou o conceito de “neutralidade da rede”.

Depois desse passado conturbado, de tantas brigas, a dificuldade agora é chegar aos acertos para que a convivência possa acontecer. Numa análise do site TelaViva a informação é de que não se sabe como o serviço de streaming vai ser cobrado na fatura da Vivo. Esse amor improvável obrigou os dois personagens ao protagonismo de carreiras solo, agora difíceis de serem ajustadas. Aqui no Brasil a maioria dos clientes das operadoras de TV por assinatura já é cliente do Netflix. Quanto cada uma das empresas abriria mão de receitas para não onerar duplamente o assinante?

O interesse da Vivo pelo Netflix parece simples de ser explicado. Como serviço de TV por assinatura a Vivo tem clientes que representam uma fração do número de assinantes do Netflix no Brasil. É um bonde cheio de caminhos novos.

Ademais, pela nova lei do SeAC, que regula as operadoras de TV, uma distribuidora de sinal, como a Vivo, não pode vender direitos e nem produzir conteúdo. Ao contrário do que acontece na Espanha, onde a Telefónica produz e distribui conteúdo próprio. A parceria sugere que, em breve, o Netflix pode incluir essas séries no próprio menu, abrindo espaço para vender entre os clientes brasileiros.

A dúvida maior estaria em qual a vantagem para o Netflix em fazer essa parceria com a Vivo aqui no Brasil.


MODELO MUITO ORIGINAL


Se não fosse Charles Chaplin, talvez o cinema não tivesse chegado tão rápido onde chegou. A afirmação não se refere ao enorme talento do ator. Mas ao espírito empreendedor do produtor e diretor, que não poupou esforços para criar diferentes e abundantes oportunidades para atuar.

O caso do Netflix parece semelhante. Uma locadora de vídeo da cidade de Los Gatos, na Califórnia, percebeu que poderia usar os modens da Internet para levar os filmes de Hollywood até seus clientes. Inovou em seu negócio decadente e acabou criando um negócio inteiramente novo.

Para felicidade geral, o primeiro a perceber que algo muito diferente acabara de nascer foi o próprio fundador do Netflix. Ele se encorajou a investir no OTT – Over The Top muito além de um serviço de entregas de conteúdo. Repensou a sala de TV, os hábitos das famílias, os novos meios audiovisuais e criou produções específicas para a nova realidade. Aprimorou os formatos mais adequados e colocou, no rastro das produções de Hollywood, o seu próprio selo, seus próprios produtos. Assim valorizou mais ainda o seu serviço.

Hoje o Netflix, em valor de mercado, ultrapassa a Disney. E investe US$ 8 bilhões por ano só na produção de conteúdo. Essa sempre foi a resposta para quem buscava descobrir qual seria o futuro após a multiplicação das telas. O grande negócio seria produzir conteúdo. Claro, desde que as produções possam chegar ao cliente da maneira mais simples, por qualquer uma das telas e no tempo de cada consumidor.

O serviço de streaming para produções cinematográficas poderia ter sido inventado por qualquer videolocador. Mas o modelo de negócios que o Netflix criou para se tornar um produtor de conteúdo é algo muito original. Tanto, que todos os concorrentes que surgem, adotam o mesmo modelo.

O Netflix já rivaliza com Hollywood, o distrito cinematográfico de Los Angeles. Seus formatos já começam a competir nas grandes premiações e atores já buscam o sucesso via streaming. Se não é a nova fábrica de sonhos, pode ser a nova fábrica de intrigas e tensões, como é próprio do novo formato.


ADMIRÁVEL – E TRIBUTÁVEL! – MUNDO NOVO


Apologias à parte, o ritmo tecnológico está trazendo situações complicadas para um mundo acostumado a inventar pouco e regulamentar demais. As inovações desses tempos, disruptivas que são, não se habilitam como herdeiros de normas do passado. Além do vazio legal, uma volatilidade econômica não deixa nenhum negócio completamente a salvo da obsolescência. Depois que a supremacia petrolífera foi superada pela tecnologia digital, tão abstrata, todos os negócios começaram a flutuar, tanto nos bancos, como nos tribunais.

Quem administrava as contas das empresas de telefonia móvel provavelmente não imaginava que, em tão pouco tempo, um aplicativo reduzisse tanto aqueles números. Diferente dos carburadores – que desapareceram com a injeção eletrônica – a telefonia móvel estava na ponta da tecnologia. Mas foi “reprogramada”.

A Internet das Coisas (IoT) está para ser classificada como uma infraestrutura e não um serviço. Seria como considera-la semelhante aos postes e cabos que se penduram pelas ruas. Para quem disser que IoT não é isso, fica o desafio de provar que é um serviço móvel pessoal, como querem os cobradores de impostos. Entre esses dois extremos, não há outro enquadramento tributário possível. Dilema tão universalizado, que os Estados Unidos decidiram impor uma moratória tributária para o IoT. O bicho é tão estranho que vão esperar crescer pra saber exatamente qual é a cara dele, se vai morar no quintal ou dentro de casa, se vai para o veterinário ou para o eletricista.

O contrato entre a Telebrás e a Viasat, para operação do satélite SGDC, passa por turbulências da mesma ordem. A Telebrás afirma que não precisaria abrir uma concorrência para acrescentar um instrumento à sua atividade fim, que é prover serviços de telecomunicações. Se antes utilizava apenas antenas, agora utiliza satélites. E, com um satélite totalmente operado pela estatal, ela não precisaria abrir concorrência para operar seus próprios serviços.

Entre tantas invenções surpreendentes, é necessário que os governos se reinventem para assumirem novos papéis diante da sociedade. Antes que sejam criados aplicativos para concorrerem em eleições vindouras.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

QUEM CONFIA NO FACEBOOK?




Facebook e intimidade são duas palavras que não andam de bem nos últimos meses. Nas manchetes o choque traumático da rede social foi com a privacidade, que durante muito tempo foi sinônimo de intimidade. Até hoje há quem use uma pela outra.

Talvez tenha sido por conta desse tipo de confusão léxica que o Facebook resolveu lançar uma nova ferramenta, que vai marcar de maneira histórica a era digital. Trata-se de uma forma de proteger usuários de ameaças do tipo revenge porn, uma vingança, pra lá de antiética, entre casais separados. É quando um decide publicar imagens íntimas do outro, com o propósito de desmoralização.

Seria apenas maravilhoso se a ferramenta não dependesse de um altíssimo nível de confiança no Facebook, por parte do usuário. Antigone Davis, Chefe Global de Segurança da rede social, publicou nessa semana no perfil Facebook Safety os detalhes do novo serviço.

Tudo depende do envio das imagens íntimas para o Facebook. Isso mesmo, aquelas imagens da transa, ou o nude, as poses eróticas usando apenas algumas, ou nenhuma peça de roupa, precisam ser enviadas para a empresa de Zuckerberg. Primeiro é necessário mandar um e-mail explicando a situação. Na resposta do Facebook virá um link seguro e único, pelo qual o usuário vai subir as imagens que teme serem compartilhadas.

Um grupo de profissionais “especialmente preparados”, da Comunidade de Ações Seguras da empresa, vai analisar as imagens e criar hashes. São algoritmos que identificam aquelas imagens com base nos códigos digitais, sem precisar comparar com o arquivo completo. A função hash torna-se um sinal único de um arquivo qualquer, mais ou menos como a impressão digital ou outro dado biométrico de uma pessoa. O Facebook promete que, em uma semana, as imagens enviadas pelo usuário são apagadas dos servidores da empresa. E as hashes vão impedir qualquer tentativa de compartilhamento daquelas imagens tanto no Facebook, como no Instagram e no Messenger.

Por enquanto a ferramenta está disponível apenas para usuários da Austrália, Reino Unido e Canadá, além dos Estados Unidos. Se pegar, vai ser um forte argumento para o Facebook reafirmar a confiança dos usuários na empresa.


VIAGENS NO TEMPO E NA IMAGINAÇÃO


Essa é uma história carregada de símbolos. Ou signos, como diriam Saussure, Sanders Peirce, Chomsky e outros expoentes da Linguística.

Começa pela aplicação anunciada pelo Facebook para a ferramenta. Muitos outros tipos de arquivos, que não têm nada a ver com revenge porn, podem ser inconvenientes, se publicados. Mas foi citada como exemplo uma situação eloquente da intimidade de uma pessoa. A exposição do corpo é o símbolo mais antigo da intimidade no mundo civilizado. A rede social, acusada de descuido com a privacidade de seus usuários, quer posar de fiel depositária daquilo que cidadãs e cidadãos comuns têm de mais privado na vida.

Hoje, intimidade e privacidade são dois conceitos mais detalhados, justamente por conta do mundo virtual. Depois que ele tomou proporções mais significativas, comparado ao mundo real, nossos avatares cibernéticos passaram a ser a representação mais vulnerável da nossa existência. A qualquer hora, em qualquer lugar do mundo, podemos estar sendo investigados, sabe-se lá por quem. Algoritmos percorrem nossos caminhos, horários, preferências, gastos, prazeres, deveres, companhias. Associam tudo e tiram conclusões em frações de segundos.

Foi o que transformou o signo privacidade tão ou mais importante que o signo intimidade. Talvez seja essa memória de equivalência que o Facebook quer agora acessar no imaginário coletivo, para se mostrar confiável ao mercado.

Até o nome do Chefe Global de Segurança do Facebook é simbólico para o momento. Antigone remete ao personagem da tragédia grega, escrita por Sófocles. Seria uma das filhas de Édipo e Jocasta, marcada principalmente pelo seu senso de justiça, de respeito e bondade. Uma coincidência emblemática para o momento. Uma empresa que resolvesse escolher o Chefe de Segurança pelo nome, possivelmente escolheria alguém chamado Aquiles, talvez Perseu ou Hércules. Personagens associados à coragem e bravura, guerreiros capazes de defender, de dar segurança. Mas Antigone está mais para mártir da justiça, a cara que Zuckerberg está tentando impingir à sua empresa depois dos recentes escândalos.

Por fim, a ideia da ferramenta parece distanciar mais ainda os signos de intimidade e confiança. Por quê a namorada pediria ao namorado as cópias de todas as imagens que ele tiver dos momentos de intimidade do casal? Porque intimidade, hoje em dia, costuma chegar muito antes da confiança. Então é melhor ter a cópia, porque ela deve confiar mais no Facebook do que no namorado. Mais prático ainda seria não permitir que um fizesse fotos íntimas do outro. Cada um faz seus próprios nudes e manda para o outro, guardando o original para enviar ao Facebook, no caso de entreveros. Sinal dos tempos. E dos espaços digitais também.


UM FUTURO INCERTO


As redes sociais surgiram originalmente como meios, não como personagens. Tiveram sucesso estrondoso, a ponto de se tornarem notícias frequentes. O WhatsApp, mobile de nascimento, mais compacto e simplificado, deu mais ênfase às características de um meio para dinamizar contatos, chegando a oferecer até ferramenta de chamada de voz. E, com isso, acabou crescendo muito rápido, conquistando a preferência do público.

É justamente nesse momento que o Facebook, já proprietário do WhatsApp, parece enveredar para o perfil de personagem. Mais do que um meio para que redes se estabeleçam entre pessoas, parece querer ser um personagem de destaque em cada uma dessas redes. Alguém ou algo que se manifesta no dia do seu aniversário, que relembra momentos da sua vida no ano que está terminando. Quer ser um dos seus amigos, surpreender você.

Ao longo dessa curta história da Internet as redes sociais já passaram por vários modelos. O Facebook, por uma conjunção muito especial de interesses e oportunidades, tornou-se um dos mais prósperos negócios das últimas décadas. E agora sente a obrigação de se firmar, de manter a fama de uma fábrica de dinheiro. É o único, entre os grandes players do universo TI, baseado principalmente em frivolidades e tentativas do projeções de egos. É por aí onde manifestações impensadas, preconceitos e sentimentos ruins, muitas vezes ganham espaço e destaque.

Tudo isso, como outras experiências bombásticas da Internet, pode desaparecer do dia para a noite. Principalmente com o crescimento da Inteligência Artificial, que promete trazer para o mundo real, os nativos do mundo virtual.

É neste tabuleiro de xadrez onde uma das maiores empresas do mundo em faturamento tenta prever as próximas jogadas do adversário, no caso, o futuro. Isso faz prever que novos balões de ensaio devem surgir, para testar novas maneiras de manter o personagem Facebook cada vez mais presente na vida dos três bilhões de pessoas que, em algum tempo, já lhes deram as boas vindas.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

O SAMBA SAIU, PROCURANDO VOCÊ




Sabe aquela banda larga cara e “anêmica”, lenta, que carrega pouca coisa por vez? Então, isso pode deixar de ser a rotina dos internautas brasileiros em breve. As previsões de investimentos no Brasil, para provimento de conexões de alto desempenho por banda Ka, estão crescendo. E pelas mãos de empresas que estão chegando agora ao país.

Até o final do ano a Yahsat, estatal dos Emirados Árabes, estará lançando seus serviços no Brasil. O site da empresa para o mercado brasileiro anuncia cobertura para mais de 5 mil cidades, disponível para 97% dos domicílios. O apelo da empresa é a capacidade de levar Internet “para os lugares mais inimagináveis da Terra”. Não deve ter exagero na afirmação. Ela opera no Oriente Médio, África e parte do Sudoeste Asiático, além da Europa.

A Hughes também anuncia aumento da cobertura no Brasil para 5 mil cidades. Lembrando que o Brasil tem, ao todo, 5570 municípios. Por meio da HughesNet, ainda em 2018 promete disponibilizar cobertura para 90% da população. Para tanto vai contar com o sinal de mais um satélite, com lançamento previsto para os próximos meses.

Por fim, em muito pouco tempo deve ser possível contar com a cobertura do SGDC – Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação. A capacidade civil do satélite, também em banda Ka – que é muito mais barata para a operadora – vai ser comercializada pela Viasat, em parceria com a Telebrás. O contrato entre as duas empresas está suspenso pela Justiça, por conta de ações movidas por concorrentes da Viasat que já estão há tempo no Brasil. Eles questionam o fato de não terem sido chamados pela Telebrás para negociarem, como foi feito com a Viasat, até então sem operações por aqui. Mas a Telebrás, que realizou chamamento público no ano passado, sem receber nenhuma proposta de qualquer empresa, refuta esses argumentos.

Através da parceria com a Telebrás, a Viasat deve prover a infraestrutura em terra para receber o sinal do satélite. Isso implica na instalação de 50 mil estações VSAT, mais os equipamentos de banda-base e gateways. A operação e manutenção de toda essa estrutura estará sob responsabilidade da Viasat.

A chegada inesperada da Viasat ao Brasil, em condições competitivas extremamente favoráveis, é considerada por analistas como o fato propulsor dos investimentos de outras empresas do segmento por aqui.

PODE RIR AGORA?


E se a Justiça determinar o cancelamento do contrato Telebrás/Viasat? A hipótese parece cada vez mais remota. Primeiro porque o principal enigma da transação, que era o contrato de parceria, foi amplamente – embora não totalmente – aberto ao conhecimento público. Nesta semana a Telebrás publicou comunicado ao mercado, na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), onde o contrato com a Viasat é apresentado. Há tarjas cobrindo os detalhes sigilosos da negociação que, segundo a Telebrás, não estão na cópia enviada ao TCU – Tribunal de Contas da União, integramente aberta.

O atual presidente da estatal, Jarbas Valente, afirma que "é um absurdo alguém dizer que só a Viasat foi procurada". Segundo ele, houve conversas com outras empresas, e até propostas foram apresentadas. “Existem relatórios internos de cada uma destas conversas". Oito empresas teriam sido chamadas e três delas – incluindo a Viasat – apresentaram propostas. O que não houve foi aquele regateio, típico de armazém de café, apresentando as condições oferecidas por uma concorrente, para ver se a outra cobriria a proposta.

O site Teletime divulgou um estudo em que as condições do contrato Telebrás/Viasat foram comparadas com o Edital do Chamamento Público, realizado em outubro de 2017. Quatro pontos demonstram claramente que o contrato com a Viasat tem vantagens em relação às exigências do chamamento público. Além da confidencialidade de algumas cláusulas, que não eram aceitas pelo Edital.

No entanto, a Telebrás tem boas explicações, quando a discussão se dá pelo “juridiquez”, a língua dos advogados. Começa pelo fato de que jamais foi feita uma licitação ou um leilão da capacidade do SGDC, e sim um chamamento público. A diferença, de acordo com a Telebrás, é que o Edital fica totalmente desvinculado de algum contrato feito posteriormente.

Jarbas Valente cita um acórdão do TCU segundo o qual a comercialização de serviços de telecomunicações pela Telebrás estaria vinculada à lei das empresas de economia mista, uma vez que se trata da atividade fim da empresa. O Gerente de Serviços de Satélite da empresa, Bruno Henriques, foi além, dizendo que uma licitação para a capacidade do SGDC seria “como exigir do Banco do Brasil que faça uma licitação para conceder empréstimos, ou da Petrobrás que faça uma licitação para vender petróleo.”

Para a cúpula da Telebrás, logo de início, o contrato poderia ter sido feito por negociação individual e direta. Porém, em conversas com o TCU, teria sido considerado melhor começar pelo chamamento público, o que foi feito. Quanto aos termos do Edital do chamamento, Valente afirma que “... a gente colocou parâmetros sem saber quem viria, por isso tinha que ter precauções contra aventureiros. No processo de seleção privado a gente sabia com quem estava negociando, por isso as exigências podem ser diferentes".

Por fim, ainda restou provado que o contrato não coloca em risco o sigilo das operações na banda X do satélite, operada pelas Forças Armadas. Então, tá. Mas não dá para negar que a figura do tal “chamamento público” foi mais uma jabuticaba que brotou no quintal da Telebrás.

AFINAL, DE QUEM É O MUNDO?


Uma palavra permeia cada frase desse confuso episódio. É a esperteza. O que, em certa medida, é admissível quando se trata de negociações. Porém, nesse Brasil, já parcialmente lavado a jato, é difícil acreditar que tudo tenha sido feito exclusivamente em nome do interesse público. O risco é cair no outro extremo, inaceitável, que é a bobeira. 

Ao que parece, as empresas que aportam por aqui aprendem rapidinho as regras do jogo. E teria sido por aí que as potenciais operadoras do satélite optaram, prevendo um segundo capítulo mais dramático. O governo, que todo dia atira de lá de cima R$ 800 mil, por conta da ociosidade do SGDC, entraria no segundo ato em pânico. E as empresas iriam impor suas condições.

Deu mal! A Telebrás conta que, depois do chamamento vazio, procurou as 13 empresas que tinham retirado o edital, para saber onde a coisa pegou. Algumas nem deram respostas e outras, teriam apontado os pontos cruciais. Bruno Henriques afirma que, após estudo das respostas, chegou-se a conclusão de que seria impossível um edital capaz de atender às expectativas de todos, preservando as necessidades da Telebrás.

Em seguida, foi feita uma tomada de preços, que a estatal empilhou sobre os argumentos que colecionava para justificar a contratação direta. Agora o contrato com a Viasat está aí.

Na sequência, concorrentes internacionais tomaram fôlego para correr dentro de nossas fronteiras. Vamos ver o que o governo vai fazer, através dos órgãos competentes, para evitar que também esses novos concorrentes adiram ao “clube” dos fornecedores de serviços públicos. A propósito, em tempos de PLC 079, que pode acabar com as concessões na telefonia e manter apenas o regime de autorizações, caberia testar estratégias de negociação para qualificar a concorrência entre as empresas. Faz tempo que o consumidor desses serviços só sabe o que é apanhar.