sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O LIMITE DA HONESTIDADE

"Monja Coen"

Década de 70, século passado. Os amigos costumavam emprestar até dois livros durante a vida toda. Era o suficiente para se arrepender. Livro emprestado dificilmente volta e, nas raras exceções, costuma chegar estragado. Música, então!? Na época eram os discos de vinil, riscam à toa, voltavam estalando. As fitas K-7, tão pequenas, eram fáceis de sumir. Isso quando o cabeçote de um "tape" não mastigava meio metro de música. Então, melhor deixar aqui do meu lado, mesmo que não me sirva mais pra nada.

Será que é a era digital que está deixando as pessoas mais solidárias? Agora todos querem compartilhar os streamings musicais, literários e cinematográficos com os amigos. E dizem que egoístas são os detentores dos direitos autorais. Eles já fizeram de tudo para controlar as cópias, mas os bits são mais espertos. Não precisam mais do que um click para atravessar o mundo.

Eis que agora a família começa a ser considerada uma extensão legítima de cada individualidade. Pelo menos é o que os empreendedores digitais dizem. A Spotify, um serviço de streaming de música, aceita incluir até 4 membros da família num mesmo contrato. Desde que cada um dos quatro pague 50% do preço de um plano. Alguns vão argumentar que a família que baixa unida, permanece unida. Os mais realistas vão dizer que o objetivo verdadeiro é usar a precisão digital para tentar medir o limite da honestidade das pessoas. Na prática, sabe-se que muita gente compartilha a mesma senha do serviço de streaming. Com inconvenientes. Enquanto uma pessoa está baixando alguma coisa, não tem como outra acessar a mesma senha, por exemplo. A questão, portanto, passa a ser: -quanto vale a pena pagar para não ter o trabalho de burlar as regras digitais? Algum valor deve ser compensador para o cliente. Para a indústria do setor, com certeza.

A indústria digital tem uma particularidade surpreendente. Ela recriou a tese da "geração espontânea". Era nisso que acreditavam alguns estudiosos há séculos atrás: "deixe roupa suja e restos de alimentos num canto escuro e, com o tempo, vai perceber que ratos vão nascer ali." A indústria digital é assim, as coisas surgem do nada. Milhões de cópias surgem e são entregues em diferentes endereços do mundo em poucos minutos. E não se usa nenhuma matéria prima pra isso. Não precisa nem olhar para o cliente, nem responder alguma pergunta pessoal dele. A conversa fica limitada ao menu de opções que a empresa disponibiliza. Ah, sim, o dinheiro é o mesmo daquele antigo, a empresa recebe e usa onde quiser.

Essas facilidades todas para vender, tornam mais fáceis também a apropriação indevida dos bits. Muito fácil! E é aí onde questões morais entram em jogo. Quem afana um pacotinho de bolachas em um supermercado fica mal diante do conceito de muitas pessoas. Porque tem que dissimular, esconder, falsear. Mas quem baixa indevidamente um filme, que custa dez vezes o pacote de bolachas, fica numa boa. Ninguém viu, não precisou esconder nada. E ainda tem um argumento irrefutável: a distribuidora não perdeu nada, nem um grama de vinil, uma lasca de um CD. Só perdeu a oportunidade de ganhar mais dinheiro. No caso da Spotify é muito fácil perceber que o preço de venda não tem relação com o custo de produção, mas com as características de cada mercado. Nos Estados Unidos, a assinatura do serviço custa US$ 10,00. O equivalente pelo câmbio, no Brasil, seria superior a R$ 20,00. Mas aqui, o mesmo serviço custa R$ 14,90. Por que aqui seria mais barato do que nos Estados Unidos? Será que alguma matéria prima é mais barata por aqui? Possivelmente, isso acontece só porque lá o poder aquisitivo é maior, o cliente aguenta pagar mais, então a empresa pede mais pelo mesmo serviço.

Daí a coisa fica dividida assim: de um lado, as empresas querem saber quanto dá para ganhar em cima dos consumidores rebeldes, pelos bits que eles estão tentando baixar clandestinamente? Do outro, quanto eu aceitaria pagar para não ter o incômodo de inventar ou perguntar para alguém o que fazer para burlar as regras? No meio dessa discussão rola um discurso de culpa, de cidadania, de cultura e até de solidariedade, que não passa de uma chantagem moral por parte dos dois lados.

Esta discussão não está começando agora. Na verdade, existe desde que o mundo é mundo. Ser honesto não passa por um aplicativo que pode ser manipulado, mas é um único algoritmo, que faz parte do sistema operacional de todas as pessoas, tanto consumidores como empresários. A questão é aceitar manter o programa no modo auto start.

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