sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

COM QUANTOS PACOTES SE FAZ UMA BOA CRISE


Crise econômica é uma novidade para uma parte razoável do mercado de trabalho brasileiro. Mas, para essa turma que está se aposentando agora, tem até um gostinho de volta à rotina. É um pessoal acostumado a “pacotes econômicos”, panaceias fiscais ou financistas que se encaixam no sofisma “conjunto de medidas capazes de tirar o país da crise”. Isso era comum no Brasil há pouco mais de 20 anos.
Os gestores políticos nunca pensam em mudar a estrutura produtiva do país para resolver a crise, porque sabem que vai demorar muito. Porém, a história recente mostra que as mudanças estruturais podem trazer resultados consistentes em menos tempo, porquanto os remendos empacotados só mudam temporariamente as características de uma crise que nunca acaba.
O aumento da produtividade é uma das mudanças estruturais da qual não se pode escapar. Significa produzir mais com os mesmos recursos. Se o recurso Internet é importante para uma empresa, a produtividade tende a crescer se a velocidade de conexão for maior. E você conhece alguma empresa onde a Internet não tem nenhuma importância? Nesse mundo virtual o Brasil anda de carroça. Somos o 87º país do mundo em velocidade na rede, segundo o ranking global Akamai que avalia 242 países.

ISSO É DA SUA CONTA

De acordo com o levantamento da Akamai a velocidade média de conexão no Brasil é de 5,5 Mbps (Megabytes por segundo). A média mundial é maior, 6,3 Mbps. Mesmo aqui nas Américas, onde somos a segunda maior economia, ficamos em sexto lugar em velocidade na Internet. A velocidade média mais alta do mundo, pelo segundo ano seguido, é da Coréia do Sul, quase 5 vezes maior do que no Brasil. São 26,3 Mbps. Por aqui, conexões com mais de 10 Mbps são um privilégio restrito a menos de 15% da população.
E não é por falta de interesse. O último levantamento do IBGE tem dados de 2015 – olha só como se perde tempo – e mostra que o número de pessoas conectadas no Brasil, com mais de 10 anos de idade, já ultrapassou os 100 milhões. Se todo esse pessoal se comunicasse na metade do tempo, a produtividade da economia brasileira cresceria visivelmente. Mas, ao que parece, ninguém está preocupado com isso. Nem as teles, que são muito bem pagas pelos internautas e nem os órgãos oficiais responsáveis pela governança do sistema no Brasil.

O PODER SOBRE A REDE

E por falar em governança, teremos desafios sérios no próximo ano. No âmbito nacional as teles, empresas que operam a telefonia no Brasil, não parecem empenhadas em abrir mão do título de campeãs isoladas de reclamações de clientes. Entopem os registros do Procon, dos tribunais de pequenas causas, de grandes causas e de recursos administrativos.
Isso já seria um sinal nada discreto de que a governança do setor pela agência responsável – a Anatel – é precária. Nem por isso deixamos de assistir aos nossos parlamentares, em nível federal, dando de ombros para a situação. Nos intervalos de discursos sobre a gravidade da crise, desceram da tribuna para tentar aprovar um “pacote de bondades” para as operadoras. Coisas como cancelamento de multas por má conduta, que somam mais de bilhão de reais, doação de redes físicas e outras coisas “básicas”, que você pagou com o suor e com o nariz de palhaço do seu rosto.
No nível internacional, em relação à Internet, há uma preocupação com o que pode acontecer na alternância política americana. Desde outubro passado a gestão técnica da internet está mais distante do governo dos Estados Unidos. Depois da abertura da “grande rede” para o mundo civil a Autoridade para Atribuição de Números da Internet – IANA, na sigla em inglês, passou a ter um contrato com o ICANN, um tipo de estatal do governo americano para tratar de endereços na Internet, dentre outras coisas.
A criação da ICANN fez parte das providências dos Estados Unidos para expansão da rede pelo mundo. E previa essa transferência de poderes para 2018. Com o caso Snowden, Barack Obama sofreu forte pressão para antecipar essa desvinculação, como prova de que a privacidade na Internet era real. E isso ficou definido em primeiro de outubro, com o encerramento do contrato entre a ICANN e a IANA.
Os republicanos, que venceram as eleições com Donald Trump, sempre foram contra essa antecipação e tentaram, de várias formas, impedir que acontecesse. Já aconteceu, mas eles vão entrar na “cabine de comando” em menos de um mês.
Não é de todo impossível que o próprio Snowden, que está foragido dos tribunais americanos na Rússia, seja um presente de posse a Trump, fã confesso e amigo do mandatário russo. Quando se trata de governar, o novo presidente dos Estados Unidos parece não gostar de abrir mão de nada.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

TRINCHEIRAS E DIPLOMACIA EM BUSCA DE JUSTIÇA


O gigante Golias nunca quis conversa com o jovem Davi. Mas hoje, num mundo que já viveu tantas lições e transformações, seria mais provável encontrar os dois trocando ideias num almoço de negócios. Foi mais ou menos isso que se viu no último Painel Telebrasil, ao final de novembro. As teles (operadoras de telefonia) falaram dos OTTs (serviço “over the top”, tipo Netflix) como potenciais parceiros, que estão explorando um segmento do mercado. Há dois anos, um só pronunciava o nome do outro para reclamar nos órgãos oficiais.
O assunto é particularmente interessante porque esses serviços têm afinidades tecnológicas muito fortes, mas modelos de negócio muito diferentes. A telefonia talvez tenha sido o primeiro grande segmento empresarial a migrar “em massa” para a tecnologia digital. Com as centrais telefônicas de processamento as teles reduziram o espaço de suas instalações em pelo menos 10 vezes. Os custos de operação caíram drasticamente, como também os de manutenção. O público, que à época não sabia sobre a economia que a digitalização representa, pouco exigiu alguma redução tarifaria. No caso da telefonia móvel, o mesmo enredo, em menos tempo.
As teles se acostumaram a ganhar muito, com risco baixíssimo. O investimento alto era mais destinado à infraestrutura. Foi o que abriu caminho para se tornarem as maiores provedoras de banda larga no Brasil. Elas construíram os maiores e mais importantes tentáculos da Internet, viabilizando o surgimento de um mundo virtual, o futuro que chegou depois do digital.

MAIS PRÓXIMO DA REALIDADE

No Painel Telebrasil representantes das grandes do setor encerraram a fase do “faz de conta que eu não entendi”. Deixaram de lado aquele discurso ingênuo, onde as referências do mundo real eram as bases de comparação com o virtual. Eduardo Navarro, Presidente da Telefônica no Brasil, comparou a disputa Teles X Internet ao que os taxistas estão vivendo com a chegada do Uber, ou ao que os hoteleiros estão sentindo a partir da chegada do Airbnb. Para o executivo, trata-se de um fenômeno que está afetando a todos. Alguns segmentos já foram atingidos em cheio, outros ainda não, mas é uma questão de tempo. Um discurso em tom de paz, porém, com sutil ameaça subjacente. Por exemplo, quando as teles lembram a necessidade das redes físicas, que elas mantêm, e que são indispensáveis para a Internet trafegar e existir.
O Vice-presidente de Vendas da Nokia, Luiz Tonisi, chegou mais claramente ao que ainda parece ser uma convicção das operadoras. Ele acha que as teles precisam ficar com parte dos lucros dos serviços OTTs. Nada mal para uma indústria que tem vínculos simbióticos com as grandes da telefonia. Afinal, elas são as principais vendedoras de celulares, como os que a Nokia fabrica.
Deve ser mesmo difícil, para quem se acostumou a ganhar tanto, ter que olhar para seus documentos constitutivos e confirmar a natureza do seu negócio: provimento de sinais eletromagnéticos. Se os produtos decorrentes agora são menos rentáveis, ou preferem crescer num outro mundo, é porque a evolução da sociedade humana está fazendo assim.

DEVER E HAVER NUM ÚNICO BALANÇO

Essa disputa, que parece estar passando por um cessar fogo temporário, tem pelo menos dois pontos muito claros. O primeiro diz respeito a alguns sofismas que as operadoras de telefonia sustentam há tempo, como “acesso ilimitado” e altas velocidades de transferência. Os hábitos mais comuns de navegação na Internet, no passado, demandavam muito pouco acesso, até que o Netflix chegou. Para quem vende conexão, a saída seria acabar com o “ilimitado” e passar a vender mais tempo de conexão. A velocidade, que nunca chegou perto do que o consumidor paga, deveria finalmente passar a ser entregue honestamente. Quanto aos outros negócios que elas penduraram em suas redes, para otimizar a infraestrutura, não são problemas do consumidor. Mas não foi assim que as operadoras se acostumaram. E agora executivos dessas empresas vão ter que convencer os acionistas de que as coisas não são mais como antes.
O segundo ponto a ser considerando é a necessidade de isonomia entre os agentes do mercado. Isso precisa ser dito em favor das teles. A Internet ainda não existe para os códigos tributários e se isso não for resolvido, o mundo real pode ter sérias consequências. No ritmo em que os negócios estão migrando para a Internet, em breve muito pouca gente vai pagar imposto.
As empresas baseadas em plataformas OTTs pagam apenas o ISSQN, imposto municipal que chega, no máximo, à alíquota de 5%. Os serviços de TV por assinatura, como os que as teles operam, além do ISSQN pagam o ICMS, estadual, normalmente acima de 20%. Sem contar outras taxas, como a Condecine. Há ainda muitas outras responsabilidades, fora do contexto fiscal, que não recaem sobre os serviços OTT.
Sem corrigir essa discrepância de tratamento numa mesma sociedade, vai ser difícil esperar que agentes econômicos se conformem com a inexorável seleção natural dentro dos mercados.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

AS PROVAS DE FOGO DA INOVAÇÃO


Inventar uma coisa é uma coisa. Inventar um grande negócio com aquela coisa, é outra coisa. A maioria das pessoas ainda não atentou para essa diferença e acredita que um grande invento é o ponto final de uma história de riqueza. A própria história é cheia de exemplos contrários, alguns bem curiosos.
Imagine um filme de época, ambientado nas Minas Gerais, nos tempos da Inconfidência. O poeta revolucionário Tomás Antônio Gonzaga está a declamar seus versos à Maria Doroteia Joaquina de Seixas, sua amada. Ao final, em pleno clímax do romance, ele a convida para tomar um refrigerante. Pois é, você iria achar que virou piada, mas nos tempos de “Marília e Dirceu”, já havia sido inventado o refrigerante. Mais exatamente em 1772, quando o químico inglês Joseph Priestley desenvolveu uma forma de gaseificar a água e fez o primeiro refrigerante.
Só cerca de 100 anos mais tarde é que surgiu a primeira indústria de refrigerantes. Então virou um grande negócio, com sede nos Estados Unidos. Durante esse tempo todo a bebida era produzida apenas artesanalmente, por farmacêuticos, que eram hábeis com a química. Depois da primeira indústria as coisas foram bem mais rápidas. Quinze anos mais tarde foi inventada a Coca Cola. Mais 7 anos e surge a Pepsi. Daí, com duas gigantes brigando, já viu. O negócio se internacionalizou e está aí até hoje.
Na Tecnologia da Informação não é diferente. O intervalo entre a invenção e o negócio é bem menor, afinal o relógio corre muito mais rápido quando tem bits pelo meio. Mas a sequência de fatos parece manter o protocolo de sempre.

INVESTINDO PESADO POR UM LUGAR AO SOL

O caso em questão é a indústria do VOD – Vídeo on Demand, um negócio que surgiu numa vídeo locadora americana, há cerca de 10 anos. O dono resolveu enviar pela Internet tudo que os clientes queriam ver e assim surgiu o Netflix. Só no Brasil, onde chegou em 2011, já são mais de 6 milhões de assinantes. Por enquanto, perde apenas para a NET, a maior e mais tradicional TV a cabo do país, que tem 7 milhões de clientes. O faturamento do Netflix no Brasil já passa de R$ 1,2 bilhão por ano, mais do que algumas das grandes redes nacionais de TV aberta.
Por aí já daria pra afirmar que a invenção foi boa e o negócio muito bem resolvido. Mas a prova definitiva de que esta inovação veio pra ficar foi a entrada de uma gigante da Internet no mercado VOD, com um grande investimento e uma estratégia de vendas agressiva. É o Amazon Prime Vídeo, que traz no nome uma grife de peso do e-commerce internacional. A base operacional recém montada é para atender todo o atual mercado do Netflix, o que soma mais de 200 países, com um total de 40 milhões de assinantes, sem contar os Estados Unidos. E mais, o preço de lançamento da assinatura mensal da Amazon é de US$ 2,99, menos de R$ 10,00 no câmbio atual e cerca de metade da assinatura do Netflix.
Está muito claro que a Amazon tem planos ambiciosos para o mercado VOD e está disposta a bater de frente com o Netflix e outros concorrentes menores.

DOMÍNIO DE PONTA A PONTA

De certa forma, o que se vê nessa disputa pode ser interpretado como um passo histórico no negócio do tipo TV. Ela chegou aos lares do mundo todo, em princípio, como exibição doméstica das produções do cinema. Com o tempo surgiram os programas jornalísticos, transmissões esportivas, o entretenimento – desde os auditórios até os shows especiais – e outras experiências menos duradouras. O cabo rompeu os limites de alcance via espectro eletromagnético e agora, com o VOD, parecem ter caído por terra todos os limites anteriores.
A distribuição de conteúdo no modelo OTT, voando pela Internet, não exige manter infraestrutura de telecomunicações. Pela forma de comercialização e pelo modelo de negócio inusitado, o VOD também não pode ser encaixado em faixas tributárias. São indicadores de que muita gente vai acabar entrando nesse mercado, materializando o fantasma que ameaça a TV por assinatura.
A disputa vai acontecer, mesmo, na geração de conteúdo. Um passo muito acertado do Netflix ao inventar o modelo. As séries e produções exclusivas são diferenciais que vão determinar quem vai se manter no mercado ao longo do tempo. Lembrando que o Netflix surgiu de uma vídeo-locadora, que é uma das pontas dessa cadeia econômica, é importante notar que agora ele se firma no outro extremo, onde é produzido o conteúdo. E com o nível de qualidade top da indústria cinematográfica.
Pois bem, estúdios de Hollywood que se cuidem. O VOD via OTT está verticalizando toda a estrutura, da produção à entrega domiciliar do conteúdo. Mais do que isso, a entrega é pessoal, uma vez que a exibição pode acontecer em dispositivos móveis.
Não é o caso de dizer que as salas de cinema vão desaparecer, porque continuam agradando enquanto evento público, uma oportunidade de convivência social. Mas o grande peso dos investimentos em produções sofisticadas está ganhando players que conhecem mais de perto o mercado insaciável de consumo de vídeo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

PODER E ÉTICA NO USO DA TECNOLOGIA


“Desarmado e perigoso”! Se não for o MacGyver, personagem da lendária série de ação e aventura da TV, só pode ser um policial londrino. A tradição da Scotland Yard, de não usar armas de fogo no policiamento metropolitano de Londres, exigiu do efetivo atributos pessoais e alguns acessórios capazes de intimidar malfeitores. No caso dos acessórios, o mais recente é a câmera de vídeo. Isso mesmo, o que deveria ser equipamento para determinados níveis de oficiais, agora faz parte do uniforme de toda a corporação.
Durante o período de um ano em que foram testadas, as câmeras demonstraram quase um “poder de fogo” no policiamento. Num país onde as leis são levadas mais a sério, alguém que se proponha a transgredir vai pensar mais antes de se expor a provas incontestáveis de som e imagem. Não dá para arriscar na criatividade e contrapor a própria palavra contra a dos policiais, diante do juiz. A verdade ou não sobre eventuais abusos de poder dos policiais também preocupa menos, uma vez que caíram em 90% as reclamações desse tipo depois das câmeras.
Todo o efetivo que faz o policiamento de rua, ou seja, cerca de 22 mil policiais, agora são olhos atentos e programáveis de toda a polícia. Com essas novas câmeras em Londres, agora são mais de 7 milhões de câmeras, entre fixas e móveis, por toda a Inglaterra. É quase uma câmera para cada 10 habitantes. Uma verdadeira nuvem de câmeras sobre o reino de Elisabeth.

GRAVAR NÃO É NADA, PERTO DE GERENCIAR AS INFORMAÇÕES

No jargão tecnológico, é exatamente uma nuvem de câmeras, pelo menos em Londres. Só um sistema do tipo Cloud Computing seria capaz de viabilizar e dar efetividade a esse tipo de vigilância. A quantidade de informação que 22 mil câmeras geram por hora, dos mais diversos pontos de uma metrópole como a capital inglesa, é algo colossal. Quanto maior a capacidade de gestão dessas informações, mais eficiente será a segurança.
Em princípio, as imagens podem ser usadas para comprovar delitos e o correto procedimento dos policiais. Elas ficam arquivadas por 30 dias, podendo ser descartadas depois desse prazo. Porém, numa determinada emergência, uma plataforma desse tipo – como a EiTV CLOUD – pode selecionar as câmeras de todos os policiais que estejam próximos ao local. A vigilância passa a ter uma abrangência maior do que a atenção do policial que está presente. Por questões estratégicas, possivelmente as corporações policiais que adotam câmeras não divulguem todo o potencial do sistema. Mas até o escaneamento de imagens de objetos e pessoas poderá ser utilizado para identificação de ameaças.
Policiais americanos, em determinadas regiões, também já utilizam câmeras pessoais automáticas. As vantagens que esse recurso vem comprovando vão fazer com que, em pouco tempo, polícias do mundo inteiro também adotem. Logo, logo chega por aqui. E, se usado com competência, o sistema vai fazer funcionar a nuvem de tempo bom nas grandes cidades brasileiras.

UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA

Como nada que aqui se inventa é tão perfeito, o poder de vigilância desses sistemas está sendo questionado pela invasão que representa à privacidade dos cidadãos. Na medida em que aumenta a capacidade de interação dos vários bancos de dados posicionados nas nuvens computacionais, uma pessoa pode ter todos os seus passos vigiados.
As leis já começam a estabelecer limites e, com certeza, vão exigir configurações compatíveis nesses sistemas. O uso de alguns recursos como, por exemplo, rastrear a presença de determinada pessoa, só poderá ser autorizado por oficiais de alta patente. Mesmo assim, mediante justificativa documentada em relatório.
Por outro lado, tratando de forma anônima os transeuntes, esses dados podem contribuir para outros setores, como mobilidade urbana, geração de lixo, informações meteorológicas.
A tecnologia está gerando mais e mais poderes. E, em geral, poderes podem ser usados para o bem ou para o mal. Na medida em que o uso indevido vá sendo identificado, cabe aos desenvolvedores criar ferramentas eficazes de controle. Isso deve tornar a ética um atributo cada vez valorizado entre os profissionais da área.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

OS HERÓIS E A CHANCE DE OVERDOSE


O que é, o que é? Serviço de uso pessoal que em um ano, no Brasil, teve mais de 29 milhões de contratos rescindidos. Se você disse “linha de telefone celular” você acertou (ou quase!). Muitos até pensaram nisso, mas devem ter mudado de ideia porque, até há pouco tempo, a quantidade de linhas de celular só aumentava. Cair tanto assim, em tão pouco tempo, parece impossível. Mas caiu. É mais uma lei da natureza que se impõe sobre a força da tecnologia e os poderes do mercado. Foram mais de 29 milhões de linhas desativadas. O “quase” é porque as linhas desativadas eram pré-pagas. As pós pagas cresceram em 5,87% no mesmo período, uma boa taxa, mas que não consegue superar, nem de longe, os 14,3% de redução nas “pré”.
Um mergulho em alguns números desse mercado vai ajudar no raciocínio: depois desses 29 milhões de linhas desativadas, sobraram no Brasil cerca de 175 milhões de linhas pré-pagas. Representam praticamente 70% da telefonia móvel no país, sendo que os 30% restante são celulares pós-pagos. No total, são 251 milhões de linhas ativas. Considerando que o Brasil tem cerca de 210 milhões de habitantes – lembrando dos bebês, crianças abaixo da idade escolar, pessoas muito idosas e outros que não fazem parte do mercado – ainda é muita linha para as pipas das operadoras.
O fato é que a tendência continua sendo de queda. Um viés que se estabeleceu há quase um ano, quando o país caminhava para 280 milhões de linhas ativas. Até então, o saldo mensal só crescia. Os agentes desse setor já detectaram alguns motivos para o que está acontecendo a partir de então.

SE O CRITÉRIO É A ESPERTEZA, ATENÇÃO REDOBRADA

Hoje a crise tem um pouco a ver com tudo, aparece até em horóscopo. A situação das operadoras não é diferente. Elas pagam, entre outros, um tributo anual por linha ativa. Diante do aperto decidiram cancelar de uma vez várias linhas que quase nunca acrescentavam crédito, só recebiam chamadas. Só não pode esquecer que a situação foi criada a partir das estratégias das próprias empresas do setor, que mudavam sempre a relação com o consumidor.
Houve um tempo em que a oferta da vez era falar de graça entre linhas da mesma operadora. Talvez a aposta fosse que o assinante tentasse convencer os amigos a mudarem de operadora, divulgando vantagens oferecidas. Só que, na prática, o usuário pré-pago se virou comprando chips de outras operadoras, para trocar no aparelho, de acordo com o interlocutor a ser chamado. Apareceu até um monte de modelos de celulares com suporte para mais de um chip. Isso fez com que 90% das ligações passassem a ser entre linhas da mesma operadora.
A “barbada” agora são os “planos com minutos para outras operadoras”, o que tornou desnecessários tantos chips. Outro fator de redução de linhas pré-pagas são os chamados planos controle, onde o pacote de dados – o acesso à Internet – fica mais barato. Pronto! Taí o WhatsApp e a gangue toda de aplicativos para chamadas de voz via Internet, sem pagamento de impulsos. É assim que o assinante múltiplo está acabando, descartando chips inúteis e reduzindo o total de linhas ativas. E é assim que os caros impulsos da telefonia móvel estão diminuindo. O que você acha que faltou na estratégia das operadoras? Há controvérsias.

A QUALIDADE FIDELIZA OS CLIENTES

Um negócio transnacional, de alta tecnologia, que movimenta bilhões de cifrões diariamente. Não poderia ser algo tão simples de ser analisado, sobre o qual haveriam conclusões fáceis e evidentes. Porém, partindo-se do histórico brasileiro no setor, fica menos difícil conjeturar.
Telefonia, fixa e móvel, era um monopólio governamental no Brasil que precisaria ser privatizado. Assim foi, transferindo-se monopólios para empresas privadas. Uma insensatez! Começaram por reduzir custos, descartando aqueles empregados “chatos, cheios de protocolos técnicos”, que só impunham custos à empresa. As tarifas altas, que vislumbravam uma redução no ambiente de mercado, acabaram por ser majoradas. Afinal, se quiser, é isso. Se não quiser, também é só isso, não existia concorrência. E o consumidor cada vez mais acostumado a pagar caro por um serviço de baixa qualidade.
Foi nesse ambiente onde, depois de alguns anos, passou a haver concorrência. O preço se tornou o único critério de disputa, uma vez que a má qualidade já fazia parte da “cultura” desse serviço no Brasil. Os governos, em seus respectivos níveis, alucinados com o oportunismo tributário, coonestaram a estratégia de crescimento a qualquer preço, reduzindo custos em detrimento da qualidade dos serviços. Estão aí os Procons, Brasil afora, para comprovar.
Agora, com o calo apertado, as “teles” – é o apelido das operadoras – se voltam contra a tributação. Dizem que o custo do serviço que oferecem está entre os mais baixos do mundo, e é o imposto que aumenta tanto o preço final para o consumidor. O baixo nível de qualidade com certeza leva a crer que o custo dos serviços é mesmo baixo. Mas dizer que apenas os impostos encarecem é um contrassenso.
A UIT – União Internacional de Telecomunicações já apontou que a tarifa da telefonia móvel no Brasil está entre as mais caras do mundo. O órgão que representa as teles contesta, dizendo que a variedade de opções de plano oferece um preço médio nacional muito menor. Porém, não contam as trapalhadas que fazem nas contas telefônicas a partir dessa profusão de planos complicados. Mais uma vez, os Procons que o digam.
Operadoras confiáveis, oferecendo serviços de qualidade, com tarifação simples e preços justos, possivelmente fidelizariam muitos clientes e estariam mais tranquilas nesses tempos difíceis.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

SE QUISER, PODE CHAMAR DE CRISE


Pensa numa crise! Pois é, o segundo trimestre deste ano apresentou o pior resultado financeiro trimestral desde 1999. Estamos falando do mercado brasileiro de TI, que atingiu essa situação “trágica” ao crescer apenas 2,7%. Isso mesmo, cresceu, mas muito pouco para os padrões deste mercado. A pesquisa realizada pela Advance Consulting, no entanto, não traz apenas más notícias. No terceiro trimestre, o crescimento já saltou para 4,6%, em comparação com o mesmo período do ano passado.
Taí um setor que desafia até a lei da oferta e procura. Se comparar com as indústrias mais convencionais, como a de petróleo por exemplo, elas têm uma expectativa em torno do quanto pode crescer a demanda de um ano para outro, se vai ser necessário investir mais, ou menos. De certa forma, todos os bens disponíveis podem ser objeto de projeções desse tipo para planejamento dos negócios. Até que um dia uma inovação elimine a necessidade daquele produto, como aconteceu com as máquinas de escrever, com os carburadores de motores a explosão, com as centrais de recados via “bip”. Por sinal, todos eles superados por soluções de TI, dentre muitos outros.
O setor de TI, se é que tem uma matéria prima, só pode ser o bit. Nesse caso, a oferta é infinita. Quanto à demanda é impossível estimar, porque ninguém sabia que precisava tanto de LinkedIn, para citar um dos casos. É uma indústria onde a gente pensa que transforma algo, mas é ela que nos transforma, muito rapidamente. Por isso os modelos de negócios que envolvem esses produtos são diferentes, às vezes invertidos porque quem paga não é quem usa, ou ninguém paga nada, e por aí vai. Ela estabelece até parte do perfil das nações.

PONTO FINAL OU APENAS DE PASSAGEM

O segundo trimestre de 2016 teve outra marca negativa “história”, uma vez que no mundo da Tecnologia da Informação a história muda em muito pouco tempo. Também foi o primeiro, desde 1999, a registrar um percentual de empresas demitindo maior do que o percentual de empresas contratando. No trimestre seguinte, como já vimos, o resultado financeiro se recuperou. Mas a tendência de demissões continuou crescendo. E é aí onde se vê como essa indústria estabelece alguns perfis diferentes. O Brasil ainda é um país com perfil mais de revenda do que de produção de soluções. Por isso, os rumos que os produtores apontam, podem exigir profissionais com perfis diferentes. Ou podem ser comercializados mais diretamente, sem passar por revendas, como indicam algumas tendências.
Outra característica muito acentuada da indústria de TI fica evidente na pesquisa da Advance Consulting. A média de crescimento de 5,7% no resultado financeiro, observado em determinado período, levou em conta quedas superiores a 30%, registradas em 17% das empresas pesquisadas. Não foram poucas. Porém, do outro lado, 9% das empresas da amostragem tiveram crescimento acima de 30%. A comparação teve por base o período de janeiro a outubro, de 2016 sobre 2015. Essa lógica deve incluir o fato de que novas soluções têm o poder de arrasar, da noite para o dia, os bons negócios no mercado de TI e vice-versa.
Mesmo diante de tanta imprevisibilidade, as perspectivas de crescimento e de reação às dificuldades ficaram favoráveis a quem mais investiu em planejamento estratégico. É com base nesse esforço que se constrói uma carteira de ofertas mais competitiva. Para o próximo ano, a tendência de crescimento continuará favorecendo empresas de consultoria em TI e, principalmente, fornecedoras de produtos e serviços de computação em nuvem.

NUVENS, SINAL DE TEMPO BOM

Aqui neste nosso mundo as nuvens ficam lá em cima, vão pra lá e pra cá, formando bichinhos ou caretas. Elas carregam a ideia de “endereço indeterminado”, volume flexível, movimento constante. Por isso o nome cloud deve ter servido de referência lá no outro mundo, o digital, ou da Internet. Na prática, as nuvens digitais, acessíveis de qualquer ponto do planeta, fazem a alegria de mais e mais setores empresariais. E, ao mesmo tempo, propiciam um ganho brutal de energia na distribuição de conteúdos, no compartilhamento de soluções, de informações.
A EiTV CLOUD é uma solução “da casa” para gerir conteúdos de vídeo na nuvem. A escolha do vídeo vem do expertise da empresa nesse tipo de conteúdo e, principalmente, do potencial que o audiovisual oferece para todas as atividades empresariais – e até mesmo pessoais.
O marketing de qualquer empresa pode utilizar vídeo para vender ou para promover a qualidade de seus produtos. O treinamento então, nem se fala. Setores de desenvolvimento, de pós-venda, também encontram no vídeo uma ferramenta poderosa. A dificuldade era fazer chegar no endereço certo, na hora certa, com a configuração específica para cada grupo, com possibilidade de interatividade. Em tempos de dispositivos móveis, faltava apenas um meio para gerir tudo isso. É a EiTV CLOUD.
A experiência vivida nesses últimos anos com produtos e serviços de cloud computing faz da EiTV uma testemunha a mais para avalizar os dados da pesquisa em questão. O presente e o futuro estão nas nuvens.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O APAGÃO EM BRASÍLIA


Quer dizer que, a partir de agora, quem quiser assistir à TV em Brasília ou em outros nove municípios do entorno, só conseguirá usando um aparelho com sinal digital. Precisa explicar logo porque, nesses nossos dias, falar em “apagão em Brasília” pode virar uma grande confusão. O termo apagão foi quase um palavrão que inventaram em 2001, quando o Governo Fernando Henrique anunciou que a energia elétrica produzida no país não era suficiente para atender a todos. Uma desmoralização que pode ter sido decisiva na eleição do ano seguinte, vencida pela oposição, com Lula.
O apagão de agora, ao contrário da concepção inicial do termo, é uma coisa boa. Significa que a população daquela região do Brasil tem o melhor sistema de TV aberta do mundo. E que, as frequências ocupadas por sinais analógicos de TV vão servir para a expansão da telefonia móvel.
Fica a dica para os adeptos do “turismo de protesto”. Quem for a Brasília, numa dessas excursões que acaba em acampamento em frente a prédios públicos, nem adianta levar aqueles televisores com tela 3 x 4, de 5 polegadas, porque não vai pegar nada. Em alguns anos, corre o risco de entrar na frequência de alguma operadora. Não vai decodificar nada. Mas já pensou se confundem com um grampo?
O apagão em Brasília encerrou o sinal analógico de TV que chegava a 1,26 milhão de domicílios naquela região. O sinal das 13 geradoras locais, que é distribuído por 25 canais, agora só vai ao ar com a tecnologia digital.

UM SIGNIFICADO ESPECIAL

Essa mudança, ao acontecer em Brasília, tem sim uma força simbólica. Principalmente nesse momento da História nacional, em que a programação da TV inclui prisões de ex-governadores. O sinal digital representa mais um passo em direção a uma grande mudança que vai acontecer no país todo e que tem poucas chances de um escândalo envolvendo dinheiro público. Porque, além da nova tecnologia que vai para o ar, no Brasil a TV digital trouxe também uma nova tecnologia de gestão.
A principal característica desse novo modelo de gestão foi a posição de mobilizador que coube ao Governo Federal. As ações ficaram por conta de agentes privados de toda a cadeia de geração de valor, articulados entre si. Emissoras, fabricantes de televisores, de equipamentos de transmissão, produtores de softwares e o mundo acadêmico participaram ativamente de todo o processo. Hoje está confirmado que a escolha do padrão japonês, otimizado com tecnologia brasileira, foi um grande acerto. Aliás, foi o primeiro entre muitos acertos. A criação do Fórum SBTVD, onde os agentes dos vários segmentos se encaram para discutir todas as questões, deu transparência ao processo. Cada representante sabe que vai ter que defender seus pontos de vista diante de todos os outros interessados. E que vai ser difícil ignorar os argumentos técnicos.
Tudo bem, houve vários atrasos nas fases de implantação e vai haver outros. Tentou-se voltar atrás em algumas decisões. Mas o principal é que as coisas acabam acontecendo do jeito que tem que ser. A possibilidade de algum escândalo com dinheiro público é pequena por falta de alguns requisitos chave. Afinal, as decisões são transparentes e o dinheiro público quase não entrou nessa transição. A liberação das antigas faixas de frequência para as operadoras móveis é um caso emblemático. O modelo para antecipação, então apresentado pelo Governo, fez com que as compensações para as famílias de baixa renda acontecessem diretamente das empresas para os beneficiários, sem interferência do Poder Público.

MAIS ACERTOS DO QUE ERROS

Dentre as falhas a serem citadas no caso de Brasília, ainda não foram entregues 63 mil conversores digitais para famílias de baixa renda. Mas a boa notícia é que mais de 310 mil já chegaram aos inscritos em programas sociais. A promessa é atender os quase 400 mil beneficiários até o final do ano.
Uma forma bem sucedida, para uma finalidade muito vantajosa. Ao final desse processo de transição, a tecnologia digital de TV vai disponibilizar som e imagem de alta definição, sem interferências, para a grande maioria dos brasileiros. Para aqueles que moram em regiões mais isoladas, o upgrade da TV vai depender de outras mudanças.
Enquanto isso, a maior parte do Brasil vai contar ainda com uma plataforma de comunicação muito eficiente, integrada ao mesmo sistema de transmissão do sinal de TV. É a plataforma Ginga, capaz de distribuir serviços públicos e privados gratuitamente, ou sob demanda, através de qualquer televisor comum. O telespectador vai poder interagir, manifestar opiniões e tomar decisões, tudo através do controle remoto do televisor. No Brasil, este será o grande diferencial da TV digital, com potencial de exportação para muitos outros países, que adotaram o sistema nipo-brasileiro.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

UM OUTRO JEITO DE ENTENDER A INOVAÇÃO


Quem inventa as coisas é... o consumidor. Inventor, portanto, é o nome que se dá a quem melhor interpreta o que consumidores manifestam através de suas “assembleias”, ocorridas diariamente em inúmeros locais de uma instituição chamada mercado.
Vide o caso das sandálias Havaianas. Foram criadas para ser o calçado mais banal do mundo, a própria identidade do “pé de chinelo”. Era aquela borracha colorida, recortada no contorno do pé, com uma superfície branca (onde logo ficava carimbado o pisão do usuário). Ter uma pele calejada na sola dos pés era o mínimo necessário para calçar uma "chulapa" daquelas que caminhavam diretamente no chão do sítio.
Depois ganhou estilo, virou “biquíni de pé”. O povão consumidor percebeu que o colorido da borracha era mais bonito e inverteu as tiras, virou a sola para cima. O fabricante entendeu o novo recado e hoje as Havaianas são exportadas com estampas, lacinhos, frescuras.
E a televisão? Começou com o povão das cavernas, produzindo imagens rupestres. Com o tempo ficou mal riscar a parede, inventaram a tela para produzir imagens, desenhando ou pintando o ambiente, as pessoas. Depois do pincel veio a fotografia, desenhada pela própria luz, num papel com uma geleia química. Muitas fotografias seguidas e veio o cinema, até que o escocês John Logie Baird usasse as ondas do rádio para transmitir imagens, dando origem à máquina chamada televisão.
É assim mesmo, vai mudando, evoluindo. Até o homem já foi macaco um dia.

É TELA, MAS PODE NEM SER TV

A visão evolucionista explica só um lado da natureza. Há vários outros. A economia, por exemplo, explica tudo com “modelos de negócios”. Para eles, talvez o cinema tenha surgido com uma tela grande, numa sala repleta de cadeiras, porque era o jeito de pagar o negócio, de vender tanto aquele entretenimento. A televisão, para pagar a conta teve que intercalar o conteúdo com anúncios. E o smartphone usa os dois: exibe anúncio e cobra ingresso, não pra entrar na sala, mas na frequência.
Veja o caso do Globo Play, o aplicativo da TV Globo para oferecer conteúdos através de uma plataforma digital, paga em parte por anúncios – gratuita para o usuário – e outra parte paga pelo usuário. Na semana passada completou um ano do lançamento do aplicativo. Mas, para esse tipo de plataforma, um ano não são apenas 12 meses. No primeiro ano do Globo Play foram 12 mil anos de consumo de vídeo, ou seja, 6,3 bilhões de minutos. É só imaginar quantos minutos cada um dos 14 milhões de usuários mensais (em média) consumiu com cada capítulo de novela que baixou. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Minas Gerais o aplicativo oferece a programação ao vivo. Pode ser assistido pelo smartphone, tablet, notebook, desktop ou por uma smart TV, esta última, a grande meta para a plataforma. Um fabricante de televisores já está lançando no Brasil um modelo smart que tem, no controle remoto, um botão para o Globo Play. O aplicativo oferece até imagens em 4K HDR, um luxo que só pode ser percebido numa tela grande.
A emissora – que agora não apenas “emite” o sinal pelo ar, mas também distribui conteúdo via Internet – não para de redesenhar seu modelo de negócio, cada vez mais “smart”. No mundo digital, a manifestação do consumidor – que é o grande inventor – é muito mais rápida e detalhada. Fica mais fácil de interpretar e a inovação transforma a plataforma do dia para a noite. Aparecem novas formas de exibição de anúncios, novos tipos de anúncios, menu vira grid para facilitar o uso, o celular avisa quando vai começar algo que você não quer perder, relaciona as opções de acordo com o tempo disponível no momento, etc, etc, etc... Cada dia mais parecido com o que quer o consumidor, ou seja, mais próximo da ideia que vem na manifestação do grande inventor. O limite? É o mesmo da criatividade humana.

UM “PLAY” PARA CADA NEGÓCIO

Esse nível de customização, a dinâmica de mudanças, podem crescer ainda mais rapidamente. Depende da rapidez da resposta nas implementações da plataforma e do crescimento de manifestações do “público inventor”. Isso indica que o aprimoramento desse modelo de negócio – ou dessa tecnologia, como preferir – tende a sair dos departamentos das emissoras, para prosseguir em empresas especializadas em desenvolvimento de software.
O EiTV Play, aplicativo para o mesmo tipo de plataforma, pode acrescentar muitas ferramentas e características, de acordo com a necessidade apresentada em cada tipo de negócio. Pode ser adaptado à realidade de redes de TV com menor alcance, à tipos diferentes de produções, sem que a emissora – ou outra empresa produtora de conteúdo – tenha que manter uma equipe própria de desenvolvedores. Os profissionais que atendem um espectro maior do mercado de software, conhecem muito mais rapidamente as novidades que aparecem. Estão mais próximos das novas formas de uso que o mercado está apontando. As experiências que chegam de lado a lado são mais numerosas do que um laboratório de uma única emissora pode obter.
Portanto, o caminho está pronto para que produtores de conteúdo em geral ofereçam seus produtos, sem desviar o foco do próprio expertise. Alguma coisa está surgindo além da TV. E tem a mesma função das telas desenhadas ou pintadas, da fotografia, do cinema, da própria TV que é apresentar um tipo de conteúdo, que evoluiu do visual para o audiovisual. A consequência deve ser um crescimento exponencial da demanda por vídeo que, cada vez mais, se revela reprimida ao longo do tempo. Que tal começar pelo acervo que você tem guardado nas suas prateleiras?

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

QUANDO A INFORMAÇÃO PERDE PARA O CONTEXTO


A gravação em vídeo da negociata foi acompanhada pelo Ministério Público e pela Polícia, o político ou agente público foi flagrado pedindo propina, contando o dinheiro. Depois que tudo foi ao ar, o advogado do corrupto tenta convencer, pela imprensa, de que “o trecho da gravação estava fora do contexto da conversa”. O exemplo é genérico, mas você certamente já viu na mídia fatos idênticos ou muito parecidos, que aconteceram na esfera federal, ou em nível estadual e até mesmo municipal.

No Brasil essa é uma possibilidade jurídica – porque juízes acatam argumentos nesse nível – e política – porque tais candidatos conseguem se reeleger jurando a inocência sobre o que foi visto em vídeo por todo o eleitorado. Ou seja, a informação pouco vale, ou até é nociva ao modelo organizacional sobre o qual o país é gerido. O vídeo periciado, onde as pessoas e respectivas vozes são inquestionavelmente identificadas, conversando no idioma nativo e tratando de assuntos nos quais estão envolvidas, é de uma informação objetiva. É a documentação de um fato. Só que pode estar fora do contexto, se for no Brasil.

Em plena Era da Informação, quem despreza a informação está marchando para um quadro grave. Esse é apenas um tipo de desprezo da informação que arruína o Brasil. Pois a prática é recorrente nos mais diversos níveis e setores. Até mesmo na indústria da informação. O desligamento do sinal de TV analógico em Brasília, que já deveria ter acontecido na semana passada, precisou ser adiado – mais uma vez! – para o próximo dia 17. O motivo foi a “falta de informações” necessárias para a implantação definitiva do sinal digital. Será que vai acontecer mesmo no dia 17? Mais importante é começar a pensar como isso atinge a sua vida, mesmo que você more bem longe do Distrito Federal.

O DITO PELO NÃO DITO


O que está em jogo é o funcionamento eficiente de celulares, Internet móvel e emissoras de televisão. Aponta também para riscos no funcionamento das telecomunicações por radiodifusão, que utilizam o chamado espectro eletromagnético. O tamanho desse risco ninguém sabe, exatamente porque faltam informações técnicas a respeito.

Então você olha para o futuro e vê que, no Brasil, se investidores nacionais ou estrangeiros quiserem construir uma unidade fabril, comercial ou de serviços, vão levar em conta que não existem dados disponíveis sobre a infraestrutura de telecomunicações. Dá coragem de tirar dinheiro do bolso?

A televisão aberta, o lazer mais consumido no Brasil, serviço público essencial, ferramenta imprescindível para importantes segmentos econômicos, é uma grande desconhecida das autoridades do setor. E olha que é um dos segmentos mais burocratizados! Mesmo assim, sabe-se muito pouco. A ponto de não ser possível fazer a passagem definitiva da tecnologia de transmissão analógica, para a transmissão digital. Pela Pesquisa por Amostra de Domicílios, feita pelo IBGE, o Governo Federal tem dados sobre a quantidade de aparelhos de TV no país. Passou disso, cai numa verdadeira guerra de dados gerados no mercado. Cada um diz o que mais lhe interessa.

O problema só estava esperando uma oportunidade para aparecer. Depois do primeiro calendário da mudança definitiva de sinal, teve o sério agravante da venda de parte da faixa de frequência de 700MHz. É a faixa ideal para grandes redes de comunicação, até então utilizada pela TV aberta. As operadoras de celulares pediram parte da faixa para expandir a Internet 4G no Brasil. O Governo impôs algumas condições e vendeu uma parte, que custou mais de R$ 9 bilhões às operadoras. Elas estão esperando receber, dentro do prazo estabelecido, as faixas que compraram. E esta liberação está diretamente relacionada ao desligamento do sinal analógico de TV. Está armada a confusão.

ONDE PODEMOS CHEGAR?


As emissoras de TV aberta vendem a visibilidade da audiência. Se o sinal analógico for desligado antes da maioria dos telespectadores ter acesso ao sinal digital (por meio de conversores ou aparelhos de TV novos), as emissoras perdem audiência e o mercado percebe nas vendas. Isso faz com que as emissoras tentem adiar ao máximo o desligamento. Mas o problema pode nem estar nas dificuldades da audiência para recepção do sinal digital. Muitas emissoras deixaram para última hora a compra de transmissores digitais e agora, com a crise econômica, tudo fica mais difícil.

Do outro lado estão as operadoras, tentando provar que parte significativa da audiência já tem acesso ao sinal digital. Afirmam que as transmissões analógicas de TV já podem ser desligadas em muitas cidades para dar espaço ao 4G. Nesta guerra, já houve o confronto de duas pesquisas feitas por um mesmo instituto, numa mesma área, com “contextos” diferentes sobre receptores digitais.

Não há um fiel da balança. Quantos aparelhos de TV são do tipo tela fina? Quantos deles têm conversor digital embutido? Quantos lares dependem de set-top boxes (caixinha conversora de sinal)? Quantos contam com TV por assinatura ou satélite? Ganha um doce quem souber dizer. Até lá, vamos amargar mais alguns adiamentos.

A expansão do 4G, além dos benefícios de conectividade para todo o país, vai gerar grandes investimentos em equipamentos, construções, mão de obra muito especializada e também pouco especializada, empregos no comércio e no setor de serviços, arrecadação de impostos, ... Mas enquanto faltar “informação contextualizada” sobre serviços essenciais – como a TV aberta – tudo isso vai ser adiado ou mal feito. São dois caminhos diferentes para se chegar ao mesmo atraso de sempre.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

CAPER ENCERRA O CALENDÁRIO DE FEIRAS 2016


Oportunidades e Obstáculos formam um “casal” inseparável e isso fica mais claro quando se exibem num tango. O Obstáculo parece poderoso, intransponível, até que a Oportunidade vira de pernas para o ar e surge por cima dele, até cair do lado de fora; ele a cerca, passos circulares e arrastados, desliza o bico do sapato para nem tirar os pés do chão. Mas a Oportunidade gira como uma bailarina e se distancia, exibindo a silhueta para os bons observadores.
O enredo desse tango ilustra bem o que aconteceu nesta semana, em Buenos Aires, na 25a Exposição da CAPER – Cámara Argentina de Proveedores y Fabricantes de Equipos de Radiodifusión. A Argentina, em pleno processo de transição política, ainda enfrenta obstáculos expressivos na economia. Mas no espaço da Exposição, o que mais chamou atenção foram as várias oportunidades. Se preferir chamar de crise o conjunto dos obstáculos, tudo bem, mas vai entrar numa longa discussão sobre a realidade que nossos hermanos estão vivendo.
A Argentina adotou há anos o sistema brasileiro como tecnologia DTV. As transmissões digitais começaram pela TV estatal, fortalecida no Governo de Cristina Kirchner. Com a mudança nos rumos políticos, ainda não se tem uma diretriz clara para a expansão do sinal digital, muito menos uma data para o apagão analógico. E daí!? O VOD – Video on Demand, modelo de negócio do Netflix, Hulu e outros, está crescendo muito por lá. Trata-se de um mercado onde a TV por assinatura é proporcionalmente bem maior do que no Brasil. Isso sem contar as várias outras plataformas que suportam vídeo. Agora que tudo é byte mesmo...

A AUTONOMIA DO VÍDEO

A movimentação de pessoas durante a 25a CAPER foi intensa. Comparativamente, maior do que na edição anterior. Já os negócios estão demorando mais para se efetivar. Ainda faltam definições importantes para o mercado broadcast de lá e a própria regulamentação do setor pode ter que passar por uma repactuação com o Governo. Enquanto isso, os investimentos das emissoras caminham com muita cautela.
Por outro lado a Argentina tem uma densidade de banda larga semelhante à do Brasil e, quando se trata de dispositivos móveis, como os celulares, a proporção de aparelhos por habitante é maior ainda. A demanda por vídeo é global, não se limita à fronteiras e as soluções baseadas nessas plataformas surgem a cada dia. No caso da plataforma EiTV CLOUD, por exemplo, pode funcionar de maneira praticamente autônoma. Baseada na nuvem digital, dá ao usuário a opção de escalonar o custo de armazenagem de acordo com a demanda. E ainda, por meio do EiTV Play, conta com uma série de aplicativos para atingir o público que quiser, por tempo livre ou programado, de forma aberta ou direcionada, gratuitamente ou monetizado, dentre outras possibilidades de escolha. No atual cenário da economia argentina a plataforma caiu como uma luva para vários segmentos. A partir de agora fica aberto o período de testes e de customização para os diversos clientes, contando com o apoio dos representantes EiTV na Argentina.

A VERDADEIRA NATUREZA DA CRISE

A CAPER fecha o calendário anual de exposições para o ISDB-T, o melhor sistema de TV Digital em operação no mundo. Nesse período de dificuldades econômicas e políticas no continente, a sensação é de que a volatilidade tecnológica é um desafio maior do que a instabilidade econômica. E essa volatilidade só tende a aumentar.
Portanto, os empreendedores do segmento de tecnologia precisam de muita resiliência, que é a capacidade de se reinventar após um projeto mal sucedido. E precisam estar muito bem informados, para direcionarem os próximos investimentos. A ligação umbilical entre inovação e crescimento econômico, identificada por Schumpeter na primeira metade do século passado, está se evidenciando mais e mais a cada dia. É o mundo mais cerebral para o qual estamos caminhando.
O dinheiro, enquanto elemento central da economia, está preso a uma série de regras e convenções que limitam as alternativas em caso de crise. Já no mundo da tecnologia, o elemento central é a criatividade, e esta não está limitada a qualquer tipo de regulamentação. É o surpreendente produto entre o nada e a vontade de realizar.
O mundo está simplesmente seguindo o rumo previsto. Os negócios em tecnologia já ultrapassam em muito os mercados das commodities mais essenciais. Por isso especular tende a render menos do que conhecer; enfeitar deve vender menos do que aumentar a eficiência; simplificar é mais importante do que sofisticar. Esses são alguns movimentos que já podem ser observados. E representam também diretrizes importantes para os produtos e serviços a serem ofertados pela EiTV nas feiras e exposições de 2017.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

PEQUENOS APARELHOS, GRANDES NEGÓCIOS


Tem aplicativo de celular pra tudo! Mas não pode ter sido o do filme “Missão Impossível”: “-Esta gravação se auto destruirá em 5 segundos.” (poff!!) Pelo sim, pelo não, fica aqui mais uma hipótese, entre as muitas que tentam explicar as “explosões” de alguns aparelhos Galaxy Note 7. As muitas informações nebulosas e desencontradas até dão um clima de filme de ação e suspense, como aqueles que Tom Cruise protagonizou. Já virou até crime federal subir num avião de carreira nos Estados Unidos com um aparelho desses. E os valores envolvidos por conta do episódio estão estimados em US$ 17 bilhões. Sem dúvida, uma bela trama!
Não é humor negro, porque nada é engraçado nessa história. Mas o suspense em torno do assunto está ficando cinematográfico. Há mais de 10 anos caíram em descrédito os e-mails com narrativas de explosões de celulares. O consenso que foi se formando era de que algo tão terrível teria maior repercussão, se realmente tivesse acontecido. E agora a gente fica sabendo que aconteceu! Nos primeiros casos do Galaxy Note 7 a Samsung, fabricante do modelo, chegou a trocar os aparelhos sinistrados por novos. A conclusão é de que é possível acontecer algo tão terrível como explodir um celular, e ninguém ficar sabendo.
A própria natureza do acidente é desconhecida. Fala-se em “explosão” nos títulos das reportagens, mas a sucinta descrição do que aconteceu, sempre cita combustão. Não se sabe quantas vítimas, nem em quais países, o que sofreram e sequer o nome de uma delas. Sinal de que um batalhão de advogados e assessores de imprensa deve estar negociando, pela empresa, de forma muito convincente.

AS CAUSAS

Os motivos técnicos do “defeito” – vamos chamar assim – ainda não foram anunciados de forma conclusiva. Mas telas, capas de plástico e chips não explodem, o que leva à bateria uma suspeita natural. As últimas gerações de baterias usam uma tecnologia conhecida como “íon de lítio”, que inclui um líquido altamente inflamável, protegido por uma blindagem. Elas são capazes de armazenar muita energia em exemplares muito finos e leves. Além disso, configurações do processador do aparelho podem acelerar o processo de carregamento da bateria, outro conforto que agrada os usuários, mas aumenta a temperatura. Suspeita-se ainda de uma falha de projeto, que teria colocado os polos da bateria muito próximos e mesmo o design do aparelho pode ter alguma culpa, por facilitar a pressão mecânica sobre a fonte de energia.
Um detalhe é que a Samsung seria a única entre as grandes fabricantes de celulares que testa suas baterias em laboratórios próprios. Em parte faz sentido, por ser a maior entre todas. Mas os testes em laboratórios credenciados, como fazem as outras empresas do setor, podem permitir uma visão mais ampla dos riscos, com base na observação de experiências por todo o mundo.
Por fim, tem aquele “componente” que fica do outro lado do teclado. Trata-se de um ser que, além das vestes, tem como acessório pessoal mais comum o celular. Isso dá uma ideia do tamanho da responsabilidade que pode estar nas mãos da indústria desse segmento. Uma responsabilidade que muitos desdenhavam, diante daquele aparelho tão íntimo e aparentemente inofensivo. O Galaxy Note 7, cuja fabricação já foi oficialmente encerrada pela Samsung, pode mudar a posição da empresa no mercado. O marca “Galaxy” possivelmente vai desaparecer, deve dar lugar a outro nome para enfrentar iPhoneXperiaMotoPixel e tantos outros. Mas, o quanto o consumidor poderá se sentir seguro diante daqueles que inventam, a cada dia, uma nova forma de ganhar mais dinheiro?

A CAUSA POR TRÁS DAS CAUSAS

A indústria da tecnologia está dominando o topo dos negócios no mundo e essa tendência só deve se acentuar. O ranking das comoditties sempre estará bem próximo, mas nunca mais deve chegar ao topo. Os alimentos, indispensáveis à vida humana, não podem cair tanto, mas também nenhum deles vende mais do que o petróleo. A tecnologia, sim, deixou definitivamente o petróleo para trás. Na medida em que a tecnologia alcança um patamar tão importante, a pressa excessiva de lançar produtos surpreendentes no mercado, é um óbvio risco para os consumidores.
Nesta semana, o caso da Mineradora Samarco aqui no Brasil trouxe um alerta no mesmo sentido. Segundo a denúncia encaminhada pelo Ministério Público Federal, a ânsia de produzir mais e mais, a um custo menor, levou executivos da empresa a ocultar laudos e relatórios que indicavam o risco iminente de rompimento da barragem. Teriam até contabilizado os custos de um eventual desastre e optado por manter o mesmo ritmo, como alternativa compensadora. A Justiça ainda vai avaliar se as acusações procedem.
Força para tomarem essas decisões, as grandes corporações já demonstraram que têm. Por isso aqui, mais em baixo, o consumidor deve criar instrumentos de dissuasão de abusos nesse nível. Sim, celulares incendeiam e grandes barragens rompem. Falta decretar que grandes corporações e executivos gananciosos são submetidos a prejuízos brutais quando se atrevem a ignorar esses riscos na busca de lucros. E essa decisão nenhum juiz do mundo é capaz de tomar isoladamente. Tem que ter o mercado agindo ao seu lado, a população mostrando que não aceita ser cobaia.
Mesmo que todas essas notícias sejam apenas mal entendidos, já ficou claro que são possíveis. E o consumidor, até onde ele pode?

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

MUITO IMPORTANTE!


Se o seu time está entre os primeiros do campeonato, cuidado! Ele pode perder este título. Se está entre os últimos, cuidado! Ele pode cair para uma divisão inferior. Também muito importante não esquecer das bactérias ultra resistentes que o excesso de antibióticos está gerando, nem da crise econômica no Brasil, as ameaças do terrorismo internacional, as eleições americanas, a crise dos refugiados na Europa, o excesso de calorias na sua próxima refeição.
Tem muita coisa muito importante. Na última semana a mídia divulgou – de novo! – a importância de limpar corretamente a esponja usada na cozinha: todo dia tem de colocar no microondas, em alta potência, por dois minutos. Mesmo assim, a cada semana tem que jogar fora a esponja e substituir por outra nova. Sabe por quê? Porque isso é muito importante. Como os cuidados para andar na escada rolante de um shopping. Também, muito importantes!
Assim a gente se convence de que "muito importante" são aquelas coisas que quase nunca acontecem, mas vez por outra pegam algum azarado. Então, melhor colocar numa placa. Na verdade, coisas muito importantes existem, sim. Mas são tão importantes que ninguém fica falando. Você sabia que a regulamentação do VOD - video on demand - já deveria ter sido feita há um ano no Brasil e que vai ser objeto de uma "notícia regulatória" ainda em 2016? Pois é, quem disse foi Manoel Rangel, o novo presidente da Ancine. Mas atenção, será só uma notícia regulatória. A regulamentação mesmo ainda vai demorar. Porque é muito importante, então tem que ser votada no Congresso. O que!? Você não ouviu falar nada sobre isso até agora!!? (Se você ler o que tem pela frente vai perceber que este é, de fato, um assunto muito importante, por isso está meio na surdina.)

MUITO IMPORTANTE?

Quando se fala em video on demand o primeiro nome que vem à cabeça é Netflix. Aqui e praticamente no mundo todo. Alguém percebeu que os vídeos mais procurados são produções cinematográficas e notícias. Essas últimas, envelhecem em algumas horas. Sobrou então aquilo que enriquece salas de cinema e que também já enriqueceu locadoras de vídeo. Os piratas foram os primeiros a abandonar a nau dos CDs e utilizarem aquela que é a maior rede de distribuição de conteúdo do mundo: a Internet. Se não fossem tão focados na sacanagem teriam ficado ricos honestamente. O Netflix usou o modelo para abrir uma empresa, pagando todos os direitos autorais e os impostos incidentes.
Foi a confirmação de um fenômeno impressionante: o consumo de vídeo, entendido como obra audiovisual, não tem um limite visível! No começo eram só os cinemas. Décadas depois veio a TV, primeiro a aberta depois por assinatura, e muitos profetizaram o fim das telonas. Mas não, o consumo de audiovisuais aumentou. Vieram as locadoras e, dessa vez, os cinemas não iriam resistir. Ao contrário, mudaram para os endereços mais caros e concorridos, os shoppings. Com a banda larga mandando vídeo em todas as direções, só se vê a demanda aumentar. A receita do grande cineasta baiano Glauber Rocha está mais na moda do que nunca: “cinema se faz com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão." O que talvez ninguém previsse à época é que as câmeras chegariam às mãos de todos antes das boas ideias. Mesmo assim, audiovisual vende. Abra o WhatsApp, o Youtube, outras redes sociais, e confira entre as piadas, produções – mambembes ou mais técnicas – que pagam cachês de atores e remuneram pequenas cadeias de valor. São muitas delas, pelo mundo todo. Imagine que, aqui no Brasil, nada disso está sob alguma lei específica. Os gestores públicos olham também o potencial de tributação. É importante ou não é?

IMPORTANTE, SEM DÚVIDA.

No Brasil, o Netflix atingiu 4 milhões de assinantes em cerca de dois anos, mesmo sofrendo a concorrência de outros provedores que atuam aqui. As TVs por assinatura demoraram 10 anos para ter 3,5 milhões de assinantes brasileiros. Ironicamente, foram elas que pavimentaram as vias de sucesso do VOD, enquanto arrastavam os cabos da banda larga. Os dados divulgados pela Ancine destacam o potencial do mercado de VOD no país. Além da arrecadação de impostos, esse mercado pode gerar muitos empregos e divisas.
Um “muito importante” que não sai de pauta é o cinema nacional. Ele tem lugar garantido no line up das TVs por assinatura, portanto terá algum amparo já a partir da notícia regulatória. Alias, o Presidente da Ancine antecipou que o documento terá como base resoluções já aprovadas no Conselho Superior de Cinema. Há outras questões de praxe, como parâmetros de qualidade do serviço e isonomia entre os provedores, principalmente se referindo às diferenças entre locais e estrangeiros. A Condecine, taxa que pesa sobre os títulos comercializados, deve dar lugar a outro modelo de arrecadação governamental, proporcional ao faturamento dos provedores. Por aí já dá para esperar uma breve reação das operadoras de TV por assinatura, que se sentem preteridas e submetidas a obrigações onerosas.
Quem já levantou a guarda foram os estúdios americanos. Eles já sabem que haverá obrigações em torno da promoção do cinema brasileiro, mas estão preocupados com a intensidade desse esforço. Temem que qualquer fator que torne mais caros os serviços dos provedores, acabe por empurrar a demanda para a pirataria. Essa sim, o grande ralo do faturamento de toda a cadeia, também dos operadores fiscais. Para os brasileiros, a experiência mostra que modelos de proteção da produção nacional podem trazer efeitos inversos. Basta dizer que a medida mais efetiva para que o cinema brasileiro desse um salto de qualidade foi a extinção da Embrafilme, há mais de 20 anos. Quem melhor promove qualquer produto é sempre o mercado, esse sim, muito importante!

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

QUANTO MAIS MEXE, MAIS COMPLICADO FICA


A proposta de recompra de set-top boxes “sociais”, anunciada pelo Ministro Gilberto Kassab, é uma das medidas mais polêmicas hoje no setor. Aparentemente, o Ministro quis fazer um agrado à Eletros, associação que reúne os fabricantes de TV da Zona Franca de Manaus. A Eletros anda meio triste porque não queria mais carregar um software brasileiro, que é obrigatório nos aparelhos montados aqui no Brasil. É o Ginga, aquele personagem da mais longa e confusa “novela” da TV brasileira. Segundo a Eletros, o Ginga encarece cada aparelho em R$ 50,00 e não serve para nada.

O Ministro começou explicando à Eletros que não poderia fazer isso, porque há alguns anos, vários documentos assinados preveem a obrigatoriedade do software, que torna os aparelhos de TV máquinas interativas. A questão é que a família Ginga cresceu e as coisas ficaram muito diferentes. A implementação que ainda é obrigatória nos aparelhos de TV é o “avô” do Ginga, muito limitado, quase não conversa. O Ginga C, “neto” mais novo, é o ninja da família Ginga. Faz de tudo, precisa ver! O Ginga C é justamente a geração que está no set-top box “social”. O apelido “social” vem do fato de ele ser gratuito, distribuído pelo Governo Federal para as famílias carentes que fazem parte do Cadastro Único da Assistência Social. Esse tipo de compensação se vê em todos os países onde o sinal analógico está sendo desligado, foi assim até nos Estados Unidos.

O que Kassab anunciou agora, como estímulo para a Eletros, é a recompra dos set-top boxes sociais que as fabricantes aceitarem de clientes, como parte do pagamento de um televisor novo. O raciocínio é simplista demais. Considera que uma TV nova sintoniza o sinal digital, portanto dispensa conversor (set-top box). Se você perdeu o lance, faça um “replay” nessa leitura e vai perceber que o Ministro está propondo trocar um Ginga da geração “avô” – que está embarcado nos televisores – por um Ginga C (“ninja”) que está no conversor social. Agora entendeu?

NÃO SE RESOLVE EM FAMÍLIA


O custo de uma versão para outra é o mesmo, porque o Ginga é gratuito para a população. O que está em jogo é a questão social, que o Governo jura ter como prioridade. Um pacote de aplicativos, com várias funcionalidades para a população, está disponível, também de graça, para qualquer interessado. Mas só roda no Ginga C. O pacote inclui o Brasil 4D (serviços públicos em geral), o aplicativo “Bolsa Família” (facilita muito a gestão do serviço social) e o “Quero Ver Cultura” (um OTT com filmes, documentários e outras produções nacionais). Esses aplicativos foram desenvolvidos há poucos anos pela estatal EBC – Empresa Brasileira de Comunicação e outros órgãos do Governo Federal. Nos dias de hoje, depois de tantos avanços nos celulares e tablets, o vovô Ginga não consegue oferecer nada interessante, muito menos rodar um Brasil 4D, por exemplo. Portanto, a população carente perderia a possibilidade de contar com serviços públicos gratuitos, para entrar numa dívida por um televisor novo. Isso sem falar na infinidade de outros aplicativos que podem ser desenvolvidos, com várias funções. Desde que tenha um Ginga C na plataforma do televisor para rodar.

Ademais, você já fez as contas do custo de toda a logística reversa para esses conversores sociais chegarem de volta até o Governo? Depois o armazenamento e redistribuição, sabe-se lá como e para quem? E tem o principal, o pagamento do valor para os fabricantes que venderem o televisor novo e pegarem o conversor como parte do pagamento. Será que ninguém na praça vai pensar em um mercado negro, pagando baratinho pelo conversor social que algum carente recebeu de graça? O Governo pode pagar com descontos fiscais, pode encontrar caminhos para evitar parte desses riscos. Mas onde vão parar os conversores recomprados é um tipo de problema para o qual vai ser muito difícil encontrar solução.

O Ministro Kassab poderia ajudar a todos dando uma outra sugestão aos fabricantes. Já que mais de 80% dos televisores vendidos hoje no Brasil são do tipo smart, eles poderiam aproveitar a plataforma de informática disponível nesses modelos para carregar o Ginga C. Assim estariam oferecendo muitas funcionalidades a mais em seus produtos. Porém, se o interesse dos fabricantes de TV é inviabilizar uma solução brasileira, que tende a crescer muito e fazer concorrência a outros equipamentos que eles produzem, então não é o caso de um Ministro brasileiro se preocupar em atende-los.

A COISA ESTÁ CRESCENDO


O Ginga C é uma plataforma capaz de turbinar uma smart TV sintonizada em canais da TV aberta. E esses canais estão conquistando mais espaço entre as opções de lazer do público. Um levantamento recente, feito pelo Ibope na cidade de São Paulo, mostra que o consumo de canais de TV aberta subiu 7% este ano, em comparação com o mesmo período de 2015. Enquanto isso, os canais pagos tiveram uma leve queda, inferior a 1%. O crescimento da audiência nas redes gratuitas foi constatado em todos os horários medidos pelo instituto.

A TV aberta está crescendo muito em qualidade, com avanços tecnológicos surpreendentes. O mundo todo está lançando um novo olhar sobre essa via de comunicação, que no Brasil é a de maior penetração. Essa realidade só faz aumentar a importância do Ginga C, enquanto tecnologia brasileira competitiva, num cenário de negócios onde só os países desenvolvidos têm espaço. Ele expande o potencial da TV para além do entretenimento através do vídeo, ou informação ao vivo. Por isso, pode acrescentar muito à experiência que deu nova importância à sala de estar em todo o mundo.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

JOGA EM CIMA DA GENI


Tentaram inventar um mundo livre e veja só no que deu. "Tudo bem, nem é real, são só palavras, imagens, vozes." De fato, a Internet não pode tirar ninguém de onde está e levar a algum lugar perigoso e chocante. Mas provou na prática que é muito pior levar esses lugares e pessoas ameaçadoras até muita gente, ao mesmo tempo. Os milhares de delegacias contra crimes cibernéticos pelo mundo real que o digam. Pela Internet se rouba dinheiro, privacidade, reputações. Gera-se rancores, amores, famílias. A Primavera Árabe, movimento espontâneo iniciado pela Internet, derrubou em cascata antigos regimes antidemocráticos do Oriente Médio. Até dar de frente com o apoio militar russo na Síria e deixar para a Europa a crise dos refugiados.

Ainda bem que o lado bom do mundo real trouxe muito mais coisas boas para a Internet. Compensa disparado toda a “neura” virtual. A questão é que a Internet, cada vez mais, vai ser um lugar onde se deve ter muito cuidado. Porque num mundo livre tem que ter mais responsabilidade. Mas, quem!? Esse planeta abstrato ultrapassa fronteiras nacionais, costumes e autoridades. Ele tem poderes sobre esposas, sobre maridos, sobre filhos, é um personagem novo e imprevisível na vida da maior parte das pessoas. Quem responde por ele?

Se você está pensando em procurar no Google mais essa resposta, pode esquecer. A Google Brasil Internet Ltda. está sendo alvo de uma ação civil do Ministério Público Federal por, supostamente, não saber de suas responsabilidades perante crianças e famílias brasileiras. O centro da polêmica é a plataforma de vídeo YouTube, de propriedade da Google.

NINGUÉM TEM NADA COM ISSO


O Ministério Público, em nota, aponta a materialidade da culpa em vídeos postados por particulares, tendo como apresentadores crianças de até 12 anos. "As crianças não têm maturidade suficiente para discernir entre fantasia e realidade ou para resistir a impulsos consumistas."  E continua: “Quando atingem grande número de visualizações, os youtubers mirins tornam-se pequenas celebridades. Em decorrência dessa exposição, acabam atraindo a atenção do mercado, que as faz atuar como promotoras de vendas, protagonizando anúncios comerciais de produtos dirigidos ao público infantil".

Hmm! Até aqui temos como personagens “particulares” que postam vídeos, o “mercado”, que cresce os olhos sobre as celebridades mirins e “produtos dirigidos ao público infantil”. Mas parece que o MPF não está preocupado com eles, a culpa é da Google...

Antes mesmo da notificação oficial, a empresa veio a público para dizer que o YouTube é uma plataforma aberta, para o público adulto, e o uso para crianças deve ser orientado e acompanhado pelos pais. Na ação, o Ministério Público Federal pede algo nesse sentido, que tenha um aviso na página inicial do YouTube, lembrando a proibição de veicular merchandising ou propaganda de produtos ou serviços destinados a crianças, ou usá-las na promoção desses anúncios. A plataforma de vídeo precisaria ainda disponibilizar meios para que qualquer internauta pudesse denunciar a presença desses “abusos” em qualquer vídeo do canal. Será que é só isso que a ação do MPF pretende?

MUITO MAIS DO QUE 15 MINUTOS DE FAMA


Nos últimos anos o Brasil tem enfrentado um período tenso pela afirmação da primazia da lei sobre os interesses privados. Isso é salutar, historicamente relevante. Tanto que tem gerado uma notoriedade estrondosa para alguns personagens dessa batalha.

Por outro lado, diante da busca crescente da Justiça para qualquer litígio, os próprios magistrados e procuradores têm promovido campanhas, orientando as pessoas a buscarem acordos, antes de sentenças judiciais. Um dos instrumentos para ajudar a conversar mais, antes de brigar, é o famoso TAC – Termo de Ajuste de Conduta. É um documento, onde o representante do Ministério Público pactua, com a parte desajustada, os termos para se chegar à conformidade com a lei. Não seria o caso de primeiro propor esse caminho para o YouTube?

A Internet é um fenômeno ainda recente para a humanidade e estamos aprendendo a utiliza-la enquanto a construímos. Só isso já suscita o caminho da conversa. Mas o Brasil, que já se recusou a assinar alguns tratados internacionais sobre a grande rede, alegando zelar pela soberania, tem os juízes e promotores mais injuriados com ela! Para quem gosta, é um quixotismo de máxima repercussão. Porém, com a colateral e indesejável impressão hipo-civil sobre os nativos desta Pátria.

Se as instituições não conseguem cobrar responsabilidades objetivamente previstas em lei, há muitos anos, sobre pais, sobre fabricantes de produtos e intermediadores de vendas, por que agora o mundo livre da Internet é o culpado? Na melhor das hipóteses é uma lamentável preguiça por parte da instituição encarregada de cuidar do grande pacto legal que sustenta nossa sociedade. O Império da Lei, que o Brasil só agora parece começar a trazer para os filhos deste, precisa se firmar a partir do solo-mãe-gentil, real e tangível. Só assim haverá um exemplo concreto para edificar o penhor dessa igualdade nos fugazes bits.