AS PROVAS DE FOGO DA INOVAÇÃO


Inventar uma coisa é uma coisa. Inventar um grande negócio com aquela coisa, é outra coisa. A maioria das pessoas ainda não atentou para essa diferença e acredita que um grande invento é o ponto final de uma história de riqueza. A própria história é cheia de exemplos contrários, alguns bem curiosos.
Imagine um filme de época, ambientado nas Minas Gerais, nos tempos da Inconfidência. O poeta revolucionário Tomás Antônio Gonzaga está a declamar seus versos à Maria Doroteia Joaquina de Seixas, sua amada. Ao final, em pleno clímax do romance, ele a convida para tomar um refrigerante. Pois é, você iria achar que virou piada, mas nos tempos de “Marília e Dirceu”, já havia sido inventado o refrigerante. Mais exatamente em 1772, quando o químico inglês Joseph Priestley desenvolveu uma forma de gaseificar a água e fez o primeiro refrigerante.
Só cerca de 100 anos mais tarde é que surgiu a primeira indústria de refrigerantes. Então virou um grande negócio, com sede nos Estados Unidos. Durante esse tempo todo a bebida era produzida apenas artesanalmente, por farmacêuticos, que eram hábeis com a química. Depois da primeira indústria as coisas foram bem mais rápidas. Quinze anos mais tarde foi inventada a Coca Cola. Mais 7 anos e surge a Pepsi. Daí, com duas gigantes brigando, já viu. O negócio se internacionalizou e está aí até hoje.
Na Tecnologia da Informação não é diferente. O intervalo entre a invenção e o negócio é bem menor, afinal o relógio corre muito mais rápido quando tem bits pelo meio. Mas a sequência de fatos parece manter o protocolo de sempre.

INVESTINDO PESADO POR UM LUGAR AO SOL

O caso em questão é a indústria do VOD – Vídeo on Demand, um negócio que surgiu numa vídeo locadora americana, há cerca de 10 anos. O dono resolveu enviar pela Internet tudo que os clientes queriam ver e assim surgiu o Netflix. Só no Brasil, onde chegou em 2011, já são mais de 6 milhões de assinantes. Por enquanto, perde apenas para a NET, a maior e mais tradicional TV a cabo do país, que tem 7 milhões de clientes. O faturamento do Netflix no Brasil já passa de R$ 1,2 bilhão por ano, mais do que algumas das grandes redes nacionais de TV aberta.
Por aí já daria pra afirmar que a invenção foi boa e o negócio muito bem resolvido. Mas a prova definitiva de que esta inovação veio pra ficar foi a entrada de uma gigante da Internet no mercado VOD, com um grande investimento e uma estratégia de vendas agressiva. É o Amazon Prime Vídeo, que traz no nome uma grife de peso do e-commerce internacional. A base operacional recém montada é para atender todo o atual mercado do Netflix, o que soma mais de 200 países, com um total de 40 milhões de assinantes, sem contar os Estados Unidos. E mais, o preço de lançamento da assinatura mensal da Amazon é de US$ 2,99, menos de R$ 10,00 no câmbio atual e cerca de metade da assinatura do Netflix.
Está muito claro que a Amazon tem planos ambiciosos para o mercado VOD e está disposta a bater de frente com o Netflix e outros concorrentes menores.

DOMÍNIO DE PONTA A PONTA

De certa forma, o que se vê nessa disputa pode ser interpretado como um passo histórico no negócio do tipo TV. Ela chegou aos lares do mundo todo, em princípio, como exibição doméstica das produções do cinema. Com o tempo surgiram os programas jornalísticos, transmissões esportivas, o entretenimento – desde os auditórios até os shows especiais – e outras experiências menos duradouras. O cabo rompeu os limites de alcance via espectro eletromagnético e agora, com o VOD, parecem ter caído por terra todos os limites anteriores.
A distribuição de conteúdo no modelo OTT, voando pela Internet, não exige manter infraestrutura de telecomunicações. Pela forma de comercialização e pelo modelo de negócio inusitado, o VOD também não pode ser encaixado em faixas tributárias. São indicadores de que muita gente vai acabar entrando nesse mercado, materializando o fantasma que ameaça a TV por assinatura.
A disputa vai acontecer, mesmo, na geração de conteúdo. Um passo muito acertado do Netflix ao inventar o modelo. As séries e produções exclusivas são diferenciais que vão determinar quem vai se manter no mercado ao longo do tempo. Lembrando que o Netflix surgiu de uma vídeo-locadora, que é uma das pontas dessa cadeia econômica, é importante notar que agora ele se firma no outro extremo, onde é produzido o conteúdo. E com o nível de qualidade top da indústria cinematográfica.
Pois bem, estúdios de Hollywood que se cuidem. O VOD via OTT está verticalizando toda a estrutura, da produção à entrega domiciliar do conteúdo. Mais do que isso, a entrega é pessoal, uma vez que a exibição pode acontecer em dispositivos móveis.
Não é o caso de dizer que as salas de cinema vão desaparecer, porque continuam agradando enquanto evento público, uma oportunidade de convivência social. Mas o grande peso dos investimentos em produções sofisticadas está ganhando players que conhecem mais de perto o mercado insaciável de consumo de vídeo.

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