MUITO IMPORTANTE!


Se o seu time está entre os primeiros do campeonato, cuidado! Ele pode perder este título. Se está entre os últimos, cuidado! Ele pode cair para uma divisão inferior. Também muito importante não esquecer das bactérias ultra resistentes que o excesso de antibióticos está gerando, nem da crise econômica no Brasil, as ameaças do terrorismo internacional, as eleições americanas, a crise dos refugiados na Europa, o excesso de calorias na sua próxima refeição.
Tem muita coisa muito importante. Na última semana a mídia divulgou – de novo! – a importância de limpar corretamente a esponja usada na cozinha: todo dia tem de colocar no microondas, em alta potência, por dois minutos. Mesmo assim, a cada semana tem que jogar fora a esponja e substituir por outra nova. Sabe por quê? Porque isso é muito importante. Como os cuidados para andar na escada rolante de um shopping. Também, muito importantes!
Assim a gente se convence de que "muito importante" são aquelas coisas que quase nunca acontecem, mas vez por outra pegam algum azarado. Então, melhor colocar numa placa. Na verdade, coisas muito importantes existem, sim. Mas são tão importantes que ninguém fica falando. Você sabia que a regulamentação do VOD - video on demand - já deveria ter sido feita há um ano no Brasil e que vai ser objeto de uma "notícia regulatória" ainda em 2016? Pois é, quem disse foi Manoel Rangel, o novo presidente da Ancine. Mas atenção, será só uma notícia regulatória. A regulamentação mesmo ainda vai demorar. Porque é muito importante, então tem que ser votada no Congresso. O que!? Você não ouviu falar nada sobre isso até agora!!? (Se você ler o que tem pela frente vai perceber que este é, de fato, um assunto muito importante, por isso está meio na surdina.)

MUITO IMPORTANTE?

Quando se fala em video on demand o primeiro nome que vem à cabeça é Netflix. Aqui e praticamente no mundo todo. Alguém percebeu que os vídeos mais procurados são produções cinematográficas e notícias. Essas últimas, envelhecem em algumas horas. Sobrou então aquilo que enriquece salas de cinema e que também já enriqueceu locadoras de vídeo. Os piratas foram os primeiros a abandonar a nau dos CDs e utilizarem aquela que é a maior rede de distribuição de conteúdo do mundo: a Internet. Se não fossem tão focados na sacanagem teriam ficado ricos honestamente. O Netflix usou o modelo para abrir uma empresa, pagando todos os direitos autorais e os impostos incidentes.
Foi a confirmação de um fenômeno impressionante: o consumo de vídeo, entendido como obra audiovisual, não tem um limite visível! No começo eram só os cinemas. Décadas depois veio a TV, primeiro a aberta depois por assinatura, e muitos profetizaram o fim das telonas. Mas não, o consumo de audiovisuais aumentou. Vieram as locadoras e, dessa vez, os cinemas não iriam resistir. Ao contrário, mudaram para os endereços mais caros e concorridos, os shoppings. Com a banda larga mandando vídeo em todas as direções, só se vê a demanda aumentar. A receita do grande cineasta baiano Glauber Rocha está mais na moda do que nunca: “cinema se faz com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão." O que talvez ninguém previsse à época é que as câmeras chegariam às mãos de todos antes das boas ideias. Mesmo assim, audiovisual vende. Abra o WhatsApp, o Youtube, outras redes sociais, e confira entre as piadas, produções – mambembes ou mais técnicas – que pagam cachês de atores e remuneram pequenas cadeias de valor. São muitas delas, pelo mundo todo. Imagine que, aqui no Brasil, nada disso está sob alguma lei específica. Os gestores públicos olham também o potencial de tributação. É importante ou não é?

IMPORTANTE, SEM DÚVIDA.

No Brasil, o Netflix atingiu 4 milhões de assinantes em cerca de dois anos, mesmo sofrendo a concorrência de outros provedores que atuam aqui. As TVs por assinatura demoraram 10 anos para ter 3,5 milhões de assinantes brasileiros. Ironicamente, foram elas que pavimentaram as vias de sucesso do VOD, enquanto arrastavam os cabos da banda larga. Os dados divulgados pela Ancine destacam o potencial do mercado de VOD no país. Além da arrecadação de impostos, esse mercado pode gerar muitos empregos e divisas.
Um “muito importante” que não sai de pauta é o cinema nacional. Ele tem lugar garantido no line up das TVs por assinatura, portanto terá algum amparo já a partir da notícia regulatória. Alias, o Presidente da Ancine antecipou que o documento terá como base resoluções já aprovadas no Conselho Superior de Cinema. Há outras questões de praxe, como parâmetros de qualidade do serviço e isonomia entre os provedores, principalmente se referindo às diferenças entre locais e estrangeiros. A Condecine, taxa que pesa sobre os títulos comercializados, deve dar lugar a outro modelo de arrecadação governamental, proporcional ao faturamento dos provedores. Por aí já dá para esperar uma breve reação das operadoras de TV por assinatura, que se sentem preteridas e submetidas a obrigações onerosas.
Quem já levantou a guarda foram os estúdios americanos. Eles já sabem que haverá obrigações em torno da promoção do cinema brasileiro, mas estão preocupados com a intensidade desse esforço. Temem que qualquer fator que torne mais caros os serviços dos provedores, acabe por empurrar a demanda para a pirataria. Essa sim, o grande ralo do faturamento de toda a cadeia, também dos operadores fiscais. Para os brasileiros, a experiência mostra que modelos de proteção da produção nacional podem trazer efeitos inversos. Basta dizer que a medida mais efetiva para que o cinema brasileiro desse um salto de qualidade foi a extinção da Embrafilme, há mais de 20 anos. Quem melhor promove qualquer produto é sempre o mercado, esse sim, muito importante!

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