QUANDO A INFORMAÇÃO PERDE PARA O CONTEXTO


A gravação em vídeo da negociata foi acompanhada pelo Ministério Público e pela Polícia, o político ou agente público foi flagrado pedindo propina, contando o dinheiro. Depois que tudo foi ao ar, o advogado do corrupto tenta convencer, pela imprensa, de que “o trecho da gravação estava fora do contexto da conversa”. O exemplo é genérico, mas você certamente já viu na mídia fatos idênticos ou muito parecidos, que aconteceram na esfera federal, ou em nível estadual e até mesmo municipal.

No Brasil essa é uma possibilidade jurídica – porque juízes acatam argumentos nesse nível – e política – porque tais candidatos conseguem se reeleger jurando a inocência sobre o que foi visto em vídeo por todo o eleitorado. Ou seja, a informação pouco vale, ou até é nociva ao modelo organizacional sobre o qual o país é gerido. O vídeo periciado, onde as pessoas e respectivas vozes são inquestionavelmente identificadas, conversando no idioma nativo e tratando de assuntos nos quais estão envolvidas, é de uma informação objetiva. É a documentação de um fato. Só que pode estar fora do contexto, se for no Brasil.

Em plena Era da Informação, quem despreza a informação está marchando para um quadro grave. Esse é apenas um tipo de desprezo da informação que arruína o Brasil. Pois a prática é recorrente nos mais diversos níveis e setores. Até mesmo na indústria da informação. O desligamento do sinal de TV analógico em Brasília, que já deveria ter acontecido na semana passada, precisou ser adiado – mais uma vez! – para o próximo dia 17. O motivo foi a “falta de informações” necessárias para a implantação definitiva do sinal digital. Será que vai acontecer mesmo no dia 17? Mais importante é começar a pensar como isso atinge a sua vida, mesmo que você more bem longe do Distrito Federal.

O DITO PELO NÃO DITO


O que está em jogo é o funcionamento eficiente de celulares, Internet móvel e emissoras de televisão. Aponta também para riscos no funcionamento das telecomunicações por radiodifusão, que utilizam o chamado espectro eletromagnético. O tamanho desse risco ninguém sabe, exatamente porque faltam informações técnicas a respeito.

Então você olha para o futuro e vê que, no Brasil, se investidores nacionais ou estrangeiros quiserem construir uma unidade fabril, comercial ou de serviços, vão levar em conta que não existem dados disponíveis sobre a infraestrutura de telecomunicações. Dá coragem de tirar dinheiro do bolso?

A televisão aberta, o lazer mais consumido no Brasil, serviço público essencial, ferramenta imprescindível para importantes segmentos econômicos, é uma grande desconhecida das autoridades do setor. E olha que é um dos segmentos mais burocratizados! Mesmo assim, sabe-se muito pouco. A ponto de não ser possível fazer a passagem definitiva da tecnologia de transmissão analógica, para a transmissão digital. Pela Pesquisa por Amostra de Domicílios, feita pelo IBGE, o Governo Federal tem dados sobre a quantidade de aparelhos de TV no país. Passou disso, cai numa verdadeira guerra de dados gerados no mercado. Cada um diz o que mais lhe interessa.

O problema só estava esperando uma oportunidade para aparecer. Depois do primeiro calendário da mudança definitiva de sinal, teve o sério agravante da venda de parte da faixa de frequência de 700MHz. É a faixa ideal para grandes redes de comunicação, até então utilizada pela TV aberta. As operadoras de celulares pediram parte da faixa para expandir a Internet 4G no Brasil. O Governo impôs algumas condições e vendeu uma parte, que custou mais de R$ 9 bilhões às operadoras. Elas estão esperando receber, dentro do prazo estabelecido, as faixas que compraram. E esta liberação está diretamente relacionada ao desligamento do sinal analógico de TV. Está armada a confusão.

ONDE PODEMOS CHEGAR?


As emissoras de TV aberta vendem a visibilidade da audiência. Se o sinal analógico for desligado antes da maioria dos telespectadores ter acesso ao sinal digital (por meio de conversores ou aparelhos de TV novos), as emissoras perdem audiência e o mercado percebe nas vendas. Isso faz com que as emissoras tentem adiar ao máximo o desligamento. Mas o problema pode nem estar nas dificuldades da audiência para recepção do sinal digital. Muitas emissoras deixaram para última hora a compra de transmissores digitais e agora, com a crise econômica, tudo fica mais difícil.

Do outro lado estão as operadoras, tentando provar que parte significativa da audiência já tem acesso ao sinal digital. Afirmam que as transmissões analógicas de TV já podem ser desligadas em muitas cidades para dar espaço ao 4G. Nesta guerra, já houve o confronto de duas pesquisas feitas por um mesmo instituto, numa mesma área, com “contextos” diferentes sobre receptores digitais.

Não há um fiel da balança. Quantos aparelhos de TV são do tipo tela fina? Quantos deles têm conversor digital embutido? Quantos lares dependem de set-top boxes (caixinha conversora de sinal)? Quantos contam com TV por assinatura ou satélite? Ganha um doce quem souber dizer. Até lá, vamos amargar mais alguns adiamentos.

A expansão do 4G, além dos benefícios de conectividade para todo o país, vai gerar grandes investimentos em equipamentos, construções, mão de obra muito especializada e também pouco especializada, empregos no comércio e no setor de serviços, arrecadação de impostos, ... Mas enquanto faltar “informação contextualizada” sobre serviços essenciais – como a TV aberta – tudo isso vai ser adiado ou mal feito. São dois caminhos diferentes para se chegar ao mesmo atraso de sempre.

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