COM QUANTOS PACOTES SE FAZ UMA BOA CRISE


Crise econômica é uma novidade para uma parte razoável do mercado de trabalho brasileiro. Mas, para essa turma que está se aposentando agora, tem até um gostinho de volta à rotina. É um pessoal acostumado a “pacotes econômicos”, panaceias fiscais ou financistas que se encaixam no sofisma “conjunto de medidas capazes de tirar o país da crise”. Isso era comum no Brasil há pouco mais de 20 anos.
Os gestores políticos nunca pensam em mudar a estrutura produtiva do país para resolver a crise, porque sabem que vai demorar muito. Porém, a história recente mostra que as mudanças estruturais podem trazer resultados consistentes em menos tempo, porquanto os remendos empacotados só mudam temporariamente as características de uma crise que nunca acaba.
O aumento da produtividade é uma das mudanças estruturais da qual não se pode escapar. Significa produzir mais com os mesmos recursos. Se o recurso Internet é importante para uma empresa, a produtividade tende a crescer se a velocidade de conexão for maior. E você conhece alguma empresa onde a Internet não tem nenhuma importância? Nesse mundo virtual o Brasil anda de carroça. Somos o 87º país do mundo em velocidade na rede, segundo o ranking global Akamai que avalia 242 países.

ISSO É DA SUA CONTA

De acordo com o levantamento da Akamai a velocidade média de conexão no Brasil é de 5,5 Mbps (Megabytes por segundo). A média mundial é maior, 6,3 Mbps. Mesmo aqui nas Américas, onde somos a segunda maior economia, ficamos em sexto lugar em velocidade na Internet. A velocidade média mais alta do mundo, pelo segundo ano seguido, é da Coréia do Sul, quase 5 vezes maior do que no Brasil. São 26,3 Mbps. Por aqui, conexões com mais de 10 Mbps são um privilégio restrito a menos de 15% da população.
E não é por falta de interesse. O último levantamento do IBGE tem dados de 2015 – olha só como se perde tempo – e mostra que o número de pessoas conectadas no Brasil, com mais de 10 anos de idade, já ultrapassou os 100 milhões. Se todo esse pessoal se comunicasse na metade do tempo, a produtividade da economia brasileira cresceria visivelmente. Mas, ao que parece, ninguém está preocupado com isso. Nem as teles, que são muito bem pagas pelos internautas e nem os órgãos oficiais responsáveis pela governança do sistema no Brasil.

O PODER SOBRE A REDE

E por falar em governança, teremos desafios sérios no próximo ano. No âmbito nacional as teles, empresas que operam a telefonia no Brasil, não parecem empenhadas em abrir mão do título de campeãs isoladas de reclamações de clientes. Entopem os registros do Procon, dos tribunais de pequenas causas, de grandes causas e de recursos administrativos.
Isso já seria um sinal nada discreto de que a governança do setor pela agência responsável – a Anatel – é precária. Nem por isso deixamos de assistir aos nossos parlamentares, em nível federal, dando de ombros para a situação. Nos intervalos de discursos sobre a gravidade da crise, desceram da tribuna para tentar aprovar um “pacote de bondades” para as operadoras. Coisas como cancelamento de multas por má conduta, que somam mais de bilhão de reais, doação de redes físicas e outras coisas “básicas”, que você pagou com o suor e com o nariz de palhaço do seu rosto.
No nível internacional, em relação à Internet, há uma preocupação com o que pode acontecer na alternância política americana. Desde outubro passado a gestão técnica da internet está mais distante do governo dos Estados Unidos. Depois da abertura da “grande rede” para o mundo civil a Autoridade para Atribuição de Números da Internet – IANA, na sigla em inglês, passou a ter um contrato com o ICANN, um tipo de estatal do governo americano para tratar de endereços na Internet, dentre outras coisas.
A criação da ICANN fez parte das providências dos Estados Unidos para expansão da rede pelo mundo. E previa essa transferência de poderes para 2018. Com o caso Snowden, Barack Obama sofreu forte pressão para antecipar essa desvinculação, como prova de que a privacidade na Internet era real. E isso ficou definido em primeiro de outubro, com o encerramento do contrato entre a ICANN e a IANA.
Os republicanos, que venceram as eleições com Donald Trump, sempre foram contra essa antecipação e tentaram, de várias formas, impedir que acontecesse. Já aconteceu, mas eles vão entrar na “cabine de comando” em menos de um mês.
Não é de todo impossível que o próprio Snowden, que está foragido dos tribunais americanos na Rússia, seja um presente de posse a Trump, fã confesso e amigo do mandatário russo. Quando se trata de governar, o novo presidente dos Estados Unidos parece não gostar de abrir mão de nada.

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