sexta-feira, 29 de agosto de 2014

OS ECOS DA SET EXPO


O mundo virtual que a Internet disse ter inventado já existia há muito tempo. É a televisão! Ela mantém a grande maioria das pessoas conectadas em dramas reais e ficcionais, por várias horas do dia. Até  há pouco tempo não tinha a possibilidade de interação em tempo real, de pessoa para pessoa. Mas a interação sempre aconteceu, com um pequeno "delay", um pouco depois. Era no comentário sobre o jogo de futebol, sobre o desfecho da novela, na reação à declaração de um ministro e até no novo ídolo, que brilhou no show de ontem. A televisão é um mundo tão ativo que faz circular centenas de publicações especializadas. São revistas sobre TV, programas de rádio, da própria TV e uma infinidade de sites na Internet. A Internet, que prometia superar a TV, pode estar começando a se tornar uma ferramenta televisiva.

Na última semana, a Feira e o Congresso da SET - a Sociedade de Engenharia de Televisão - trouxeram importantes sinais dessa realidade. Para o público em geral o novo apetrecho da televisão se chama "segunda tela", que nada mais é do que o smartphone ou o tablet onde rodam os aplicativos dos programas de TV. Por esses aplicativos, via Internet, qualquer um pode interagir, em tempo real, aplaudindo ou vaiando a música, como se estivesse ali na plateia do show que está no ar.

Nem precisa entrar no papo cabeça dos especialistas que falaram no congresso - entre eles, os mais renomados do planeta - para perceber o que saltou aos olhos de boa parte dos visitantes da Feira: primeiro, que a agitação na Feira deste ano não foi tão intensa; segundo, que não é possível mais pensar em televisão na América Latina sem a realização desse evento. Parece contraditório, mas não é. Quem foi à Feira não viu tantas novidades como nos primeiros anos do evento. Afinal, a Feira tem menos de uma década e nasceu no frenesi da chegada da TV digital ao Continente. Seria difícil manter a mesma empolgação até agora. Mas o evento teve o papel insubstituível de colocar diante de engenheiros e engenheiras de todas as emissoras, tudo que surgiu ou está surgindo nos setores de broadcast e novas mídias. Um setor que registra diferentes tendências a cada ano, a cada período de tempo cada vez menor. Entre essas tendências, poucas vão se firmar por mais tempo, mas podem ter eficientes soluções agora, em casos específicos, numa oportuna relação custo benefício. O mais importante foi a presença brasileira entre as muitas soluções que a Feira apresentou. Aquela babel de especialistas atraiu nacionalidades raras para estandes de empresas locais, fechando negócios e parcerias.

Outro motivo da importância da Feira pode estar no modelo de negócio da TV no Brasil. Somos o maior país do mundo onde a audiência da TV aberta supera de longe os canais por assinatura. Um modelo que pode ser o estopim de uma virada histórica no lazer mais consumido na Terra. Já há indícios desse movimento. Nos Estados Unidos, começa a crescer o mercado conhecido como "cord cutters", aqueles que cortaram a conta da TV por assinatura. O Roamio OTA DVR, da empresa TiVo, é baseado na TV aberta, associada aos serviços OTT, tipo Netflix. Funciona com uma caixa que custa US$ 49,99. O cliente paga mais US$ 15,00/mês para ter acesso a um guia de programação, com o qual ele pode planejar seu entretenimento. Se preferir, pode pagar US$ 500,00 de uma vez e ter o serviço para a vida toda. De qualquer forma ele vai acabar custando no máximo um terço do que se paga para ter uma TV por assinatura em casa. Essas caixas - que a empresa SimpleTV também já lançou lá - são os set-top boxes, que surgiram no Brasil com o papel de conversores de sinal digital. Os sistemas dessas caixas podem ser incrementados para agregar vários serviços.

A força dessa tendência se deve ao fato de que o sinal digital suporta a qualidade e a variedade que os consumidores americanos exigem. Com o guia de programação das emissoras abertas pode ser rastreado, por nome ou por tema, um filme que você quer ver ou um programa qualquer, e o sistema grava automaticamente. Na hora de assistir à TV você escolhe entre algum programa que já esteja gravado, ou entre os vários programas disponíveis nas emissoras abertas - que podem ser encontrados pelo guia, através do menu que você preferir. Tem ainda a alternativa de baixar o que quiser pelo sistema OTT. Com o tempo, o mercado vai procurar pelo guia mais completo e mais fácil de ser consultado. E o serviço de TV vai ficando cada vez mais "free" para o consumidor, tanto no preço como na escolha da programação. Na medida que essa tendência avance, as tecnologias para os "cord cutters" vão avançar mais rapidamente. Daí, com o mercado americano nesse segmento, o céu é o limite.

Um ciclo transformador pode surgir no horizonte da Engenharia de Televisão, a partir da TV aberta nacional. E se isso acontecer, o Brasil vai ser o modelo a ser seguido. Próximos capítulos dessa trama? Acompanhe nas edições da SET Expo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A APOLOGIA POSSÍVEL À GUERRA




Depois do bang bang à italiana chegou a vez de um cowboy chinês assombrar os sonhos dominadores do Oeste Americano. Esqueçam o personagem "Gafanhoto", da série Kung Fu, que veio apenas para contrapor o silêncio e o desapego material à ambição dos conquistadores ianques. Era pura Filosofia Oriental, em plena Década de 1970. Mas o mandarim de agora chega online, invadindo fronteiras e disputando cada dólar que passa pelo e-commerce no mundo.

São muitas as maneiras de comparar o potencial do Alibaba.com, o maior portal de comércio eletrônico chinês, como os concorrentes americanos. Entre as comparações mais representativas está o volume de mercadorias vendidas. Em 2013, o Alibaba movimentou US$ 248 bilhões, o dobro da Amazon ou o triplo do EBay. Se contadas as embalagens entregues, são cerca de 5 bilhões de unidades, superando a marca da UPS, a gigante americana de logística, que entregou cerca de 4,3 bilhões de pacotes e documentos no ano passado.

A oferta pública de ações - ou IPO, na sigla em inglês - do Alibaba.com está numa contagem regressiva virtual. A data ainda não está agendada mas o mercado já tem como certas duas marcas históricas importantes: a primeira deve ser o maior IPO da New York Stocks Exchange, superando os US$ 20 bilhões em negócios, numa transação nunca antes vista no mercado financeiro norte americano; a segunda deve ser o fim do domínio americano no comércio eletrônico mundial.

A origem desse sucesso tem algumas razões em comum. Talvez a principal delas seja um mercado local vigoroso, combinado com uma rede de infraestrutura eficiente. A China, com uma população suficiente para povoar Marte, anuncia hoje uma classe média em torno de 500 milhões de pessoas. Se for a metade disso já é muito dinheiro em circulação. Também nos Estados Unidos foi o mercado interno que deu força a esses tipos de empreendimentos, inéditos à época.

Outro fator importante para competir nesse nível deve ser o "topete", aquela visão global associada ao ímpeto de avançar e conquistar, de se pôr à prova e lutar para vencer. Atributos americanos que os chineses cada vez mais querem igualmente provar. A diferença é que os marxistas doutrinados por Mao Tse Tung, ao contrário dos bolcheviques russos, adotaram como campo de batalha o livre mercado, o "consumismo alienante", desfraldando a bandeira vermelha numa guerra nada fria, ao contrário, capaz de aquecer os mercados. Para se ter uma ideia do espírito guerreiro que envolve essa disputa comercial, a ordem unida das forças chinesas tomou como estratégia de recursos humanos os romances populares de artes marciais de Louis Cha Leung-yung. O fundador do Alibaba, Jack Ma, é fã do gênero literário e adotou para si, dentro da empresa, o nome de Feng Qingyang, um guru de kung fu em uma das publicações. Ele sugere aos seus empregados que adotem a identidade de algum dos personagens das histórias, com direito a ostenta-la no próprio crachá e no cartão de visitas.

Porém, a característica comum decisiva de chineses e americanos nessa disputa é a determinação de inovar. A diferenciação, principalmente nos modelos de negócios, é a chave que abre as portas do sucesso para ambos os lados. O Alibaba.com já desenvolveu novas formas de dar credibilidade a este mercado impessoal num país como a China, onde olhar nos olhos sempre foi o primeiro passo para se fechar um negócio. Criou plataformas para setores específicos de comércio, como matérias primas e acessórios para pequenas empresas. E desenvolveu critérios de pagamento diferentes, atendendo realidades de diferentes segmentos de negócios.

A grande vantagem de uma guerra comercial é que ela sempre produz mais vencedores do que perdedores. Sim, porque no campo dos negócios a paz é um mal sinal. Ela só existe quando um grupo de poderosos, tratados entre si num cartel, decidem comodamente como explorar o mercado. Porém, quando a concorrência põe em guerra as forças comerciais os preços baixam, a qualidade sobe e o respeito pelo consumidor também. Tanto que o gigante do e-commerce chinês já tem planos de levar ao seu mercado tradicional os produtos americanos, o que representa uma vantagem para o Tio Sam. A proposta do que está sendo chamado de comércio transfronteiriço é um mercado global para consumidores globais. Isso tende a fazer com que os preços do iPhone sejam os mesmos tanto na Europa como nos Estados Unidos. Caso contrário, um clique muda o país de onde o consumidor vai comprar. A sazonalidade de botinas para neve desapareceria, mudando apenas o Hemisfério onde a maior parte das entregas seria feita.

A inteligência não conhece fronteiras. E destruir um adversário com violência é exatamente a confissão do fim da inteligência. As disputas e lutas, enquanto estiverem no campo da inteligência, nunca vão se transformar em tragédias.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

"CHING LING" EM ALTA



"Mesma coisa é um caminhão de chineses." Será!?

A piada, baseada no fenótipo característico do povo chinês, recentemente passou a ser usada também para fazer referência à estratégia industrial do gigante asiático. Copia-se de tudo por lá, do layout até a fonética de marcas. Eles anunciam o novo Hiphone a um preço abaixo de R$ 300,00 no Brasil. Parece que estão falando do iPhone, o celular "share of mind" da Apple, mas estão falando de um similar chinês, normalmente com menos recursos, menos qualidade e principalmente, mais barato. A tática ainda é ostensivamente praticada na China, desde a fabricação de chaveiros até os automóveis. Claro, cercada de todos os cuidados jurídicos, de forma a manter o produto chinês fora do conceito legal de cópia, apenas "muuito parecido".

Mas será que todos os consumidores são tão ingênuos assim? Mais fácil acreditar que os consumidores apostam na ingenuidade das pessoas com quem convivem. Eles sabem o que estão comprando. Mas quem vê um modelo de celular com aquelas linhas, na mão de um amigo que pagou apenas pelo similar, vai ficar convencido de que é um celular dos mais badalados. Imitar é um prazer para muitas pessoas e os chineses dominam essa arte - ou artesanato - como ninguém. Até os nomes eles copiam um dos outros, de tal forma que o país registra vários casos de erros médicos por conta do excesso de homônimos no país.

Hoje, a metáfora da cópia chinesa chama-se Lei Jun, conhecido com o Steve Jobs chinês. Ora, seria Lei Jun um sósia do mitológico empresário americano? Mesmo que fosse, a semelhança física seria insuficiente para tornar tão conhecido o Steve Jobs mandarim. Na verdade, o que valeu a alcunha foi a característica marcante do original, ou seja, ser muito original em tudo que faz. Há quem diga que até o chinês destacado pela originalidade, precisou de um apelido plagiado pra não ficar tão fora da regra. Olhando o outro lado também pode-se dizer que Steve Jobs não inovou da maneira mais ortodoxa quando "inventou" o mouse e a interface gráfica, ou mesmo o iPad. Inventar, então, passa a ser o ato de copiar aquilo que um gênio criou mas não soube vender.

Lei Jun, com certeza, é um nome a ser anotado e seguido. Se ele vai saber fazer o auto marketing com a qualidade que Jobs conseguiu, só o tempo vai dizer. Mas que está inovando de forma muito convincente, isso ninguém pode questionar. Para entender a grande revolução que Lei Jun pode ter deflagrado, comece tentando lembrar a última vez em que você ouviu falar de filas para comprar microcomputadores. Faz muito tempo. Quem tem a cabeça branca poderá lembrar primeiro do PC. No início da década de 80, o Personal Computer veio para suceder os microcomputadores de oito bits. Outro grande sucesso foi o Pentium lançado em 93, na verdade uma CPU, um processador, e não exatamente um novo microcomputador inteiro. Depois, o último grande sucesso ficou por conta do iMac lançado pela Apple em 98. E agora só se fala em novos sistemas operacionais ou aplicativos, porque as "embarcações" pouco importam, avançam todas num padrão muito parecido.

No caso dos celulares o mercado é diferente - por enquanto! A novidade está na maquininha, no hardware que acaba de chegar ao mercado. Pouca gente se importa se o sistema operacional é o IOS, o Android ou até mesmo o Windows Phone. E é exatamente isso que Lei Jun está mudando. A empresa dele, que fabrica a marca Xiaomi é hoje a campeã de vendas de celulares na China, o maior mercado mundial. Um relatório divulgado pela Canalys, uma empresa de pesquisas que atua no mercado de tecnologia, aponta a venda de 15 milhões de smartphones Xiaomi no ano passado, o que a coloca como a quinta maior fabricante do mundo. Em 2012 o número era de 4,4 milhões. Para quem pensa que vai pagar baratinho pela novidade, é melhor refazer as contas. Porque o grande sucesso dos Xiaomi está nos aplicativos que só eles podem rodar, e que custam mais. O aparelho é equipado com o sistema operacional Miui, na verdade uma versão modificada do Android. Só ele suporta os jogos, os aplicativos e alguns serviços diferentes de Internet. Até o layout do próprio Miui pode ser alterado pelos consumidores, que interagem diretamente com a fabricante. E essa febre está aumentando a cada sexta-feira. No dia do happy hour de cada semana a Xiaomi sempre atualiza a versão, mantendo ativa a curiosidade dos clientes para o novo aplicativo ching ling que vão carregar no bolso.

Os aparelhos? Ah, sim, são vendidos pelo preço da soma dos componentes eletrônicos. E ficam disponíveis nas lojas, na mesma versão, por até 18 meses. A novidade, também nos celulares, começa a se concentrar na parte mais inteligente, mais dinâmica do sistema, que é o software. Quem quer novidade em coisas físicas, tangíveis, é melhor pensar na moda das jóias ou confecções. Que tal um belo robe de seda?

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A SOBERANIA DA INTELIGÊNCIA



Houve um tempo em que o computador era acusado de tomar o emprego de multidões. Sindicatos mundo afora estavam desesperados por causa da ameaça que aquela máquina representava. Discursos de intelectuais não passavam sem o libelo cibernético e a ficção científica incorporou o novo monstro, atribuindo-lhe maldades capazes de tornar o Pica-Pau um exemplo de bom menino. Eis que a besta high tech, aos poucos, foi se acomodando na mesa de cada um deles: dos intelectuais, dos sindicalistas, das multidões. E, por enquanto, está com a reputação regenerada.

Para não incorrer no mesmo erro, de querer classificar exatamente uma máquina que ainda não atingiu seus limites, pode-se dizer que atualmente o computador é um "filtro de inteligência". Todas as tarefas que passarem por um computador terão suas atividades repetitivas, ou meramente comparativas, absorvidas pela máquina. Do outro lado só passa a parte inteligente, totalmente filtrada, para retornar comandos mais eficientes. Assim, as linhas e marcações de um projeto arquitetônico aparecem automaticamente na tela, sem exigir a habilidade motora de quem está com a inteligência focada na criação de um ambiente. Por que exigir o tempo de um hábil vendedor para procurar números de telefones numa listagem? O CRM faz isso por ele.

Um caso emblemático está no mercado imobiliário americano. Lá, adquirir um imóvel é uma decisão de muita responsabilidade. É um investimento alto, num mercado concorrido e não se cogita a possibilidade de um "My house, my life" ou de qualquer outro programa amplo de subsídios, capaz de amenizar prejuízos. Por isso os americanos, historicamente, trataram de cercar suas investidas imobiliárias de todos os cuidados possíveis. Quem quer comprar uma casa procura um agente especializado, que vai procurar um outro agente, contratado por pessoas que querem vender casas. É como se houvesse corretores de vendas de imóveis e corretores de compra de imóveis. Cada um vai lutar ao máximo para fazer prevalecer o interesse do seu cliente. Tem que ter muita competência envolvida nessas negociações, caso contrário, proprietários e compradores resolveriam seus negócios apenas entre si. E a informática, não poderia ajudar?

A informática ajuda, sim. Para entender melhor, navegue alguns minutos em www.zillow.com . Você vai perceber que lá está quase tudo que um site pode trazer para ajudar em negócios imobiliários. A localização nos mapas é absolutamente transparente, você pode procurar por cidade, bairro, rua ou zona postal, por faixa de preços e por muitos outros índices. Tem várias fotos de cada imóvel, preço e até estimativa de valores para imóveis que não estão a venda, mas podem servir como padrão de negócios para a área. Com o aprimoramento desses serviços eletrônicos disponibilizados gratuitamente, o Zillow acumulou um capital que lhe permitiu, em menos de 10 anos de existência, pagar R$ 3,5 bilhões por um outro portal do mesmo segmento, o Trulia, com sede em São Francisco. E sabe de onde veio todo esse dinheiro? Principalmente da publicidade de agentes imobiliários, sim, os que deveriam temer a concorrência dos sites imobiliários. Mas são eles, os agentes, que pagam para anunciar seus serviços, com as referências de clientes satisfeitos. O detalhe agora é que o Trulia é mais voltado para as pessoas que querem comprar uma casa. Metade dos frequentadores mensais do Trulia não acessa as páginas do Zillow, que é mais focado nos interesses dos vendedores. A união dos dois portais passa então a ameaçar a tradição de negócios imobiliários nos Estados Unidos. Mas, por enquanto, isso não parece tão próximo. 

É claro que os analistas de sistemas e programadores procuram a cada dia a fórmula para superar as operações que a inteligência dos agentes imobiliários realiza com tanta desenvoltura. A enorme capacidade de armazenamento de informações, a rapidez de acesso a cada uma delas, são ferramentas que, combinadas adequadamente, podem iluminar muito o raciocínio necessário para decidir por um negócio. A questão é que, do outro lado, os agentes estão criando cenários e soluções, o que está infinitamente distante da capacidade de um computador.

O filtro vai continuar. Quanto mais tarefas o computador puder absorver, mesmo que divididas em milhares de tarefas banais, mais ameaçada fica a posição dos agentes imobiliários. O que vai ser decisivo nessa luta da força contra a inteligência é a real disposição dos agentes em continuar inovando na orientação de seus clientes. Enquanto a remuneração estimular esse esforço, com certeza, os agentes vão se manter. Porém, quando eles acharem que podem investir a energia de seus neurônios em outros negócios, vai sobrar para os clientes a assistência comoditizada dos bits. Os riscos vão aumentar e, se eles não insistirem na assistência de um agente especializado, a profissão pode ser esvaziada. A inteligência, então, vai migrar para novos desafios. E, com certeza, vai continuar contando com a contribuição dos computadores.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O TEMPO E O ESPAÇO


Você está trabalhando agora? Fique a vontade, muita gente lê um pouco para distrair durante o trabalho. Mesmo agora, a essa hora.

Agora é a única hora certa. Aquela hora para a qual os ponteiros do relógio apontam o tempo todo. Se tem alguma dúvida, pergunte a uma criança. Quando ela quer alguma coisa não sossega nem um instante na tarefa civilizatória de esperar. Um comportamento tão natural que, de certa forma, pode ser observado desde os homens primitivos. Principalmente em lugares onde a natureza é generosa e oferece tudo que é preciso para viver. Dorme-se quando escurece, levanta quando o dia clareia, só porque é mais prático. Se quiser pode ficar acordado à noite, pode dormir de dia. Quando der fome, come-se, caça quando achar que vale a pena. Deve ter sido nos locais hostis, muito frios, com pouco alimento, onde o homem começou a esconder o agora correndo atrás do tempo. Tinha que fazer no verão o que seria impossível no inverno. Foi também o tempo do outro que acabou se misturando com o tempo da gente. Daí o jeito é esperar. Mas a hora certa sempre foi agora.

É para o agora que o mundo tende a convergir novamente. Porque é o único tempo que existe de fato, o presente. O resto do tempo é uma linha imaginária, fixa, que fica parada no céu do equador, enquanto o mundo empurra permanentemente o agora para o Oeste, sempre procurando um novo amanhã no Leste. Com o avanço da tecnologia o tempo presente está voltando, e até os nomes começam a mudar. Por exemplo, a TV linear. É a TV que tem um programa fixo a cada hora, essa mais comum, que faz a gente esperar pra ver. A não-linear ou "on-demand" é a NetFlix, por exemplo, que tem uma programação disponível e cada um assiste a qualquer hora o que quiser. É só fazer o streaming e "play". Para ela, é claro, as crianças são um caminho natural.

Um relatório do Goldman Sachs, que elevou os preços das ações da Netflix, aponta que 3, em cada 4 crianças americanas de até 8 anos de idade tem acesso a um dispositivo móvel, como tablets ou smartphones. Há dois anos, era "apenas" a metade delas. Nessa mesma faixa etária 7% das crianças já tem o próprio tablet, quase o percentual dos adultos, que é de 8%. No relatório do Goldman consta ainda que o tempo diário de utilização da TV tradiconal, do video game ou do desktop/notebook não está registrando aumento entre as crianças. Só os dispositivos móveis. Todos os dados referentes aos Estados Unidos.

As crianças não querem esperar para ver seja lá o que for. Nem mesmo o desenho da Disney que já assistiram no fim de semana, ontem, hoje cedo e agora há pouco. Para a Psicóloga Cláudia Menegatti "a ligação da criança com o momento presente é muito forte". Talvez por isso o prazer do agora tenha um significado que a memória não é capaz atingir. Se aquilo pode acontecer de novo, somente com um toque no tablet, por que não!?

Não apenas por conta das crianças, a Netflix está internacionalizando o atendimento e o potencial estimado é de 62 milhões de assinantes não americanos até 2017, ante os 13 milhões atuais. A perspectiva total de mercado fora dos Estados Unidos está avaliada em 200 milhões de assinantes. Esses dados do relatório se transformaram num conto de fadas na Bolsa de Nova York quando foram publicados, no mês passado. No dia, a alta das ações da empresa foi de 6%, acumulando 27% de ganho até aquela data do ano.

Os dados do relatório acumulam muitos outros finais felizes para quem comprar ações da empresa. E não deve ser diferente para todos os negócios que prometerem um agora com mais prazeres e desejos atendidos. Sim, porque a tecnologia chega trazendo primeiro mais trabalho, e isso limita os prazeres dos usuários. Foi o que se viu desde o just in time até o home office, passando pelos bips e os primeiros celulares. Quando alguém ganhava um celular da empresa sabia que estaria sentado numa escrivaninha virtual o tempo todo, para ser convocado a qualquer momento. Hoje, nesses tempos em que a tecnologia começa a trazer mais prazeres, pelo menos você pode pensar em assistir ao jogo do seu time pelo celular, enquanto está no ônibus indo atender o chamado da empresa.

Por aí se percebe também que a combinação física de tempo e espaço é algo que a informática promete bagunçar mais e mais. Se antes precisava agendar o horário para assistir ao filme da programação da TV - da TV linear, para ser mais exato - você precisava também chegar na hora certa ao lugar onde tinha um aparelho de TV. Agora o dispositivo móvel está na sua pasta, no seu bolso e, em breve, vai estar nos seus óculos. Tudo agora, tudo aqui.

Voltando às crianças, cabe uma advertência: para os pais que pensam nos dispositivos móveis como uma forma de aliviar a exigência da presença diante dos filhos, não se pode esquecer da nova missão: é a missão de selecionar e limitar o acesso a conteúdos indesejáveis. Porque ameaças de todo tipo também estarão rondando o agora das novas gerações.