sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A SOBERANIA DA INTELIGÊNCIA



Houve um tempo em que o computador era acusado de tomar o emprego de multidões. Sindicatos mundo afora estavam desesperados por causa da ameaça que aquela máquina representava. Discursos de intelectuais não passavam sem o libelo cibernético e a ficção científica incorporou o novo monstro, atribuindo-lhe maldades capazes de tornar o Pica-Pau um exemplo de bom menino. Eis que a besta high tech, aos poucos, foi se acomodando na mesa de cada um deles: dos intelectuais, dos sindicalistas, das multidões. E, por enquanto, está com a reputação regenerada.

Para não incorrer no mesmo erro, de querer classificar exatamente uma máquina que ainda não atingiu seus limites, pode-se dizer que atualmente o computador é um "filtro de inteligência". Todas as tarefas que passarem por um computador terão suas atividades repetitivas, ou meramente comparativas, absorvidas pela máquina. Do outro lado só passa a parte inteligente, totalmente filtrada, para retornar comandos mais eficientes. Assim, as linhas e marcações de um projeto arquitetônico aparecem automaticamente na tela, sem exigir a habilidade motora de quem está com a inteligência focada na criação de um ambiente. Por que exigir o tempo de um hábil vendedor para procurar números de telefones numa listagem? O CRM faz isso por ele.

Um caso emblemático está no mercado imobiliário americano. Lá, adquirir um imóvel é uma decisão de muita responsabilidade. É um investimento alto, num mercado concorrido e não se cogita a possibilidade de um "My house, my life" ou de qualquer outro programa amplo de subsídios, capaz de amenizar prejuízos. Por isso os americanos, historicamente, trataram de cercar suas investidas imobiliárias de todos os cuidados possíveis. Quem quer comprar uma casa procura um agente especializado, que vai procurar um outro agente, contratado por pessoas que querem vender casas. É como se houvesse corretores de vendas de imóveis e corretores de compra de imóveis. Cada um vai lutar ao máximo para fazer prevalecer o interesse do seu cliente. Tem que ter muita competência envolvida nessas negociações, caso contrário, proprietários e compradores resolveriam seus negócios apenas entre si. E a informática, não poderia ajudar?

A informática ajuda, sim. Para entender melhor, navegue alguns minutos em www.zillow.com . Você vai perceber que lá está quase tudo que um site pode trazer para ajudar em negócios imobiliários. A localização nos mapas é absolutamente transparente, você pode procurar por cidade, bairro, rua ou zona postal, por faixa de preços e por muitos outros índices. Tem várias fotos de cada imóvel, preço e até estimativa de valores para imóveis que não estão a venda, mas podem servir como padrão de negócios para a área. Com o aprimoramento desses serviços eletrônicos disponibilizados gratuitamente, o Zillow acumulou um capital que lhe permitiu, em menos de 10 anos de existência, pagar R$ 3,5 bilhões por um outro portal do mesmo segmento, o Trulia, com sede em São Francisco. E sabe de onde veio todo esse dinheiro? Principalmente da publicidade de agentes imobiliários, sim, os que deveriam temer a concorrência dos sites imobiliários. Mas são eles, os agentes, que pagam para anunciar seus serviços, com as referências de clientes satisfeitos. O detalhe agora é que o Trulia é mais voltado para as pessoas que querem comprar uma casa. Metade dos frequentadores mensais do Trulia não acessa as páginas do Zillow, que é mais focado nos interesses dos vendedores. A união dos dois portais passa então a ameaçar a tradição de negócios imobiliários nos Estados Unidos. Mas, por enquanto, isso não parece tão próximo. 

É claro que os analistas de sistemas e programadores procuram a cada dia a fórmula para superar as operações que a inteligência dos agentes imobiliários realiza com tanta desenvoltura. A enorme capacidade de armazenamento de informações, a rapidez de acesso a cada uma delas, são ferramentas que, combinadas adequadamente, podem iluminar muito o raciocínio necessário para decidir por um negócio. A questão é que, do outro lado, os agentes estão criando cenários e soluções, o que está infinitamente distante da capacidade de um computador.

O filtro vai continuar. Quanto mais tarefas o computador puder absorver, mesmo que divididas em milhares de tarefas banais, mais ameaçada fica a posição dos agentes imobiliários. O que vai ser decisivo nessa luta da força contra a inteligência é a real disposição dos agentes em continuar inovando na orientação de seus clientes. Enquanto a remuneração estimular esse esforço, com certeza, os agentes vão se manter. Porém, quando eles acharem que podem investir a energia de seus neurônios em outros negócios, vai sobrar para os clientes a assistência comoditizada dos bits. Os riscos vão aumentar e, se eles não insistirem na assistência de um agente especializado, a profissão pode ser esvaziada. A inteligência, então, vai migrar para novos desafios. E, com certeza, vai continuar contando com a contribuição dos computadores.

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