sexta-feira, 15 de agosto de 2014

"CHING LING" EM ALTA



"Mesma coisa é um caminhão de chineses." Será!?

A piada, baseada no fenótipo característico do povo chinês, recentemente passou a ser usada também para fazer referência à estratégia industrial do gigante asiático. Copia-se de tudo por lá, do layout até a fonética de marcas. Eles anunciam o novo Hiphone a um preço abaixo de R$ 300,00 no Brasil. Parece que estão falando do iPhone, o celular "share of mind" da Apple, mas estão falando de um similar chinês, normalmente com menos recursos, menos qualidade e principalmente, mais barato. A tática ainda é ostensivamente praticada na China, desde a fabricação de chaveiros até os automóveis. Claro, cercada de todos os cuidados jurídicos, de forma a manter o produto chinês fora do conceito legal de cópia, apenas "muuito parecido".

Mas será que todos os consumidores são tão ingênuos assim? Mais fácil acreditar que os consumidores apostam na ingenuidade das pessoas com quem convivem. Eles sabem o que estão comprando. Mas quem vê um modelo de celular com aquelas linhas, na mão de um amigo que pagou apenas pelo similar, vai ficar convencido de que é um celular dos mais badalados. Imitar é um prazer para muitas pessoas e os chineses dominam essa arte - ou artesanato - como ninguém. Até os nomes eles copiam um dos outros, de tal forma que o país registra vários casos de erros médicos por conta do excesso de homônimos no país.

Hoje, a metáfora da cópia chinesa chama-se Lei Jun, conhecido com o Steve Jobs chinês. Ora, seria Lei Jun um sósia do mitológico empresário americano? Mesmo que fosse, a semelhança física seria insuficiente para tornar tão conhecido o Steve Jobs mandarim. Na verdade, o que valeu a alcunha foi a característica marcante do original, ou seja, ser muito original em tudo que faz. Há quem diga que até o chinês destacado pela originalidade, precisou de um apelido plagiado pra não ficar tão fora da regra. Olhando o outro lado também pode-se dizer que Steve Jobs não inovou da maneira mais ortodoxa quando "inventou" o mouse e a interface gráfica, ou mesmo o iPad. Inventar, então, passa a ser o ato de copiar aquilo que um gênio criou mas não soube vender.

Lei Jun, com certeza, é um nome a ser anotado e seguido. Se ele vai saber fazer o auto marketing com a qualidade que Jobs conseguiu, só o tempo vai dizer. Mas que está inovando de forma muito convincente, isso ninguém pode questionar. Para entender a grande revolução que Lei Jun pode ter deflagrado, comece tentando lembrar a última vez em que você ouviu falar de filas para comprar microcomputadores. Faz muito tempo. Quem tem a cabeça branca poderá lembrar primeiro do PC. No início da década de 80, o Personal Computer veio para suceder os microcomputadores de oito bits. Outro grande sucesso foi o Pentium lançado em 93, na verdade uma CPU, um processador, e não exatamente um novo microcomputador inteiro. Depois, o último grande sucesso ficou por conta do iMac lançado pela Apple em 98. E agora só se fala em novos sistemas operacionais ou aplicativos, porque as "embarcações" pouco importam, avançam todas num padrão muito parecido.

No caso dos celulares o mercado é diferente - por enquanto! A novidade está na maquininha, no hardware que acaba de chegar ao mercado. Pouca gente se importa se o sistema operacional é o IOS, o Android ou até mesmo o Windows Phone. E é exatamente isso que Lei Jun está mudando. A empresa dele, que fabrica a marca Xiaomi é hoje a campeã de vendas de celulares na China, o maior mercado mundial. Um relatório divulgado pela Canalys, uma empresa de pesquisas que atua no mercado de tecnologia, aponta a venda de 15 milhões de smartphones Xiaomi no ano passado, o que a coloca como a quinta maior fabricante do mundo. Em 2012 o número era de 4,4 milhões. Para quem pensa que vai pagar baratinho pela novidade, é melhor refazer as contas. Porque o grande sucesso dos Xiaomi está nos aplicativos que só eles podem rodar, e que custam mais. O aparelho é equipado com o sistema operacional Miui, na verdade uma versão modificada do Android. Só ele suporta os jogos, os aplicativos e alguns serviços diferentes de Internet. Até o layout do próprio Miui pode ser alterado pelos consumidores, que interagem diretamente com a fabricante. E essa febre está aumentando a cada sexta-feira. No dia do happy hour de cada semana a Xiaomi sempre atualiza a versão, mantendo ativa a curiosidade dos clientes para o novo aplicativo ching ling que vão carregar no bolso.

Os aparelhos? Ah, sim, são vendidos pelo preço da soma dos componentes eletrônicos. E ficam disponíveis nas lojas, na mesma versão, por até 18 meses. A novidade, também nos celulares, começa a se concentrar na parte mais inteligente, mais dinâmica do sistema, que é o software. Quem quer novidade em coisas físicas, tangíveis, é melhor pensar na moda das jóias ou confecções. Que tal um belo robe de seda?

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