sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O CARÁTER DAS CANETAS


"Ele tem a força!" Ou, numa interpretação mais atual, "ele tem a ... caneta!" Esse poder de varinha mágica que possuem determinadas canetas é responsável por boa parte do atraso do mundo.  É quando o gestor público esquece que a autoridade se estabelece com base na lei. Recebe um cargo e sai assinando o que tem na cabeça, como se a expressão da própria vontade fosse tudo que se esperava dele. Acredita-se uma sumidade cujos atos serão, por definição, os melhores.

O gestor consciente e competente, antes da lei, terá seus próprios limites morais. Vai respeitar o valor da palavra, as expectativas que gera ao seu redor, os hábitos já estabelecidos, para tratar cada situação com o devido respeito. Porém, quando a palavra dita passa a ser apenas uma arapuca e, quando até a palavra assinada, depois de acordos, desaparece diante de uma assinatura idêntica mais recente, é porque uma crise institucional está se desenhando.

Um exemplo: com o leilão da faixa de 700MHz para as operadoras de celular, formou-se oficialmente um fundo de compensação que, dentre outras medidas, destinaria 14 milhões de set-top boxes (conversor digital) para os inscritos no Bolsa Família. O leilão foi no dia 30 de setembro de 2014. A dúvida ficou em torno das especificações do set-top box. Dependendo do modelo, a "caixa", como é tratada no mercado, pode ficar mais cara. A tão sonhada interatividade, com todos os recursos possíveis, só é viável com a implementação C do software Ginga. Exige mais memória, melhor processamento e portas USB. O Ginga é tecnologia 100% nacional, foi escolhido como referência mundial e o Governo Federal assinou em 2012 o compromisso de promover o Ginga. Seria hora de honra-lo!

UMA MEDIDA PONDERADA, DEBATIDA


O Ginga C não é absolutamente um luxo. É uma ferramenta de cidadania e de economia para a Administração Pública. Com base no Ginga C foi desenvolvido um conjunto de aplicativos que permite a um cidadão qualquer obter, pela tela da TV, o saldo do fundo de garantia, do PIS, as vagas de emprego disponíveis em cada região (por categoria profissional, sexo, idade), pode fazer vários cursos profissionalizantes pela TV e até marcar horário de consultas médicas no SUS. Isso é só o começo. Esse conjunto de aplicativos levou o nome de "Brasil 4D" e foi desenvolvido pela EBC - Empresa Brasileira de Comunicação. É uma transformação possível a qualquer televisor, mesmo os "quadradões", de tubo, desde que conectado à caixa com Ginga C.

Nessa tecnologia o Brasil é o melhor do mundo. Motivo mais do que suficiente para que a maioria das grandes fabricantes mundiais de televisores deixassem de lado o Ginga C. Para elas, o plano é vender o que tem, as smartTVs, para fazer a interatividade através da Internet, favorecendo unicamente os interesses comerciais. O Ginga pode atender também a todos os interesses comerciais, pode se conectar à Internet, sempre mantendo a porta aberta para o apoio cidadão. Mas as emissoras precisariam implantar o sistema e, pelo visto, não demonstram muito interesse em nadar contra a correnteza.

A última semana de prazo para definir o padrão da caixa foi em meados do último mês de maio. O então Ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, viu muito nitidamente de que lado está o interesse público. E, numa maratona de reuniões com emissoras, operadoras de celular e todo o segmento envolvido, conseguiu uma forma de garantir todas as caixas para o Bolsa Família com Ginga C e Brasil 4D. Muitas conversas, consultas a especialistas, a empresas e infinitas contas. A resposta: sim, é viável, o Brasil precisa, assim será. "-Traga a caneta aqui..." e todo mundo assinou.

TUDO CERTO, NADA RESOLVIDO


Hoje a situação é a seguinte: o Governo precisa limpar a faixa de 700MHz que vendeu para as operadoras de celular. Mas o sinal de algumas emissoras de TV ainda trafega por lá, pelo menos nas grandes cidades brasileiras. Como o prazo para as operadoras é 2018, o mesmo do encerramento do sinal analógico de TV, o Governo programou fazer as duas coisas juntas: em cada região onde desliga o sinal analógico, já deixa vazia a banda de 700MHz. Simples!

Agora aparece um outro problema. Muitas pequenas emissoras de TV Brasil afora ainda não iniciaram a transmissão digital, ou ainda não digitalizaram a retransmissão em todas as suas torres. Mas o prazo pra isso ser feito começou em 2008. Nesse período, o Brasil viveu um grande crescimento econômico, cada empresa deveria ter feito as reservas para o investimento nos equipamentos para digitalização. Não foi assim em todas as emissoras. E agora, um grupo delas quer que o Governo Federal faça o remanejamento só nas grandes cidades, deixando as pequenas para 2023. Para conseguir o apoio das operadoras de celular esse grupo propõe que, nas pequenas cidades, o set-top box do Bolsa Família seja o mais simples, sem Ginga C nem Brasil 4D, reduzindo os custos pela metade. Só esquecem que o cidadão que habita os pequenos municípios é tão brasileiro quanto os moradores das grandes cidades. Com a diferença que, nos pequenos municípios, é onde as ferramentas de inclusão são mais importantes.

O atual Ministro das Comunicações, André Figueiredo, já começou a ceder em alguns pontos. Na primeira cidade onde está sendo feita a experiência ele já autorizou compra de set-top boxes sem o Ginga C - o que significa que não é possível rodar os aplicativos do Brasil 4D. A autorização foi para contemplar famílias inscritas no Cadastro Único de assistência social, mas que não estão no Bolsa Família. A norma em relação ao Bolsa Família, portanto, foi atendida. Mas abriu-se uma exceção, sem previsão anterior, para tentar executar o calendário previsto - que, mesmo assim, já foi adiado para fevereiro de 2016. As pressões contra o Ginga C continuam. E as atenções, cada vez mais, se voltam para a caneta do Ministro.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

ALGEMAS REAIS NO MUNDO VIRTUAL


"-Ô, seu guarda... Por que fecharam essa rua aí!?
"-Ah, foi o Juiz que mandou."
"-Mas fechar por quê? Até que horas vai isso?"
"-Sei não. Parece que o cara ali da padaria não pagou as contas dele, então o promotor pediu pra fechar a rua até derrubar o faturamento, pra ele resolver pagar."

Não foi uma rua, mas uma infovia, por onde passam diariamente dezenas de milhões de pessoas. O WhatsApp parou por 13 horas no Brasil e, mais uma vez, levou o nome da pátria amada às manchetes internacionais. Nada de fazer coro à indignação, evocar o absurdo. Pobre coitado, o que será do absurdo? Até as coisas que ninguém imaginou já acontecem, e o significado dele só encolhendo. O fato está aí, na história, e apesar da origem virtual terá reflexos reais que podem impactar o mundo todo.

Tudo começou com um processo crime, ninguém sabe qual, porque corre em segredo de justiça na cidade de São Bernardo do Campo, Grande São Paulo. O promotor do caso quer acessar mensagens trocadas pelos acusados via WhatsApp, para provar culpas e inocências. A juíza concordou e determinou quebra de sigilo mas o WhatsApp não cumpriu até agora. Então para e não volta enquanto não passar as informações que deve à lei. As operadoras móveis receberam a ordem judicial para tirar o tráfego do WhatsApp do ar. O Brasil, em silêncio. Ou, em outros endereços eletrônicos, num barulho poucas vezes visto.

MUITO ESTRANHO, MAIS DO QUE PARECE


Digamos que um juiz tire do ar um site de compras. Os negócios param de imediato, como se um míssil destruísse uma loja inteira, num único lançamento. Daí a direção do site cumpre as exigências e a loja reaparece todinha lá, sem nem o cheiro da pólvora. Mas e o WhatsApp? Você já se perguntou de onde vem a receita da rede social móvel? Nunca aparece propaganda, não descontam nada no banco, não é o governo que paga. Seria o "lanche grátis", que economistas e advogados insistem em dizer que "é absurdo" (olha ele aí de novo). Por que o mais jovem magnata da história teria pago dezenas dos seus bilhões para ter, ou melhor, para nos dar esse brinquedo?

As hipóteses, a partir dessa constatação, podem ser assustadoras. A primeira seria o fim da "degustação". Apareceria alguém na sua porta - mais provável na porta virtual - e perguntaria: "-Gostou do período de degustação do WhatsApp? O que acha de contratar um plano a partir de agora?" Pelos vários casos de sofrência extrema relatados na mídia e nas outras redes sociais, com certeza os donos do negócio coçaram a cabeça. E também os dedos.

A outra hipótese, que não anula a anterior, é de que parte dos seus rastros pelo WhatsApp estejam sendo seguidos, ou melhor, vendidos. Seriam estudos a partir de palavras chaves? Fotos? O aplicativo aumentou as vendas de pacotes de dados para dispositivos móveis e o tempo de conexão Wi-Fi. Esse último, já é utilizado comercialmente para identificar a movimentação de pessoas dentro de grandes lojas. O objetivo é conhecer hábitos de consumo. Será que o WhatsApp não tem mais nenhum outro dispositivo, capaz de enviar informações mais detalhadas sobre suas necessidades imediatas de compra? Mark Zuckerberg quis transparecer que jamais faria isso. Ao saber do bloqueio brasileiro se disse indignado com o que aconteceu, "só porque guardamos muito bem o sigilo dos internautas". Humm...

PAGANDO BEM, EU FICO ZEN


A parte mais complicada e mais imprevisível desse imbróglio é no campo jurídico. A propósito, a Justiça foi a primeira instituição a criar uma instância meio que "virtual". Ela concebeu a "verdade jurídica", que sempre busca ser a "verdade verdadeira", mas pode ser diferente. Uma verdade a parte. Se você é condenado a pagar uma conta que não deve, mas perde o prazo para recurso, vai ter que pagar. Porque a verdade jurídica não foi contestada tempestivamente, então "Dormientibus non sucurrit jus", em português, "O Direito não socorre aos que dormem", em "brasileiro", "você dançou".

Foi em nome da Justiça que o WhatsApp foi citado. A busca é pela verdade verdadeira. E se alguém lá pelos servidores do WhatsApp resolver fraudar alguma informação? Bitcoins or not bitcoins. That's the question! Tudo bem, o mundo real terá outras pistas para perseguir a verdade. Mas serão suficientes para preencher as exigências da verdade jurídica, sem afastá-la da verdade verdadeira?

O episódio da semana foi, sem dúvida, mais um monumental alerta sobre os riscos que crescem pelo mundo virtual. O primeiro diz respeito à parte dos cidadãos que sobrevive daquelas interações virtuais, que pulsa lá dentro. Tanto por paixão como por necessidade profissional, pessoal, de várias naturezas. É uma vulnerabilidade social, potencialmente, até mais perigosa do que a vulnerabilidade do território. Essa parte da vida das pessoas fica em outro mundo, sob o controle de gente que não está aqui, que não sabemos quem é. O abismo tecnológico é outra fraqueza, por nos colocar muito longe de qualquer possibilidade de reação, no caso de um isolamento. Um outro risco ficou patente nas denúncias de Edward Snowden sobre práticas de espionagem, por parte do Governo Americano. Depois do desconforto diplomático, que envolveu também a Alemanha – a mais poderosa nação europeia na atualidade – Barack Obama se comprometeu a não permitir mais que isso aconteça. Lembrando que no ano que vem ele passa o cargo a outro governante; que a ameaça do terror cresce a cada dia; que a China está avançando fortemente sobre mercados americanos; que todos os caminhos e recursos para voltar a espionagem estão lá. Tem uma coleção de “senões” a serem considerados. Diante de tanta preocupação, só nos resta uma saída: correr pro WhatsApp e extravasar toda essa tensão com os amigos mais próximos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

PRÊMIO FINEP DE INOVAÇÃO CONFIRMA O RITMO DA CRIATIVIDADE


Inovação é o fim do mundo! Mas também é o começo de outro. É o que se viu na história da Internet. A grande rede foi idealizada para viabilizar a comunicação entre centros de pesquisas, no caso de uma guerra nuclear. Seria o fim do mundo. Os cientistas teriam a tarefa de reconstruir a civilização, conversando por uma espécie de Whatsapp do Apocalipse. Quando a guerra fria acabou, pensaram em dar outra utilidade a rede. E então surgiu o mundo virtual da Web, onde acontece grande parte da nossa vida real.

Hoje o mundo não é mais o mesmo. Ele está sendo a cada dia algo um pouco diferente. Um pouco mais a cada semana, mudado a cada mês, imprevisível a cada ano, irreconhecível a cada década. Por enquanto, o nome disso é inovação. A Finep - Financiadora de Estudos e Projetos, ligada ao Governo Federal, estimula a inovação no Brasil de todas as formas possíveis. Além de financiar, identificar potenciais, novos nichos, aproximar saberes, ela também premia as mais destacadas inovações a cada ano. Nesta sexta-feira, dia 11 de dezembro, finalzinho de 2015, o Prêmio Finep de Inovação foi entregue, pela quinta vez, para a EiTV. O mais interessante, sem dúvida, é o que a equipe da EiTV fez para merecer o segundo lugar nacional na categoria Tecnologia Assistiva.

OS "OUVIDOS" QUE OS TELEVISORES TRANSMITEM


O ritmo das transformações no mundo não admite abrir mão dos recursos humanos disponíveis. É necessário incluir. As políticas de inclusão, além do caráter humanitário, são pragmáticas, no quadro de uma sociedade que precisa gerar respostas cada vez mais complexas e em maior número. Foram esses dois fatores que motivaram a equipe da EiTV a desenvolver a mais completa ferramenta de inclusão da audiência de deficientes auditivos. É o CCStudio, um aplicativo que gera as legendas ocultas de Closed Caption a partir de qualquer fonte que a emissora escolher.

A fonte de geração das legendas pode ser a voz de um locutor, cadastrado num sistema de conversão de áudio em caracteres da língua portuguesa. Ao registrar o timbre daquela voz, repetindo o áudio da programação, o sistema gera legendas escritas e, pelo teclado, acrescentam-se comentários como (música), (aplausos), (risos), dentre outros. Outra fonte pode ser o sistema do tipo "news" da redação do telejornal. São sistemas que integram entre si todos os jornalistas da redação, mais o "teleprompter", que é o visor que exibe ao apresentador o script que ele lê para o público. Tem ainda a possibilidade de utilizar integralmente o áudio da programação que é convertido automaticamente em legendas, para serem inseridas no ar.

Esse conjunto de soluções atende às exigências da lei federal que trata do assunto e permite aos radiodifusores ajustarem os custos ao sistema mais adequado para cada emissora. Além de milhões de telespectadores deficientes auditivos, o CC Studio permite que TVs de bares, restaurantes e terminais de transporte ofereçam a programação de emissoras à todos que se dispuserem a ler as legendas.

O COMPASSO FIRME DA INOVAÇÃO


Depois de cinco prêmios Finep de Inovação, em dez anos de empresa, Rodrigo Araújo, Diretor da EiTV, não quis "mistificar" as conquistas: "-Inovação está ao alcance de todos. Mais do que investimentos, é necessária a criatividade, a sensibilidade e principalmente, o compromisso de inovar". Como exemplo, ele citou inovações vindas de empresas, instituições de pesquisa ou pessoas físicas, já laureadas com o Prêmio Finep. Em várias delas é visível a genialidade associada à simplicidade. O compromisso de inovar, portanto, é a postura diante da realidade, que exige sempre um passo a frente em eficiência, redução de custos, praticidade. "Todos os dias isso acontece na EiTV", garante Araújo. O prêmio anual da Finep comprova isso, pelo menos a cada 2 anos.

No ritmo dos acontecimentos, dentro de algum tempo produzir e inovar vão ser quase uma coisa só. Nada mais permanece, indiferente ao tempo. A cultura e as tradições vão preservar momentos através da arte, de costumes. Mas as soluções do passado tendem a ser aprimoradas, de forma incremental ou disruptiva, trazendo o mundo novo.

Coincidentemente, o Prêmio Finep foi entregue na semana de encerramento da COP 21, em Paris. Lá, cerca de duzentos chefes de estado procuram salvar o planeta de uma catástrofe climática, principalmente, pela mudança radical da matriz energética do mundo. O grande pleito é zerar a queima de derivados de petróleo em 35 anos. O que os mandatários de todas as nações clamam é por inovações, que permitam essa mudança. Afinal, se a Internet, como máquina do Apocalipse foi disruptiva, a Web, como inovação incremental, criou um mundo novo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A CONFERÊNCIA DO CLIMA E O FUTURO DA POLUIÇÃO


Talvez algum dia reconheçam que a palavra mais devastadora dessas últimas décadas está entre os vocábulos mais ingênuos e politicamente corretos do Ocidente. A tradução pode sofrer algumas variações etimológicas de um idioma pra outro mas, com certeza, em todas as nações, onde existe o atraso essa palavra será usada. Atraso pela procrastinação, pela leniência, pela apatia. A palavra é "conscientizar", em todas as suas flexões, mais a substantivação.

Aí está a COP 21, com o despropósito de trazer propostas para evitar o aquecimento global. Uau, já são 21 anos de conversa, e o que foi feito até agora? Conscientização, oras! É nessa palavra onde param todos os tipos de soluções. Juízes de Direito já apareceram até na TV, criticando, por exemplo, radares de velocidade, para substituí-los por "ações de conscientização". E o trânsito matando! Conscientizar deve ter o poder de tirar os jovens das drogas, manter as ruas limpas e conservadas, erradicar a dengue no Brasil, conduzir à Brasília os mais honestos e eficientes políticos e até baixar o peso, se você passou das medidas. Alguns revolucionários, quando chegam ao poder, pedem pro povão dar um tempo pra se conscientizar. Enquanto isso, não dá pra distribuir tudo que foi prometido, tem que esperar até que a conscientização aconteça.

Dia desses, pela TV, aparecia na Conferência do Clima uma academia cheia de jovens diplomatas, bem criados, pedalando em aparelhos. Assim eles geravam a energia, que fazia funcionar liquidificadores, que faziam suquinho de frutas! Wowm, isso é que é consciência!

O LIXO QUE NÃO PLANA NA ATMOSFERA


Entrando nos detalhes mais "técnicos" do evento, COP 21 é um nome que tem toda pompa diplomática: "Conferência das Partes na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima". Para quem pensava que o "p" de "COP" era de poluição, agora ficou claro que é de "partes". Mas em pouco tempo os dois significados podem ser uma coisa só, com o mundo mergulhado em partes eletrônicas.

Com efeito, hoje é o esgotamento de um ciclo tecnológico, que começou com a máquina a vapor, que está se esgotando de forma a comprometer o clima. Excesso de carbono na Atmosfera e o mundo pode acabar! Ou melhor, o mundo dos humanos pode acabar. O novo ciclo tecnológico tem que trazer a solução pra toda essa modernidade afinal, é a ciência que podemos ter. Mas o novo ciclo tecnológico já não esconde seus pecados.

As lâmpadas que economizam energia, a injeção eletrônica que reduz emissões, os computadores que evitam tantos deslocamentos, os vários aparelhos que garantem conforto nos ambientes, tudo isso, quando vira lixo, é estilhaçado em partes. E elas espalham metais pesados nos pontos mais contraindicados do mundo. E ainda, materiais tóxicos, radioativos, ou simplesmente não biodegradáveis. Quanto? A quantidade de lixo eletrônico que o mundo deve gerar só no ano de 2017, em toneladas, é equivalente a todo o café que a população da Terra consumiu nos últimos 8 anos somados, mais os estoques internacionais do produto. Então, quando você abrir sua gaveta e aqueles aparelhos celulares velhos escorregarem no fundo, cuidado! Você pode ser o vilão da COP 42, se não antes.

TAMBÉM NÃO É ASSIM


Tem que criticar, tem que exigir, mas convenhamos, o que está sendo feito deve ser valorizado. Seria muita rabugice dizer que a COP 21 e as ações de conscientização não servem para nada. Em Paris, o centro das discussões é como chegar aos "acordos vinculantes", ou seja, como fazer para que cada país signatário transforme em lei as decisões da COP 21. Seria um grande avanço! Quanto às ações de conscientização, se não invadirem o terreno de medidas coercitivas ou compulsórias (deixando que aconteçam), serão muito úteis. E tudo isso aponta para atitudes individuais.

Sendo assim, a conscientização de quem produz tecnologia, de quem utiliza tecnologia, pode começar pela atualização dos dados. Quanto à origem do lixo eletrônico, segue o rastro do consumo, da mesma maneira que a emissão de gases do efeito estufa. As duas maiores economias do mundo, Estados Unidos e China, geram juntas praticamente um terço de todo lixo eletrônico global. Os pobrezinhos da América Latina são responsáveis por 9% desses descartes tecnológicos e, entre os países do Continente, o Brasil é o maior gerador: 36,16% do total regional.

O lixo eletrônico, além de muito plástico, ferro, alumínio e zinco, tem chumbo, mercúrio, cromo, bário, berílio, clorofluorcarbonados, arsênico e muitos outros produtos tóxicos, perigosos. Mas tem também pequenas quantidades de ouro, platina, prata. Separar tudo isso não dá pra ser do jeito que acontece nas cooperativas de catadores. Porém, sendo bem feito, pode ser um negócio lucrativo. Portanto, quem não se conscientiza pelos riscos da poluição, tem um outro apelo pra refletir. É só você pensar, pelas vezes que já trocou de computador e, principalmente, de celular, quantas vezes mais devem se repetir essas trocas na sua vida. Ou seja, se o seu celular de hoje não for reciclado, não contribuir em nada com a cadeia de matérias primas, do que vão ser feitos os celulares que vão tocar na COP 42? Algumas partes das máquinas antigas vão ter que estar lá.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

E SE TUDO VIESSE DE "MÃO BEIJADA"?


O que pode faltar quando tudo é de graça? Um caso prático, observado no último fim de semana em Campinas-SP, pode conduzir a uma resposta esclarecedora para essa questão.

A história começou na semana anterior, quando várias pessoas receberam mensagens, via Facebook, sobre um evento de arrecadação de donativos para famílias atingidas pelo mar de lama em Mariana-MG. Foi marcado para o domingo, num espaço público, entre oito da manhã e cinco da tarde. O local foi cedido pela prefeitura, a divulgação de evento pelo Facebook não custa nada e uma transportadora cedeu dois caminhões de carroceria fechada, tipo baú, e os motoristas para levar os donativos. Já estava terminando o horário e voluntários estavam organizando pelo chão milhares de garrafas de água mineral, alimentos não perecíveis, roupas. Duas pessoas conversavam próximo ao balcão:
"-Vocês me deixam entrar depois das cinco? Ainda preciso comprar os donativos."
"-Desculpe, meu caro, mas temos horário para desocupar esse espaço e devolver a chave para a prefeitura. Não vai dar."
"-Então posso fazer uma doação em dinheiro?"
"-Obrigado, mas não estamos recolhendo dinheiro, porque não temos como contabilizar."

E agora? Tudo exalava a máxima boa fé, e aquele pretendente a doador ia ficar de fora da campanha que convenceria a sua consciência. Quinze minutos depois, pelo estacionamento chegam dois rapazes alterados, carregando vários sacos plásticos de arroz, feijão, alguma lataria e outros alimentos:

"-Que ignorância, isso aqui não é pra esses caras", protestava um deles.
"-O que houve?" perguntou um curioso. (sempre tem um...)
"-O sujeito lá do portão não queria me deixar entrar porque passou do horário. Olha o que compramos! Vou voltar com isso pra minha casa e o pessoal lá em Mariana passando fome? De jeito nenhum!"

Boa fé contra boa fé. Atitude solidária contra atitude solidária. De quem é a razão? Atritos no território do bem!

TEM QUE QUESTIONAR


Vamos ver o que se passa no portão. Um dos organizadores, pingando de suor, não perdia o sorriso nem a serenidade no semblante. Carros ainda chegando, ele barrava: "-Não temos mais como receber doações, o horário já encerrou." A primeira reação, sempre era indignada. Alguns compreendiam, depois de alguma insistência. Outros voltavam de cara fechada.

A turma que já tinha entrado e apenas observava o movimento tentou persuadir o rapaz: "-E se deixar só mais alguns entrarem? Eles estão ficando frustrados, decepcionados." "-Não dá", replicava pacientemente. "Temos horário a cumprir com o administrador do espaço." Os argumentos eram muitos e a cada replicação, aquele organizador apresentava uma resposta mais convincente. Ao final, ficou esclarecido que as doações precisariam ser empilhadas da maneira certa, sob pena de amassar garrafas de água, estragar sapatos e roupas, perder alimentos. Os voluntários, amadores em transporte, tinham poucas chances de fazer o carregamento do que já estava ali, dentro do prazo. O local tinha horário pra fechar, os motoristas tinham horário pra sair. E concluiu: "-Como você se sentiria se soubesse que o alimento ou outro donativo que você trouxe ficou por aqui ou se perdeu no transporte?"

Não dava pra receber, mesmo. Ele tinha toda razão.

Fosse um oportunista, sorriria para todos os doadores atrasados, aceitaria tudo e diria palavras carinhosas àqueles egos. Do lado de cá, todos estariam felizes e orgulhosos. Mas do lado de lá, nas montanhas de Mariana, não dá pra dizer o que chegaria inteiro, em condições de uso. É tudo de graça mesmo, reclamar do quê?

NADA SUBSTITUI O BOM TRABALHO


Os recursos financeiros são muito importantes em qualquer iniciativa. Mas não são tudo. Isso fica evidente em situações como a desse episódio, mas também em casos inversos. Por exemplo, quando um gestor se sente muito à vontade para abrir um negócio, só por ter grande disponibilidade financeira. Em qualquer empreendimento, com qualquer objetivo, todos os recursos tem que ser valorizados. E mesmo respeitados, quando se trata de recursos diretamente associados à condição humana, como o trabalho, o tempo, os compromissos alheios, a solidariedade que envolve uma atitude de apoio. A maior disponibilidade de dinheiro vai implicar em maior investimento no controle de recursos, nunca no desprezo de outros valores.

Por isso, ações humanitárias em empresas, além de promoverem uma aproximação diferente entre os funcionários e um ganho institucional para a imagem da empresa, podem ser importantes "laboratórios" para desenvolver o espírito de inovação. Porque a inovação acontece em direções desconhecidas, às vezes imprevisíveis. É nessas horas que as pessoas precisam, mais do que nunca, avaliar corretamente todos os recursos envolvidos, aceitar decisões de grupos, participar construtivamente dessas decisões, conviver com situações de fracasso. E, ainda assim, encontrar mais energia para se superar e seguir em frente.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O CALENDÁRIO DIGITAL


Pra que serve um calendário no Brasil, além de fazer propaganda? E que a ilustração seja muito bonita porque, de hábito, não devem olhar muito pra calendário. Datas em que alguma coisa acontece por aqui não tem número, tem nome: "véspera", por exemplo. Os outros dias são todos iguais, pelo menos para quem decide as mudanças. Como a grande massa já se acostumou com essa brincadeira de mal gosto, a data importante para o povão chama-se "agora-não-dá-mais". Até então nada de reagir aos avisos, a rotina não muda.

Tem uma véspera chegando aí. É pra resolver mudar outra véspera. Deve ser um episódio emocionante porque o suspense é total, ainda ninguém arrisca nenhum palpite. A data é para desligar definitivamente o sinal analógico de TV, só vai ficar TV digital no ar. Sem um set-top box (conversor digital) ou sem um televisor desses mais novos, não vai ser possível assistir à TV no Brasil. A quantidade de interesses conflitantes nessa história é o que mais complica.

Como o Brasil é muito grande o desligamento analógico - tecnicamente, "switch off" - tem que ser feito aos poucos. Foram divididas as regiões e um calendário todo foi elaborado, compensações contratadas, definidos limites e regras. Todas as partes de acordo até que... chegou a véspera. A primeira região a ser desligada é da cidade de Rio Verde, em Goiás e o prazo vence este mês. Pra adiar marcaram uma reunião, que já foi adiada na véspera, porque a decisão só deve sair na última semana. Acho que já vi isso antes.

QUEM PODERIA SUPOR?


As partes interessadas são fortes e poderosas. As operadoras de celulares - tecnicamente, as "teles" - investiram mais de R$ 8 bilhões só para ficarem com a banda de 700MHz, que está ocupada, nas grandes cidades, por algumas emissoras de TV.  Outra parte é o Governo, que ficou com quase todo esse dinheiro das teles. Tem também as grandes redes de TV e, não por acaso, o povão, que nesta fase de implantação, ainda não desfruta nem da metade do que a TV digital pode oferecer.

Quem quer o adiamento são emissoras de algumas grandes redes de TV. A digitalização já foi feita nas "cabeças de rede", que é a principal emissora de cada rede. Mas as repetidoras nos rincões tupiniquins ainda não mudaram a tecnologia. Com o salto do dólar e a crise econômica diminuindo a receita publicitária, muitos garantem que não tem a mínima condição de importar os equipamentos. É que no calendário do Governo, que já é antigo, eles não viram a data "agora-não-dá-mais". Estavam esperando a véspera.

Se você estava achando falta de algum detalhe nessa história, agora vem a gambiarra - tecnicamente, "proposta alternativa" - apresentada pelo grupo de interessados no adiamento. O desligamento do sinal analógico, por enquanto, seria só nas grandes cidades, onde a banda adquirida pelas teles está ocupada, porque tem muitas  emissoras de rádio, celular, emissoras locais de TV, comunicação empresarial, banda larga, etc. São no máximo 500 cidades em todo o Brasil. Nas outras cinco mil e tantas cidades, o analógico só seria desligado em 2023. E o povão? Ah, o povão é legal, se vira.

UM TAPINHA NÃO DÓI


O que facilita a gambiarra são os tipos de problemas que já aparecem na primeira experiência prática, em Rio Verde. Muitos moradores já receberam o conversor digital, a antena, mas ainda não instalaram porque "tem tempo, tá bom assim". A Anatel - o órgão do governo que desliga o sinal - tem que esperar uma pesquisa que indique 93% dos lares sintonizando o sinal digital. Enquanto isso não acontece, atrasa tudo. As emissoras, que vendem audiência para os anunciantes, não querem que esse público fique sem TV, e defendem a espera.

A Anatel não aceita esse tipo de solução e promete pressionar - tecnicamente, "encher o saco" - dos telespectadores, interferido na transmissão analógica com tarjas escuras tapando parte do vídeo ou tirando o som em parte da programação. É assim que se espera antecipar o dia "agora-não-dá-mais". Ora, ora, num país onde uma palmada no seu filho pode lhe custar um processo, o governo aceita uma técnica tão antipedagógica como essa!? Parece que, em adulto, um tapinha não dói.

Na última semana, o que trouxe o grande suspense foi o reposicionamento do Ministro André Figueiredo, das Comunicações. Depois de dizer, no começo do mês, que seria "inevitável" o adiamento do switch off em Rio Verde, desta vez afirmou que nada no calendário está alterado até esta quarta-feira. É quando sai a nova pesquisa de sintonia digital em lares de Rio Verde. Ele admite desligar até com 80%, só pra não atrasar o calendário. Estaria mudando definitivamente o Brasil? Nem tanto! O Ministro comparou o calendário do switch off com o da declaração de IR. Disse que tudo acontece na última semana, então também vai tomar as decisões sobre eventuais adiamentos só na última semana. Enfim, a "véspera" entrando oficialmente no calendário nacional.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A TECNOLOGIA EM BUSCA DOS SEUS SONHOS


Uma trama de muita ação com Arnold Schwarzenegger. Metade do enredo é o mesmo de sempre. Só que no caso em questão a ficção científica foi boa. Por exemplo, as férias do personagem foram virtuais! Ele era um peão de obra e, sem dinheiro para viajar, comprou um "implante de memória" de uma viagem. Tinha uma máquina que implantava no cérebro dos clientes maravilhas que nunca aconteceram, mas ficavam para sempre na memória. High Tech tipo "me engana que eu pago". Foi quando o título do filme pareceu lógico: "O Vingador do Futuro". Também, com um futuro desses...

A tecnologia real é muito útil, mas também está cheia de coisas sem graça. É que são anunciadas com um tal frisson, capaz de levar muitos na onda. Os "sem noção" se encantam por nada, esses nem conta. Outros, que compram no embalo, podem querer vingança no futuro. O mais curioso é que os caras que inventam essas coisas tem as melhores intenções. Mas, ao que tudo indica, também fazem parte daqueles "sem noção", que babam à toa.

Se você gosta de dirigir, vai entender. Imagine uma propaganda de carro mostrando alguém no banco de trás, ou no carona, curtindo confortavelmente o WhatsApp, olhando a paisagem. Isso mesmo, carro sem motorista. Este é o projeto que está colocando o Vale do Silício em disputa acirrada com as montadoras de Detroit. Para quê, difícil saber. Não parece ter tantos nerds ricos no mundo.

TIRA, PÕE, DEIXA FICAR


O que compensa é o fato de tecnologia ser versátil. Se não servir na hora, mais tarde, quem sabe? Foi o caso da smart tv. Juntaram duas entre as coisas mais sedutoras para as gerações mais jovens: TV e computador. "Agora não tem pra ninguém", profetizaram alguns. No entanto, você conhece alguém que já abriu um e-mail numa smart tv? O facebook, pelo menos? O Youtube até que tem algum espaço, mas nem a TV Yahoo, que foi projetada pra tal plataforma, se manteve por mais tempo. Mais tarde, quem salvou a honra desses engenheiros foi o Netflix, na prática, a legalização inteligente de uma antiga pirataria. Ou o delivery virtual das antigas locadoras de vídeo.

Agora que a tecnologia aumentou tanto as alternativas de consumo, o comportamento do consumidor tem se mostrado um fenômeno muito mais complicado. E diziam que difícil era entender o eleitor! O lado mercado, na mesma cabeça, está cada vez mais perdido em promessas e ilusões. Está sem discernimento para escolhas que se justifiquem no futuro. Parafraseando o rei Pelé, "o consumidor de tecnologia não sabe comprar".

Ainda bem que pouca ciência prolifera muita tecnologia. Quer dizer, o mesmo conhecimento que é embarcado num projeto "micado", vai ser útil para muitas outras ideias que ainda vão surgir. É o que se vê desde as históricas missões Apollo. Quanta tecnologia daqueles foguetes não está espalhada nos mais diversos tipos de produtos até hoje? No entanto, ninguém fundou montadoras de naves espaciais para o varejo. 

UM VEIO DO WRESTLING, OUTRO DO BOX


Na disputa entre os célebres clusters, a turma de Detroit, que tem a GM à frente, conta também com as europeias Mercedez Benz, BMW, Audi e Volvo. Pelo Vale do Silício concorrem o Google e a Tesla Motors. Essa última, mesmo sendo fabricante de carros, faz apenas modelos elétricos, carentes da alta tecnologia típica da Califórnia. Mas a polarização regional fica mais caracterizada pela disputa GM X Google.

O sistema de navegação autônoma (ou quase) da GM estará na função Super Cruise e o icônico Cadillac vai ser o primeiro carro a receber os equipamentos. O modelo será o sedan CT6. Basicamente, são dois radares de curto alcance de cada lado e um radar de longo alcance, centralizado. Nos retrovisores, a câmera identifica as linhas da pista e objetos. Tudo isso fica conectado em dois computadores, instalados no porta malas, abaixo do estepe, que gerenciam tudo. Inclusive a hora em que o humano - sempre terá que ter um atrás do volante - deverá assumir o comando, quando for indispensável a suprema inteligência de um motorista. Em termos de hardware, a primeira vista, nada de novo.

O Koala, modelo do Google, tem um radar giratório que já representa um diferencial. A precisão é muito maior, já que ao invés de ondas sonoras, como nos radares em geral, usa ondas de luz. Mais precisamente um laser, capaz de promover poeira a objeto, porque identifica qualquer corpo com alguma dimensão maior que 1 milímetro. O Koala está sendo desenvolvido para ser apenas uma peça de um complexo sistema. O Google espera, com ele, oferecer soluções de mobilidade. Apenas um táxi robô, que qualquer um pode chamar pelo celular, definir um destino e pagar por meio de um boleto no fim do mês, como já se faz com o pedágio. Em princípio, parece um investimento grande, apenas para livrar as pessoas de dizerem bom dia ao motorista do táxi.

PERSPECTIVAS DIFERENTES DE INOVAÇÃO


O que é mais significativo nessa disputa é o tipo de abordagem de cada empresa, diante de projetos muito semelhantes. A GM comprou a briga porque sente certa urgência em "modificar paradigmas do negócio de venda de carros". Também pensa em táxis robôs, mas aposta no lado diletante dos clientes motoristas.

Do lado do Google, Chris Urmson, diretor técnico do programa de carro, tem mais a visão do mercado de tecnologia: "A filosofia que prevalece é que vamos substituir os sistemas de assistência ao motorista que estão nos veículos hoje, fazendo que eles fiquem, de forma incremental, melhores e melhores. E, eventualmente, nós vamos chegar a este ponto em que tenhamos carros que dirigem sozinhos." De fato! Imagine que, numa ultrapassagem, ao acionar o sinal para o lado esquerdo, seu carro "visse" quem vem de trás, a que velocidade, quem está a frente e, na primeira oportunidade segura, saísse para o lado e acelerasse. Um "sistema de assistência ao motorista" pelo qual muitos pagariam, capaz de aliviar bastante o stress no trânsito. Seriam passos desse tipo, lucrativos, cada vez mais na direção do novo mercado, que conduziriam até a navegação autônoma, caso se confirme tal necessidade.

O mesmo se vê no caso da smart tv. A tendência do mercado é que vai apontar a direção dos negócios. Na prática, a arquitetura de um televisor LED HD e uma smart tv é quase a mesma. Maior capacidade de processamento e de memória, com o tempo, vão sobrar dentro de qualquer televisor. Com alguns aplicativos e a conexão com a Internet, todos os televisores produzidos no futuro serão do tipo smart.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

EXPERIÊNCIA HISTÓRICA NO MERCADO PUBLICITÁRIO, AGORA TAMBÉM NA INTERNET


Que tipo de assunto é mais comum nos ambientes que você frequenta? No trabalho, na faculdade, fala-se mais da novela, de virais da Internet ou de coisas mais próximas, como projetos pessoais, vida alheia? Sejam quais forem, já estão digitalizados. Do rádio ao WhatsApp, circula de tudo, pode ser interessante ou não. O que interessa é manter a conversa, o conteúdo tanto faz.

Na Internet, mais do que conversar com alguém, publica-se. Todo mundo falando pra todo mundo e ainda assim, muita gente querendo entrar na conversa. Principalmente os que pagam a conta dessa babel. Por isso é ela, a propaganda, o assunto mais presente no mundo. Uma "conversa" onde o que se mostra e se diz é para ser respondido com atitudes de consumo. A propaganda é a mensagem que vai, e vai de novo, esperando que as moedas respondam. Ela só precisa entrar nas conversas.

No Brasil, um país comunicativo, a propaganda sustentou a maior rede de TVs abertas do mundo. Em nenhum outro lugar tantas emissoras se sustentam sem cobrar diretamente da audiência, vivem só da propaganda. E com o crescimento do espaço publicitário no mundo virtual, as TVs abertas balançaram. Por isso, agora pode começar a invasão "broadcast" na Internet. 

UM PRIMEIRO PASSO


A TV digital foi o passo decisivo. Porque tudo que é produzido hoje numa emissora brasileira já é digital, está pronto pra entrar na Internet. A programação continua no ar normalmente. Pega pela antena, via sinal digital gratuito de radiodifusão. Mas o formato digital de origem torna muito mais simples exibir também para a audiência virtual. E, lá dentro da Internet, se faz de tudo. Basta desenvolver os aplicativos.

Foi o que a Rede Globo acabou de lançar. E, dessa vez, uma interface completa para OTT. Com o "Globo Play", aplicativo que pode ser acessado por smartphones, tablets, notebooks, desktops ou smart tvs e dá acesso a cerca de 7.300 horas de programas produzidos pela emissora. Os jornalísticos, esportivos, de variedades e realities - como o BBB - são gratuitos. A programação ao vivo também mas, por enquanto, ao vivo só para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. O que está disponível para todo o Brasil são trechos de séries e novelas para degustação. Passou daí o conteúdo é pago. Já tem até séries em 4K, um verdadeiro cinema para quem tem smart tv.

Para não fazer concorrência com os próprios parceiros, a Rede Globo teve o cuidado de preservar as áreas de afiliadas e está pisando em ovos com as operadoras de TV a cabo. Os conteúdos sob demanda que estão a venda nessas operadoras terão uma negociação especial. O serviço de TV Everywhere da Globo nas operadoras também está em pauta.

A questão é que as outras grandes redes abertas, ao que tudo indica, vão lançar os próprios serviços OTT, a exemplo do que fez a Globo. É uma questão de tempo. Isso pode aumentar muito a competitividade das emissoras abertas no mercado publicitário.

MAIS FÁCIL DO QUE PARECE


A "otetetização" (criação de serviço OTT) das redes abertas deve mudar o jogo publicitário. Uma das grandes vantagens da propaganda da Internet sobre a da TV é o direcionamento das mensagens. Quando você assiste a um vídeo no Youtube, a propaganda que aparece não é a mesma que apareceria para o seu filho no mesmo vídeo. Cada login tem descrito o perfil do usuário, além dos hábitos de navegação. Por isso as mensagens publicitárias "escolhem" pra quem vão ser anunciadas. Agora as grandes redes de TV, no OTT, vão mostrar todos os números da audiência. O mercado publicitário vai ver a força que elas podem ter dentro da Internet. E ainda, vão indicar uma projeção de parte da audiência no sinal aberto.

Num país como o Brasil, isso pode significar a consolidação da TV como principal espaço publicitário para grandes marcas, como foi no passado. Em outros países, com mais tradição na TV por assinatura, pode não ser tão contundente. Mas, se o caminho for explorado com competência, pensando um novo modelo de negócios, pode significar um upgrade para as emissoras abertas no ranking publicitário.

A solução tecnológica já está disponível. A EiTV Cloud, já testada e aprovada pelo mercado, é a plataforma mais acessível e segura para criar o serviço OTT para qualquer emissora, de qualquer porte, com opções para qualquer parte do país e cortes específicos nas áreas de afiliadas. A Internet, enfim, pode deixar de ser a grande concorrente da TV aberta para inverter esse paradigma. Vai se tornar, para os anunciantes, a mais poderosa vitrine também no mundo virtual. 

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

UMA PÍLULA PARA A INOVAÇÃO


O alerta foi feito por vários médicos, tanto urologistas como psiquiatras: o Viagra e similares não funcionam se o usuário não estiver motivado para "partir pra cima". O recado foi para os maridos que, desinteressados pelas intimidades da vida a dois, aparecem em consultórios procurando uma receita para a inquietude das esposas. As cobranças muitas vezes atrasam o sono, tão importante para o sucesso no dia seguinte, nos negócios, pelos quais são verdadeiramente apaixonados. Sem desejo o milagre não acontece em casa e a culpa fica entre o médico e o laboratório.

O mesmo se passa com a inovação. Não havendo motivação, interesse, e até uma certa paixão, ela não vai surgir firmemente nas alturas do sucesso. Por outro lado, exige-se um ambiente adequado, que favoreça a abordagem. É o que não acontece no Brasil. Pelo menos foi o que transpareceu até há pouco o recente episódio envolvendo uma outra pílula, a "pílula da USP", anunciada como a cura do câncer.

Especulações à respeito da eventual eficácia do composto químico são todas uma perda de tempo. Porque só uma confirmação científica terá valor. O que interessa é o enredo desse romance, onde o desencontro de informações até agora tende à conclusões precipitadas, trágicas como as de Romeu e Julieta. No lugar do sonho intenso, do raio vívido, o cenário que prevaleceu foi do berço esplêndido, o "toma que o filho é teu", burocrático e descomprometido.

VAI ESPERAR MAIS O QUÊ!?


Em histórias de amor um ícone recorrente do desejo é Bruna Lombardi, ainda que sexagenária. Em inovação, a cura do câncer é o ícone do desejo há muito mais tempo. Desta vez, ela não foi anunciada num terreiro, numa "garrafada" de um caboclo, nem numa fórmula secreta de algum amador, cheio de boas intenções e esoterismos. Foi um professor da universidade mais conceituada do Hemisfério Sul que estudou e desenvolveu o composto químico em questão. Um professor de carreira científica completa, muitos trabalhos publicados, conceito elevado. Não é médico, é um químico. Profissão responsável pela criação de grande parte dos medicamentos que utilizamos. Por isso, mesmo não tendo esse viés farmacêutico na carreira, o professor buscou todo o embasamento científico para suas afirmações, que não se aprofundaram nos detalhes médicos.

Tudo isso não representa quase nada para se afirmar algo sobre a eficácia do composto. Mas, com certeza, é muito mais do que o mínimo necessário para se pôr o invento à prova. O que até agora ninguém tinha pensado. Enquanto isso, durante anos, centenas e centenas de pessoas procuravam o Instituto de Química da USP, em São Carlos, onde o professor trabalhava. E foram essas pessoas que fizeram a fama que a pílula sustenta até hoje, inclusive dentro dos mais respeitados tribunais brasileiros. Mesmo assim, a discussão continua centrada no passado, o que foi feito de errado, o que deveria ter sido feito. O futuro, que é o tempo da inovação, até a semana passada nem existia para essa trama.

UM PASSO NA DIREÇÃO CERTA


Há uma semana o Ministro Marcelo Castro, da Saúde, deu prazo de dois meses para um grupo organizar toda a agenda de testes clínicos e pesquisas necessárias para responder, cientificamente, se a Fosfoetanolamina Sintética (é o nome do composto) pode ser considerada um medicamento para o tratamento do câncer. Mais uma vez, estourou na mão do "governo". Esse ente quase abstrato, centro de tantas demandas neste país, tem que ser o cupido, o padre e o pai da noiva em muitas ocasiões. É o responsável por tudo! A própria USP, através de seu Reitor, se preocupou em responsabilizar civil e criminalmente os que tivessem contribuído para a distribuição de um composto, sem registro na Anvisa, anunciado como remédio. Mas esqueceu de terminar a pesquisa que foi iniciada dentro da própria universidade. Uma pesquisa que teve o grave inconveniente de ter dado certo. Tivesse falhado, seria muito melhor. Os relatórios teriam descrito as reações adversas e tudo estaria esquecido numa hemeroteca qualquer, sem incomodar a rotina tradicional.

Para inovar, assim como nas histórias de amor, tem que haver um certo atrevimento. Não precisa ser a tara que alguns participantes da pesquisa em causa demonstraram. Mas não vale persistir somente no pleito primário do paternalismo governamental. No caso da "fosfo", apelido dado à substância, no ambiente científico quase ninguém acredita que seja a cura do câncer. Mas se for um protagonista a mais nessa conquista, já será uma grande e valorosa inovação. Caso contrário, será uma experiência importante. Por enquanto, um efeito significativo já pode ser anotado: a fosfo demonstrou que o Brasil está precisando de um "Viagra" para os processos de inovação. Revivendo os momentos universitários, uma adaptação pudica pode ser simbólica: "Sem tesão, não há solução".

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

TEMPO INSTÁVEL PARA A TV BRASILEIRA


"Na compra de um novo, garantia de três anos ou até 10 mil quilômetros". Em menos de uma linha, um contrato claro no mercado de automóveis. Nem sempre é tão fácil assim. Quando uma condição não exclui claramente a outra fica na base do "tá escrito ali", só que não, "porque antes tá escrito isso aqui". É o que parece estar acontecendo no caso do "switch off" brasileiro, tecnicamente traduzido por "desligamento do sinal analógico de TV" ou ainda, "apagão", para os íntimos.

As razões dessa confusão começam a ficar claras quando se entende os interesses em jogo. Por que é importante desligar o sinal analógico? Não dá pra deixar o sinal digital e o analógico no ar e cada um escolhe o que quiser? Não pode, porque seria um grande desperdício. A Internet, o crescimento das telecomunicações, dependem muito de espaço no chamado espectro eletromagnético. Esse espaço depende muito da melhor organização das frequências, o que acabou ficando nas mãos dos governos nacionais. No Brasil, determinadas faixas de frequência valem bilhões de reais, e o governo ganha muito dinheiro só pra organizar isso. Se o país já tem todas as emissoras digitalizadas, ao desligar a transmissão analógica essas frequências ficam disponíveis, e o Governo vende para outras empresas.

Outro grande interesse relacionado ao desligamento do sinal é a audiência. É exatamente o que as emissoras de TV vendem. Cada cidadão a mais no sofá, valoriza a propaganda da emissora que ele está assistindo. No modelo brasileiro, é a audiência que sustenta as empresas privadas encarregadas do serviço público do tipo televisão, concedido pelo Governo às emissoras. E já que falamos em serviço público, tem aí a obrigação do Governo de garantir esse serviço a toda a população.

O OVO OU A GALINHA?


Na portaria do Ministério das Comunicações, que obriga o desligamento do sinal analógico, vem escrito, no artigo primeiro que "...pelo menos, noventa e três por cento dos domicílios do município ... estejam aptos à recepção da televisão digital terrestre." Significa que em 93% dos lares de cada cidade tem que ter um televisor desses modelos novos ou um set-top box (conversor digital) conectado e funcionando. É uma condição que resguarda o direito do cidadão ter acesso à TV. Lá no final da portaria está o calendário para o desligamento, impondo a obrigação das emissoras liberarem a banda analógica do espectro, numa determinada data para cada região.

O senso comum leva a entender que, o que vem primeiro é o mais importante. No caso, a condição de pelo menos 93% dos moradores de cada cidade, para comprar um televisor novo ou um set-top box. Sem isso, o direito de acesso à TV não estará resguardado. Mas e a obrigação lá do final? Sim, as emissoras tem como dever desligar o sinal analógico na data prevista. E isso pode afetar a preciosa audiência, que paga o serviço e o lucro das emissoras.

Na prática, a perda dessa audiência é maior do que parece. Começa pelos 7%, que vão ficar sem TV quando os outros 93% dos lares já tiverem a recepção digital. Depois vem os aparelhos espalhados por algumas casas. Se a residência tem um novo na sala, que já veio digitalizado de fábrica, na pesquisa conta para a casa toda. Mas o aparelho do quarto do casal ainda é dos antigos, a crise está batendo na porta, melhor esperar pra ver se vai comprar um novo de uma vez, ou se paga menos por um conversor. No quarto do filho tem outro ponto de audiência, a TV antiga que ficou para o videogame, mas ele muitas vezes aproveita pra assistir à TV. Quando desligarem o sinal analógico, esses pontos de audiência somem. Lá na frente, o anunciante vai notar que a propaganda pela TV não deu mais tanto retorno como antes. Isso sem contar o medo das emissoras de que os 93% não sejam bem apurados pelo Governo, apressado em ter mais frequências de volta.

UMA COISA E OUTRA COISA


No começo deste mês, durante o Congresso da Abert, a associação dos radiodifusores, os empresários do setor juntaram todas as ansiedades e empacotaram num pedido de adiamento do apagão. Querem mais 4 anos de sinal analógico no ar. O pedido foi desembrulhado perante a Presidente Dilma e o Ministro das Comunicações, na abertura do Congresso, onde também estavam muitas outras autoridades do setor. A expectativa era de que alguma resposta viesse no último dia 22, na reunião ordinária do Gired, o grupo encarregado da transição do sinal de TV. Mas ninguém tocou no assunto.

O prazo de quatro anos, para as emissoras, é o suficiente para que a substituição dos televisores antigos aconteça espontaneamente. Ninguém espera que a crise dure tanto e nem os aparelhos dos anos 90. Daí a audiência entraria na onda digital sem nenhuma pressão. A proposta parece consistente, mas as emissoras, talvez por conta da ansiedade, acabam forçando alguns argumentos descabidos. Por exemplo, sobre a distribuição dos conversores para os atendidos pelo programa Bolsa Família. Trata-se de uma compensação que está na conta das teles, as empresas de telefonia móvel, que compraram antecipadamente algumas faixas que transmitiam sinais analógicos. Pode ser só pra aumentar a base de apoio, mas as emissoras propõem que as teles não gastem com os conversores do Bolsa Família nas cidades menores, onde tem frequências de sobra para muitas transmissões.

A TV digital é muito mais do que uma tela mais bonita. Agrega serviços inestimáveis, já prontos para atender a população carente, através do programa Brasil 4D, da EBC - Empresa Brasileira de Comunicação. Depois do acordo firmado com as teles em 2014, da formação do fundo de compensações, é um completo absurdo propor uma economia que seria lesiva até para a tecnologia nacional. Venha quando vier, a TV digital para todo o Brasil precisa ter a alternativa Ginga C, já definida pelo Gired como padrão mínimo garantido aos lares carentes.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

ENTRE O ADOLESCENTE E O "ABORRECENTE"


Adolescência é uma idade complicada. A gente espicha, a voz muda, a cara começa a ficar de adulto, mas a criança dentro da cabeça ainda decide muitas coisas. Tem o lado prosaico, tipo ser flagrado pelo Inspetor bem na hora em que pulou o muro da escola. Daí o marmanjão vai pra diretoria e dá aquela desculpa esfarrapada: "-É que eu esqueci o livro de história, eu queria ir busca-lo em casa." O Diretor fica pasmado, pensando o que é que tem a ver uma coisa com outra! Até quando vai precisar fazer de conta que é possível acreditar nesse tipo de explicação?

O outro lado dessa mistura de criança e adulto numa só pessoa é muito mais preocupante. Melhor nem exemplificar, até porque os casos são cada vez mais assustadores, na medida em que este mundo fica mais complexo. A sociedade está cada vez menos flexível, cada um tem de agir dentro de um padrão, o meio termo atrapalha o ritmo das coisas.

É assim que surgem alguns tropeços dessa jovem democracia que adolesce num país já idoso, como o Brasil. Às vezes, falta seriedade. Do lado do cidadão, que precisa trabalhar e pagar impostos como gente grande, fica aquela mesma dúvida do Diretor de outrora: "-o que é que uma coisa tem a ver com a outra!?" O exemplo concreto está na recente tentativa de empurrar com a barriga, mais uma vez, a data em que os brasileiros terão uma televisão no padrão digital.

A LEI? ORA, A LEI.


Já faz tempo que foi definido o atual calendário do "switch off", ou "apagão", ou simplesmente desligamento do sinal analógico de TV no Brasil. Todos puderam questionar, opinar e finalmente as datas ficaram estabelecidas entre 2016 e 2018. Foram assim para o livro da história, tem alguns anos. À época, um "céu de brigadeiro" dava teto para os vôos da Economia, pleno emprego, negócios aquecidos. 

No ano passado um outro fato, completamente a parte, acrescentou um investimento importante para os radiodifusores: foi o leilão da banda de 700MHz para as empresas operadoras de celulares, conhecidas como "teles". Elas precisam dessa banda para baratear a expansão da Internet 4G no Brasil. Como algumas emissoras do país só iriam sair dessa faixa de frequência quando migrassem para o sinal digital, o Governo Federal obrigou as participantes do leilão a formarem um fundo de compensação, que juntou mais de R$ 3,6 bilhões. Esse fundo, além de socorrer essas emissoras na antecipação do desligamento analógico, se encarregaria de bancar os conversores digitais (ou set-top boxes) para 14 milhões de lares atendidos pelo Bolsa Família. Assim o apagão, antecipado ou não - dependendo da região do país - não deixaria ninguém sem TV. O leilão, portanto, só contribuiu, e muito, para a universalização da TV digital.

Então estamos conversados, foram centenas de reuniões, anos de estudos, acordo fechado, fio de bigode na mesa. Até que, na semana passada, um lapso sequencial irrompeu no ar, para mudar tudo que estava no livro da história. E tem que ser pra semana que vem. Isso parece sério?

A EVOLUÇÃO VAI À LEILÃO


A TV digital não é apenas um aprimoramento da TV. É uma plataforma de comunicação que não se compara a nenhuma outra que já existiu na sua casa. Vai viabilizar serviços e soluções com potencial de diminuir até os congestionamentos nas grandes cidades. É exatamente essa evolução que um grupo está querendo tomar da imensa maioria das cidades brasileiras, deixando os brasileiros de lá à margem dessa conquista. Eles se declaram preocupados com a economia popular e com os lucros das teles - Claro, Tim e Vivo. Mas as razões desse pretenso altruísmo parecem muito mais egoístas e imediatistas.

O álibi parte de questões técnicas. Excetuando as grandes cidades brasileiras, com mais de 500 mil habitantes, há espaço sobrando no espectro de frequências. Então, nas pequenas cidades, as emissoras que estiverem na banda de 700MHz podem escolher outras faixas de frequência que hoje estão na sobra, sem precisar entrar na faixa digital.

Tá, e daí?

Daí as teles vão poder usar os 700MHz sem precisar pagar as compensações para as emissoras - que continuariam analógicas - e nem para as famílias carentes, que ficariam sem set-top box em casa, porque a TV vai continuar analógica.

E por que vocês estão preocupados com isso, se não puseram um centavo no fundo formado pelas teles!?

Porque assim o Governo Federal adiaria o apagão analógico e o povo brasileiro não precisaria ter as vantagens da TV digital em suas casas.

Só faltou um detalhe: o maior interesse dos mobilizadores desse "estelionato tecnológico" deve estar no uso do dinheiro das compensações para pagar campanhas publicitárias nas próprias emissoras. Ah, sim, daí tudo soa mais lógico.

Pra ter certeza de que o apagão não tem nada a ver com o leilão é só examinar um pouco mais os interesses do pessoal que está agitando. Dizem que o dólar subiu muito e que a maioria das emissoras está fora dos 700MHz. Por isso, essas emissoras não vão receber os equipamentos de compensações das teles. Vão ter que comprar equipamentos importados com dólar alto, num momento de crise.

Ora, ora, o calendário está fixado há anos, período em que a economia estava aquecida, dólar lá em baixo. Por que não investiram, não planejaram? E mais. Alguém sabe em que data o dólar vai baixar e a economia vai reaquecer? É simples, estão querendo adiar mais um avanço do Brasil, para atender a comodidade de poucos. E, de quebra, vão aproveitar o tempo que querem ganhar para inviabilizar o Ginga C, nivelando por baixo a qualidade da TV brasileira.

Na próxima semana, no dia 22, o livro da História vai abrir de novo, na reunião do grupo denominado Gired. Vamos ver se a resposta do Brasil vai ser algo plausível ou se, mais uma vez, a democracia adolescente vai insistir no lado moleque.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

COLOQUEM OS CINTOS, O PILOTO MUDOU


Máquina de escrever, identificador de chamadas telefônicas, sensor de movimentos Kinect, avião e até o Facebook. Tem muita coisa que brasileiros inventaram, total ou parcialmente, mas que enriqueceram empreendedores de outros países. A explicação pra esse tipo de mico é que o dinheiro chega para quem inventa uma forma de uso. Santos Dumont inventou o avião mas a aviação foi inventada em outro país, para que todos pudessem usar aviões. O câmbio automático é uma criação brasileira de 1932, dos engenheiros José Braz Araripe e Fernando Lemos, mas ninguém fabricava carros aqui naquela época. Usar onde, então? Seis anos depois a General Motors comprou a patente e passou a usar e comercializar devidamente o invento brasileiro.

Pois é, hoje a invenção brasileira com maior potencial de uso e geração de negócios no Brasil é o Ginga C. Se tem outra, está bem escondida. O Ginga é um software, do tipo middleware, que instalado num set-top box (conhecido como "conversor digital"), transforma uma TV qualquer num parque de diversões - com cinema! As comparações meio exageradas vão na linha dos marqueteiros, que não poupam a criatividade para fazer tudo virar um grande negócio.

Como o Ginga é pra ser usado numa das máquinas mais importantes do Brasil - o televisor - ele entra num ambiente de negócios altamente regulamentado. Na prática, depende do Governo Federal, pelo menos no começo, para se encaixar na complicada rede de interesses do setor. E de fato, nesse detalhe, há poucos meses houve uma resposta assertiva e corajosa de Ricardo Berzoini, Ministro da Comunicações. Ou melhor, ex-ministro da pasta. São essas duas letras que agora assustam um pouco alguns empreendedores.

PASSANDO O COMANDO


André Figueiredo, o novo Ministro das Comunicações, chegou sob um discurso de independência. Sem entrar nesse mérito, o importante é não esquecer que acertos já definidos e fechados, devem ser respeitados. Político de carreira, que já ocupou secretarias municipais e estaduais do Ceará, Figueiredo tem formação nas áreas de Direito e Economia. Foi Deputado Estadual e Federal, cadeira para a qual foi reeleito em 2014, pelo PDT. Agora licenciado do Legislativo, assume um Ministério de uma área nova para ele. As experiências executivas anteriores foram mais relacionadas à Juventude e programas sociais. Empresário, o Ministro é sócio em uma companhia que atua em Comércio Exterior.

Por enquanto, o fato objetivamente favorável é o nome que ele deve trazer para chefiar a Assessoria Técnica da sua gestão: Flávio Lenz. Profissional experiente e de visão, Lenz atuou no mesmo ministério com Hélio Costa e também com Paulo Bernardo. Ele acompanhou todo o processo de implantação da TV Digital no Brasil e agora volta para atuar num projeto que ele mesmo começou. Um detalhe que pode fazer a diferença foi o esforço proposto pelo então Ministro Hélio Costa, para que mais modelos de celulares fossem fabricados com a capacidade para captar o sinal digital de TV. Possivelmente, Lenz influenciou nesse pleito.

A ROTA PARECE ESTAR MANTIDA


O Ministério das Comunicações tende a crescer em importância dia a dia, talvez até exigindo um desmembramento em breve. Já foi uma pasta mais burocrática, nos tempos em que se relacionava praticamente só com estatais. Com a privatização da telefonia, o crescimento dos dispositivos móveis e agora, com a TV Digital, o Ministério regulamenta os limites de empresas privadas que ainda não viram limites nem nos lucros. No ano passado, um leilão de faixas de frequência - que não custam um centavo para o governo - levantou mais de R$ 8 bilhões só de compensações. As teles disputaram frequências na faixa de 700MHz, então ocupada por sinais de TV. Esse remanejamento de sinal obrigou às compensações, que incluem equipamentos para algumas emissoras e, principalmente, set-top boxes para 14 milhões de lares atendidos pelo Bolsa Família.

Foi exatamente a definição dos set-top boxes que levou o Ministro anterior, Ricardo Berzoini, a uma queda de braço com alguns setores. Berzoini exigiu que as "caixas" - outro apelido dos set-top boxes - tivessem o Ginga C, que garante o mais elevado nível de interatividade entre telespectadores e emissoras. Foi aí onde o Ginga C passou a ser uma conquista nacional, um invento promissor para os mais diversos ramos de negócios.

O ex-Ministro sabe bem todos os motivos que fazem da implementação C do Ginga uma conquista da Tecnologia Brasileira e agora, de toda a população. E ainda, o "ex" das Comunicações é o atual Secretário de Governo, função com status de Ministro. Portanto, nesse cenário, apesar das turbulências tão alardeadas, não parece existir risco para a interatividade na TV pela TV. Mesmo sabendo que alguns setores empresariais ainda não se conformaram com a conquista da Tecnologia Brasileira. Em Rio Verde - GO, onde o sinal analógico já está em contagem regressiva para desligamento, estão reservadas as primeiras caixas para o Bolsa Família. O modelo EiTV smartBox, para o mercado, marca mais um momento de pioneirismo da empresa na TV Digital Brasileira.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

CRIADOR E CRIATURA


O efeito da indústria do cinema na sociedade é algo que ainda vai demorar um tempo pra ser aquilatado. Pense no efeito que ele teve na sua vida. Filme inesquecível, cena, atitude, talvez até na escolha da profissão, da namorada, na decisão de se casar. O cinema é tudo isso e é também o criador da TV. Foi a produção da telona que preencheu e trouxe vigor para a telinha virar companhia íntima do mundo todo.

Outro sério efeito na sociedade! A TV acabou com a mesa do jantar, com as cadeiras nas calçadas, trocou o voyerismo das janelas pelos reality shows e assumiu uma vida própria. Nesse meio tempo foi acusada de ameaça contra o próprio cinema, quando inventaram os vídeo cassetes. Mas as salas só mudaram para os shoppings e se multiplicaram. Os arautos dos fins dos tempos também previram o fim dos shoppings. Foi quando inventaram o comércio eletrônico. Desde então os lançamentos de novos shoppings cresceram consideravelmente. Agora é o fim da TV aberta que está em pauta, portanto, para sorte de quem investe nas emissoras.

A TV, com a outra metade do DNA, além da que herdou do cinema, criou a "plataforma audiovisual doméstica", desta vez, por vontade dos japoneses. Eles inventaram as TVs LCD e a transmissão HD, que chegou a trafegar até em sinal analógico, com uma banda 3 vezes maior. A meta era levar para dentro dos lares o máximo possível da qualidade de som e imagem que o cinema oferece. Acabou levando mais que isso.

O QUE UM LORD PENSARIA A RESPEITO


A nobreza inglesa tem um padrão de exigência elevado. E é daí que vieram rasgados elogios à televisão na última edição da IBC, em Amsterdã. Lord Michael Dobbs, autor do livro que deu origem à série "House of Cards", do Netflix, se disse encantado com o que a plataforma audiovisual doméstica está propiciando aos lares mundo afora. Enredos e protagonistas que só se via nas grandes salas, estrelando produções que tiveram estréia na TV. Foi além do sonho japonês. "-Mas isso foi pelo Netflix", dirão os tendenciosos. Ora, e isso não fortalece a mesma "plataforma", ainda chamada TV? É por onde chega também a TV por assinatura, a gravação do aniversário, a TV aberta, etc. Ou será que o Netflix vai destruir a indústria de games?

Pensar a TV de hoje é algo maior. Ela criou um lugar cativo, um jeito de ser feliz que é só dela. Assim como o cinema, é um tipo de lazer que tem um público de todas as gerações. A TV aberta deu um sentido especial ao ato de ficar em casa. E é neste hábito, no mesmo aparelho, que os investimentos estão crescendo assustadoramente.

A INCONTORNÁVEL LINHA DO TEMPO


A grande plataforma audiovisual está levando grandes empresas, como a Apple, a desenvolverem alternativas quase completas. Um sistema operacional próprio, o TV OS, vai tentar integrar os domínios do sofá ao Ipad, ao IPhone e ao notebook ou PC, desde que da dinastia Apple. O "quase" completo da alternativa fica por conta dos cord cutters, que também aumentam na ponta de lá. Justamente, por conta da TV aberta, agora com a mesma qualidade de som e imagem da TV por assinatura.

Lá do luxo da nobreza, o Lord Dobbs acredita que não há mais sentido em assistir à TV linear. Aqui no mundo real, onde as descendências da plebe tem uma mesma rotina semanal, é importante estar em dia não apenas com a cotação da libra esterlina,  mas também do euro, do dólar e até do yuan. Aliás, as lições da história nos últimos séculos apontam que o que está sumindo do planeta são as monarquias, a plebe só aumenta. Tendências! Nesse rumo, a academia de Hollywood que se cuide. O célebre Oscar vai ter que reconhecer as conquistas de outros gêneros, descendentes do cinema. Os grandes investimentos na "PAD", a "plataforma audiovisual doméstica" inventada pelos japoneses, vão continuar levando grandes produções a estrearem mais vezes nas salas familiares. Naquele mesmo lugar onde a vida não deixa, nem por um instante, de ser linear.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

INOVAÇÃO É PARA DESTRUIR OU CONSTRUIR?


Inovação tem algo meio contra intuitivo: quanto mais rápida, melhor a gente vê. Fica muito perceptível quanto o mundo se transforma em tão pouco tempo. Inovação, oras! E olha, vendo assim, nos detalhes, é um bicho de sete cabeças. Em cada cabeça, uma carinha mais linda que a outra, mas no todo é assustador.

Na primeira metade do século passado, quase numa profecia, o economista Joseph Schumpeter cunhou um termo para inovação que hoje está parecendo mais um conceito: destruição criativa. Genial! Praticamente dois antônimos que se alinham para apontar um significado preciso. Para o economista austríaco o surgimento de uma inovação é a razão suficiente e necessária para que a economia saia de um estado de equilíbrio e entre numa disparada. Lembrando que, do equilíbrio à disparada, tem muita destruição.

O caso mais emblemático, no momento, é a criação Uber destruindo taxistas. Eles formam quase uma nação sem estado, fruto da diáspora automobilística, de um ciclo econômico anterior. Em todo lugar do mundo "ser taxista" é mais ou menos a mesma coisa. Um tipo meio anestesiado, talvez pela necessidade de enfrentar clientes apressados pra chegar onde não sabem exatamente, fora o stress do trânsito, cada vez mais caótico. Então o aplicativo Uber veio para libertá-los dessa rotina estafante. A anestesia volatilizou e eles revelaram a verdadeira face guerreira da "etnia do volante".

Mas conflito mesmo é o que vem pela frente, uma briga de dois pesos pesados. E o "card principal" vai ser aqui no Brasil.

OPERADORAS MÓVEIS X WHATSAPP/FACEBOOK

Elas estão indignadas! As teles, as quatro grandes no Brasil, Tim, Claro, Oi e Vivo já anunciaram que vão à guerra contra o WhatsApp, o aplicativo para celulares do Facebook. Enquanto era só mensagens escritas, tudo bem. A Tim e a Claro até passaram a oferecer acesso gratuito ao aplicativo. Mas quando começaram ligações de voz, o caldo entornou. Em recente entrevista, Amos Genish, presidente da Telefônica, que controla também a marca Vivo, chamou o WhatsApp de "operadora pirata". E prometeu reclamar na Anatel, responsável pelo "arcabouço regulatório".

Os argumentos são criativos. As teles pagam R$ 26,00, sem qualquer zero a mais na direita, para a ativação de cada linha móvel. E depois, a cada ano, pagam mais R$ 13,00. Para quem ainda não está comovido, as operadoras acrescentam que estão permanentemente sujeitas a fiscalização e tem um compromisso de qualidade. Qual? Essa aí, que você comprova todos os dias. E finalmente: o WhatsApp utiliza o número que a operadora coloca no seu celular. Quanto custa um número?

Falta ainda as teles explicarem porque, sendo empresas internacionais, resolveram questionar o WhatsApp justo no Brasil. Seria pelo fato de a Justiça aqui ser muito lenta, o que permitiria longo período de repercussão na mídia, com tantos recurso e contestações? Seria por decisões exóticas que saíram de tribunais brasileiros em outros casos polêmicos? Ou será porque, em nenhum outro país do mundo, o retorno do investimento das operadoras é tão farto?

UM MUNDO QUE NÃO DÁ VOLTAS

A realidade inescapável é que a inovação já criou pelo menos um mundo paralelo, mas que não vai destruir o nosso mundo. É a Internet, ou simplesmente web. Um mundo onde não existe distância, porque tudo está no mesmo lugar e o tempo é mais relativo ainda. As máquinas web, virtuais, fazem coisas que nenhuma outra seria capaz, e fazem muitas coisas que as máquinas tradicionais também fazem. No começo, parecia uma ameaça para as companhias de correio, mas descobrimos que o mundo se comunicava menos que o necessário. Os aparelhos de fax, esses sim, não teve jeito, quase viraram relíquias. Aqueles armários enormes, aquela papelada toda, foi tudo pro outro mundo. Até o quintal das crianças está mais lá do que em qualquer outro lugar.

Num mundo assim, tudo fica mais fácil. Chamar um táxi? Ora, por que não o mais próximo de onde você está? Vídeo locadora é na hora, tem todos os filmes que você quiser. Bibliotecas, museus, mapas pra chegar em qualquer lugar, coisa de outro mundo! Fica assim: daqui acessa lá, faz o que tem que fazer e manda para o mundo de cá. Telefone, por exemplo, lá não tem fio, nem torre. E em breve muitos utensílios também vão vir de lá para este mundo, numa impressora 3D.

Na Terra muitas coisas ainda vão tremer por conta do que acontece lá. Mas não se preocupe. Será sempre melhor aqui pelas incontáveis maravilhas, por exemplo, "aves que aqui gorjeiam", que "não gorjeiam como lá". Nesse particular, a única semelhança é que as maravilhas da natureza são gratuitas, exatamente como muitas coisas que tem por lá.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A CIÊNCIA HUMANA E A TV


"-Amor, você acha que esses brincos combinam com o meu corte de cabelo?" Ela fala na maior felicidade. Para as mulheres em geral, se enfeitar para aparecer em público é algo excitante. O "Amor" pode estar irritado. Não só porque não entende o que brincos tem a ver com corte de cabelo, mas pelo atraso que aquela decisão vai causar ao compromisso. "Coisas de mulher", diriam os machistas.

Pois esses ogros deveriam ouvir o que Barack Obama confessou a respeito da tarefa de se vestir: "-Vocês devem ter percebido que só uso ternos cinzas ou azuis. Não quero decidir sobre comida ou roupas, porque tenho tantas outras decisões a tomar." Veja só, macho que enfrenta terroristas, confessando que escolher roupas, cansa. Não é só ele. Mark Zuckerberg, o bilionário do Facebook, que usa camiseta cinza idêntica todos os dias, explicou que quer liberar a vida dessas questões, "para que eu precise tomar o mínimo possível de decisões sobre qualquer coisa que não seja a melhor maneira de servir a esta comunidade." Como superstição é coisa de brasileiro e um diagnóstico de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) não cai bem para celebridades, resolveram investigar melhor esses argumentos. E não é que são consistentes!? Para a Psicologia, trata-se de "fadiga decisória", um fenômeno que tem a ver com uma parte do cérebro encarregada do "controle executivo".

A HIPNOSE, DO DIVÃ AO SOFÁ


O controle executivo ficou mais popular quando foi substituído pelo controle remoto. Ou não exatamente substituído, mas colocado no modo "stand by". Hoje existem bases científicas para afirmar que a decisão de trocar de canal cansa. O controle remoto permitiu zapear rapidamente, pra um lado e pro outro, sem que o cérebro precisasse decidir. De repente aparece alguma coisa na tela que arrebata a atenção do detentor do controle do ambiente, garantindo o conforto típico do sedentarismo televisivo.

Esse é apenas um dos detalhes ocultos no complexo fenômeno chamado TV aberta. Hoje, convertida numa "internet" com fluxo unidirecional gigantesco de dados, a TV digital. Com certeza, se ainda não tivessem inventado a TV aberta ela viria como um aprimoramento da Internet. Por que ter uma estrutura de comunicação tão gigantesca sem contar com a capacidade de falar a todos de uma vez? Ela já antecipou uma tendência presente em todos os grandes "cases" da Rede, que é a gratuidade. Ou alguém tem boleto de mensalidade do Youtube, do Facebook ou WhatsApp?

A TV aberta antecipou as tendências que a Internet veio pra consolidar como a universalidade, a gratuidade, a massificação. E agora terá também a interatividade. Tanto que, o lado mais capitalizado da tecnologia está preocupado, não para de arrumar apelidos desabonadores para a tela mais popular do mundo. Foi o que se viu durante a última edição da IBC, na semana passada, em Amsterdã. O maior evento da engenharia de televisão da Europa teve rodas e rodas de especialistas apostando no fim da TV aberta.

PRA QUEM GOSTA DE PROFECIAS


No hot site do evento era difícil saber o significado da sigla IBC - International Broadcasting Convention. A origem "broadcast" hoje é um peso para a maioria dos expositores, ligados à área de TI. Eles não querem aceitar que a TV aberta é a solução que a Internet precisaria algum dia. Neste ano, apenas um contrato da NFL, a liga de futebol americano, chegou a R$ 1 bilhão, para dar visibilidade ao tablet da Microsoft, exatamente na televisão. Todos os times receberam o produto para que os técnicos das equipes aparecessem usando o gadget... na televisão!

Vai demorar para inventar uma maneira mais interessante de não fazer nada. Não é comum, numa tarde de outono, alguém dizer que não vê a hora de chegar em casa, relaxar e consultar o line up dos canais, ou o menu do Netflix, pra escolher o que quer ver. O povo quer apertar apenas um botão pra chegar do outro lado da vida, que é o lado relax. É esse comportamento passivo da massa que vende. É a massa que faz das Casas Bahia a mais poderosa rede de varejo de aparelhos domésticos, sem se incomodar nem um pouco por ser uma referência brega. Não por acaso, a maior anunciante da TV brasileira. Nos Estados Unidos também é a popular rede Walmart que figura entre os blue chips da Bolsa de Nova York e não a maior rede de joalherias do país.

O ineditismo, diante de uma tecnologia que ainda está sendo descoberta, faz uma adolescente boca suja virar uma celebridade instantânea do Youtube, confirmando a profecia hippie de Andy Warhol: "algum dia todos vão ter direito a 15 minutos de fama". Com certeza a mocinha sonha em se cacifar, nesses "15 minutos", para chegar à TV aberta, verdadeiro palco da notoriedade.

Se parece irônico que uma tecnologia do século passado se confirme como uma premonição dos hábitos de comunicação, o mais inacreditável ainda pode estar por vir. A experiência de interatividade na TV pela TV, que o Ginga e o "Brasil 4D" estão viabilizando, pode se tornar o novo paradigma de uso da televisão no mundo todo. Com a integração com a Internet, a TV aberta digital passará a ter um fluxo bidirecional, que abrirá um leque maior de conteúdos para serem acessados pelo tradicional controle remoto. Mas será o suficiente para o telespectador descobrir a plataforma ideal de entretenimento? O futuro dirá.