sexta-feira, 31 de outubro de 2014

COMEÇANDO PELO TELHADO


Na escola a gente aprende que o Brasil teve ciclos econômicos. O ciclo do açúcar, o ciclo da mineração, o do café e por aí vai. O mundo mudou muito nesses quinhentos anos, mas os tais ciclos ainda seguram as pontas por aqui. O Brasil depende muito do dinheiro que entra com as exportações de açúcar, com as exportações de café e também de minérios, como o ferro. Possivelmente porque o açúcar, o café e o ferro que são exportados hoje, praticamente são iguais ao que era exportado há séculos. Os produtos pouco mudaram, os hábitos de consumo dessas commodities também. Então dá pra gente continuar produzindo e vendendo.

Não é o que acontece com produtos eletrônicos, por exemplo. Pouco adianta inventar agora uma política para o setor. Já pensou o tempo que seria necessário para formular a tal política!? Seria muita conversa, palanque para alguns políticos e acadêmicos de prestígio e um monte de ideias para redução de impostos. Enquanto isso, o portfólio de produtos eletrônicos já teria mudado duas vezes, pelo menos. No final, as mesmas fabricantes estrangeiras viriam fazer contas para ver o quanto vale a pena colocar uma montadora de gadgets da moda, mandando para cá todos os componentes de alto valor agregado prontos.

Ideias desse tipo inspiraram a criação de um "aeroporto industrial" em Viracopos, que fica em Campinas-SP. Atualmente, já é o maior aeroporto do Brasil em movimentação de cargas, já foi privatizado, nem se fala mais no tal projeto industrial. A ideia era abrir espaço para "plataformas de exportação", plantas industriais que receberiam componentes de alto valor agregado para a montagem de equipamentos eletrônicos. Em geral, são componentes leves e pequenos, o custo do transporte aéreo desaparece. O imposto de importação não seria cobrado, porque tudo vai virar produto acabado no próprio aeroporto e vai sair de lá mesmo com destino a clientes de exportação. Ah, com a plaquinha "made in Brazil", é claro. Desse jeito, a estratégia favorece a exportação brasileira de mão de obra barata. É isso que temos aqui em abundância. Mas, nos balanços oficiais sobre as exportações, vai parecer que as nossas vendas de produtos com alto valor agregado cresceram. Portanto, iniciativas desse tipo são baseadas na busca de novas rubricas para os mesmos números da economia, com a criação de um Brasil à parte. Um Brasil que não tem PIS, ou não tem Cofins, ou Imposto de Importação, ou IPI, ICMS, coisas impensáveis para um Brasil real.

Outra experiência típica da industrialização brasileira que não acontece com eletrônicos é a dos pólos regionais. A cidade de Americana tem um polo têxtil porque há quase cem anos uma grande fabricante de tecidos foi instalada lá. Os operários mais espertos aprenderam as técnicas, conheceram os clientes e montaram muitas pequenas tecelagens e confecções. Assim se tornaram um centro industrial e comercial têxtil, reduzindo custos e atraindo grandes blocos compradores. O mesmo aconteceu em Sorocaba, também em Pedreira com a indústria cerâmica e em muitos outros pequenos polos industriais regionais. Imagine se é possível um trabalhador da Foxcom, de Jundiaí-SP, sacar o fundo de garantia para montar uma fábrica de smartphones ou de tablets! Não é o caso. Antes de sonhar com isso, o governo deveria socorrer os tais pólos industriais regionais, aqueles antigos, os de tecidos, cerâmica ou sapatos, cujo valor que agregam, ainda que pequeno, já está inviabilizando os negócios, principalmente pela carência tecnológica.

A indústria eletrônica não pode depender de políticas de apoio, porque é ela que muda o mundo, portanto, muda as políticas também. Até hoje, a tributação de serviços pela Internet é uma polêmica jurídica em muitos lugares. Por isso, a indústria eletrônica depende só de empreendedores, capitalizados e determinados a levar adiante um investimento muito complexo. É aí onde o Brasil de hoje não se encaixa. Os empreendedores de alto nível planificam qualquer negócio a partir das condições mais básicas. No Brasil, a indústria eletrônica se ressente dos altos custos de transporte, por exemplo, até por falta de segurança. Caminhões precisam de escoltas com homens, armas e carros especiais, senão nem chegam aos destinos. Some-se a isso as más condições de estradas, a burocracia alfandegária, as filas nos portos, a carga tributária, os juros astronômicos, etc. Sim, é a própria história do Brasil que precisa começar a mudar para sonharmos com uma indústria eletrônica competitiva. Por enquanto, sem uma base bem edificada, não adianta pensar no telhado.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O LIMITE DA HONESTIDADE

"Monja Coen"

Década de 70, século passado. Os amigos costumavam emprestar até dois livros durante a vida toda. Era o suficiente para se arrepender. Livro emprestado dificilmente volta e, nas raras exceções, costuma chegar estragado. Música, então!? Na época eram os discos de vinil, riscam à toa, voltavam estalando. As fitas K-7, tão pequenas, eram fáceis de sumir. Isso quando o cabeçote de um "tape" não mastigava meio metro de música. Então, melhor deixar aqui do meu lado, mesmo que não me sirva mais pra nada.

Será que é a era digital que está deixando as pessoas mais solidárias? Agora todos querem compartilhar os streamings musicais, literários e cinematográficos com os amigos. E dizem que egoístas são os detentores dos direitos autorais. Eles já fizeram de tudo para controlar as cópias, mas os bits são mais espertos. Não precisam mais do que um click para atravessar o mundo.

Eis que agora a família começa a ser considerada uma extensão legítima de cada individualidade. Pelo menos é o que os empreendedores digitais dizem. A Spotify, um serviço de streaming de música, aceita incluir até 4 membros da família num mesmo contrato. Desde que cada um dos quatro pague 50% do preço de um plano. Alguns vão argumentar que a família que baixa unida, permanece unida. Os mais realistas vão dizer que o objetivo verdadeiro é usar a precisão digital para tentar medir o limite da honestidade das pessoas. Na prática, sabe-se que muita gente compartilha a mesma senha do serviço de streaming. Com inconvenientes. Enquanto uma pessoa está baixando alguma coisa, não tem como outra acessar a mesma senha, por exemplo. A questão, portanto, passa a ser: -quanto vale a pena pagar para não ter o trabalho de burlar as regras digitais? Algum valor deve ser compensador para o cliente. Para a indústria do setor, com certeza.

A indústria digital tem uma particularidade surpreendente. Ela recriou a tese da "geração espontânea". Era nisso que acreditavam alguns estudiosos há séculos atrás: "deixe roupa suja e restos de alimentos num canto escuro e, com o tempo, vai perceber que ratos vão nascer ali." A indústria digital é assim, as coisas surgem do nada. Milhões de cópias surgem e são entregues em diferentes endereços do mundo em poucos minutos. E não se usa nenhuma matéria prima pra isso. Não precisa nem olhar para o cliente, nem responder alguma pergunta pessoal dele. A conversa fica limitada ao menu de opções que a empresa disponibiliza. Ah, sim, o dinheiro é o mesmo daquele antigo, a empresa recebe e usa onde quiser.

Essas facilidades todas para vender, tornam mais fáceis também a apropriação indevida dos bits. Muito fácil! E é aí onde questões morais entram em jogo. Quem afana um pacotinho de bolachas em um supermercado fica mal diante do conceito de muitas pessoas. Porque tem que dissimular, esconder, falsear. Mas quem baixa indevidamente um filme, que custa dez vezes o pacote de bolachas, fica numa boa. Ninguém viu, não precisou esconder nada. E ainda tem um argumento irrefutável: a distribuidora não perdeu nada, nem um grama de vinil, uma lasca de um CD. Só perdeu a oportunidade de ganhar mais dinheiro. No caso da Spotify é muito fácil perceber que o preço de venda não tem relação com o custo de produção, mas com as características de cada mercado. Nos Estados Unidos, a assinatura do serviço custa US$ 10,00. O equivalente pelo câmbio, no Brasil, seria superior a R$ 20,00. Mas aqui, o mesmo serviço custa R$ 14,90. Por que aqui seria mais barato do que nos Estados Unidos? Será que alguma matéria prima é mais barata por aqui? Possivelmente, isso acontece só porque lá o poder aquisitivo é maior, o cliente aguenta pagar mais, então a empresa pede mais pelo mesmo serviço.

Daí a coisa fica dividida assim: de um lado, as empresas querem saber quanto dá para ganhar em cima dos consumidores rebeldes, pelos bits que eles estão tentando baixar clandestinamente? Do outro, quanto eu aceitaria pagar para não ter o incômodo de inventar ou perguntar para alguém o que fazer para burlar as regras? No meio dessa discussão rola um discurso de culpa, de cidadania, de cultura e até de solidariedade, que não passa de uma chantagem moral por parte dos dois lados.

Esta discussão não está começando agora. Na verdade, existe desde que o mundo é mundo. Ser honesto não passa por um aplicativo que pode ser manipulado, mas é um único algoritmo, que faz parte do sistema operacional de todas as pessoas, tanto consumidores como empresários. A questão é aceitar manter o programa no modo auto start.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

TRANQUILIDADE ATÉ QUANDO!?


Noite escura, a chuva começou e o casarão da fazenda longe, nem dava pra ser avistado. O jeito foi parar na casa do Donizete, na pequena vila de colonos que ainda resistia. Já tinha eletricidade e funcionava bem, até que meia dúzia de clarões cortassem por cima do riacho, trazendo no rastro o estrondo das trovoadas. Naquela hora a luz era de querosene, nos pavios de dois lampiões. O pai do Doni disse que deveríamos esperar, porque a enxurrada que cortava a estrada, numa voçoroca, era perigosa para as crianças. E se fosse pelo lado de baixo, perto do riacho, o risco era pisar em cobras. Acabou sendo esse o tema da sessão lampião: as cobras! Hoje eu entendo que o sucesso que o pai do Doni fazia com as estórias estava no fato de sempre terem um final feliz. O que mais me marcou foi sobre uma noite que ele passou perdido numa clareira, ainda criança, e adormeceu sobre um pedaço de couro macio que estava jogado lá. Pela manhã, ele viu que se tratava de uma enorme sucuri. O final feliz? A sucuri tinha engolido um bezerro no dia anterior e, quando alimentadas, essas cobras gigantes e poderosas são incapazes de fazer mal a um inseto.

É mais ou menos assim que alguns analistas podem se sentir em relação ao leilão de outorgas da faixa de 700MHz para o sinal de Internet 4G. As chamadas teles, gigantes e poderosas, pareciam muito inapetentes durante o certame. Uma delas, a Oi, nem quis participar. E, dentre as outorgas nacionais oferecidas no pregão – quatro no total - uma delas sequer foi arrematada. É difícil, ainda, entender por que nenhuma tele sem operações no Brasil, sequer tenha se interessado por um mercado tão promissor, nem quiseram participar. O leilão, que teria sido antecipado a pedido das operadoras locais, acabou tendo pouco interesse até da parte delas. No mínimo estranho.

O governo insiste em dizer que fez um bom negócio. De fato, os R$ 5,8 bilhões que ele arrecadou, em princípio, devem custar apenas a tinta da caneta que assinou as outorgas. O governo está simplesmente licenciando um serviço que a natureza faz sozinha. Só precisa organizar e fiscalizar as faixas de uso para evitar interferências. A questão é que a arrecadação prevista era de R$ 8 bilhões. O ágio pago acima do preço mínimo foi de 1%, o mais alto. Teve outorga que saiu com zero de ágio, outra com 0,02%. Sem contar que, a cada outorga arrematada, além do valor do lance o comprador teria que pagar um valor estipulado para o fundo de compensações. É o dinheiro que será destinado para famílias e até para emissoras que terão de adquirir equipamentos que serão utilizados para livrar o sinal digital de TV de interferências. Afinal, quando entrar o 4G na faixa leiloada, só vai ter transmissão digital de televisão, a analógica vai acabar no Brasil. Quem não tem condições de pagar os equipamentos de filtragem de interferências, precisará do dinheiro do fundo para não ficar sem o sinal de TV digital. Como duas outorgas não tiveram interessados, a parte que seria depositada para o fundo de compensações vai ter que ser coberta pelo governo.

As faixas de radiofrequência estão se transformando num negócio cada vez mais lucrativo para o governo. Em maio deste ano foram arrecadados R$ 153 milhões com o leilão de quatro posições orbitais, para satélites. Ainda em 2014 o governo planeja leiloar pelo menos mais 4 posições, além das duas sobras do leilão para 4G. Outros dois leilões de outorgas para uso de radiofrequência devem ser realizados no ano que vem.

O que há de concreto nisso tudo, ainda é pouco para fazer previsões. Primeiro, sabe-se que o governo teve problemas nas contas deste ano, justamente quando acontecem eleições. Segundo, o modelo de telecomunicações do país está envelhecendo, ainda é fortemente caracterizado pelos tempos em que as tecnologias a cabo e de telefonia fixa eram as mais utilizadas. O terceiro ponto é que o poder financeiro gigantesco das operadoras de telefonia torna aquisições ou fusões em nível planetário prováveis a qualquer instante, podendo alterar bruscamente o quadro de concorrência. E finalmente, o mais preocupante: o padrão de qualidade dos serviços prestados pelas teles no Brasil é muito baixo. Está baseado em consumidores pouco exigentes e leis pouco eficientes para defende-los. Os concorrentes, do lado de fora, talvez não se interessem em participar de um mercado onde lucra-se muito por vender e não entregar. E o pior é que agora, esses serviços estão meio "juntos e misturados" com parte dos serviços de TV aberta que, historicamente, são ótimos.

Por enquanto, o "pai do Donizete" não sabe nem o nome da poderosa cobra sobre a qual está dormindo. Pode ser o governo ou o grupo das teles. Seja o que for, depois de digerir o bezerro, o comportamento da sucuri é absolutamente imprevisível. Para chegar a um lugar seguro precisa, logo que despertar, definir um bom caminho e começar a correr o quanto antes.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A SEGUNDA VISÃO DA POLAROID


Se você acredita que o homem já teve um terceiro olho, localizado bem no centro das duas sobrancelhas, certamente vai ser considerada uma pessoa esotérica. Mas a tese tem alguns fatos concretos associados. A glândula pineal, ou epífise neural, para quem não ouviu falar tem o tamanho e a forma semelhantes a um caroço de laranja. Fica bem no centro do cérebro e lá, naquela escuridão, é constituída por membrana cristalina e receptores de cor! A pineal está envolvida em tecido conjuntivo, muito semelhante ao do globo ocular e possui uma inervação parassimpática proveniente inclusive de gânglios óticos. Palavras da Wikipedia. Pelo que está lá, dá pra começar a considerar mais a hipótese da terceira visão, até então puramente esotérica.

Os hindus dizem que a glândula está associada à capacidade intuitiva e à percepção sutil. No Século XVII, René Descartes, o criador do método científico utilizado até hoje, acreditava "ser a glândula o ponto da união substancial entre corpo e alma - um órgão com funções transcendentes". Quase quatro séculos depois, o que a ciência de hoje sabe é que a pineal está relacionada à regulação dos chamados ciclos circadianos, os ciclos vitais (principalmente o sono) e o controle das atividades sexuais e de reprodução. Mas a mesma ciência atual também se rende à algumas revelações aparentemente místicas. Num artigo publicado no ano passado na revista científica Neuroendocrinology Letters, o conhecimento médico recente sobre a glândula foi comparado com doze obras psicografadas pelo médium Chico Xavier atribuídas ao espírito André Luiz. Os cientistas identificaram diversas informações corretas altamente complexas sobre a fisiologia da glândula pineal, que só puderam ser confirmadas cientificamente cerca de 60 anos após a publicação das obras.

Parece pouco provável que engenheiros leiam revistas científicas da medicina, mas alguns deles já se entregaram ao desafio de produzir uma terceira visão. Nas melhores boutiques da moda "gadgets" a terceira visão fica na seção "câmeras de ação". A GoPro, no momento, é a grande vedete nas vitrines. Mas outra novidade acaba de chegar com um apelo vintage, sob a marca Polaroid, ícone da fotografia instantânea analógica. A Polaroid registrou flagrantes surpreendentes na década de 60, marcando com um contraste inconfundível a rebeldia daqueles tempos. Agora os momentos que a Polaroid quer flagrar, pelas câmeras de ação, estão nos ângulos improváveis, nos locais proibidos, nas situações inesperadas. Tanto que a empresa acaba de lançar um modelito mais popular que a GoPro, nada que US$ 99,00 não possam pagar. A "Cube", como é chamada a câmera, é pra jogar nas mãos de crianças, de adolescentes e de indiscretos de todas as classes sociais.

O produto traz mais do que uma nova categoria no mercado de imagem digital. A Cube é fruto também de um novo modelo de negócio para uma empresa que foi um ícone dos anos 70 e uma requerente de falência em 2001. Hoje a Polaroid administra parcerias com startUps para desenvolver layouts e softwares para seus produtos. Não tem mais como assumir departamentos próprios de pesquisa e desenvolvimento. O importante é que a "hippie" quase sexagenária está demonstrando plena competência para se manter em alta. Chegou à uma nova visão do mercado e da realidade do que é competir no mundo da tecnologia.

A Cube tem arestas de 35 milímetros, é toda emborrachada, suporta quedas e é à prova d'água. Com um clique no botão fotografa, com dois, filma. Não tem sequer um view finder, o visor por onde se enquadra a foto. Vai na base da mira do cowboy. Por uma pequena abertura troca-se o cartão de memória e pode escolher entre definição de 720p ou 1080p. Tem também um imã na base que facilita a fixação da câmera em qualquer superfície metálica, evitando o uso de acessórios. Sim, evitando mas não excluindo os acessórios, que já existem aos montes, para pregar a terceira visão no capacete, em membros do corpo e até entre as próprias sobrancelhas, onde já pode ter ficado o olho que regrediu para a glândula pineal.

A grande diferença prática entre a cube e a tese dos esotéricos é que, para parte deles, a terceira visão teria o poder de enxergar o futuro. Já a Cube é justamente para registrar para sempre o passado, aquelas coisas incríveis que acontecem em situações que dificilmente alguém tem uma câmera para acionar. Daqui em diante, pode ter certeza de que, se aparecer alguém com um terceiro olho no meio da testa, alguma Cube vai estar por perto para registrar.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A CRIATIVIDADE QUE DÁ NOVA VIDA À TECNOLOGIA


Vai chegar o dia em que vamos avacalhar os navegadores que atracaram na Bahia, nos idos de 1.500:"-Os caras eram tão 'manés' que os índios conseguiram trocar espelhos por meras pepitas de ouro." Já tem discurso pra isso. O espelho, componente de razoável valor agregado, tecnologia de ponta à época, poderia ser usado na montagem de telescópios, microscópios e até para dar brilho nas orelhas das peruas, como seria com o ouro. E, com brincos de ouro ou de vidro, a aprovação só viria depois de passar por um bom espelho.

Entra era, sai era e pouca coisa muda na essência do que é o mundo. Até o início do século passado era gente se matando para conseguir mais ouro ou mais pedrinhas brilhantes, de valor absolutamente subjetivo. Nesses tempos, de muito mal gosto, uma boa guerra se faz por petróleo, nada decorativo. Justo agora que estão descobrindo um valor de utilidade para aqueles penduricalhos mais tradicionais. Por exemplo, o diamante nas telecomunicações, o ouro e outros metais preciosos na micro eletrônica. O Apple Watch, apresentado no começo do mês, depois de tanta expectativa, tem tela de safira, que dá mais resistência e conforto visual. Ah, também tem modelos revestidos de ouro, mas nesse caso é em atenção ao objetivo maior do lançamento, ou seja, adular a peruagem.

O Apple Watch é exatamente o que todos já sabiam: um smartphone no lugar do relógio, o inverso da novidade de 10 anos atrás, que trazia um relógio no celular. Todas as inovações fazem parte do que se entende pelo pacote "smartphone": iTunes, iCloud, Facebook, Twitter, Mapas e o que mais? Dizer que tem um relógio com medidor de pressão arterial e monitor de frequência cardíaca é demais. Nada que já não existisse antes mas que agora foi repaginado pela Apple.

É justamente aí onde a tecnologia patina. O que pode ser tão útil que supere a vontade que o ser humano tem de ostentar, de aparecer? Quando uma menina me perguntou como é possível um telefone que está numa placa de vidro transparente, que não se pode ver, eu tentei explicar dizendo que os componentes eram muito pequenos, menores do que fios de cabelo. "-Por que não se faz então celulares nos cabelos, já que ficam perto das orelhas e da boca?" Ainda bem que era só uma piada, ela riu em seguida e não esperou resposta. Hoje ela já está quase mocinha, e se me perguntar de novo, eu vou dizer que um celular formado por fios de cabelos precisaria também brilhar quando tocasse, para que as pessoas ao redor pudessem perceber a presença dele.

Eis o grande negócio que move a Nasdaq! Não serão os instrumentos cirúrgicos mais sofisticados, capazes de curas surpreendentes, que vão disparar os gaps nas cotações. A tecnologia que se quer é o ópio do povo. Precisa ser encantadora, lúdica e de consumo compulsivo. Tem que ser o grande barato de um período em que vão ferver nas prateleiras, nas vitrines. Elas são um fim em si mesmas. Assim como os celulares chegam a ser adereços de mão, a exemplo das pequenas bolsinhas que as jovens carregavam com a maquiagem no começo do século passado. Possivelmente, é por isso que até hoje não inventaram um bolso específico para celular, porque o objetivo é mostrar a geração em que você está.

As necessidades humanas estão cada vez mais subjetivas. Os agricultores, que produzem os alimentos, recebem pequenas frações do que é pago por aquilo que é transformado lá na outra ponta. Por exemplo, o cafezinho servido num balcão de acrílico, sob o ar condicionado, custa mais de cem vezes do que foi pago pelos poucos grãos usados para produzir aquela xícara de sabor. O valor está no sexto sentido, e não em nenhum dos outros cinco com os quais você nasceu. A utilidade objetiva é coisa para quem trabalha, para quem está lá no nível do agricultor, suportando todo o peso que a natureza impõe à vida. Essas pessoas sabem o que é útil, dependem do valor objetivo de tudo que carregam. São pessoas que bebem água, não vinhos franceses, que comem frango, não salpicão. Para elas, saber as horas é muito mais importante do que ler os emails. E essa vida sem graça não aumenta as cotações das ações em nenhuma bolsa do mundo. Verdade seja dita, a despeito das honrarias que merecem todos esses trabalhadores, que carregam o mundo nas costas, se não fosse o delírio dos antigos navegadores, ou dos babacas cibernéticos atuais, até hoje estaríamos vendo nossas caras apenas no reflexo dos rios, pouco antes das 10 da manhã, quando se pesca com arco e flecha para garantir o almoço.