ELON MUSK NO BRASIL?? A 500 KM DE ALTURA



“-De lá, ao vivo, fala a repórter Mariazinha da Silva. Boa noite, Mariazinha! É verdade que hoje o INPE não registrou um único foco de incêndio em toda a Amazônia?” (Lá do meio da mata a Mariazinha está balançando a cabeça, como se ainda estivesse ouvindo alguém falando com ela. No estúdio, a apresentadora fica muda, olhando na tela, pestanas pra cima e a testa pra frente, como um boi que ameaça avançar. Esses dois ou três segundos parecem uma eternidade no meio daquele bate rebate das notícias no telejornal.)

O que acontece nesse tempo é que bilhões de bits sobem até um satélite geoestacionário, que fica a uma altura de 36 mil quilômetros, o equivalente a 90% de uma volta inteira ao redor da Terra. Esses bits são imagem e som da apresentadora perguntando no estúdio. Lá do alto o sinal ainda tem que descer até a Mariazinha, que vai responder de volta para o satélite, que manda para a cabeça-de-rede da emissora. Esse vai vem do sinal de TV é um dos principais fatores da latência, vulgo delay, o intervalo de resposta nas telecomunicações. E se essa distância fosse reduzida em 40 vezes?

Essa possibilidade fez Vicente Aquino, Conselheiro da Anatel, marcar para a próxima segunda-feira uma reunião extraordinária do Conselho. Vão discutir o processo de autorização de satélites de baixa órbita (LEO, na sigla em inglês) da Starlink e da Swarm. O pedido da reunião extraordinária teria partido do dono da Starlink, Elon Musk. Além da Swarm, outras 5 empresas estrangeiras do mesmo segmento aguardam a mesma autorização no Brasil.

O magnata da Starlink recebeu o Ministro Fábio Faria, das Comunicações, há pouco mais de um mês nos Estados Unidos. O ministro chegou a anunciar, pelas redes sociais, uma parceria da empresa com o governo brasileiro. A Starlink é uma constelação de milhares de satélites que está sendo formada numa órbita em torno de 500 Km da superfície da Terra. A ideia é montar uma espécie de back bone, uma espinha dorsal de uma rede de Internet envolvendo o mundo todo. O sinal seria mais rápido do que as fibras ópticas de cabos submarinos. A tecnologia dos satélites de baixa órbita é mais simples e o custo operacional também muito inferior, se comparado aos geoestacionários. São equipamentos pequenos, no caso da Starlink, pesam em torno de 260 quilos. Só a constelação de Elon Musk deve chegar a 17 mil satélites.

A tal parceria entre a Starlink e o governo brasileiro iria propiciar banda larga de baixo custo mesmo nos locais mais remotos do país. E envolveria ainda a vigilância da Amazônia, um serviço que nem faz parte dos sistemas da Starlink. O anúncio durou menos de um dia. O desmentido deve ter sido um alívio para as operadoras nacionais de telefonia, que tinham acabado de ganhar R$ 40 bilhões do governo no leilão do 5G. Os chamados “compromissos de investimentos” permitiram um estorno da maior parte do que foi pago no leilão de frequências. O argumento principal é levar banda larga aos locais mais remotos.

A propósito, quando o governo decidiu leiloar as faixas de frequência por um período de 20 anos – o que não se viu em nenhum outro país do mundo – desprezou aquele que é o principal cânone da tecnologia digital: tudo muda rápido em muito pouco tempo. Por enquanto, essas constelações de baixa órbita, hoje, representam uma séria preocupação “eco espacial”. Em junho o G7 se reuniu para tratar do “uso sustentável do espaço” uma vez que a quantidade de lixo tecnológico já é assustadora. Com as constelações de baixa órbita pode haver interferências de sinais, choques entre satélites, poluição visual para observadores que estudam o espaço, dentre outros problemas. Uma empresa inglesa já estuda um novo sistema para recolher lixo do espaço.

É aí que entra outra máxima da tecnologia digital: problemas sérios de hoje estarão resolvidos em uma semana (metaforicamente...). Se essa tecnologia se firmar, vai ser uma grande reviravolta nas telecomunicações. Porém, no Brasil, poucas operadoras estarão dominando importantes faixas de frequência nos próximos 20 anos.

Deixando de lado os tropeços, a trajetória de Elon Musk está se tornando muito mais curiosa. Parece que ele tinha tudo planejado secretamente há muito tempo. Os investimentos dele não aparentavam ter relação um com o outro. Uma fábrica de carros elétricos inteligentes (Tesla), uma fabricante de foguetes para turismo espacial (SpaceX) e uma rede para Internet (Starlink). Agora se percebe que os foguetes são fundamentais para posicionar satélites, das constelações que vão servir também para conectar carros inteligentes, garantindo a máxima segurança. Isso sem contar as especulações de que, após formada a grande constelação, o sistema teria capacidade de oferecer telefonia móvel no mundo todo. Quais seriam os próximos passos?

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