AUMENTA A CONEXÃO TAMBÉM COM O PERIGO


Sabe o que quer dizer “o mundo inteiro numa olimpíada”? Significa que ninguém está mais próximo das Olimpíadas de Tokyo do que você. Exceção a algumas provas, em alguns estádios – em áreas “livres” da covid – as competições mais importantes dos Jogos mantêm a mesma distância de todo o público. As famílias dos principais atletas vão assistir às apresentações da mesma distância do que você. Uma “distância eletrônica” de alguns segundos.

A solução chama-se TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação. Na Olimpíada de Tokyo – a outra, de 1964 – não seria possível realizar os Jogos assim. Não haveria qualidade de imagem, nem quantidade de câmeras suficientes para captar e disponibilizar tanto conteúdo. A quantidade de cabos, luzes e tantos outros apetrechos analógicos tornaria impraticável. E sem conteúdo para entregar não tem espaço para anunciar, então não tem patrocinador para pagar a festa toda.

Durante esses tempos de pandemia as TICs garantiram aulas para muitos milhões de alunos pelo mundo. Entregaram comida, medicamentos e compras em geral para bilhões de pessoas. Levaram orientações, consultas médicas, diversão e arte. Só porque o mundo está todo conectado. Para o bem e para o mal.

Ontem mesmo diversos serviços da Internet estiveram inacessíveis por mais de duas horas em várias partes do mundo. A Akamai, maior CDN do mundo ( tipo de rede de servidores que armazenam e distribuem conteúdo), teve instabilidades e quedas. Até agora ninguém falou nada sobre ataque cibernético mas... Já é o segundo incidente do tipo com grandes CDNs neste mês.

E também porque o mundo está todo conectado, para o bem e para o mal, há fortes indícios de que a empresa israelense de vigilância NSO Group estaria vendendo espionagem para governos autoritários. A empresa opera o spyware Pegasus, desenvolvido para investigar criminosos e terroristas. No entanto, no último domingo, o jornal americano The Washington Post e outros 16 veículos de imprensa divulgaram informações sobre uma lista de 50.000 números de celulares com vestígios de rastreamento pelo Pegasus. Os números pertencem a jornalistas, ativistas de Direitos Humanos, Ecologistas e outros que não se parecem em nada com criminosos ou terroristas. O trabalho investigativo teve o apoio da Anistia Internacional e da ONG francesa Forbidden Stories.

Essa última está sendo ameaçada de processo e acusada pelo NSO de ter divulgado um relatório “repleto de suposições errôneas e teorias infundadas”. Durante esta semana vimos pela mídia a empresa se defendendo, afirmando que “... o NSO vende suas tecnologias apenas para agências policiais e de inteligência de determinados governos, com o único propósito de salvar vidas, mediante a prevenção de crimes e atos terroristas”. 

Em 2016 o Pegasus teria sido utilizado para investigar um dissidente do governo dos Emirados Árabes. Nessa última lista constam ativistas e políticos de países com longa tradição de perseguição à adversários, como Azerbaijão, Bahrein, Hungria, Cazaquistão, México, Marrocos, Arábia Saudita. Entre os números de celulares identificados estariam o de duas mulheres ligadas ao jornalista Jamal Kashoggi, assassinado a mando de um príncipe saudita. Também o de um jornalista mexicano independente que foi assassinado há pouco tempo, segundo informou a revista Carta Capital. Foram identificados também os números de muitos executivos de alto escalão em grandes empresas, o que levanta a suspeita de atuação também como espionagem empresarial.

O Pegasus é um sistema extremamente invasivo. Ataca dispositivos móveis IOs e Android. Ele é capaz de grampear ligações, acessar fotos, vídeos e programas de mensagens, pode ligar a câmera e o microfone do aparelho para transmissão de informações. É de se supor que governos de países desenvolvidos tenham criado sistemas semelhantes para defesa interna. Mas é surpreendente que algo desse tipo tenha se transformado num negócio e esteja disponível no mercado, para o bem e para o mal, a despeito do que o NSO afirma.

Um mundo extremamente conectado não é “isso aí que todo mundo está vendo”. Pode-se tornar algo muito melhor, mas também muito perigoso. Notícia publicada no site Convergência Digital cita um relatório da Consultoria Gartner, segundo o qual em 2025 os ataques cibernéticos vão ferir ou matar humanos. Em 2023 o impacto financeiro de ataques desse tipo deve girar em torno de US$ 50 bilhões. São ações voltadas para sistemas ciberfísicos, classificados como tecnologias operacionais, cujos tipos de falhas podem gerar vandalismo comercial (impactos na produção), vandalismo de reputação (impactos na confiança da marca) e também podem ferir ou matar humanos. Isso sem contar o embate entre nações, como já acontece entre os Estados Unidos e Rússia, e agora também com a China. O limite de riscos dos ataques cibernéticos já está fora do alcance das previsões mais pessimistas.

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