“SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO”


Mudar de partido é coisa que se vê todo dia. Ideologia, militância, compromisso social, tudo bem, a gente troca. Religião é bem mais difícil, mas, também acontece. Coisas da fé. E de time de futebol, você já viu alguém mudar? Ah, isso é difícil! Qual a virtude em ser torcedor? O que se ganha com isso, o que fica como exemplo? “Nada a ver”, costuma ser a resposta, enquanto se matam por conta disso.

Afinal, quem é você? Por completo ninguém sabe, quer dizer, isso nem deve ser importante. Mas algumas coisas a seu próprio respeito você precisa saber. Se tiver certeza sobre essas coisas, então você deve ter mais chances de ser feliz, de ser uma pessoa bem resolvida, de caráter.

Tudo bem, agora acabou a conversa mole, vamos aos exemplos práticos para não ficar uma coisa chata. Se você mora no Brasil, não deve fazer muito tempo que acusou, ou pelo menos pensou, algo parecido com “a corrupção é o atraso desse país”. Já faz quinze minutos? Uma hora, talvez. Que pensou, pensou. Esse é o tema nacional há algumas décadas. Nessa forte polarização política, o cabo de guerra é isso aí. Quem é corrupto, quem não é. Famílias divididas, amigos que se evitam, estranho que invade sua rede social para ofender, é assim que está a polarização política. Tudo porque “a corrupção está aí do seu lado”, não do meu. Então, afinal, você é uma pessoa corrupta? Olha lá, faz poucas linhas que leu sobre “coisas que você precisa saber a seu próprio respeito”. Percebe que a conversa começa a se encaixar? E continua, “... se tiver certeza sobre essas coisas...”. É na “certeza” que a coisa pega. Ser ou não ser. O lugar confortável fica no “mais ou menos”, no “depende”, na “questão de interpretação”. Não é aí onde você aceitaria colocar o líder do grupo político adversário. Daquele lado, com certeza, “é corrupto e ponto final”.

Refletir sobre essas verdades pessoais não é uma busca da perfeição. É algo factível, existe até uma tolerância. Por exemplo, muitas vezes, mentir é um ato de caridade. Fato ou mito, entre alguns advogados, se diz que Santo Ivo tornou-se o Santo da profissão por ter convencido o papa de sua época de que o advogado precisa mentir. Mais do que isso, ele teria demonstrado que, sem mentir, não se faz Justiça na Terra. Se parece pouco, na tradição do Direito Brasileiro, respeita-se a inimputabilidade por furto famélico. Quer dizer, se alguém furta algo que vai comer, saciar a fome, essa pessoa não comete crime (trágico, né?). E a pessoa que furta energia elétrica? Você já fez um “gato da luz” para sua casa? Por favor, não se ofenda, ninguém está lhe comparando a um indigente. É que cabe até alguma justificativa. A energia elétrica esquenta a água do banho, resfria os alimentos na geladeira para ter o que comer. Gato que não se justifica é de TV a cabo, de filmes ou séries, de jogos transmitidos pela Internet. Ninguém depende disso para viver. Agora sim: -Você já fez algum desses “gatos” para entretenimento?
Esse tipo de capricho rouba R$ 15,5 bilhões por ano. É mais do que a corrupção estarrecedora que se viu na Petrobras há pouco tempo. Cerca de R$ 2 bilhões desse total estariam sendo roubados em impostos. Isto é, se os filmes, as músicas, fossem devidamente comercializados, gerando recolhimento. O resto está sendo roubado dos seus artistas preferidos, das empresas que os promovem, do faturamento da TV por assinatura, do canal de música, da folha de pagamento dessas empresas.

Dessa vez a campanha contra pirataria da ABTA – Associação Brasileira de Televisão por Assinatura – é protagonizada por crianças. Essas mesmas, cujos pais estão ensinando a roubar por mero consumismo. Será que você vai ver sua filha ou seu filho naquelas crianças? Tanto faz ou isso te incomoda? Se isso traz algum alívio, saiba que você não está só. Estima-se que 33 milhões de pessoas acima de 16 anos façam parte dessa que seria a maior quadrilha do Brasil (o número total de políticos no Brasil, daqueles que muitos acusam, é bem inferior).

A agência reguladora do setor, a Anatel, está pegando pesado. Do início de 2020 até hoje, só no porto do Rio de Janeiro as apreensões somaram cerca de R$ 470 milhões. São principalmente decodificadores que desbloqueiam o acesso a canais pagos (TV Box piratas). Também foram tirados do ar mais de 250 sites e 65 aplicativos de streaming ilegais. Vários deles são “equipados” com softwares que roubam senhas. O apelo agora também se estende às grandes empresas de marketplace como Lojas Americanas, Magazine Luiza, Carrefour, Mercado Livre. Nesses sites você vai encontrar à venda, por exemplo, jammers. São bloqueadores de sinais de celular muito usados em sequestros relâmpagos. A Anatel quer que essas empresas não aceitem mais esses clientes que vendem equipamentos de telecomunicações não homologados pela agência. É o caso também de celulares proibidos aqui, por emitirem radiação acima dos níveis seguros. Ou daqueles cujas baterias ou carregadores explodem, incendeiam. Nesses sites dá para encontrar inclusive celulares autorizados, a preços muito baixos. É que são roubados ou furtados. Como os filmes e músicas que muitos consomem.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

COQUELUCHES DA TECNOLOGIA

GUERRA FRIA 2.0

O SILÊNCIO INOPORTUNO