O BRASIL REDESCOBERTO POR UMA NOVA ONDA

Quando se fala em crescimento do Brasil logo vem a desconfiança. Ou dúvida, pelo menos. Crescimento econômico? Já fomos a sexta economia do mundo, ou sétima, por aí. Hoje, caímos para décima primeira. A população cresce em ritmo mais lento a cada ano. A renda cresce só na média, porque a ponta enriquece e a base fica mais pobre. Crescer onde então, e em que direção?


Dizer que o Brasil vai crescer no espaço digital não teria graça. Só que dessa vez vai ganhar escala, num salto para dentro do Brasil profundo. E esse caminho só poderia ser pela TV. A segunda maior presença na vida doméstica nacional – só perde para o fogão – é o dispositivo eletrônico familiar por excelência. Por isso pode sustentar um amplo crescimento da tecnologia de informação nos lares mais distantes. Isso significa um modelo de TV com grande alcance social e econômico, além do ganho de qualidade em som e imagem.


“-Mas isso já não aconteceu?” Só em termos de som e imagem, mesmo assim, depende de que Brasil se está falando. O sinal digital de TV já chegou para as cidades maiores, com mais recursos, mais acesso. É o Brasil prêt à porter, onde vive a grande maioria da população. Porém, na maior parte do território nacional, ainda se costura uma nação que possa servir ao cidadão, oferecer recursos básicos, serviços essenciais. Lá ainda não tem sinal digital de TV, nem sempre tem algum sinal, às vezes não tem nem comunicação rodoviária, só chega de barco ou avião. É nesses lugares onde o sinal digital de TV agora vai chegar. E os recursos de alcance social e econômico vão apoiar desde crianças até os pequenos empresários.


O Ministério das Comunicações criou o programa Digitaliza Brasil, que começará doando estruturas completas de transmissão de TV para prefeituras de pequenas cidades, nas mais distantes localidades, onde ainda não existe sinal de TV digital. A estimativa é atender até 1.638 cidades no Brasil todo. As cidades que se encaixarem no perfil podem se inscrever no programa, apresentando a documentação já divulgada no Diário Oficial da União. Antes do Ministério das Comunicações decidir quais vão ser atendidas, haverá uma avaliação técnica da EAD – Empresa Administradora da Digitalização. Ela foi criada no contexto do leilão para o 4G, em 2014.


Naquela ocasião as operadoras de telefonia móvel pediram ao governo que antecipasse a limpeza da faixa de frequência dos 700 MHz para implantação do 4G. Essa faixa era usada por emissoras de televisão porém, com a tecnologia digital, elas poderiam passar a ocupar uma frequência um pouco abaixo, sem prejuízo da qualidade do sinal. E os 700 MHz, mais importante para o 4G, passariam para as operadoras de telefonia. O governo federal de então concordou, desde que uma série de medidas compensatórias fossem assumidas pelas operadoras. No acordo ficou estabelecido que, independentemente do valor de cada lance vencedor no leilão das frequências, a empresa arrematadora deveria destinar cerca de R$ 1,8 bilhão para a formação da EAD. Todos os fundos que a EAD recebesse seriam destinados para as compensações, principalmente para a população de baixa renda, que ganharia um conversor por família. Foram mais de 14 milhões de conversores doados. Mesmo assim, sobrou cerca de R$ 1 bilhão, que agora serão destinados para doação de transmissores.


Paralelamente, um outro programa do Ministério das Comunicações está apoiando o desenvolvimento da TV 3.0. Trata-se de um novo sistema, viabilizado pela mais recente implementação do Ginga, chamada DTV Play. O Ginga é um middleware, uma camada intermediária de software, que permite integrar uma série de recursos ao sinal. No caso do DTV Play o middleware acrescentou, principalmente, a possibilidade de integração da banda larga de Internet. Isso é feito de uma forma tão bem ajustada que um telespectador, usando um controle remoto único, precisa de apenas um toque, num só botão, para mudar de uma grande rede de TV aberta para o Youtube. Permite ainda a caracterização de cada telespectador, de forma a direcionar a propaganda adequada para o perfil de quem estiver em cada aparelho. Quer dizer, num único intervalo comercial, dezenas de mensagens publicitárias são exibidas, cada uma para o seu público de interesse. Da mesma forma, conteúdos educativos podem ser exibidos de acordo com o que solicitarem os alunos do ensino básico, em determinados horários. O sistema de inserção de anúncios vai permitir que um pequeno comércio local possa colocar no ar sua mensagem publicitária, direcionada apenas aos clientes da sua localidade. Isso pode ser um grande impulso para o comércio local.


Se utilizado de maneira inteligente, um sistema de TV com esse potencial pode representar um grande avanço para a sociedade, principalmente num país continental como o Brasil. As condições tecnológicas vão ser dadas. Vai ficar faltando apenas a parte mais fácil.

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