Quem tem medo das telas conectadas



A vacina trará a imunidade. E então a pandemia vai deixar o presente para entrar na história. Quem está vivendo esses dias sabe que não vai ser fácil para os historiadores explicarem o que sentimos agora. Descrever esse horror começa por medir as consequências, todas as dimensões possíveis dos fatos. A cara da pandemia vai sair daí, do rastro de prejuízos que ela vai deixar. 

Porém, a maior parte desse legado possivelmente será formada pelos avanços conquistados. Pela bênção do saber que emerge dos esforços em busca das soluções. Não só do imunizante, da cura, mas todas as adaptações gestadas para um mundo que, para sobreviver, precisa lutar a cada dia. O trabalhador que descobriu a eficiência e liberdade do home office, o patrão que vai desativar prédios inteiros, pois produzem menos do que os trabalhadores em suas próprias casas. A Covid veio para tirar aquela máscara sisuda que vestíamos na cara todas as manhãs, incomodados que estávamos com tanta gente e agitação. Felizes, mas sem saber. 

Ainda bem que, dessa vez, houve um refúgio. Foi o mundo virtual, o território digital da Internet. Centenas de milhões de pessoas, pelo menos, trabalharam só pela Internet, ou estudaram, passaram horas de lazer, se reuniram com amigos. Não que o mundo digital seja imune a vírus. Mas o vírus de RNA – Ácido Ribonucleico, é muito mais danoso que os vírus do tipo EEI – Escrito Eletronicamente por Irresponsáveis. Descobrimos que temos o que imaginávamos, só que resistimos a utilizar plenamente. Quando passou a ser uma questão de vida ou morte, a decisão ficou muito simples. 

Essa redescoberta do potencial do audiovisual pode ser transformadora. Há 50 anos, desenhos animados e mesmo filmes de ficção científica, costumavam mostrar máquinas onde as pessoas conversavam por áudio e vídeo. Seria o “telefone do futuro”. O futuro chegou, o telefone audiovisual também. Mas poucos utilizam. De fato, em dadas circunstâncias, não acrescentam nada, podem até ser inconvenientes. Mas, em muitas situações, se tornam soluções. Um negócio de US$ 27,7 bilhões, anunciado neste mês, é uma prova robusta de que a transformação deve se consolidar. 

A Salesforce, uma das maiores empresas de softwares corporativos do mundo, investiu esses bilhões na compra da, também americana, Slack Technologies Inc.. Ao longo da épica trajetória da Salesforce ela já adquiriu mais de 60 empresas. A Slack foi a maior aquisição entre todas. E um dos principais negócios da área de tecnologia no ano. A Slack tem como principal produto uma plataforma de comunicação que lembra um “Whatsapp” fechado, cada empresa pode ter o seu. O produto vem crescendo muito em grandes corporações dos Estados Unidos e alguns países europeus. Mostrando que funciona muito essa prática de gravar uma mensagem para alguém tão logo você lembre de algo que precisa informar. Você faz isso no seu tempo e a pessoa vai ver no tempo dela. Já existiam outros caminhos, mas nenhum tão prático e tão adaptável à rotina de trabalho. 

O trabalho pensante vai passar a ser uma atividade audiovisual, em grande parte. Além de mensagens de áudio e voz, muitos documentos vão ser compartilhados, autorizações vão ser concedidas ou não, locais serão descritos por vídeos narrados. Vários tipos de situações vão ser digitalizadas imediatamente. Esse passo da Salesforce vai levar às grandes corporações o novo hábito. E, ao que tudo indica, será só o começo. 

Diante de todos os usos possíveis desses recursos, a plataforma Slack, associada aos softwares da Salesforce, ainda é um passo tímido. O mundo já está mais digitalizado e o audiovisual, com alta definição e uso muito simplificado, pode oferecer muito mais. As possibilidades de integração com muitas outras ferramentas pode tornar toda a vida empresarial num único espaço eletrônico. Assim como no caso da Slack, serão outras startups, mais ágeis e mais conectadas com os dois mundos – o real e o virtual – que vão alcançar essas novas soluções. 

Não é uma questão de otimismo, mas, por tudo que já fizemos contra esse planeta, a pandemia do novo corona vírus está se revelando uma resposta até sutil da natureza. É importante entender bem esse recado. O avanço da ciência, das várias tecnologias, há tempo tornou desnecessária uma boa parte dos nossos deslocamentos, das reuniões presenciais e de ausências irretratáveis. Podemos produzir mais, trabalhando menos. Se pensar bem, até a distância da família pode ser bem atenuada pelos recursos de que todos dispomos.

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