O poder que emana contra o povo


Depois de uma semana à espera dos resultados das eleições americanas, precisamos esperar seis “intermináveis” horas para saber os nomes de mais de 40 mil vereadores eleitos, nos 5.570 municípios brasileiros, mais cinco mil e tantos prefeitos e algumas centenas de candidatos que vão disputar um segundo turno nas maiores cidades. Falando assim, até parece...

A tecnologia da informação está se tornando algo cada vez mais acessível, tanto do ponto de vista de custo, como de operação. Muitos países não ricos, e até pobres, podem escolher soluções para as mais diversas áreas, utilizando recursos de TI. Assim como muitas micro e pequenas empresas também podem digitalizar seus processos, mas não o fazem. Gastam muito mais, perdem várias oportunidades, por não saberem como acessar as novas tecnologias.

No Brasil, pode ser que alguns grupos não gostem da agitação típica dos períodos eleitorais. Mas os políticos amam. E é em algumas dessas mãos eleitas que estão as canetas que decidem e pagam. Então temos um processo eleitoral muito eficiente, embora resumido ao que interessa aos políticos: quem entra e quem sai do poder. Aqueles yankes saudosistas incluem no voto muitas outras escolhas da preferência popular. Imagine se existisse isso por aqui e entrasse em consulta pública os valores das remunerações dos políticos.

O importante é que a abrangência dessas novas tecnologias envolve muitos outros tipos de soluções, a grande maioria, de interesse geral. O exemplo da vez é o pix, o novo sistema de pagamentos que, na próxima semana, começa a prova de fogo em torno da real eficiência. Há quem diga que essa ferramenta, quase revolucionária no trato cotidiano do dinheiro, só chegou a todos para ampliar a base de tributação para um novo imposto. Então ela não seria exatamente gratuita, mais um instrumento de cobrança pública em massa. Para quem tem muito dinheiro e usa intensamente, a notícia não é nada boa. Mas, para quem está acostumado a manter aquele padrão médio de vida, pagando as contas mês a mês, talvez o imposto seja compensado pelas facilidades que chegam com o novo sistema. Sem contar que impostos veem, mas também vão embora. Aí a gente volta para a questão inicial, as eleições, onde são designados os donos e as donas das poderosas canetas, que criam e impostos, mas também suprimem.

Pela magnitude dos eventos eleitorais, das mudanças que podem trazer e da audiência que costumam ter, pode-se dizer que temos ali um enorme laboratório “sócio-digital”. Dá para ver com mais clareza como o empoderamento, característico das tecnologias de informação desperta pensamentos insondáveis em mentes aparentemente pacíficas. Pense no poder que o acesso a endereços no mundo todo trouxe para os cidadãos em geral. Sim, o e-mail, que transformou o marketing direto, a dinâmica do trabalho e até trouxe o spam. O que dizer então das redes sociais? Deram o poder de publicar aos mais simples cidadãos da Terra. Antes, quando muito, a massa só podia publicar nos classificados dos jornais. Pagava anúncio para vender o carro, alugar uma casa, oração para Santo Expedito. Com sorte, se mandasse uma reclamação para algum jornal, poderia ler um resumo publicado na sessão de cartas.

Desse poder publicisado, de publicar, vieram algumas coisas relevantes e um tsunami de bobagens, confirmando que o público em geral é ávido em consumir besteiras de toda sorte. Por sinal, um traço comum em todas as culturas. Claro que, algum dia, essa permissividade toda, sem qualquer fiscalização, acabaria atrapalhando o grande evento cívico popular, a eleição.

No pleito de 2010, aqui no Brasil, a explosão das redes sociais rondou os comitês de campanha. Havia a crença de pudesse ser descoberta alguma forma de abordagem, pelas páginas do Facebook, capaz de conduzir o candidato à vitória. Desde então o que se viu aumentar por essas vias não foi a informação. Ao contrário, foi justamente a desinformação. A situação foi se agravando a cada pleito, no Brasil e no mundo, até que, em 2016, a eleição de Donald Trump gerou vários processos criminais, investigações do FBI, da CIA, NSA e vários outros órgãos de segurança pelo mundo. Pouco antes, o Brexit já tinha alvoroçado toda a Europa e uma série de novos negócios, como o da agência Cambridge Analityca, passaram de “empreendimento criativo” para atividade criminosa. Até Mark Zuckerberg foi levado a depor no congresso americano e inaugurou ali um hábito de pedir desculpas, repetido muitas vezes desde então.

Neste ano, aqui no Brasil, a Internet foi o principal foco da propaganda institucional do Tribunal Superior Eleitoral. E aplicativos, como o WhatsApp – de propriedade do Facebook – criaram ferramentas específicas para que o eleitor pudesse se livrar de notícias falsas e até de deep fakes. Nos Estados Unidos o atual presidente Donald Trump questiona a vitória de Biden, sob o argumento de fraude. Ele não acusa nenhuma ação pela Internet, talvez porque ele prefira que esse tipo de crime nunca mais seja investigado. A lição que fica é de que o mundo virtual tem um contingente criminoso com grande potencial de agir sobre mentes menos esclarecidas. Um novo desafio para os nossos tempos.

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