NAVEGAR É PRECISO, PARA VIVER




Ninguém continua sendo a mesma pessoa depois de assistir a um filme interessante. Nem depois de ler um livro interessante.

O “interessante” fica a critério de cada um. Durante muito tempo as misses da beleza confessavam terem mudado depois do livro “O Pequeno Príncipe”: “-Interessantíssimo!”, exclamavam. Entre os políticos, mundo afora, muitos mudaram depois de ler “O Príncipe” (o de Maquiavel). Aqui no Brasil parece que os políticos que mais mudaram foram os que leram o Código de Processo Penal, tal é a moleza assegurada a quem entra em cofre público.

Se no seu caso não foi um livro, com certeza tem um filme na sua personalidade. Aquele épico, ou algum muito inteligente, quem sabe foram nos diálogos de Bergman, uma aventura de Spielberg, uma comédia do Mazzaropi. Uma novela que marcou a sua vida, pode ser? Uma série do Netflix?

As artes em geral trazem mudanças, transformam, mas o cinema, e suas derivações nos gêneros audiovisuais, são poderosos. Ali estão personagens para serem amados e odiados, passam locais e culturas diferentes, situações impensáveis. É uma experiência que se vive, aquilo mexe com os sentimentos, as emoções. Mexe mais do que a rotina, regra geral da vida.

É isso que essa indústria vende, fragmentos de vida. “De fácil absorção”, seria lido no rótulo, se administrado por um psiquiatra. O audiovisual é um tipo de conteúdo cujo consumo não tem limite. É vendido em massa e hoje, da maneira mais sedentária, preguiçosa, no máximo comodismo, navegando pela Internet. Tudo que se pode sonhar para um grande negócio.

Acredite, esse tipo de mercadoria está mudando o planeta. Além de pessoas, os vários mercados estão sofrendo forte impacto. Por que uma Apple da vida quer ser produtora de conteúdo? E a Amazon, por que então não começou editando livros? Do outro lado, as TVs por assinatura, que são players históricos desse mercado, estão no prejuízo, sentem até ameaça de extinção. E vêm muito mais reviravoltas por aí.

O caso da AT&T é um exemplo clássico, principalmente depois do fundo Elliot ter adquirido uma pequena parte do capital. O fundo, do mega investidor Paul Singer, é conhecido no mercado pelo perfil “abutre”, aqueles interessados apenas numa rápida valorização das ações para logo vender tudo. Para esses investidores pouco importam as perspectivas da empresa no longo prazo, basta que tenham um pico de alta para que realizem seus lucros vendendo os papéis.

Na tentativa de sintetizar esse pico nas ações eles preparam suas próprias estratégias e tentam convencer outros pequenos blocos de acionistas para, em conjunto, pressionarem os administradores. Na AT&T a tática de convencimento do fundo Elliot começou por atacar as aquisições da Time Warner e da DirectTV. O barulho começou na semana passada, com uma carta enviada aos gestores, dizendo que a aquisição da Time Warner até agora não se justificou. Quanto à DirectTV, o fundo afirma que “TV paga é um negócio decadente”. Para o Elliot, a AT&T, gigante das telecomunicações, deveria investir no 5G ou em outros negócios ligados à infraestrutura do setor.

De fato, as aquisições bilionárias feitas pela AT&T subvalorizaram as ações da empresa no mercado financeiro. E deve ser por isso mesmo que um fundo abutre adquiriu os papéis. Se houver um retorno aos negócios tradicionais os riscos ficam reduzidos no curto prazo, a tendência é que o valor das ações se recupere rápido. Isso é tudo que o Elliot espera que aconteça para vender, com lucro, as ações que detém. Por outro lado, a AT&T tem os olhos muitos além das bolsas. Parece que pretende fixar seu capital também em novos negócios em ascensão. É aí onde a produção de conteúdo audiovisual se encaixa. Vender suspiros e pulsões de vida é a grande aposta.

Na ponta do mercado o novo efeito que se observa, com a grande oferta de conteúdo audiovisual, é o aumento da pirataria. Com tanto conteúdo novo chegando, a compulsividade desses consumidores coloca seus desejos acima do que acham razoável pagar. Manter assinaturas de canais pagos e também de vários serviços de streaming acaba ficando caro. Estudos indicam que a pirataria está aparecendo mais como solução, agora em escala mundial, não apenas em economias mais modestas, como o Brasil.

Viver mais emoção, mesmo no plano das ilusões, preenche a história de muita gente. É uma forma alternativa de se pensar a experiência de vida. Depende de como cada um lida com esses momentos. Como disse o escritor e intelectual inglês Aldous Huxley, a “experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece.”

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