BANDA LARGA E MODA DE VIOLA




Tem um relógio na cabeça do homem do campo que só ele entende. Deve ter vários ponteiros, não se sabe se é redondo ou quadrado. Começa que é um relógio de tempo... e de tempo. Marca o tempo em horas, mas também o tempo de chuva que chega, ou de sol, frio ou calor. O tempo da natureza é tudo o que importa para o boi, para as galinhas, o milharal, a roça do feijão. É isso que muitas vezes deixa o homem do campo aparentemente parado e absorto, na verdade, concentrado e em prontidão. Ele espera a hora de cumprir uma tarefa simples, como abrir uma torneira. Ou simplesmente deixar como está.

Pois é, o IoT – Internet das Coisas, tem tudo para tomar esse lugar de frente para o campo. Vai liberar o pequeno agricultor para encontrar mais clientes, discutir preços, acompanhar cotações. E vai chama-lo para cumprir cada tarefa de campo na hora certa. Pequenos equipamentos conectados a fontes de informação em tempo real, podem ajustar o tempo da natureza ao melhor tempo para cuidar da criação, da roça e de fazer negócios.

As operadoras de telefonia, que já conhecem o potencial de negócios na agropecuária, perceberam a expansão possível no Brasil com as novas tecnologias associadas a 5G e IoT. Nas últimas semanas vários projetos das teles foram divulgados pelo site Teletime, com “ingredientes” presentes nas principais receitas de sucesso: criatividade, parcerias e vontade de investir.

A largada da corrida das teles em direção ao campo teve o evento mais emblemático na Esalq, a tradicional escola de agricultura da USP, em Piracicaba. A operadora Vivo reuniu numa parceria a Ericsson, Raízen e EsalqTec. Seis projetos desenvolvidos por startups do programa Agro IoT Lab foram apresentados para utilização da faixa do espectro de 450 MHz. Técnicos da Ericsson garantem que nessa faixa a cobertura é 2,5 vezes maior do que na faixa de 700 MHz. O presidente da Anatel, Leonardo Euler e o conselheiro Aníbal Diniz estiveram em Piracicaba acompanhando as demonstrações.

Um trator conectado para consumir menos combustível foi a demonstração da IoTag, empresa de telemetria de maquinário e manutenção preditiva. Uma estação meteorológica conectada, com informações em tempo real, ficou por conta da Ativa Soluções, ligada a gerenciamento remoto, e a @Tech, voltada para a agropecuária de precisão, mostrou seu projeto para tomada de decisões, integrando coleta de dados e inteligência artificial.


EM SILÊNCIO, PARA NÃO QUEIMAR A LARGADA


Na última quarta-feira a Oi divulgou um comunicado sobre um contrato, já fechado em fevereiro, com a empresa de agronegócio Amaggi, sediada em Cuiabá – MT. Trata-se de um projeto piloto, realizado numa fazenda da Amaggi em Sapezal, no mesmo estado, que utiliza conexão de 450 MHz. Uma rede de IoT integra sensores e dispositivos para gerir a operação de máquinas e outros procedimentos de manejo, com base nas informações recebidas em tempo real. 

Na fazenda Tucunaré, do mesmo grupo, a Oi mantém um projeto semelhante, na mesma faixa de frequência. Os técnicos garantem que a cobertura possível com essa frequência mais baixa atinge um raio de 35 Km. Os dados obtidos nessa área são compartilhados entre homens e máquinas, para pequenos ajustes ao longo das atividades. É assim que evita-se muito desperdício, sobreposição de operações e se obtém maior eficiência na manutenção preventiva, no controle de pragas e correção do solo. Ao longo da safra fica tudo registrado num banco de dados, com análises e indicações para investimentos futuros.

A faixa de 450 MHz foi imposta como obrigação de cobertura no leilão da faixa de 2,5 GHz, bem mais interessante para as teles. Foi em 2012. Na época, o 4G estava se expandindo pelo Brasil. Porém, de lá para cá, algumas vantagens do uso dessa frequência estão se revelando.

A ociosidade observada até agora nos 450 MHz pode fazer a Anatel tomar as concessões de volta e repassar a outros segmentos. No entanto, as novas perspectivas tornam esse espaço do espectro mais interessante comercialmente. Por isso as teles parecem demonstrar maior interesse em ocupar a faixa.

O sinal que vai para o campo não deve servir apenas ao agronegócio. Escolas rurais e comunidades remotas também precisam ser incluídas nessa cobertura. É uma forma de expansão da Internet, com inclusão, sem exigir altos investimentos públicos ou incentivos especiais.


POR TODOS OS LADOS


Essa incursão country do sinal de Internet tem a criatividade como principal motor. Não apenas pela adaptação de tecnologias já testadas em outros países, como também na estruturação de novos modelos de negócio. O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores do agronegócio mundial, o que naturalmente atraiu uma imensa cadeia de fabricantes e distribuidores de suprimentos, máquinas e equipamentos. Todos eles têm interesse em lançar produtos e serviços turbinados pela Internet. Desde a otimização por uso de aplicativos até a conexão IoT.

É assim que a Tim está chegando no campo com um time de seis empresas e comando técnico da Nokia. O programa ConectarAGRO adota como estratégia o uso de tecnologias abertas, para integrar as mais diversas atividades e necessidades da produção agrícola. A proposta é levar soluções de automação abrangentes como diferencial competitivo em relação às alternativas atuais, fechadas nos limites da própria tecnologia. Com as tecnologias abertas o agricultor não depende de uma única marca para integrar as operações.

No time formado a partir dessa parceria entre a Tim e a Nokia estão empresas conhecidas do agronegócio como Jacto, AGCO, CNH Industrial, Trimble, Solinftec e Climate FieldView. Cada uma dessas empresas vai pensar como a conexão no campo pode aprimorar o desempenho dos produtos e serviços que fornecem aos agricultores. A expectativa é chegar a um modelo que conecte ideias e iniciativas para o futuro, não apenas equipamentos e informações.

Cada uma dessas empresas vai trabalhar na própria especialidade, sem dependerem umas das outras. De acordo com comunicado divulgado à imprensa, "a diversidade, a competência e o interesse comum das empresas envolvidas (...) cria um ambiente para melhor entender o problema de conectividade no campo brasileiro, por seus diversos ângulos, (...) beneficiando o agronegócio nacional".

E enquanto o Tribunal de Contas da União (TCU) decide sobre o acordo Telebrás / Viasat, parte da capacidade, em banda Ka, do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações – SGDC, já começa a ser reservada para o campo. A Viasat, que aguarda para fazer a operação comercial do satélite, acertou uma parceria com a Ruralweb, empresa que comercializa sinais de satélite nas regiões Norte, Centro-Oeste e em Minas Gerais. A Ruralweb é a primeira parceira da Viasat no Brasil para a distribuição de banda larga no varejo. O primeiro satélite totalmente brasileiro já nasce com “pé na terra”.

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