sexta-feira, 29 de março de 2019

LIMITES PARA O TELEMARKETING




Teve um tempo em que muita gente estressava por causa do telefone fixo que tocava muito em casa. Talvez por causa do barulho, que precisava soar na casa inteira. As famílias eram maiores, quem corria para atender ficava irritado quando a ligação não era para ele.

O celular, aparelho individual, deveria ter todas as chamadas dirigidas a quem paga a conta. Mas existe o telemarketing. Você paga caro por um aparelho, todo mês acerta a conta, para alguém ligar pra você oferecendo algo que, na maioria das vezes, não lhe interessa em nada. Isso sem contar quando o seu aparelho toca e, na hora em que você atende, o telemarketing desliga. “-Não dá para falar com você agora”, é o recado subentendido.

Nesta semana o Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – enviou às autoridades federais uma lista de oito recomendações. Uma tentativa de resguardar os direitos dos cidadãos que não querem ser importunados  por essas chamadas. Curiosamente, ou quem sabe, previsivelmente, no dia anterior as empresas que operam telefonia móvel no Brasil (as teles) foram até as autoridades. Se comprometeram a apresentar, num prazo de seis meses, um Código de Conduta para Oferta de Serviços por meio de telemarketing. O nome é bonito.

O Idec não escreveu as recomendações no dia que enviou. Recebeu antes um monte de reclamações, que representam apenas uma pequena parcela das pessoas que se sentem incomodadas. Devem ter feito estudos, consultas e tudo isso também não aconteceu num único dia, nem apenas no último ano. Mas, para as teles, o problema só apareceu na véspera do dia em que o Idec apresentou as próprias soluções. Sinal de que, na prática, o que as teles querem é apenas ganhar mais seis meses de bons negócios, sem nada para atrapalhar.


A DEFESA DO CONSUMIDOR 


O trabalho do Idec, nesse caso, está voltado principalmente contra os abusos via sistemas automatizados ou robocalls. Seu telefone toca às sete e meia da manhã, num sábado e não há qualquer constrangimento do outro lado da linha, porque não tem ninguém lá. De acordo com o site Teletime, 30% das chamadas são feitas por empresas das próprias teles, motivo suficiente para que elas estejam preocupadas com o que o governo pode decidir a respeito.

A lista com as oito medidas foram entregues para a Anatel e para a Senacon, Secretaria Nacional do Consumidor. Começa pela proibição de chamadas a partir de robôs. A exceção ficaria por conta de estrito “interesse geral dos consumidores”. Propõe também a criação de um cadastro federal onde qualquer proprietário de celular pode se inscrever, rejeitando a priori qualquer ligação tipo spam.

Outro ponto a ser atacado precisaria do apoio das próprias teles. Elas teriam que informar sobre as blacklists, a relação dos números de telefones usados para essas chamadas, bem como as empresas que usam desse tipo de serviço automático para vendas. Há outras providências, com perfil mais técnico, deixando evidente que esse tipo de ligação precisa tender ao desaparecimento.

O telefone desde sempre está associado à privacidade. Quando alguém usa esse canal de comunicação pessoal como forma abordar desconhecidos, fica clara a caracterização de abuso. É como um “bicão”, que vai a uma festa para a qual não foi convidado.

A lista do Idec inclui a previsão de penalidades aplicadas por órgãos governamentais, tendo por base o Código de Defesa do Consumidor. É óbvio que existe, entre os consumidores, certo inconformismo com a reiterada prática de ações massivas de telemarketing. Uma forma de tomar a orelha do consumidor um mero dispositivo de entrega de mensagens comerciais.

Com os meios de comunicação cada vez mais automatizados é indispensável que se estabeleçam mecanismos de controle mais efetivos. Sob pena de, em breve, termos nossas vidas invadidas por todos os lados, sem que seja sequer para tratar de assuntos de interesse.


HORA DE TOMAR ATITUDES


As empresas de telefonia ainda não conseguiram um histórico lisonjeiro de seus serviços. Pelo contrário, figuram entre as empresas contra as quais há mais registros de reclamações. Mesmo assim essas empresas demonstram séria dificuldade em aceitar críticas, quanto mais sanções.

Em recentes tentativas da Anatel, de elevar o padrão médio de qualidade dos serviços, o que se viu foram manifestações de inconformismo por parte das operadoras. Elas parecem acreditar que está tudo bem e que ao consumidor cabe apenas pagar em dia a conta de chamadas.

A própria Anatel precisou impor multas bilionárias às teles, por falta de cumprimento de requisitos básicos de qualidade nos serviços. A resposta veio através de contestações nas esferas administrativa e judicial, sem uma clara preocupação com a efetiva melhora. A Anatel, que em sua atuação como agência reguladora também deixa a desejar, demonstra muita paciência e condescendência com as teles. Por vezes, tentou encaminhar propostas para motivar essas empresas a simplesmente cumprirem com as obrigações diante dos clientes. Na resposta mais recente, as teles rejeitaram qualquer sistema de avaliação externa. Propõem uma auto avaliação, a partir de levantamentos feitos por empresas de auditoria que elas escolhessem. Com base nos dados apurados, as próprias operadoras fariam um relatório a ser entregue à Anatel.

O telemarketing é um serviço que elas agregam ao próprio portfolio para aumentar as receitas. Seguindo a nefasta tradição, também o fazem de maneira a incomodar seus clientes da atividade fim, que é a telefonia. E na hora em que são questionadas, adotam como estratégia a procrastinação.

As telecomunicações estão entre os serviços mais importantes no mundo todo. E os rumos da tecnologia só tendem a aumentar essa importância. Praticamente todas as outras atividades ficam comprometidas quando os serviços não estão de acordo. Se essas empresas não demonstrarem a devida responsabilidade diante da missão que realizam, alguma providência efetiva precisa ser tomada. Medidas punitivas não são o melhor caminho. Mas é necessário que fique clara a real possibilidade de serem adotadas, diante do fracasso das alternativas iniciais.

sexta-feira, 22 de março de 2019

GOOGLE VAI ENTRAR NO JOGO




O cinema fez surgir a maior indústria de entretenimento do mundo. Negócio bilionário que tem Hollywood como referência hegemônica. Mas agora quem ocupa o topo do entretenimento são os videogames, não mais as produções cinematográficas. A mudança tende a ser irreversível.

O Google, nesta semana, apresentou uma novidade para o mercado de jogos eletrônicos. Stadia é a plataforma OTT do Google que deve chegar em alguns meses aos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e vários países europeus. Cloud gaming é a denominação mais exata do serviço. Algo como um “Netflix de jogos”, pois entrega ao usuário a possibilidade de baixar jogos ou simplesmente participar de um jogo com outros usuários conectados. O assinante poderá jogar usando um computador, ou smartphone, tablet e mesmo uma TV conectada no Chromecast. Teclado ou mouse são suficientes para interagir, mas o Stadia oferece também um joystick, o Stadia Controller. É o único hardware específico da plataforma.

O papel do novo joystick – com design bem similar ao PS4 e botões semelhantes aos do Xbox – é evitar o lag, aquele intervalo que se torna perceptível entre o acionamento do joystick e a resposta na tela. Como o Stadia Controller se conecta por WiFi, diretamente ao servidor, não perde dezenas de milissegundos para passar pelo console ou computador.

O joystick tem entrada para fone de ouvido e um microfone, pelo qual é possível fazer pesquisa de voz, acionando um dos botões. É uma maneira de buscar ajuda na Internet se ficar preso em alguma situação do jogo. Outro botão permite compartilhar conteúdo, transmitindo para o YouTube, ou capturar imagens, organizar partidas online.

Os jogos vão rodar com resolução 4K, cores HDR, 60 quadros por segundo e áudio surround. Padrão ultra HD, com previsão de subir para 8K a 120 quadros/segundo no futuro. Isso torna a qualidade da conexão um quesito fundamental, principalmente num país como o Brasil, onde a banda larga é robusta em apenas algumas grandes cidades.


MUITA COISA EM JOGO


O cloud gaming ainda é uma grande especulação. O anúncio do Google foi uma maneira de firmar pioneirismo, uma vez que até o joystick só foi apresentado em fotografias. Não é impossível pensar que, antes da Stadia entrar no ar, um outro OTT de jogos chegue ao mercado.

O novo serviço deve servir para explorar o imenso potencial dos jogos, no reposicionamento de alguns setores, que querem conquistar novamente um protagonismo na área de TI. É o caso das operadoras de telefonia móvel, por exemplo. Principalmente com a chegada do 5G elas vislumbram a possibilidade de atrair novos clientes e garantir maior receita com o OTT de jogos. A espanhola Telefônica, que controla a Vivo, disse que está trabalhando em parceria com a NetApp no desenvolvimento de streaming de jogos. A americana Verizon, segundo matéria publicada no site Teletime, também já estaria trabalhando na sua própria plataforma.

Por outro lado, a chamada computação de borda, ou edge computing, vai crescer com a onda cloud gaming. Melhora muito a jogabilidade na nuvem. Pequenos servidores em rede disponibilizam capacidade computacional para armazenar, analisar e processar dados mais próximos do usuário. Em alguns sistemas do tipo é usado o conceito de cloudlets, “pequenas nuvens”, em português.

Para os próximos anos, algo em torno de 45% dos dados serão processados na borda, de acordo com estimativa da Intel. Esses sistemas conseguem reduzir o tempo de latência abaixo de insignificantes 30 milissegundos. É o que acontece hoje na Alemanha, desde o lançamento do MobiledgeX.

É importante considerar que esse desempenho não é viável para qualquer projeto edge computing. E é justamente aí onde pode ser travada uma guerra de titãs. O Google já tem uma enorme infraestrutura de edge computing espalhada pelo mundo. São mais de 7.500 edge node locations, os “nós” de locação, integrados a uma rede de fibra ótica e cabos submarinos. Por enquanto, é por aí onde deve se estabelecer a Stadia, uma vez que não foi anunciada nenhuma parceria com operadoras móveis ou provedores de Internet. Pelo menos até agora. Será que o Google quer “garfar” algum negócio desse segmento?

A questão é que a arquitetura das redes de telefonia móvel, por natureza, vem do jeitinho que um bom edge computing exige. São modulares, distribuídas, o que facilita a desagregação típica dos sistemas computacionais de borda. As operadoras contam com torres espalhadas nas áreas de cobertura, espaço físico na medida para mais servidores.

Essa distribuição da capacidade computacional, esse fatiamento, faz parte da estrutura 5G. E já integra outro conceito, o chamado better telco, que é a otimização da operação, não apenas na nuvem, mas também na rede móvel como um todo.


PODE HAVER UM CUSTO SOCIAL?


Teoricamente, o edge computing colocaria todo o mercado móvel equidistante entre operadoras de telefonia e infraestruturas específicas, do tipo que o Google tem. Na prática, sabe-se que a distribuição espacial, as células que deram nome à telefonia móvel, colocam as operadoras em vantagem.

O que pode pender agora em favor de empresas como o Google é a atuação em pesquisa e desenvolvimento. As operadoras surgiram no mercado como poderosas gestoras dos sistemas móveis. Até hoje elas continuam exatamente isso. Já empresas como Google, Facebook, Apple, as chinesas, nunca sossegam em seus lugares. Sempre se lançam em novos desafios, inovam, transformam não apenas seus negócios, mas também mudam paradigmas.

O Google está desenvolvendo carros autônomos, robôs para serem usados como armas, e agora quer avançar até o limite da computação na borda. Desta vez, escolheu os games para capitalizar sua investida. Um produto que exige criatividade, atributo intrínseco à marca. Mas que, por outro lado, cresce comercialmente sustentado por uma fraqueza humana, o vício.

A OMS – Organização Mundial da Saúde, já considera o vício em jogos eletrônicos um transtorno mental. No ano passado ele foi incluído na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, mais conhecida como CID. Há quase 30 anos a CID não tinha uma atualização, que foi efetivada na 11a. edição, publicada em 2018. Houve várias mudanças, dentre elas, a inclusão do novo transtorno patológico, o vício em jogos eletrônicos. 

Mas atenção, jogar videogames com frequência não significa necessariamente que a pessoa seja viciada. O transtorno só se caracteriza nos casos em que a pessoa deixa de cumprir com compromissos importantes, como trabalho, estudo, ou mesmo cuidados pessoais (higiene, alimentação) por conta de jogos eletrônicos.

sexta-feira, 15 de março de 2019

“FAÇA COMO EU MANDO E NÃO COMO EU FAÇO”




"É um abuso do processo legislativo e viola os princípios dos EUA, indo contra a natureza da constituição norte-americana ao agir inconstitucionalmente como juiz, júri e carrasco".

Quando você pensa que já viu de tudo nessa vida, você descobre que o mundo é que virou outro. As palavras entre aspas, ditas por Guo Ping, chairman da chinesa Huawei, soam como um conto de Kafka. Foi numa coletiva de imprensa – evento nada característico da China – em Shenzhen. A empresa anunciava o processo com o qual deu entrada no Tribunal Federal dos Estados Unidos, contra o governo americano.

A Huawei está contestando o artigo 889 da NDAA (Medida de Autorização da Defesa Nacional) que impede a compra de seus equipamentos e serviços por parte de agências governamentais dos Estados Unidos. As agências também estão proibidas de contratar terceiros que utilizem a tecnologia da fabricante chinesa. As restrições incluem ainda a suspensão de empréstimos ou concessões para clientes americanos da Huawei.

Há tempo o presidente Trump afirma que os equipamentos da empresa possuem backdoors, ou seja, maneiras de entrar remotamente, de forma invisível, nos sistemas que comercializa. Pelo fato de um dos fundadores da empresa ser ex-militar de alta patente do Exército Vermelho, Trump acusa a Huawei de estar informalmente vinculada ao governo chinês.

Numa visão histórica, os scripts estão trocados. Só falta os Estados Unidos “denunciarem o imperialismo chinês”. Guo Ping não deixou por menos e incorporou o Tio Sam por completo. Em seu inconformismo mostrou que sabe bem o que significa “Direito” e até protestou com pertinência contra a falta do “devido processo legal”, da “ampla defesa”, de “provas materiais”. Pugnou pelo respeito às normas burguesas da livre iniciativa e da justa concorrência.

O cidadão chinês – se é que existe propriamente “cidadania” na China – nem considerou o regime de partido único em seu país ao protestar contra o embargo americano. Guo Ping evocou os “princípios da separação de poderes conservados na Constituição dos EUA”, ao acusar o Congresso de estar “legislando e tentando julgar e executar a lei."

É um rezando para o deus do outro, sem nenhum anjo para entoar as ladainhas.


MUITO PODER EM JOGO


Nem precisa ser bom observador para perceber que se trata de uma guerra comercial. Com a diferença de que, certamente, não é apenas mais uma disputa de mercado. Trata-se de uma posição estratégica crucial onde está em jogo a liderança no comércio mundial.

A porta desse reinado hoje tem como sigla o 5G. A quinta geração do tráfego móvel de dados delimita o amplo território sobre o qual devem ser cultivadas praticamente todas as soluções para os próximos anos. E, por enquanto, é difícil assegurar que os Estados Unidos estejam à frente nessa tecnologia. A reação extrema contra a concorrência chinesa é mais um sinal de que nem os americanos apostam no próprio favoritismo. O que se viu no início deste mês em Barcelona, durante a MWC 2019, também não foram amostras de superioridade da tecnologia americana.

A investida jurídica da Huawei contra o governo americano foge da tradição maoísta, assentada sobre dogmas marxistas da fase pré-democrática. Mas pode ser considerada uma decorrência natural, diante do ostensivo boicote americano. Além de impedir compras governamentais de produtos da empresa, o governo americano estaria pressionando outras nações a recusar equipamentos e serviços da Huawei. Tornou-se imperativo alguma reação para evitar o previsível sufocamento.

Song Liuping, diretor jurídico da fabricante chinesa afirma que até hoje os Estados Unidos não obtiveram uma única prova de backdoors ou quaisquer outros meios de violação de dados nos equipamentos Huawei. A empresa se propõe a prestar todos os esclarecimentos sobre seus sistemas e ainda, se declara orgulhosa por ser a empresa "mais aberta, transparente e escrutinada do mundo".

É cada um provando do próprio veneno. Os Estados Unidos, berço da democracia, dos direitos individuais e da livre concorrência são obrigados a ouvir o adversário comunista chama-los de protecionistas. E os chineses, acostumados a mandar, ao invés de pedir, se veem ajoelhados diante de uma corte ocidental, pedindo o reconhecimento de seus direitos. Recorrem ao processo contra o qual se rebelaram, em nome de uma suposta “libertação dos povos”. Ironia é para os fracos...


JUSTIÇA AMERICANA EM CHEQUE


Nessa história, China e Estados Unidos trocaram de manequim e o que se vê agora são ambos numa saia justa. Sinal de que nenhum dos dois estava confortável em suas próprias identidades. Quando o poder está em jogo e não há ninguém acima para mediar, o salve-se quem puder é a senha mais conhecida.

Embora os Estados Unidos saibam muito bem como se defender, inclusive retoricamente, está no ar a dúvida sobre como será a reação do Judiciário, diante de um processo tão bem sustentado pelos requerentes chineses. Ao mesmo tempo em que se propõem a abrir a própria tecnologia, os engenheiros da Huawei afirmam que apenas 30% dos componentes do seu 5G são da casa. O restante vem de fornecedores globais. Lembrou ainda o exemplo da Apple, share of mind da tecnologia de consumo americana, que em 2016 já tinha metade da produção dos iPhones vinda da China.

E então, onde é que “tá pegando”? Vai ser necessária muita criatividade para passar por cima desses argumentos. É provável que mais desculpas apareçam para procrastinar uma decisão. Ou que as instâncias aleguem algum impedimento em julgar o caso. Difícil é acreditar que uma corte americana dê uma sentença favorável a uma empresa estrangeira que é a principal concorrente dos Estados Unidos, num segmento tão expressivo da indústria.

A transformação que o 5G promete para os próximos anos é algo difícil de ser comparado com qualquer fato anterior da história. Por isso esse enfrentamento promete lances surpreendentes. Mais do que atuar no mercado americano, a Huawei quer manter uma imagem, enquanto empresa, capaz de torna-la mais competitiva ainda no mercado internacional. A concorrência americana sabe disso e continua a atacar em todas as frentes.

Talvez seja essa a oportunidade de se pôr as cartas na mesa. Os americanos se veriam impelidos a declarar abertamente como enxergam o sistema de produção chinês. Isso implicaria no fim do uso indireto da mão de obra quase escrava daquele país. Por outro lado, também teriam que mostrar o quanto prezam a concorrência.

sexta-feira, 8 de março de 2019

DIA INTERNACIONAL DA MULHER



Quando a sociedade tem uma dívida de justiça que não vai ser resgatada, ela cria um dia comemorativo. Dia do Índio, do Trabalhador, Meio Ambiente, Dia da Consciência Negra. É mais ou menos como um precatório moral, papel podre que certifica publicamente aquele direito inquestionável... e a parte que se vire para conseguir alguém que dê algum valor para aquilo.

O 8 de março é o caso mais didático. Todos os outros “dias” passam por ele, ou melhor, contornam a mulher negra, desviam da trabalhadora, minimizam o gênero predominante da espécie. Por fim, toma aí, um dia pra chamar de seu.

Hoje vai ter rosas nos escritórios, mimos nas linhas de produção. As faxineiras não ganham nada. Elas são terceirizadas, o patrão é economizador contratado. A mídia vai trazer números atualizados do mercado de trabalho e histórias de vida para, mais uma vez, redescobrir que a mulher existe. E lembrar também daquelas que não existem mais, por decisão monocrática masculina.

Os poetas, esses sim! Vão trazer contribuições interessantes, porque falam direto aos sentimentos mais nobres. Vão sensibilizar a todos. Mas isso não é para qualquer um, então muitos vão recitar frases piegas, exaltar a beleza, vão pôr a mãe no meio, falar da professora e de “ternura”. Valores que elas deveras têm! E daí?

A mulher já cansou das bajulações, de exaltações e agora prefere a “parte dela em dólares”. É o que conta nesse inverno permanente, de um mundo que até hoje está nas mãos de homens. Onde todos os valores tendem a ser convertidos numa escala representativa de poder. É o traço ancestral que não evoluiu, que resistiu à inteligência, o império da lei do mais forte. É o ponto final da espécie que precisa ser removido, para que a racionalidade possa persistir.

O mundo já tem todos os espaços ocupados, todo o território do planeta está dividido entre nações, não há mais Terra devoluta. O bicho humano contaminou cada canto, como uma grande infecção que acometeu toda a biota. Na lógica evolutiva, ou a espécie se modera ou é extinta.

O que falta então é o entendimento, a harmonia entre as nações, para uma coexistência ética e segura. O humano, enquanto espécie, tem o destino de ser a primeira a “revogar” a lei do mais forte. A outra opção é desaparecer do mundo. O primeiro passo – e também o definitivo – para conquistar a permanência é o reconhecimento da mulher como sujeito dotado de todos os direitos e capacidades próprias da espécie. Uma mulher e um homem, unidos por um sentimento mútuo, formam o microcosmo das relações humanas. Enquanto a força física persistir como recurso moderador dentro dessa relação, todos os outros níveis de convivência serão instabilidades ameaçadoras. Entre a mulher e o homem se estabelecem os valores, os haveres e deveres, o poder de interferir nos rumos do relacionamento. Se não houver solução desde esse nível, também será improvável a paz entre as nações.

Neste Dia Internacional da Mulher a EiTV não vai apenas reiterar a homenagem, que rendemos todos os dias. Mais do que a formalidade, o dia é de compromisso. Estamos comprometidos em manter a absoluta igualdade de condições entre todos os indivíduos, no ambiente competitivo em que vivemos. O mesmo respeito, os mesmos valores de convivência entre todos os humanos.

Que os poetas encontrem as mais belas palavras, as mais justas considerações! Da nossa parte, o “devo, não nego, pago quando quiser” (querer não é poder?) está terminantemente abolido. À Mulher, a confissão de nossa grande admiração, se materializa no compromisso de plena igualdade.

sexta-feira, 1 de março de 2019

EM BUSCA DA ADOLESCÊNCIA PERDIDA



Certas explicações se bastam. Não que sejam esclarecedoras, longe disso. É que não permitem contestações, uma vez que qualquer argumento adicional só vai complicar mais. Exemplos: “deu pau no sistema”, “foi uma virose”, “ela está na TPM”, “é culpa da oposição”. Segue-se uma sensação de total impotência e, para os de bom senso, recuar passa a ser a opção.

“É apenas um adolescente” faz parte desse rol. Basta dizer que todo mundo passa por essa condição que, mesmo assim, até hoje não foi explicada. Não é criança, nem jovem, adulto ou velho. Mistura infância e juventude, com um intelecto praticamente adulto. Sequer a faixa etária correspondente encontrou ainda um consenso. Nesse ponto nem a OMS (Organização Mundial de Saúde) está de acordo com o que pensa a própria ONU.

Pois é esse contingente da população o alvo mais perseguido pelo Facebook em sua estratégia atual. De acordo com matéria publicada no portal UOL, a rede social estaria sofrendo uma verdadeira debandada de adolescentes. Boa parte estaria migrando para o Instagram, do mesmo Zuckerberg, mas isso não muda a obrigação de reconquistá-los.

A fórmula que está sendo gestada chama-se LOL e deve ter como principal conteúdo os memes, gênero nativo da Internet. Eles querem que os adolescentes riam muito e se entretenham com pegadinhas, animais, celebridades, games. Não vale dizer que adolescente se contenta com pouco, pois o Faustão usa fórmula parecida e não é voltado para os teens. As chamadas “videocassetadas” estão entre as atrações preferidas da audiência.

O novo conteúdo pode vir na forma de um aplicativo independente ou como um recurso a mais dentro do próprio Facebook. A primeira versão já estaria em testes entre um grupo de cerca de 100 adolescentes americanos. 

E se você acha que elas e eles precisam de menos futilidade, saiba que a culpa pode ser toda sua. Um estudo de mercado realizado pela eMarketer concluiu que esses perfis estão fugindo do Facebook pela presença dos “velhos”. Eles se incomodam com o like da mamãe, os “parabéns” do vovô e os pedidos de amizade do tio solteirão. O Facebook estaria se tornando uma opção para que os pais vigiassem, ou até doutrinassem seus adolescentes.


A CABEÇA EM OUTRO MUNDO


Mesmo diante da dificuldade que adolescentes representam em qualquer tipo de interlocução, não é apenas o Facebook que faz questão de tê-los entre seus frequentadores. O Netflix também se sente traído pelas turminhas cheias de atitude. E luta para merecer mais a atenção delas.

A plataforma de streaming, que ocupa cerca de 10% das telas domésticas fixas nos Estados Unidos, descobriu recentemente quem é seu principal concorrente: o Fortnite, um videogame multijogador online, criado pela Epic Games. O Netflix tem 139 milhões de assinantes americanos, enquanto o Fortnite passa de 200 milhões de jogadores registrados. É de se supor que a maioria seja de teens identificáveis. O resto estaria entre aqueles adolescentes escondidos em corpos adultos, quase adictos quando se trata de um de bom game.

O Netflix dá como certa a maior presença do Fortnite nas telas americanas, tanto fixas como móveis. E não parece que haja alguma coisa por fazer nesse sentido. O crescimento dos videogames é inegável, sólido, embora não tão visível. A modalidade por vezes é solitária, muitos podem jogar individualmente, outros online, buscando adversários remotos que escapam da muvuca típica dos duelos esportivos. Um segmento de videogames, o e-Sports, foi cogitado até para as Olimpíadas de 2024, na França. Vieses de violência e discriminação, claramente opostos aos ideais olímpicos, acabaram assustando o Comitê Olímpico Internacional.

Isso não impediu que, em vários países do mundo, incluindo o Brasil, campeonatos de e-Sports estejam lotando ginásios esportivos. Mobilizam anualmente milhões de pessoas e bilhões de dólares. São mundos a parte onde os jogadores vivem fantasias, extravasam rebeldia, energia e muita adrenalina.

De certa forma os jogos eletrônicos estão se estabelecendo como traço definitivo da cultura contemporânea. Fazem parte do cotidiano de um número crescente de pessoas, que jamais vão abandonar a prática. Porém, assim como vários outros hábitos em nossas vidas, se estabelecem entre a infância e a adolescência.


NEM UMA COISA, NEM OUTRA


Enquanto segmentos econômicos importantes disputam o interesse dos adolescentes, esse conceito confuso, que é a adolescência, tende a ganhar uma divisão regional. O fechamento da fábrica da Ford no ABC paulista, anunciado na semana passada, é um forte sinal de que o adolescente dos países em desenvolvimento tende a ser muito diferente em relação aos habitantes de mesma idade nos países desenvolvidos.

Analistas entendem que o crescimento dos sistemas autônomos de produção vai reduzir o interesse por mão de obra humana barata. Um país como o Brasil, que até hoje é apenas um player do mercado de commodities e de mão de obra pouco qualificada, vai ver a oferta de oportunidades reduzir para os adolescentes.

O pior é que 23% dos nossos jovens, considerando uma faixa etária de 14 a 29 anos, se encaixam na realidade “nem nem”. Nem estudam, nem trabalham. É um dos maiores índices desse fenômeno na América do Sul. É verdade que a magnitude desse dado precisa ser relativizada, uma vez que principalmente mulheres, como donas de casa ou engajadas em cuidados complexos com familiares idosos ou com outras limitações, foram incluídas no grupo nem nem. Mesmo assim, a fração ”raiz” da população nem nem é significativa. Um pequeno esforço de memória e você vai lembrar de exemplos próximos entre amigos ou na própria família.

A preocupação é maior para os países pobres porque, quando “der na telha” do adolescente procurar um emprego – ou mesmo o ex-adolescente – não vai ser fácil encontrar. A opção estará entre as funções mais primitivas, como trabalho no campo, serviços de limpeza. Até a construção civil vai estar mais automatizada, as linhas de produção na indústria nem se fala. O entregador pode ser um drone, o vendedor um aplicativo de AI, até o porteiro vai migrar para sistemas IoT. Vai encontrar emprego quem tiver qualificação.

O mundo atual é um território perigoso para adolescentes. Essas criaturas extremamente energizadas, vestidas num corpo adulto, ainda conservam impulsos e respostas infantis para situações delicadas. Para aquelas e aqueles de temperamento mais rebelde, as consequências podem ser penosas.

A formação do Brasil enquanto nação projeta uma superpotência. Vasto território, terras agricultáveis, recursos naturais em abundância, convivência cultural e racial relativamente pacíficas. E mesmo com tudo isso ainda não foi possível construir nada além de uma imensa fazenda, com algumas baias de progresso aqui ou ali. Mais do que nunca, o Brasil precisa cumprir seu destino de país adulto, soberano. Afinal, a resposta do tipo “somos o país do futuro” está perdendo as mínimas condições de se sustentar.