sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

PROGRESSO PARA QUÊ!?




Muita criatividade, espírito empreendedor, sensibilidade para inovação, alta capacitação técnica. Se o conjunto dessas qualidades se assemelha ao seu perfil, cuidado! Você pode se tornar alvo de processos e outras represálias por parte de grupos poderosos.

Há uma certa articulação de alguns grupos econômicos pelo direito (?) ao atraso, senão ao retrocesso. Eles entendem que o mundo existe apenas e tão somente para que eles estejam aqui, cada vez mais ricos, poderosos e ... reclamando.

O Brasil, principal paraíso judicial do mundo, chegou a sediar causas célebres. Na explosão do WhatsApp operadoras internacionais de telefonia escolheram ajuizar aqui ações contra o aplicativo. A fama do meio forense nacional é semelhante à dos restaurantes baianos: demora uma eternidade para chegar, mas quando vem, mesmo que seja diferente do pedido, vai deixar o freguês muito satisfeito. Nesta semana mesmo, foi cassada uma liminar que impedia uma negociação de ações ordinárias entre duas empresas privadas, a Embraer e a Boeing. A motivação da ação era puramente nacionalista, tema que não diz respeito às lides judiciais.

A colocação entre os maiores mercados do mundo, quinta maior extensão territorial da Terra, oitava economia e mais aquele monte de coisas que evidenciam o potencial brasileiro, nunca foram suficientes para que nossos políticos deixassem produtores e consumidores se entenderem civilizadamente. Fábricas de dificuldades e lojas de facilidades se retroalimentam nas casas legislativas, produzindo autênticas pérolas, dentre as quais algumas são escolhidas pelo Judiciário, para encrustar nas joias da coroa.

Muitas delas estão entre as concessões de serviços públicos. Entregam verdadeiros feudos tarifários a grandes empresas, com garantias que nenhum outro tipo de agente econômico pode obter no mercado. Sem prejuízo de prerrogativas da iniciativa privada, como sigilo sobre vários detalhes do negócio.

Nessa tela abstrata empresas de ônibus concessionárias de transporte urbano protestam contra “concorrência desleal”. Sabe de quem? Do Uber e outros aplicativos! Para elas, um motorista conduzindo um ônibus, por uma única rota, onde centenas de passageiros sobem e descem ao longo de vários pontos, fica mais caro do que manter um motorista, num carro de passeio, carregando duas ou três pessoas. Se isso é verdade, por que então as grandes cidades precisariam de ônibus?


“VOU DE TÁXI” 


O serviço, denominado UberPool, está mudando o nome para Uber Juntos. Já funciona há algum tempo em grandes cidades brasileiras e de outras partes do mundo. A ideia é compartilhar um carro, com vários itens de conforto a mais do que os ônibus, com no máximo 3 pessoas. De acordo com o aplicativo, para embarcar ou desembarcar, o passageiro vai andar no máximo um quarteirão de sua origem, e até seu destino. O preço, informado antes do passageiro decidir, é maior do que a tarifa do ônibus. Sinal de que os passageiros que podem pagar um pouco a mais, fogem dos ônibus. As empresas já se perguntaram por quê?

O retrato mais fiel dos efeitos desse progresso – pernicioso, na visão das empresas de ônibus – foi divulgado nesta semana em São Paulo. A pesquisa “Origem e Destino Metrô” é realizada a cada dez anos, desde 1967. Os últimos resultados se referem ao período de 2007 a 2017, apurados a partir do levantamento em 32 mil domicílios. O único modal que perdeu espaço foi o ônibus. Eram 9 milhões de viagens por dia em 2007 na capital paulista. Em 2017 foram 8,6 milhões. No mesmo período, o metrô aumentou de 2,2 milhões para 3,4 milhões de viagens/dia. Ainda nos trilhos, os trens cresceram de 800 mil viagens/dia para 1,3 milhão.

Pela primeira vez a pesquisa incluiu as viagens de carros por aplicativos, que começam anotando 362,4 mil viagens/dia em média, o triplo dos táxis. Mas os dados permitem inferir que talvez seja apenas o suprimento de uma demanda reprimida. Afinal, a média atual de 112,9 mil viagens/dia realizadas por táxis em São Paulo, é 24,5% maior do que há dez anos. Também cresceram!

A reação por parte da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, que representa mais de 500 empresas do setor pelo Brasil, foi notificar as prefeituras de grandes capitais, como Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo. Hahã! De certa forma, o que estão pedindo é para voltarmos dez anos no tempo. Quer dizer, desde que as tarifas continuem as mesmas e os subsídios, milhões e milhões pagos diretamente pelas prefeituras todo ano, se mantenham como sinal de progresso no período.

E se as empresas revissem seu modelo de negócios? Por exemplo, utilizar aplicativos semelhantes para planejar um transporte on demand, ou quase isso. Em muitas linhas é possível observar vários lugares vazios em certos períodos do dia. Poderiam ser utilizados veículos menores, mais econômicos. Na medida em que passageiros confirmassem interesse pelos seus celulares – ou em aparelhos fixados nos principais pontos do percurso – entrariam mais ônibus na linha, diminuindo a previsão de espera. Os ônibus maiores ficariam estacionados em locais estratégicos para voltarem a circular nos horários de pico.

Ainda não se ventilou qualquer upgrade tecnológico na gestão/operação do sistema, além de algumas melhorias daquelas bem “gastas”. O que as empresas querem é que o mundo pare para não afetar seus lucros.


NA DESORDEM NÃO TEM PROGRESSO


Os serviços públicos são de longe os maiores financiadores de campanhas políticas e de enriquecimento ilícito no Brasil. Tanto por meio de concessionárias, como prestadoras de serviços, empreiteiras, fornecedores. Fontes que abastecem um Brasil muito pequeno, rico e soberbo que, logicamente, não utiliza nenhum dos serviços públicos.

Nesse Brasil, que manda e acontece, com desmandos que nunca permitem acontecer os avanços, estar up to date é adotar algumas frases feitas. O juiz que conduz a recuperação judicial da Oi ignorou alguns princípios legais sob o argumento altruísta de que “ninguém quer que a Oi feche suas portas”. Não era verdade. No decorrer do processo restou claro que o grupo Pharol, acionista da empresa, tinha muito interesse na derrocada da Oi. Uma briga de touros em que o erário público acabou sendo rudemente pisoteado.

A dívida negociada da Oi chegou a R$ 68 bilhões. Mais do que o orçamento de praticamente cada um dos estados brasileiros, à exceção de Paraná e São Paulo. Só de multas devidas ao órgão regulador eram R$ 20 bilhões. Imagine que uma empresa, pelas suas falhas nos serviços, acumule dívida maior que o próprio ativo. E ainda assim a Anatel, o executivo, o judiciário e o legislativo, se mobilizam para salvar a empresa.

Agora o PLC 79 quer transferir mais de R$ 100 bilhões em bens reversíveis para as empresas de telefonia, que não pagaram por esses bens no arremate das concessionárias. Os congressistas dizem que elas têm direito. E que as empresas vão se comprometer a contrapartidas em investimentos. Ora, se é direito delas, por que precisariam se comprometer com contrapartidas?

Talvez hoje o Brasil esteja se comprometendo mais com a evolução dos lucros de determinadas empresas privadas, do que com a evolução do país como um todo.

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