sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O FÔLEGO DE UM PORTFOLIO




Nota longa: você está assistindo à uma ópera e, de repente, o tenor dá aquela esticada numa nota. Isso acontece num momento muito marcante da trama.

Para um leigo parece um vinil riscado, mantendo o mesmo som, a mesma nota durante um longo tempo. Mas, para o aficionado pelo canto lírico, aquilo é uma catarse! O personagem chega naquela nota alta, segura a voz firme, como um alarme que dispara sobre os sentimentos mais eloquentes dos espectadores. E vai...

Nos primeiros segundos o público fica hipnotizado, ouvindo e, lá no fundo, imaginando até onde vai aquele fôlego. O tenor vai ficando roxo mas sustenta, e começam os aplausos aqui e ali. Vão aumentando até que o tenor chegue ao seu limite e mude o tom para, enfim, respirar. A essa altura todos já estão aplaudindo, então levantam, intensificam os aplausos e gritam: bravo!

Nota preta: um ativo financeiro começa a valorizar no mercado, as cotações vão subindo. As corretoras incluem o negócio em seus portfólios e saem fazendo propaganda, a mídia repercute, muita gente entra comprando. Alguns vendem para realizar lucros, mas o ativo ainda valoriza... O problema é que ativos não ficam roxo. Todos têm certeza de que há um limite para aquela nota preta que circula em torno do negócio. Mas não há um sintoma que indique.

A parte emocional é a mais complicada. Diferente do ouvinte da ópera, que relaxa numa cadeira confortável, fruindo aquele momento gozoso, o investidor faz contas, analisa gráficos e vive o risco de quem pode perder muito.

No ano passado, por três vezes este blog dedicou espaço à saga do bitcoin e outras criptomoedas. Foram três diferentes patamares na história desses ativos, enquanto os valores traçavam uma exponencial apontando para cima mais e mais. A abordagem do assunto contou com toda prudência e fez os alertas necessários para essas situações. Porém, o leitor atento deve ter percebido uma certa paixão.

E tinha como ser diferente!? Uma moeda virtual surge do nada, desafiando governos e o setor financeiro do mundo todo. Uma criação tecnológica, intangível, derrotando bravamente todas as tentativas de fraude eletrônica. Impõe respeito, passa a ser aceita no mercado japonês como moeda, entra como derivativo na Bolsa de Chicago e se torna o ativo que mais valorizou na história, num espaço de tempo tão curto. É de desmaiar na ópera.


BOM DEMAIS PARA SER VERDADE


O bitcoin e as criptomoedas em geral colocaram às claras a essência do mercado financeiro. Revelou-se o jogo puro e simples, onde especula-se em torno de um ativo qualquer, entre fatos e boatos. Pois daquela vez especulou-se em torno do nada! Algo que não está em lugar nenhum, não cheira, não tem gosto e não pesa. Mas dá sinais de existência que não podem ser fraudados.

Isso foi suficiente para que as criptomoedas alcançassem o status de “reserva de valor”. Tornou-se especulável.

Quando o bitcoin foi criado, em 2010, foi possível convencer o dono de uma pizzaria que valeria a pena entregar uma pizza de US$ 25,00, em troca daquele delírio tecnológico. Ele recebeu 10.000 bitcoins pela pizza histórica, o primeiro negócio realizado com uma criptomoeda no mundo. Mesmo tendo desvalorizado 15% na semana passada, acumulando uma perda de 80% só neste ano, aquela pizza hoje está rendendo US$ 43,93 milhões. Chegou a valer mais de US$ 193 milhões, quase R$ 750 milhões.

O que aconteceu com as criptomoedas em geral em 2017 foi um surto insano. Bitcoin, Ethereum e outras que já existiam há algum tempo, cresceram num ritmo surpreendente. Muita gente comprou em busca de enriquecimento rápido. Novas criptomoedas surgiam diariamente. Uma delas, a AllSafe, chegou a valorizar 15.808%, o que representa mais de 150 vezes. Um salto que aconteceu em menos de 24 horas, de um dia para outro. Dezenas de outras moedas virtuais chegaram a registrar valorização de 3 a 10 vezes num só dia.

Corretoras aumentaram em 5 vezes o número de clientes, chegando a ultrapassar o número de clientes pessoa física da Bolsa de São Paulo, a B3.

Alguns levantamentos estimam que o mundo chegou a ter mais de 1.200 criptomoedas circulando. Muitas desapareceram, mas apareceram outras no lugar. Pelo Youtube há vários vídeos ensinando como criar uma criptomoeda e você pode fazer isso ao terminar esta leitura. Se conseguir associar sua criptomoeda a alguma motivação para que alguém queira adquiri-la, pode ficar rico. Porém, sem uma estrutura para popularizar o novo ativo, o mais provável é que isso se torne uma perda de tempo.


CAIU MUITO PORQUE SUBIU MUITO


Não se trata de otimismo. Mas, depois desse curto histórico de 8 anos, as criptomoedas parecem que estão consolidadas como um tipo de negócio que nunca mais vai desaparecer do mercado. Afinal, depois de ter levado tanta gente  à bancarrota no ano passado, ainda sobrevive.

O detalhe a ser considerado é que trata-se de um negócio altamente perigoso, envolve muito risco. Uma “advertência” que tem uma sonoridade musical para muitos agentes de mercado. Segundo estudos da Bolsa de Nova York é a condição patológica que domina a maior parte dos players pessoa física. Algo muito semelhante ao que acontece com os jogadores compulsivos.

O professor de finanças Michael Viriato, do Insper, que publica um blog no portal UOL, listou algumas limitações das moedas virtuais, que dificilmente serão superadas. Uma delas é a facilidade técnica de criação de criptomoedas. Elas sempre vão proliferar nos momentos de alta, aumentando muito a oferta. Ainda do ponto de vista técnico, essas moedas têm uma séria limitação, que é a capacidade das redes efetivarem as negociações. Não chega a dez transações por segundo. Isso impede, na prática, que se tornem meio de pagamento em massa. No caso dos cartões de crédito, por exemplo, são milhares de operações por segundo.

Além disso, os governos estão bem próximos da regulamentação das criptomoedas. Isso deve impedir que milhões de dólares envolvidos em negociações criminosas continuem circulando nesse mercado. Sem dúvida, uma boa para a sociedade. Mas terá um forte impacto de baixa nesses ativos digitais.

Com base nesses fatos citados por Viriato, pode-se esperar maior pressão de baixa para os próximos meses. Ao final desse ciclo de queda, digamos que o mercado terá “testado o piso” do bitcoin e das outras moedas virtuais de maior circulação. Vai se estabelecer, diante dos atores do mercado, um valor mínimo para cada uma dessas moedas. O resultado pode ser mais segurança para voltar a investir.

No caso do bitcoin em particular, mesmo após essa perda de 80% em 2018, ele mantém uma valorização de 370% nos últimos 24 meses. O preço atual da moeda é o equivalente ao de setembro do ano passado. Portanto, não é a queda do bitcoin que surpreende. O difícil é entender por que a moeda valorizou tanto no final de 2017.

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