sexta-feira, 28 de julho de 2017

ALGUMAS VERDADES SOBRE A MENTIRA


Se há uma coisa nesse mundo que existe de verdade é a mentira. E, a despeito de todo o mal que ela possa representar, a mentira também é útil. Mais ou menos como o dinheiro. Está na raiz de todo o mal porém, se for bem usado é uma maravilha.
Não se trata de defesa ou apologia à mentira. É mero respeito à verdade. Sim, a verdade, essa coisa que segundo a sabedoria popular, dói. Talvez por isso o mundo tem demonstrado um apreço cada vez maior pela mentira. A ponto de dar o pomposo nome de “pós-verdade” a um dos piores tipos da mentira. Bonito, né!? Parece que sim. No ano passado, na tradicionalíssima Universidade de Oxford, “pós-verdade” foi eleita a palavra do ano na língua inglesa.
Na Internet, que também é chamada de “mundo de mentirinha”, o excesso preocupa. Facebook e Google desenvolveram robôs para tentar rastrear notícias falsas na rede, mas o resultado ainda é muito tímido. A alta tecnologia ainda não tem essa solução. Outros experimentos e pesquisas tentam descobrir por que se usa tanto a Internet para divulgar mentiras. Por enquanto, a conclusão mais evidente é de que as pessoas se interessam mais pelas mentiras. Elas bombam, se tornam virais. “Qualidades” que podem se tornar dinheiro para quem sabe lidar com isso.
Por sinal, a pós-verdade é mais uma famosa nativa digital. Foram as redes sociais que colocaram o poder de publicar ao alcance de todos e assim criaram as condições ideais para mais uma modalidade da mentira. A pós-verdade é aquela resposta que vem muito explicada:
“-O sujeito é honesto ou não é?”
“-Veja bem, na verdade ele sempre lutou pelo bem, pelos desempregados. Para combater os inimigos dessa gente sofrida ele precisou fazer alguns acordos, afinal ele enfrentava os poderosos. Dizem que foi assim que acabou (...fez alguma sacanagem...). Mas eu não acredito, ele é um cara muito legal, de um grande coração. Só pode ser perseguição.”
O fato em si perde importância diante de um apelo emocional que é associado ao contexto. Os estudiosos desse fenômeno entendem que essa instrumentalização da mentira ganhou notoriedade global durante as últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos. Algo que, nas eleições de 2014, no Brasil, também tivemos muitos exemplos concretos.

A MENTIRA COMO NEGÓCIO


A criatividade fez surgir na Internet muitos novos modelos de mentira. Essa infinita amostragem de não-verdades facilita perceber os perigos que podem estar ocultos nessa prática. A gente abre sites que sobrevivem daquele tipo de mentirinha light que é aceito no marketing dito honesto. Eles só avançam um pouco mais no território da não-verdade. Por exemplo, o teste do sabão em pó, que você cansou de ver na TV. Alguma vez aquilo te convenceu? Por acaso jogou café numa camisa branca para ver se algum sabão removia a mancha com uma simples lavagem? Pois é, muitos sites fazem promessas do mesmo tipo, só um pouco mais ousadas.
O bom Jornalismo está perdendo de lavada para os “bafões”. E o motivo é muito simples. A Internet não é um mero espaço para publicação, é também um medidor de audiência em tempo real. Enquanto uma empresa jornalística paga profissionais especializados para localizar e questionar fontes seguras de informação, um fanfarrão qualquer navega na própria imaginação, pensando como seria se acontecesse algo inusitado com alguém muito famoso. Os jornalistas estão produzindo novas fotos e ilustrações, infográficos e o cara do site desonesto só vasculha o próprio repertório de maldades. No espaço de tempo em que uma notícia verídica é produzida, várias lorotas já foram postadas com fotos pirateadas e muita irresponsabilidade. E os robôs confirmam que a quantidade de acesso às mentiras é bem maior do que o interesse pelas notícias. É o suficiente para tirar muitos anunciantes do bom Jornalismo.
O que já estamos vendo é quase o apocalipse da informação. Espaços jornalísticos que desfrutam de conceito na Internet não estão conseguindo sustentar o padrão de qualidade no quadro profissional. E acabam, eles mesmos, repercutindo bobagens antes de verificar tecnicamente a veracidade dos fatos.
Nesse ritmo estamos próximos a um desastre do tipo que a Costa Leste americana viveu em 1938, durante a apresentação da peça de radioteatro “A Guerra dos Mundos”, apresentada por Orson Welles. Muitos dos que ligaram o rádio depois do início da peça não ouviram a explicação de que se tratava de uma obra de ficção. Isso levou pânico entre milhares de famílias em várias cidades. Guardadas as proporções, lembra os “alertas virais” sobre ameaças que estariam circulando na rede: “-Se você receber um e-mail de fulano de tal NÃO ABRA!! (...). Avise todos da sua lista.”

A MENTIRA PELA MENTIRA


A psicologia e outras ciências da mente devem ter confirmações de que há pessoas que gostam de uma boa “cascata”. Elas são vítimas incuráveis de bobagens mal explicadas. Por mais que alguém demonstre o contrário, mais elas insistem na atitude ingênua, curiosamente, para se dizerem mais espertas que todos. Sustentam seus credos em alguma fé improvável. Por exemplo, nos Illuminatis, uma suposta sociedade secreta que quer dominar o mundo e que usaria estratégias que ninguém alcança. Nem ele, o ingênuo, e nem os “céticos”. Entre ufólogos, exotéricos e outros grupos similares há pensamentos semelhantes. Criam roteiros esdrúxulos, usando seus personagens ocultos, para explicarem até fenômenos naturais como terremotos ou furacões.
Mas tem outros estilos de consumidores vorazes de besteiras. A Internet evidenciou especialmente aqueles que se ressentem da falta de criatividade para inventar as próprias mentiras. A grande excitação chama-se “compartilhar”. Qualquer bobagem que passe por ali se torna objeto de maior interesse para esses internautas. E aquele esgoto cibernético vai inundar as caixas das vítimas listadas em sua conta.
Você já deve ter recebido algum: “... vejam o sofrimento dessa mãe, que precisa passar todos os dias no hospital para manter o filho vivo. Compartilhe com o máximo de pessoas até encontrarmos alguém que possa ajudar essa criança.” E se eu encontrar o tal benemérito, como ele vai poder ajudar? Onde está essa criança, como se chama a mãe, é no Brasil ou no Exterior? Nada disso passa pela cabeça do tal internauta, aflito em gozar o prazer de compartilhar. Ahhh! Tem vezes que até aparece um telefone para contato. Mas quem testa pra saber se é verdade? Os compartilhamentos são tantos que mesmo a mínima porcentagem de pessoas responsáveis acaba gerando problemas. Trotes desse tipo levaram pessoas a trocarem o número de telefone, em parte pela quantidade de bem intencionados que acudiram o chamado.
Por conta disso as redes sociais estariam estudando uma maneira de limitar a quantidade de postagens diárias por usuário. Pode ser só um artifício para reduzir os custos com os servidores que guardam tanta porcaria. Por outro lado, muitos gostariam de ver suas caixas de entrada mais limpas.
Por fim, há aquele tipo de mentira solidaria, simpática. É o elogio que se faz à foto nova no perfil de um amigo, ao texto “interessante” que outro escreveu sobre o bem, ou o agradecimento por aquele “bom dia” ilustrado que você recebe todas as manhãs no seu WhatsApp. É, a Internet tem defeitos. Mas tem também a virtude de dar utilidade até para coisas tão horríveis como a mentira.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

SEGREDOS DE NEGÓCIOS DE SUCESSO


Era mais do que bem cuidada a padaria do “seo” Afrânio. Tinha caprichos e segredos que só os bons observadores alcançavam. A máquina de café, por exemplo, ele confidenciou ao amigo farmacêutico que tinha posicionado de forma a exalar o cheiro para dentro da padaria. Fez o contrário na sala do forno, abriu janelas lá no alto para rescender pão quentinho até lá longe.
Ele era uma figura onipresente em cada metro quadrado da modesta padaria. Falava baixo e com um sorriso no rosto, mesmo quando orientava os empregados – o que era muito comum. Nunca se viu o “seo” Afrânio com a barba por fazer, com os cabelos mais compridos ou sem a brilhantina. Suas roupas sempre tinham vinco. Também não conversava andando. Foi numa dessas atenciosas paradas que ele atendeu o Dedé, chegado recente ao departamento comercial da Rádio Alvorada. Ouviu pacientemente e respondeu: “-Meu caro, a propaganda que sustenta essa padaria é a boca a boca. Esta é a melhor propaganda do mundo.”
Para aqueles tempos, naquela pequena cidade, já seria questionável. A propaganda que o “seo” Afrânio provavelmente faria hoje seria via streaming, talvez a mais fantástica ferramenta do marketing digital e, de certa forma, a mais parecida com a eficiente boca a boca.
Sistemas de gerenciamento de arquivos audiovisuais são capazes de fazer a mensagem de um freguês da padaria chegar às pessoas do círculo de amizade dele. Seria possível, mas a variedade de estratégias com a tecnologia de streaming permite abordagens mais criativas, nesse mundo onde vizinhos já não se conhecem tão bem. O que o streaming guarda de mais semelhante com o boca a boca é o baixo custo para chegar até o cliente. Não chega a ser de graça, mas não vai muito além disso.
O sucesso dessa ferramenta incrementa muito o poder do marketing digital, a ponto de colocar em alerta toda a parafernália da propaganda criada de Gutemberg para cá, passando por Marconi e Roberto Marinho. A variedade de plataformas de apoio disponíveis no mercado integra quase todos os sistemas comerciais eletrônicos, de pagamentos até dados geo referenciados. E isso permite alcançar não apenas os clientes e potenciais clientes, mas todos os stakeholders relacionados ao seu negócio.

O VERDADEIRO PERFIL DO EMPREENDEDOR

Ainda ao estilo boca a boca o streaming é o marketing que chega ao seu alvo de forma visual e não apenas falada. Ele não aparece nem na memória auxiliar do seu celular, tablet, notebooksmartTV. Essa é a grande sacada tecnológica chamada streaming. Ele passa pela rede, seu aparelho reproduz sem precisar armazenar o arquivo, de forma similar ao que acontece com os dados que chegam pelos protocolos TCP ou HTTP. O marketing digital ficou “mais TV” a partir do streaming, com a grande vantagem de ser infinitamente mais barato e apontado diretamente para o seu target, na linguagem dele, identificado com ele.
Para aprofundar na realidade dos negócios, voltando ao “seo” Afrânio há que se reconhecer que a padaria dele sempre foi um sucesso! Sempre mesmo, até o dia em que fechou. É, a padaria do “seo” Afrânio fechou quando ele decidiu se aposentar. Com ela, ele construiu uma bela casa, sempre andou com carro do ano, formou os filhos em boas escolas e foi adulado indiscretamente pelos gerentes dos bancos. Mas os meninos cresceram e o mais velho formou-se engenheiro, prestou concurso para um bom cargo público e está muito bem. O do meio, sempre muito quietinho, fez Direito mas nunca entrou num fórum. Virou serralheiro e mantém um bom padrão de vida, dá conta da oficina praticamente sozinho. A mais nova é que se deu melhor ainda, casou com o filho de um médico, que está fazendo uma carreira de alto nível, melhor do que foi o pai.
Nenhum deles quis a correria daquela vida na padaria – que começava às 4 da manhã, todos os dias. “Seo” Afrânio quase não ampliou o prédio, nunca teve uma filial. Na verdade ali ele teve o emprego que mais sonhou e não um grande negócio. Ele foi bem porque é um ótimo gestor.
É aí onde o streaming também ganha mais pontos ainda. O sistema permite um gerenciamento preciso das mensagens: quem abriu, a que horas, onde estava navegando, dentre outras informações. Se compartilhou com alguém, qual a eventual resposta, se resolveu gravar ou não. Se quiser, você pode integrar a outras plataformas para saber até as alterações mais recentes nos hábitos de consumo daquele target selecionado.
Todas essas vantagens do marketing digital, mais especificamente do streaming, só tendem a crescer pelo fato de serem nativos da Internet, o mais poderoso meio de comunicação jamais comparável. E cuja expansão tende às fronteiras do Universo. Se algum dia encontrarem vida inteligente em outro planeta pode ter certeza de que vai ser via Internet. E o mais provável é que o primeiro sinal que eles recebam acidentalmente seja a mensagem de um terráqueo propagada via streaming.

AINDA É SEGREDO PRA MUITA GENTE

A variedade de ferramentas do marketing digital associadas ao streaming permite um efeito semelhante a um fenômeno descrito teoricamente na física. É a compressão de espaço. Porque ele aproxima clientes de norte a sul em escala planetária. Isso muda todos os paradigmas para muitos negócios. Acionando os seus stakeholders você pode maximizar toda uma rede de interesses comerciais associada ao seu negócio. Isso tende a criar parcerias até desconhecidas em favor do sucesso do empreendimento. É um “efeito vicinal” que, mais uma vez, aproxima o streaming às vantagens do limitado boca a boca.
EiTV CLOUD, associada ao aplicativo personalizado EiTV Play formam a plataforma ideal para atender necessidades de clientes de todos os portes. Distribui conteúdos audiovisuais, tanto para ações de marketing digital como para treinamento, ensino a distância e muitas outras finalidades. Pode entregar o conteúdo gratuitamente ou monetizado, gerenciando todo o trânsito de mensagens com precisão. A cada ação o cliente pode escalar o investimento de acordo com a disponibilidade de caixa. A EiTV CLOUD já conta com clientes também nos Estados Unidos e em várias partes do mundo.
Nessa história toda, quem deve ter sentido o impacto tecnológico mais de perto foi o cunhado do “seo” Afrânio. Ele tinha a maior papelaria da cidade, onde também eram vendidos os livros. Afinal, nosso hábito brasileiro de leitura, tão tímido, não justifica livrarias em cidades pequenas. Ele viveu o auge dos negócios na época dos “suprimentos de informática”. Ficou rico vendendo disquetes, formulários contínuos, etiquetas para impressoras. Foi quando comprou o sítio e começou a cultivar frutas. Parece que esse sempre foi o negócio dos sonhos dele.
A papelaria deve ter fechado, porque os livros, por lá só compram via Internet, ou baixam direto do Kindle. Sulfite, cola e durex tem no supermercado. Provavelmente o kiwi que ele cultiva no sítio está sendo vendido também pela Internet, porque toda semana chegam aquelas vans com placas de cidades bem distantes.
O Dedé hoje é dono do único site de promoções da região. Ainda mora na mesma cidade, vive bem. “Seo” Afrânio tem o nome dele no Instagram, onde vive pendurado. Não cansa de postar fotos e vídeos dos bolos e doces que prepara.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

TECNOLOGIA: A PAIXÃO QUE SÓ AUMENTA


Duas paixões da humanidade vão se aproximar ainda mais: o automóvel e o computador (este último, nos dias atuais, mais representado pelo celular). A aproximação vai crescer em função do tipo de energia que vai passar a mover essas duas máquinas. É a energia elétrica, nativa nos computadores e que deve crescer como combustível de automóveis.
Pouco mais de 100 anos após a popularização do automóvel à gasolina, o carro elétrico começa a se tornar um item de consumo de massa. O marco tende a se firmar com o anúncio da Tesla, maior fabricante de veículos elétricos do mundo, que está lançando o Model 3, terceiro projeto da empresa no segmento. O carro deve custar US$ 35 mil no mercado americano, menos da metade do que custam os modelos elétricos anteriores da Tesla.
A Tesla existe há apenas 13 anos e ganhou destaque por conta de outros projetos ousados de alta tecnologia. Entre eles, o mais conhecido é o carro que não precisa de motorista para ser conduzido. Outro fator que joga a favor é o carisma do fundador da companhia, Elon Musk, considerado um gênio visionário pela mídia.
O Model 3 é um sedan com 4 portas, design de muito bom gosto e arrojado, com capacidade para até 5 passageiros. Com uma carga de bateria ele pode percorrer 340 Km e para quem gosta de potência é bom saber que vai de 0 a 100 Km/h em 6 segundos.
O lançamento oficial está marcado para o próximo dia 28 e em agosto devem ser produzidas as primeiras 100 unidades em série. Em setembro, essa marca deve crescer para 1.500 unidades. O Brasil, sexto maior fabricante de carros do mundo, está entre os mercados onde as reservas poderão ser feitas a partir do lançamento, mas o preço por aqui ainda não foi divulgado.

ASSIM COMO ANTIGAMENTE

As coincidências que o lançamento do Model 3 tem com o surgimento da indústria automotiva são curiosas. Se fosse escrever por extenso, em inglês, seria Model Three, parecido na pronuncia com o Ford Model T, lançado em 1908. O Model T foi o vigésimo modelo da Ford e talvez o T fosse de “Twenty” ou simplesmente porque T é a vigésima letra do alfabeto. O histórico carro da Ford também veio com a proposta de popularizar o automóvel como item de consumo, até então um produto quase artesanal.
Ao contrário do que muita gente pensa o projeto da Ford veio também para afirmar o automóvel como veículo à gasolina, uma vez que já existiam modelos a vapor e elétricos. Em 1906 a Anderson Eletric Car Company, de Detroit, já produzia seus veículos que rodavam com baterias de chumbo e estiveram no mercado até 1940. Foi na França que um automóvel, pela primeira vez, atingiu a velocidade de 100 Km/h e o modelo era elétrico.
Mas a engenharia de produção de Henry Ford foi muito mais eficiente, multiplicando a escala de fabricação. Em 1913 ele implantou a produção em série, inspirado no que acontecia nas indústrias Singer, de máquinas de costura. Ford foi mais além e criou um sistema de esteiras que permitiu a produção, em média, de um automóvel por minuto. Com tantos exemplares pelas ruas do mundo todo a infraestrutura para o carro a gasolina se expandiu em muito pouco tempo. Até então não havia redes nacionais de energia elétrica, enquanto o transporte de gasolina até um posto num lugar qualquer era muito simples. Os carros da Ford, literalmente, iam mais longe, tinham mais autonomia. Foi o que aconteceu também com a história deles.
Um detalhe importante também foi o conceito de carro popular que Ford tinha em mente. Mesmo considerando a inflação do dólar por mais de um século, o preço de US$ 850,00 por um automóvel 0 Km é impensável nos dias de hoje. Foi assim no lançamento do Model T. Depois do crescimento da produção os ganhos de produtividade foram repassados ao consumidor que, em 1927, pagava US$ 290,00 “na agência” pelo Model T zerinho. Os produtos digitais hoje também reduzem os preços em função da produtividade porém, numa escala bem menor.
E para encerrar os paralelos entre a Ford e a Tesla, neste ano, a Tesla superou a Ford em valor de mercado. Foi a primeira vez que a Tesla deixou para trás uma das grandes marcas automobilísticas mundiais.

AGORA SOMOS UMA COISA SÓ

Entre carros e computadores não chegou a ter propriamente uma concorrência. Um único momento de rivalidade foi marcado por uma piada do início deste século. Numa feira de computadores Bill Gates teria comparado o ritmo de inovação das duas indústrias com a seguinte frase: “-Se a GM tivesse desenvolvido sua tecnologia como a Microsoft, todos nós estaríamos dirigindo carros de 25 dólares que fariam 1.000 milhas com um galão de gasolina.”
Como resposta, a GM teria enviado uma carta a Bill Gates relacionando uma série de características que os automóveis teriam “se tivessem desenvolvido a tecnologia como a Microsoft”. As frases hilárias lembram alguns incidentes comuns no início da popularização dos microcomputadores: “sem nenhuma razão aparente, o carro bateria num poste duas vezes por dia”; “eventualmente, seu carro morreria na estrada sem razão aparente. Você aceitaria o fato, daria nova partida e continuaria dirigindo”; “toda vez que as faixas da estrada fossem repintadas, você teria de comprar um novo carro”; “eventualmente, executando uma manobra como uma conversão a esquerda, seu carro deixaria de funcionar e você teria de mandar reinstalar o motor”; “a Macintosh produziria um carro movido a energia solar, mais confortável, cinco vezes mais rápido e duas vezes mais fácil de dirigir, mas que funcionaria apenas em 5% das rodovias”; “o airbag perguntaria: “Você tem Certeza?” antes de disparar.”
Fato ou realidade, a piada aponta para o que deve mudar nessa poderosa indústria que revolucionou o mundo nesses 100 anos. Os desafios da produção de automóveis vão passar a ser mais parecidos com os da produção de computadores. Sobre uma plataforma 100% elétrica, sem ignição, mudam muito as perspectivas tecnológicas e industriais. Isso sem falar nos itens originalmente mecânicos, como suspensão, pneus.
Haverá fabricantes de motores e auto peças para carros elétricos? As marcas de veículos terão o perfil de montadoras ou serão mais verticalizadas? Como a poderosa indústria do petróleo – que já perdeu colocação no ranking econômico  para a indústria digital – vai reagir ao golpe diretamente aplicado contra seu caixa? Como será a infraestrutura para abastecimento? E para manutenção? A poluição eletromagnética vai ser um problema?
Muita coisa vai mudar em muito pouco tempo. E, desta vez, Bill Gates não terá como traçar uma linha divisória tão nítida entre a indústria automobilística e a digital.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

SEMPRE APARECE ALGUÉM PRA DEFENDER


Você não está lendo aqui a palavra ética. Ou melhor, só está lendo-a para saber exatamente do que não estamos falando. Não tem nada de confuso. É só um cuidado para falar da perigosa confusão entre os verbos fazer e falar (ou escrever). Quer um exemplo? Onde é que mais se fala as palavras “ética”, “honra”, “honestidade”, “lisura”, “probidade” e similares? No meio político, oras! E de onde saem as notícias sobre os mais escandalosos feitos contra todos esses conceitos tão falados? Exatamente do mesmo lugar.

Esse é o risco que estamos tentando evitar. Falar (escrever) muito sobre ética pode trazer suspeita, levando em conta o que se vê na política mundo afora.

Como você classifica alguém que está em um cargo público importante, como um Ministro de Estado, que exige “doações” de empresas para liberar o pagamento de serviços prestados? Os maiores advogados criminalistas do Brasil classificam essa pessoa como sendo “honesta e honrada”. Que nome se dá a alguém que paga por uma assinatura de TV fora da lei, que é muito mais barata do que a assinatura legalmente reconhecida? Para os mesmos notáveis – e onerosos – criminalistas deve ser “honesto e honrado” também. Embora, é claro, não coincidam em nada com o que se lê nos respectivos verbetes dos dicionários.

A questão não é a palavra falada ou escrita, o que tentaremos discutir aqui é a essência de atitudes tão comuns no dia a dia que são relativizadas. É o que acontece com vários dos que contratam assinaturas ilegais de TV e relacionam os fatos (relativizam) ao dizer: “-Se até o Ministro faz uma coisa daquelas, por que eu não posso piratear um sinalzinho?” Quem age assim não percebe que está escolhendo para si e para os outros um tipo de mundo onde todos iremos viver.

TVs POR ASSINATURA EM ALERTA


Um executivo de uma operadora brasileira de TV por assinatura teria declarado ao site Tela Viva que a maior ameaça ao setor já está no Brasil e vem crescendo rapidamente. Um tipo de pirataria que roda em caixas modelo HTV. Quem comercializa a caixa diz que se trata apenas de um entre os vários projetos de “PC simples, barato e acessível a todos”. A questão é que a caixa HTV tem sistema operacional Android e características semelhantes a outras caixas conectadas, como Apple TV e Chromecast. Tanto que, no mercado eletrônico brasileiro, ela é apresentada como “receptor IPTV sem antena e sem cabo”. A caixa HTV pode rodar o aplicativo player de mídia de código aberto Kodi que, com a instalação de alguns plug-ins de terceiros, forma uma plataforma completa para distribuição clandestina de conteúdo, baseada unicamente na Internet. E é o que está acontecendo, com o apoio de uma rede de “colaboradores” que digitalizam o conteúdo de operadoras nacionais e jogam no ar. Estariam utilizando até servidores do tipo CDN, próprios para a distribuição de conteúdos de vídeo.

O Kodi, em princípio, teria surgido como um gerenciador de mídia DRM, uma versão free de softwares do tipo Windows Media Player. Hoje já tem uma grande variedade de implementações, muitas delas voltadas para piratear conteúdos em vídeo.

Há informações de que o arranjo tecnológico da caixa HTV, montada e distribuída por fabricantes chinesas, é fruto da engenharia coreana com suporte de software russo. A questão é que está corroendo a receita das operadoras de TV por assinatura da Europa e chegou com força ao Brasil. Acredita-se que essa nova modalidade pirata vai tentar ocupar o espaço que era da AZ Box e similares, cujos prejuízos foram minimizados a partir do ano passado, por conta de novas tecnologias adotadas pelas operadoras. Elas teriam conseguido evitar o “compartilhamento de chaves”, base do funcionamento das AZ Box.

Sem meias palavras trata-se de furto, crime previsto no Código Penal Brasileiro e de qualquer outra nação do mundo. A vítima direta são operadoras de TV por assinatura porém, indiretamente, há toda uma cadeia de valor da maior importância para a cultura no mundo todo. Ao distribuir qualquer conteúdo as operadoras pagam direitos autorais que remuneram criadores, atores, profissionais de cinema e vídeo, técnicos e uma infinidade de trabalhadores, equipamentos e insumos. Recolhem impostos, geram empregos formais e lucros, o que está dentro das regras do jogo. Se o preço para o consumidor final remunera o serviço mais do que deveria, é algo para ser discutido dentro da lei. Porém, essa margem de lucro deve ser bem maior para o “cara legal” que furta o conteúdo e distribui para o consumidor a um preço bem menor. Afinal ele não paga nada disso que incide sobre os custos das operadoras.

Atualmente, quem compra a caixa HTV com o Kodi não paga assinatura. Porém, da forma como essa base de consumo vem crescendo, é de se supor que, em breve, vão começar a oferecer “planos” mais completos, desde que pagos. As plataformas contam com softwares avançados para o streaming, que permitem serviços mais sofisticados, como o catch-up. Em qualquer um dos casos, todos que trabalham honestamente na cadeia de produção cultural que abastece esses negócios, estão ficando no prejuízo.

O MUNDO QUE QUEREMOS?


Aquele discurso revolucionário, que “denuncia” os altos lucros das operadoras, neste caso é mais uma relativização do furto, do crime. Porque ninguém distribui caixas HTV de graça, carregada com Kodi. Quem compra essa plataforma pronta para usa-la em seu potencial de acesso a conteúdos de vídeo é ladrão. Principalmente vivendo neste Brasil que é o paraíso mundial da TV aberta. Quem não tiver conteúdo por assinatura não vai ficar sem ver televisão.

Há uma “teoria de conspiração” agregada a esses fatos que merece atenção. As operadores afirmam que uma das dificuldades sérias para corrigir esse problema está no Marco Civil da Internet. As normas que garantem a privacidade e a neutralidade da rede dificultariam a inspeção dos pacotes de dados e até mesmo o bloqueio de servidores. Portanto, o alegado risco que as HTVs representam seria apenas o pano de fundo para ações contra o Marco Civil. É uma hipótese a ser considerada. Estar dentro da lei não significa necessariamente ter boas intenções. Porém, essa suspeita não dá aos piratas o status de Robin Hood.

O tipo de mundo que virá por trás desses equívocos morais é onde ser honesto vai ficar mais caro. Com a perda de receita por conta da pirataria é presumível que as operadoras regulares vão tentar compensar com preços mais altos na assinatura. Os distribuidores devem fazer isso antes. Essa lógica vale para quase tudo que se consome neste mundo. Aceitar e participar dessa realidade, portanto, aponta para tempos em que “honesto” e “honrado” vão passar a ser ofensas.