TECNOLOGIA: A PAIXÃO QUE SÓ AUMENTA


Duas paixões da humanidade vão se aproximar ainda mais: o automóvel e o computador (este último, nos dias atuais, mais representado pelo celular). A aproximação vai crescer em função do tipo de energia que vai passar a mover essas duas máquinas. É a energia elétrica, nativa nos computadores e que deve crescer como combustível de automóveis.
Pouco mais de 100 anos após a popularização do automóvel à gasolina, o carro elétrico começa a se tornar um item de consumo de massa. O marco tende a se firmar com o anúncio da Tesla, maior fabricante de veículos elétricos do mundo, que está lançando o Model 3, terceiro projeto da empresa no segmento. O carro deve custar US$ 35 mil no mercado americano, menos da metade do que custam os modelos elétricos anteriores da Tesla.
A Tesla existe há apenas 13 anos e ganhou destaque por conta de outros projetos ousados de alta tecnologia. Entre eles, o mais conhecido é o carro que não precisa de motorista para ser conduzido. Outro fator que joga a favor é o carisma do fundador da companhia, Elon Musk, considerado um gênio visionário pela mídia.
O Model 3 é um sedan com 4 portas, design de muito bom gosto e arrojado, com capacidade para até 5 passageiros. Com uma carga de bateria ele pode percorrer 340 Km e para quem gosta de potência é bom saber que vai de 0 a 100 Km/h em 6 segundos.
O lançamento oficial está marcado para o próximo dia 28 e em agosto devem ser produzidas as primeiras 100 unidades em série. Em setembro, essa marca deve crescer para 1.500 unidades. O Brasil, sexto maior fabricante de carros do mundo, está entre os mercados onde as reservas poderão ser feitas a partir do lançamento, mas o preço por aqui ainda não foi divulgado.

ASSIM COMO ANTIGAMENTE

As coincidências que o lançamento do Model 3 tem com o surgimento da indústria automotiva são curiosas. Se fosse escrever por extenso, em inglês, seria Model Three, parecido na pronuncia com o Ford Model T, lançado em 1908. O Model T foi o vigésimo modelo da Ford e talvez o T fosse de “Twenty” ou simplesmente porque T é a vigésima letra do alfabeto. O histórico carro da Ford também veio com a proposta de popularizar o automóvel como item de consumo, até então um produto quase artesanal.
Ao contrário do que muita gente pensa o projeto da Ford veio também para afirmar o automóvel como veículo à gasolina, uma vez que já existiam modelos a vapor e elétricos. Em 1906 a Anderson Eletric Car Company, de Detroit, já produzia seus veículos que rodavam com baterias de chumbo e estiveram no mercado até 1940. Foi na França que um automóvel, pela primeira vez, atingiu a velocidade de 100 Km/h e o modelo era elétrico.
Mas a engenharia de produção de Henry Ford foi muito mais eficiente, multiplicando a escala de fabricação. Em 1913 ele implantou a produção em série, inspirado no que acontecia nas indústrias Singer, de máquinas de costura. Ford foi mais além e criou um sistema de esteiras que permitiu a produção, em média, de um automóvel por minuto. Com tantos exemplares pelas ruas do mundo todo a infraestrutura para o carro a gasolina se expandiu em muito pouco tempo. Até então não havia redes nacionais de energia elétrica, enquanto o transporte de gasolina até um posto num lugar qualquer era muito simples. Os carros da Ford, literalmente, iam mais longe, tinham mais autonomia. Foi o que aconteceu também com a história deles.
Um detalhe importante também foi o conceito de carro popular que Ford tinha em mente. Mesmo considerando a inflação do dólar por mais de um século, o preço de US$ 850,00 por um automóvel 0 Km é impensável nos dias de hoje. Foi assim no lançamento do Model T. Depois do crescimento da produção os ganhos de produtividade foram repassados ao consumidor que, em 1927, pagava US$ 290,00 “na agência” pelo Model T zerinho. Os produtos digitais hoje também reduzem os preços em função da produtividade porém, numa escala bem menor.
E para encerrar os paralelos entre a Ford e a Tesla, neste ano, a Tesla superou a Ford em valor de mercado. Foi a primeira vez que a Tesla deixou para trás uma das grandes marcas automobilísticas mundiais.

AGORA SOMOS UMA COISA SÓ

Entre carros e computadores não chegou a ter propriamente uma concorrência. Um único momento de rivalidade foi marcado por uma piada do início deste século. Numa feira de computadores Bill Gates teria comparado o ritmo de inovação das duas indústrias com a seguinte frase: “-Se a GM tivesse desenvolvido sua tecnologia como a Microsoft, todos nós estaríamos dirigindo carros de 25 dólares que fariam 1.000 milhas com um galão de gasolina.”
Como resposta, a GM teria enviado uma carta a Bill Gates relacionando uma série de características que os automóveis teriam “se tivessem desenvolvido a tecnologia como a Microsoft”. As frases hilárias lembram alguns incidentes comuns no início da popularização dos microcomputadores: “sem nenhuma razão aparente, o carro bateria num poste duas vezes por dia”; “eventualmente, seu carro morreria na estrada sem razão aparente. Você aceitaria o fato, daria nova partida e continuaria dirigindo”; “toda vez que as faixas da estrada fossem repintadas, você teria de comprar um novo carro”; “eventualmente, executando uma manobra como uma conversão a esquerda, seu carro deixaria de funcionar e você teria de mandar reinstalar o motor”; “a Macintosh produziria um carro movido a energia solar, mais confortável, cinco vezes mais rápido e duas vezes mais fácil de dirigir, mas que funcionaria apenas em 5% das rodovias”; “o airbag perguntaria: “Você tem Certeza?” antes de disparar.”
Fato ou realidade, a piada aponta para o que deve mudar nessa poderosa indústria que revolucionou o mundo nesses 100 anos. Os desafios da produção de automóveis vão passar a ser mais parecidos com os da produção de computadores. Sobre uma plataforma 100% elétrica, sem ignição, mudam muito as perspectivas tecnológicas e industriais. Isso sem falar nos itens originalmente mecânicos, como suspensão, pneus.
Haverá fabricantes de motores e auto peças para carros elétricos? As marcas de veículos terão o perfil de montadoras ou serão mais verticalizadas? Como a poderosa indústria do petróleo – que já perdeu colocação no ranking econômico  para a indústria digital – vai reagir ao golpe diretamente aplicado contra seu caixa? Como será a infraestrutura para abastecimento? E para manutenção? A poluição eletromagnética vai ser um problema?
Muita coisa vai mudar em muito pouco tempo. E, desta vez, Bill Gates não terá como traçar uma linha divisória tão nítida entre a indústria automobilística e a digital.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

COQUELUCHES DA TECNOLOGIA

GUERRA FRIA 2.0

O SILÊNCIO INOPORTUNO