PREVISÕES, INVENÇÕES E O FUTURO


Previsão para o futuro: em grandes cidades as principais avenidas terão plataformas para escapar de congestionamentos. Um carro pode parar em cima de uma delas, que vai descer até um túnel subterrâneo. Haverá dezenas de camadas de túneis, onde cada plataforma (com o respectivo veículo) vai se deslocar à velocidade de 200 Km/h. Chegando a um acesso próximo ao destino a plataforma será elevada para a superfície, num ponto de outra avenida. Então, tá.
Fosse um prefeito falando, seria considerado de pitoresco a megalomaníaco. Mas o guru dessa ideia é Elon Musk, CEO de potências tecnológicas empresariais como a Tesla, a SpaceX e Neurolink. Isso significa que, no máximo, ele pode ser chamado de excêntrico. É tratado na mídia especializada como um gênio e o mais importante: tem dinheiro suficiente para a construção de túneis experimentais, que já estão prontos debaixo da unidade industrial da SpaceX.
Justiça seja feita, pelo currículo que ele assina, Musk merece respeito. Por outro lado Thomas Edson, o inventor mais bem sucedido da história, também pariu bobagens e perdeu muito dinheiro com elas.
“O futuro a Deus pertence”, já diziam os mais velhos. Nem por isso somos impedidos de tentar inventa-lo a nosso gosto. A coisa fica sem graça quando se quer dar um ar de ciência para essas especulações. Mais ainda quando o ritmo de mudanças está na velocidade que já vemos, com certa vertigem.
Essas conversas têm até lugar certo para acontecer. No Fórum Econômico Mundial de Davos, no ano passado, Klaus Schwab fez um alerta sobre o que chamou de “Quarta Revolução Industrial”, a digital, onde veremos uma “fusão de tecnologias borrando as linhas divisórias entre as esferas físicas, digitais e biológicas”. Belas palavras para dizer algo que já se murmura há tempos por aí. O Fórum Econômico declarou que o assunto está em estudo e já tem publicações a respeito. A grande preocupação é com os empregos e com a condição marginal de países que não tiverem condições tecnológicas para competir. O tom desses estudos é bem alarmista.

MINHOCA ATÔMICA OU ZANGÃO

Fazer previsões já foi bem mais enobrecedor e até divertido. O tal futuro ficava tão longe que os cartomantes de plantão não estariam lá para ouvir as cobranças. Bastava ter muita imaginação e um pouco de conhecimento sobre o que se passava no seu tempo. E, claro, dependia também de um certo status na sociedade, para que as pessoas dessem alguma atenção.
Hoje em dia a coisa é muito rápida e absolutamente fora do controle de qualquer organização, governo ou religião. Se alguém tivesse alguma revelação sobre as tendências tecnológicas nos próximos dois anos, não haveria nada a ser feito agora para minimizar impactos. A única atitude consequente seria correr para a Nasdaq e comprar as ações dos negócios que vão prosperar.
Não terminamos de inventar sequer a Internet, que ainda deve surpreender muito. O jovem Elon Musk possivelmente não é do tempo em que os desenhos animados dos Jetsons mostravam um futuro cheio de aeronaves no céu. Por isso a invenção dele é o contrário, tudo debaixo da terra. Qual seria a mais absurdamente futurista? Com o dinheiro exigido para construir tantos túneis, energizar o suficiente para que milhares de veículos se desloquem a 200 Km/h, com elevadores, manutenção, segurança, etc, etc, os Jetsons parecem mais viáveis. Já se fala em drones para um ou dois passageiros.
Há cerca de 3 anos a previsão era de que, hoje, eu teria um Google Glass na cara. A onda esfriou e agora o Mark Zuckerberg já fala de novo em óculos para daqui a 10 anos, mas como substituto do celular. Com certeza vai existir, como também existiu Google Glass e existem similares por aí. A questão é se vai virar um negócio viável. O que se pode ter como certo é que palito de fósforo, rolha de cortiça e carvão para churrasco vão continuar existindo. Esse tipo de invenção, simples e que nunca envelhece, sempre foram os grandes negócios.

FUTURO VAI ATÉ QUANDO?

Quem já está no mercado de trabalho de nível superior viveu uma experiência história muito especial no que diz respeito a previsões. Foi o ano 2000. Uma data quase cabalística, sobre a qual foram despejadas previsões durante séculos. A grande maioria virou piada, embora os videntes de maior status histórico sejam respeitosamente declarados ingênuos.
Imagine que na Década de 60 do século passado – veja bem, o homem já tinha pisado na lua! – cientistas previram que, no ano 2000, seria possível prever terremotos com um mês de antecedência. Fukushima que o diga. Estavam tão animados que foram mais adiante para prever até 2011 a elucidação completa das causas do câncer.
Há 10 anos qual foi a particular esperança que você colocou sobre as células tronco? Falava-se em tantas maravilhas possíveis que, certamente, pelo menos uma delas encheu você de esperanças. Voltar a crescer cabelos em carecas esteve entre os trending topics, pode apostar.
As previsões precisam ser feitas e devem continuar. Porém, com a responsabilidade de quem já tem noção da volatilidade delas. As de médio e longo prazo tendem a ser cada vez menos importantes. Seria melhor investir em previsões tecnológicas de curto prazo, tipo um horóscopo-das-coisas: “-Atenção celulares! A conjunção de Júpiter com Urano indica que os flips devem voltar com força, aumentando as telas que cabem no bolso. As luas de Saturno indicam que os chip sets devem desaparecer entre os anéis do planeta; o período é bom para placas de processamento discutirem a relação com os respectivos sistemas eletromecânicos, que não param de colocar a culpa nelas.”
A previsão mais antiga e certeira é sobre o que devemos e podemos fazer para melhorar o mundo todo: uma boa educação. Ela vai servir para nos adaptarmos adequadamente, seja qual for o futuro da indústria ou dos nossos cabelos. Mesmo assim são poucas as nações que dão atenção a esta previsão milenar. E olha que ela fica mais atual e mais eloquente na medida em que o tempo passa.
Só a boa educação vai nos levar a avanços certeiros. Imagine uma empresa baseada na honestidade. Não como valor moral, mas como diferencial de negócio. Você daria a preferência para uma operadora de telefonia móvel que explicasse claramente as vantagens e também as eventuais desvantagens dos novos planos que ela oferece para você? Que colocasse atendentes preparados para o call center do suporte e não apenas para o de vendas? Você pagaria mais numa oficina mecânica que demonstrasse com toda transparência o que foi feito no motor do seu carro e quais as garantias que você teria?
Esse lado humano e inquestionavelmente atraente para todo tipo de cliente precisa entrar nas previsões para novos negócios e empregos. São inovações desse tipo que o mundo todo espera há muito tempo.

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