O QUE PODE DAR ERRADO NA INTERNET


A Internet pode deixar de ser o mundo virtual para se tornar um mero bairro cibernético. Um lugar por onde passaríamos assustados, até chegarmos a um endereço seguro, cercado de muros de fogo. Faríamos apenas o necessário para, em seguida, retornar ao nosso mundo sensorial. Isso significa que você não estaria lendo esta página como faz agora.
O alerta é de especialistas do LACNIC – Registro de Endereçamento da Internet da América Latina e Caribe, que se reuniram nesta semana num evento em Foz do Iguaçu. Adiel Akplogan, do ICANN, disse que o desafio de expandir a infraestrutura da Internet já está superado. A evolução da rede agora depende de regras de uso. Normas capazes de garantir a necessária segurança. Só assim será possível ter o espaço virtual aberto, onde vários modelos de negócio poderão ser testados para simplificar a vida das pessoas. Essa é a vocação da Internet desde que surgiu. O inverso desse cenário seria a chamada “ciberguerra”, onde gangues estariam alocadas no espaço virtual na expectativa de confundir e extorquir pessoas.
O caminho da paz, segundo os especialistas, passaria por duas providências importantes. A primeira é a migração para o IPv6, o novo protocolo da Internet, muito mais abrangente e eficiente, que chegou para substituir o IPv4. Os parâmetros para o novo protocolo foram definidos a partir de 1997 e há cerca de uma década ele já vem sendo testado. O IPv6, no entanto, só foi oficializado em 2012.
A outra medida seria a padronização de procedimentos para atualização da segurança em dispositivos interconectados em IoT (Internet das coisas). Christine Hoepers, que faz parte do Comitê Gestor da Internet no Brasil, afirmou durante o encontro que os sensores e equipamentos estão sendo produzidos e conectados hoje sem a devida atenção para os riscos de ataques. Esse hardware todo sai dos fabricantes e a segurança deles não está objetivamente sob a responsabilidade de ninguém.
Nessa batalha para salvar o mundo (o virtual) o Brasil ainda tem muito a fazer. Mas não está mal posicionado.

TUDO TEM LIMITE

Parece até piada mas o protocolo mais usado da Internet, o IPv4, suportaria apenas cerca de 4 bilhões e 300 milhões de endereços. Um número que já deve ter sido ultrapassado, graças à migração gradativa para a nova geração de protocolos, o IPv6. Para se ter uma ideia de quanto esse número imenso é pequeno, diante da extrema importância da rede, basta lembrar que 40% da população da América Latina ainda não tem uma “varanda” na rede (parece estranho para quem está acostumado a falar de rede na varanda).
O novo protocolo multiplica por várias vezes o espaço na Internet. E isso é muito importante. Afinal, mesmo que cada cidadão do Planeta tenha pelo menos um endereço na Internet, a mania de navegar também tomou conta das “coisas”. Estima-se que, em alguns anos, bilhões de equipamentos estarão espalhados pelo mundo conectados entre si. E interagindo mais do que costumam fazer os “ratões de Facebook”.
O IPv6 resolve definitivamente essa questão e traz outras importantes vantagens para a rede. Com endereçamento de 128 bits, além de ser mais seguro, o novo protocolo oferece conexões adequadas para aplicações de áudio e vídeo, garantindo melhor qualidade. Ele reduz a carga de processamento e traz muitas outras vantagens.
No mundo todo cerca de 10% do tráfego da Internet já acontece com o novo protocolo. No Brasil os números são maiores, ultrapassam 17%. Mesmo assim, ainda somos o segundo maior alvo de ataques cibernéticos no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Na escala de número de usuários da rede estamos em quarto lugar o que justifica, em parte, a maior vulnerabilidade.
A segurança vai aumentando na medida em que o tráfego vai migrando para o novo protocolo. A substituição de um pelo outro é feita num esquema dual stack ou pilha dupla. Algo parecido com o que acontece hoje com a TV na maior parte do território nacional. A transmissão digital está no ar e a analógica também. Assim os usuários não ficam sem sinal e vão adaptando os receptores para a nova tecnologia.

REGRAS PRECISAM DE INTELIGÊNCIA

De um lado especialistas aprimoram protocolos e estabelecem alguns padrões. Eles tomam como base os hábitos de uso que vão sendo observados entre os Internautas. Do outro lado, políticos surfam na popularidade cada vez maior da Internet e fazem leis para serem cumpridas por bits.
Esse tipo de interferência serve mais para criar incertezas no ambiente virtual. Nos Estados Unidos, o chairman da FCC está revendo decisões tomadas no Governo anterior. Ajit Pai reclassificou o serviço de banda larga de forma a encaixa-lo numa regulamentação mais branda. Na prática, isso deve atrapalhar a neutralidade da rede e a aplicação de outros princípios importantes que estavam se consolidando.
Nesta semana o Brasil deu mais um passo em direção a um marco regulatório nacional para a proteção de dados pessoais. Uma nova audiência pública, promovida pela Câmara dos Deputados, em Brasília, reuniu 6 especialistas para debaterem o tema. Esse tipo de regulação busca garantir mais respeito aos cidadãos. Não é o que pensa o chairman do FCC, que já tratou de pôr abaixo muito do que tinha sido feito nesse sentido nos Estados Unidos. Ele justifica essas alterações pela busca da geração de mais negócios e mais empregos. Porém, mais parece que o interesse é desfazer ao máximo tudo que foi feito pelo Democrata Barack Obama.
É, não falta mais nada nesse mundo virtual. Até intrigas políticas ameaçam a tranquilidade de quem passa por aqui.

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