O QUE FAZ SUA MÃE CHORAR?


Colocar a mãe no meio da conversa sempre conduz a injustiças. Depois elas acabam levando a culpa pelos erros dos filhos. Dessa vez foi o zagueiro Maicon, do São Paulo F.C, ao comentar uma atitude do colega Rodrigo Caio. Foi no primeiro jogo da semifinal do Campeonato Paulista deste ano, contra o Corinthians, em pleno Morumbi.
Numa disputa de bola com o atacante Jô, do Corinthians, Rodrigo Caio tocou o pé do goleiro do próprio time, que também estava no lance. O árbitro não viu com clareza e acabou punindo Jô com o cartão amarelo. O atacante estaria fora do segundo jogo da final. Mas Rodrigo Caio fez questão de se acusar diante do árbitro, que revogou o cartão.
fair play foi exaltado pela mídia e por partes das torcidas, mas alguns colegas de equipe questionaram. Embora dizendo respeitar a atitude do parceiro, Maicon fez um comentário em tom de advertência: ”-É melhor a mãe dele chorando do que a minha em casa”, referindo-se à mãe do adversário Jô, beneficiado na situação. Mas será que a mãe de Rodrigo Caio chorou ao ver a atitude digna do filho? É ela, afinal, a principal suspeita de ter passado o ensinamento que se viu em campo.
Você já pensou o que sua mãe sentiria numa situação dessas? Veja bem, estamos falando de honestidade, de dignidade, num momento da história em que o brasileiro, mesmo eternamente desconfiado em relação aos políticos, se vê estarrecido pela desonestidade que a Operação Lava Jato está revelando. Muito além do que poderíamos supor. Apontamos diariamente o dedo para acusar mais e mais nomes da República. Manifestamos decepção e críticas implacáveis contra os políticos, cujas mães devem estar sorridentes. Ou estariam infelizes e desoladas pelo que se revela sobre o caráter de seus filhos?

É BONITO SER ESPERTO

Jô foi tão enfático ao defender a atitude do adversário – em seu favor – que até acabou revelando algo contra sí próprio: “-Ele foi homem de dizer a verdade”, afirmou à mídia depois do jogo. Mas no dia seguinte o meio campista Jucilei lembrou que, num jogo recente, contra o São Bento, o mesmo Jô do Corinthians cometeu um pênalti, mas afirmou ao juiz que sequer havia tocado no adversário. Ora, Jô estaria depondo contra a própria hombridade?
A conclusão é de que ser honesto é difícil e até arriscado. Isto é, pelo menos num país como o Brasil, onde a honestidade é exigida o tempo todo... dos outros! Tente avisar o garçom de que ele cobrou a menos na conta da sua mesa, quando estiver reunido com alguns casais amigos.
Há cerca de 20 anos uma série de TV chamada “Você Decide” apresentava situações ao público e pedia que telefonassem para escolher o final. Um caso levado ao ar era sobre dois homens, até então desconhecidos, lado a lado em um vôo. Um deles começou a se sentir mal e ao perceber que não resistiria, entregou ao outro uma mala cheia de dinheiro, suplicando que encaminhasse a uma determinada entidade beneficente, destinatária da doação. O confidente ocasional estava numa situação financeira difícil. A pergunta era: você entregaria o dinheiro ou ficaria com ele? Não houve a opção meio honesta – se é que honestidade pode ser parcial – de entregar parte para entidade e ficar com outra parte. Era cumprir ou trair. O final escolhido pela grande maioria foi ficar com o dinheiro e não entregar nada à entidade.
Naquele caso a decisão veio de uma amostragem anônima. Mas no caso recente em campo são vários os que fazem questão de manifestar a contrariedade publicamente. A “estética do mal” é sedutora a ponto de inverter o valor. Muitos gostam de exibir a esperteza, o anti-senso de justiça, como prova de maturidade, de preparo para a vida. Como nas conversas em festas e em mesas de bares, quando políticos são criticados. Em dado momento sempre aparece um que faz questão de desafiar os outros, como quem confessa orgulhosamente a própria opção imoral: “-Se você estivesse lá, não faria a mesma coisa?”

COLOCANDO À PROVA

O fenômeno parece ser global e não apenas brasileiro. As doses admissíveis de honestidade, no entanto, parecem variar. Hollywood já optou há tempo pela vingança como valor inescrupuloso exaltável. A palavra vende filmes e séries aos montes. Justiça sumária e feita com as próprias mãos também é campeã de audiência. Até os super-heróis do passado são resgatados com um caráter adaptado ao desonesto, como aconteceu com Batman e tantos outros.
Talvez seja necessário que as coisas aconteçam assim. Afinal o bem nos foi apresentado historicamente como sofrimento e perda. Principalmente pela cultura cristã, que nunca ofereceu a imagem de um santo sorridente e feliz. A Reforma Religiosa do Século XVI revelou mais acertadamente outra essência do cristianismo, cada vez mais recepcionada por diversas religiões.
Com o avanço das liberdades individuais estaremos colocando o bem a prova: ao ser honesto, mesmo cedendo em favor do outro, estaremos tornando o mundo melhor? A sua fé na humanidade e nos valores é que vai conduzir a sua resposta.
Por enquanto, as nações onde a ética e o respeito são mais valorados, apresentam os melhores indicadores de qualidade de vida. A violência é muito menor, a saúde física e mental dos cidadãos também, as pessoas convivem com mais facilidade. É o que se constata na Noruega, Dinamarca, Finlândia, países que encabeçam as listas da Transparência Internacional.
Por aqui os fatos parecem apontar na mesma direção. Embora o São Paulo F.C não tenha conquistado a vaga na final, a qualidade das equipes se equivale e uma opção oposta não garantiria a vitória. Foi o que se viu no clássico anterior, entre Corinthians e Palmeiras. Mesmo reconhecidamente superior ao Corinthians o alviverde recusou-se ao fair play e ajudou a expulsar injustamente um corinthiano que sequer participara da jogada. E mesmo com um jogador a mais viu o Corinthians vencer a partida, diante de um estádio abarrotado de palmeirenses.
Vale a pena cada um continuar a reflexão. A Lava Jato prossegue e vai nos trazer mais oportunidades para pensar. Pode ser mais esclarecedor deixar em paz as mães dos políticos e tentar entender a situação pelos olhos das nossas próprias mães.

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