O CONGESTIONAMENTO QUE NÃO APARECE NA TV


“-Então fica combinado: durante um mês a gente desliga todas as transmissões de TV para a Grande São Paulo, troca todos os canais para o digital e depois religa. Beleza!?” Seria mais fácil parar a Operação Lava Jato do que apresentar uma proposta dessas. O que resta como alternativa para o desligamento do sinal analógico de TV é alguma coisa como trocar um pneu com o carro andando. Pelo menos na Grande São Paulo, que engloba 38 cidades além da capital e concentra a maior quantidade de canais de TV no país.
Quem está encarregada da tarefa é a EAD – Empresa Administradora da Digitalização, criada por determinação legal para promover a transição do sinal analógico para o digital nas emissoras brasileiras. O capital da EAD foi todo bancado pelas empresas de telefonia, as teles, que vão ficar com algumas faixas de frequência que são usadas por emissoras de TV. Essas faixas estão em torno dos 700 MHz que, no atual momento tecnológico, são as melhores para a formação de serviços em redes de longa distância. As teles vão usar as novas frequências para expandir a Internet 4G no Brasil.
Essa mudança foi encaixada no calendário de desligamento do sinal analógico, ou switch off. Hoje, em quase todas as cidades brasileiras, cada emissora de TV transmite a mesma programação por um sinal analógico e também por um sinal digital. É o que se chama de simulcast. Assim o telespectador sintoniza de acordo com o aparelho que tem em casa. Com a transferência de parte da faixa para a Internet 4G o calendário de digitalização teve que ser adiantado em várias regiões. É aí que os detalhes técnicos fizeram muita diferença.

E ENQUANTO VOCÊ ASSISTE À SUA NOVELA...

As transmissões por radiofrequência precisam ser divididas em faixas, para que um sinal não interfira na qualidade do outro. É essa divisão de faixas de frequências que é chamada tecnicamente de “espectro eletromagnético”. Mais ou menos como as rotas aéreas. O espaço aéreo, de acordo com a altura, é dividido em rotas e cada rota é para determinado tamanho de aeronave trafegar.
No caso do espectro tem as faixas para rádio AM, outras para o FM, para TV, para celulares, rádios militares, etc, etc. A transmissão simultânea dos dois sinais, no caso das TVs, é provisória. Não faria sentido manter um único sinal ocupando dois canais do espectro. Por isso, nesse período de transição, os sinais digitais foram alocados em faixas de frequência nem sempre das mais adequadas. Já estava previsto que, dentro de alguns anos, o digital voltaria para a melhor faixa, com o desligamento definitivo do analógico. O que não estava previsto é ter o 4G em parte da mesma faixa.
Agora, além de voltar para uma faixa mais robusta, os sinais de TV vão ter de dividir espaço com o 4G. Na cidade onde tem mais emissoras isso cria uma espécie de quebra cabeças, mais ou menos como jogos de baralho do tipo “paciência” ou free cell. Para mover uma carta até o lugar em que ela precisa ficar é necessário ter espaço provisório para deixar as cartas que estão “atrapalhando”. Há regras específicas para usar os poucos espaços provisórios disponíveis.
No caso das TVs da região da Grande São Paulo não há espaço sobrando nas faixas mais concorridas do espectro. Precisa estudar quais sistemas de comunicação podem ser transferidos para faixas menos concorridas, abrindo espaço para as TVs e para o 4G. Depois de preparada toda a infraestrutura a mudança dos sinais é agendada para acontecer num exato momento.
O último fator complicador é o tempo. As teles pagaram bilhões ao Governo Federal para terem o direito de trafegar na banda de 700 MHz. O prazo termina em 2018.

UMA ADOLESCÊNCIA CONTURBADA

A TV brasileira está vivendo a “síndrome da digitalização”. Claro que a comparação não é com uma doença, mas algo parecido com uma adolescência. Um período de muitas transformações, incômodos e até dores, mas que conduz a uma fase de plenitude.
Foi assim em todos os setores da economia onde a digitalização já passou. A turma de cabeça branca lembra bem o que era fazer uma ligação telefônica entre cidades no começo dos anos 70. Ou obter um extrato bancário no final daquela década. E fazer uma declaração de renda há 30 anos? Em todos esses setores houve remanejamentos, extinção de cargos, criação de outros, suor e lágrimas porém, o progresso alcançado é inquestionável.
A digitalização da TV em todo mundo pode ser uma mudança mais radical ainda. Porque a adolescência da TV aberta deve conduzir diretamente à velhice. Sim, o que existe em termos de TV digital aberta no mundo é algo que já ficou velho, diante dos avanços da Internet. Os horizontes estão no ATSC 3.0, sistema de TV aberta que a associação americana de emissoras desenvolveu com parceiros coreanos e deve ser lançado este ano, nos Jogos Olímpicos de Inverno.
A outra alternativa está na tecnologia cloud. São servidores espalhados pelo mundo para armazenagem e gerenciamento de dados, que incluem muitos tipos de conteúdos. Esses sistemas estão evoluindo tanto que podem simular emissoras e até operadoras de vários canais por assinatura, tudo via OTT. No caso dessa tecnologia a grande vantagem é que aumenta muito as possibilidades de novos modelos de negócios na TV aberta. E esta é a questão decisiva para consolidar qualquer tipo de inovação.

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