NOVA POLÍTICA AMERICANA E A COMUNICAÇÃO DE MASSA


Enfim, um homem de televisão na presidência dos Estados Unidos! O que isso deveria significar para o setor? Afinal a televisão está numa encruzilhada histórica, com ônus e bônus de novas tecnologias, vindas de todas as direções.
Por enquanto, para o grande público, a única coisa que ainda lembra Donald Trump na televisão é a desenvoltura com que ele dava as más notícias aos seus aprendizes: “-Você está demitido!” O novo presidente parece agora querer repetir a mesma sentença contra todos os “fantasmas” que lembrem o estilo Barack Obama. E já começou a faze-lo também na FCC, a entidade do governo americano que regula o setor de telecomunicações, semelhante à Anatel aqui no Brasil. Para o lugar de Tom Wheeler, chairman da FCC na gestão anterior, Trump escalou Ajit Pai. O que começa a ser anunciado é um retorno às práticas que favorecem os grandes do mercado.
Wheeler estava empenhado, por exemplo, em padronizar um único set top-box para todas as companhias de TV por assinatura do país. Facilitaria para o consumidor, que sempre pagou o set top-box e a rede exclusiva de cabos da operadora de TV que escolhe. No modelo proposto por Wheeler o set top-box padronizado deixaria os clientes muito mais à vontade. Poderia mudar de operadora sem ter que comprar outra caixa. Mas Pai está acolhendo um pedido de políticos republicanos para esquecer essa mudança. Também na Internet as grandes comemoram a chegada de Trump ao governo.

A ESTRATÉGIA COMERCIAL ZERO-RATING

Por enquanto o assunto que mais chama atenção na FCC quando se trata de Internet é o chamado “zero-rating”. Um tipo de acesso gratuito à Internet que empresas do setor oferecem, porém, limitando a navegação a um conjunto de sites de interesse da empresa. Isso ofende o princípio da neutralidade da rede e prejudica os objetivos de uma Internet pluralista.
Só empresas grandes têm condições de oferecer toda a infraestrutura para o acesso sem cobrar nada. Óbvio que não fazem isso por puro espírito caritativo. Assim sufocam a concorrência das pequenas e fecham todo um mundo virtual, para entregar aos incautos apenas alguns “bairros” para navegar. A FCC tinha se posicionado contra essa prática e criticou a AT&T pelo DirectTV Now, que se encaixa nesse modelo. Com a chegada de Pai a AT&T se declarou otimista e já anunciou que vai expandir o zero-rating por meio de outros projetos.
Essa postura atual da FCC agita todo o setor de comunicação de massa, e isso não é um trocadilho. O momento para a indústria da televisão é muito delicado. O ATSC 3.0, sistema de radiodifusão aberta desenvolvido pela NAB – a associação americana de broadcasters, deve estrear neste ano na Coreia do Sul, nos Jogos de Inverno. A parceria coreana, neste momento, deve estar tranquilizando bastante os empresários da NAB.
O ATSC 3.0 promete colocar no ar, na mesma banda de 6MHz, imagens 4K (UHDTV), canal de retorno para o telespectador, distribuição customizada dos comerciais, tudo gratuitamente, no modelo TV aberta. Isso pode desequilibrar a disputa que TV aberta e TV por assinatura estão em vias de encarar, uma contra a outra, no mercado americano. O grupo de consumidores cord cutter – que estão trocando a TV paga pela aberta, com apoio do OTT (tipo Netflix) para a programação premium – pode crescer muito rapidamente com o ATSC 3.0. E, como todos sabem, a comunicação de massa tem um peso político preponderante nas nações em geral. Nos EUA, a tradição da TV por assinatura parece pender para o lado do grupo de Trump. Como isso poderá interferir?

“OU ESTÁ CONTRA OU ESTÁ A FAVOR”

Neste momento é importante atentar para a situação histórica sem precedentes. Ela possivelmente exigirá cuidados que nunca foram adotados antes, justamente por ser inédita. É prudente encarar a realidade de que o cidadão Donald Trump não é apenas o empresário fanfarrão, o candidato sem papas na língua. Ele agora é o presidente da nação mais poderosa do mundo.
Em dez dias de mandato ele já havia acumulado confusões com a União Europeia, com a ONU, com países de maioria muçulmana, países vizinhos e até com a mais premiada estrela do cinema americano. E não teve nada light nesses atritos. Cogitou-se invasão do México, viu-se um êxodo de cidadãos americanos para o Canada, o Presidente do Conselho Europeu classificou o Presidente Americano como uma “ameaça à UE” e o Embaixador americano anunciado tende a ser rejeitado pelo Parlamento Europeu. Na ONU, a Embaixadora Nikki Haley, recém indicada, assumiu seu posto fazendo ameaças públicas e dividindo o planeta entre nações que apoiam os EUA e nações que prejudicam os americanos: “-Vamos anotar nomes”, advertiu, sem reconhecer a possibilidade de protagonistas neutros.
Fica difícil elogiar algo ou alguém que se proclama fechado unicamente com os próprios interesses. Porém, vociferar contra não deve ser uma missão de todos que rejeitem a adesão. Até nas guerras há quem lute trocando tiros, mas há também os que lutam na diplomacia, ou simplesmente produzindo alimento para as tropas. Todos lutam em seus respectivos espaços. Empresas em geral devem refletir muito sobre a abordagem que pretendem adotar neste delicado momento histórico.

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