sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

COM QUANTOS PACOTES SE FAZ UMA BOA CRISE


Crise econômica é uma novidade para uma parte razoável do mercado de trabalho brasileiro. Mas, para essa turma que está se aposentando agora, tem até um gostinho de volta à rotina. É um pessoal acostumado a “pacotes econômicos”, panaceias fiscais ou financistas que se encaixam no sofisma “conjunto de medidas capazes de tirar o país da crise”. Isso era comum no Brasil há pouco mais de 20 anos.
Os gestores políticos nunca pensam em mudar a estrutura produtiva do país para resolver a crise, porque sabem que vai demorar muito. Porém, a história recente mostra que as mudanças estruturais podem trazer resultados consistentes em menos tempo, porquanto os remendos empacotados só mudam temporariamente as características de uma crise que nunca acaba.
O aumento da produtividade é uma das mudanças estruturais da qual não se pode escapar. Significa produzir mais com os mesmos recursos. Se o recurso Internet é importante para uma empresa, a produtividade tende a crescer se a velocidade de conexão for maior. E você conhece alguma empresa onde a Internet não tem nenhuma importância? Nesse mundo virtual o Brasil anda de carroça. Somos o 87º país do mundo em velocidade na rede, segundo o ranking global Akamai que avalia 242 países.

ISSO É DA SUA CONTA

De acordo com o levantamento da Akamai a velocidade média de conexão no Brasil é de 5,5 Mbps (Megabytes por segundo). A média mundial é maior, 6,3 Mbps. Mesmo aqui nas Américas, onde somos a segunda maior economia, ficamos em sexto lugar em velocidade na Internet. A velocidade média mais alta do mundo, pelo segundo ano seguido, é da Coréia do Sul, quase 5 vezes maior do que no Brasil. São 26,3 Mbps. Por aqui, conexões com mais de 10 Mbps são um privilégio restrito a menos de 15% da população.
E não é por falta de interesse. O último levantamento do IBGE tem dados de 2015 – olha só como se perde tempo – e mostra que o número de pessoas conectadas no Brasil, com mais de 10 anos de idade, já ultrapassou os 100 milhões. Se todo esse pessoal se comunicasse na metade do tempo, a produtividade da economia brasileira cresceria visivelmente. Mas, ao que parece, ninguém está preocupado com isso. Nem as teles, que são muito bem pagas pelos internautas e nem os órgãos oficiais responsáveis pela governança do sistema no Brasil.

O PODER SOBRE A REDE

E por falar em governança, teremos desafios sérios no próximo ano. No âmbito nacional as teles, empresas que operam a telefonia no Brasil, não parecem empenhadas em abrir mão do título de campeãs isoladas de reclamações de clientes. Entopem os registros do Procon, dos tribunais de pequenas causas, de grandes causas e de recursos administrativos.
Isso já seria um sinal nada discreto de que a governança do setor pela agência responsável – a Anatel – é precária. Nem por isso deixamos de assistir aos nossos parlamentares, em nível federal, dando de ombros para a situação. Nos intervalos de discursos sobre a gravidade da crise, desceram da tribuna para tentar aprovar um “pacote de bondades” para as operadoras. Coisas como cancelamento de multas por má conduta, que somam mais de bilhão de reais, doação de redes físicas e outras coisas “básicas”, que você pagou com o suor e com o nariz de palhaço do seu rosto.
No nível internacional, em relação à Internet, há uma preocupação com o que pode acontecer na alternância política americana. Desde outubro passado a gestão técnica da internet está mais distante do governo dos Estados Unidos. Depois da abertura da “grande rede” para o mundo civil a Autoridade para Atribuição de Números da Internet – IANA, na sigla em inglês, passou a ter um contrato com o ICANN, um tipo de estatal do governo americano para tratar de endereços na Internet, dentre outras coisas.
A criação da ICANN fez parte das providências dos Estados Unidos para expansão da rede pelo mundo. E previa essa transferência de poderes para 2018. Com o caso Snowden, Barack Obama sofreu forte pressão para antecipar essa desvinculação, como prova de que a privacidade na Internet era real. E isso ficou definido em primeiro de outubro, com o encerramento do contrato entre a ICANN e a IANA.
Os republicanos, que venceram as eleições com Donald Trump, sempre foram contra essa antecipação e tentaram, de várias formas, impedir que acontecesse. Já aconteceu, mas eles vão entrar na “cabine de comando” em menos de um mês.
Não é de todo impossível que o próprio Snowden, que está foragido dos tribunais americanos na Rússia, seja um presente de posse a Trump, fã confesso e amigo do mandatário russo. Quando se trata de governar, o novo presidente dos Estados Unidos parece não gostar de abrir mão de nada.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

TRINCHEIRAS E DIPLOMACIA EM BUSCA DE JUSTIÇA


O gigante Golias nunca quis conversa com o jovem Davi. Mas hoje, num mundo que já viveu tantas lições e transformações, seria mais provável encontrar os dois trocando ideias num almoço de negócios. Foi mais ou menos isso que se viu no último Painel Telebrasil, ao final de novembro. As teles (operadoras de telefonia) falaram dos OTTs (serviço “over the top”, tipo Netflix) como potenciais parceiros, que estão explorando um segmento do mercado. Há dois anos, um só pronunciava o nome do outro para reclamar nos órgãos oficiais.
O assunto é particularmente interessante porque esses serviços têm afinidades tecnológicas muito fortes, mas modelos de negócio muito diferentes. A telefonia talvez tenha sido o primeiro grande segmento empresarial a migrar “em massa” para a tecnologia digital. Com as centrais telefônicas de processamento as teles reduziram o espaço de suas instalações em pelo menos 10 vezes. Os custos de operação caíram drasticamente, como também os de manutenção. O público, que à época não sabia sobre a economia que a digitalização representa, pouco exigiu alguma redução tarifaria. No caso da telefonia móvel, o mesmo enredo, em menos tempo.
As teles se acostumaram a ganhar muito, com risco baixíssimo. O investimento alto era mais destinado à infraestrutura. Foi o que abriu caminho para se tornarem as maiores provedoras de banda larga no Brasil. Elas construíram os maiores e mais importantes tentáculos da Internet, viabilizando o surgimento de um mundo virtual, o futuro que chegou depois do digital.

MAIS PRÓXIMO DA REALIDADE

No Painel Telebrasil representantes das grandes do setor encerraram a fase do “faz de conta que eu não entendi”. Deixaram de lado aquele discurso ingênuo, onde as referências do mundo real eram as bases de comparação com o virtual. Eduardo Navarro, Presidente da Telefônica no Brasil, comparou a disputa Teles X Internet ao que os taxistas estão vivendo com a chegada do Uber, ou ao que os hoteleiros estão sentindo a partir da chegada do Airbnb. Para o executivo, trata-se de um fenômeno que está afetando a todos. Alguns segmentos já foram atingidos em cheio, outros ainda não, mas é uma questão de tempo. Um discurso em tom de paz, porém, com sutil ameaça subjacente. Por exemplo, quando as teles lembram a necessidade das redes físicas, que elas mantêm, e que são indispensáveis para a Internet trafegar e existir.
O Vice-presidente de Vendas da Nokia, Luiz Tonisi, chegou mais claramente ao que ainda parece ser uma convicção das operadoras. Ele acha que as teles precisam ficar com parte dos lucros dos serviços OTTs. Nada mal para uma indústria que tem vínculos simbióticos com as grandes da telefonia. Afinal, elas são as principais vendedoras de celulares, como os que a Nokia fabrica.
Deve ser mesmo difícil, para quem se acostumou a ganhar tanto, ter que olhar para seus documentos constitutivos e confirmar a natureza do seu negócio: provimento de sinais eletromagnéticos. Se os produtos decorrentes agora são menos rentáveis, ou preferem crescer num outro mundo, é porque a evolução da sociedade humana está fazendo assim.

DEVER E HAVER NUM ÚNICO BALANÇO

Essa disputa, que parece estar passando por um cessar fogo temporário, tem pelo menos dois pontos muito claros. O primeiro diz respeito a alguns sofismas que as operadoras de telefonia sustentam há tempo, como “acesso ilimitado” e altas velocidades de transferência. Os hábitos mais comuns de navegação na Internet, no passado, demandavam muito pouco acesso, até que o Netflix chegou. Para quem vende conexão, a saída seria acabar com o “ilimitado” e passar a vender mais tempo de conexão. A velocidade, que nunca chegou perto do que o consumidor paga, deveria finalmente passar a ser entregue honestamente. Quanto aos outros negócios que elas penduraram em suas redes, para otimizar a infraestrutura, não são problemas do consumidor. Mas não foi assim que as operadoras se acostumaram. E agora executivos dessas empresas vão ter que convencer os acionistas de que as coisas não são mais como antes.
O segundo ponto a ser considerando é a necessidade de isonomia entre os agentes do mercado. Isso precisa ser dito em favor das teles. A Internet ainda não existe para os códigos tributários e se isso não for resolvido, o mundo real pode ter sérias consequências. No ritmo em que os negócios estão migrando para a Internet, em breve muito pouca gente vai pagar imposto.
As empresas baseadas em plataformas OTTs pagam apenas o ISSQN, imposto municipal que chega, no máximo, à alíquota de 5%. Os serviços de TV por assinatura, como os que as teles operam, além do ISSQN pagam o ICMS, estadual, normalmente acima de 20%. Sem contar outras taxas, como a Condecine. Há ainda muitas outras responsabilidades, fora do contexto fiscal, que não recaem sobre os serviços OTT.
Sem corrigir essa discrepância de tratamento numa mesma sociedade, vai ser difícil esperar que agentes econômicos se conformem com a inexorável seleção natural dentro dos mercados.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

AS PROVAS DE FOGO DA INOVAÇÃO


Inventar uma coisa é uma coisa. Inventar um grande negócio com aquela coisa, é outra coisa. A maioria das pessoas ainda não atentou para essa diferença e acredita que um grande invento é o ponto final de uma história de riqueza. A própria história é cheia de exemplos contrários, alguns bem curiosos.
Imagine um filme de época, ambientado nas Minas Gerais, nos tempos da Inconfidência. O poeta revolucionário Tomás Antônio Gonzaga está a declamar seus versos à Maria Doroteia Joaquina de Seixas, sua amada. Ao final, em pleno clímax do romance, ele a convida para tomar um refrigerante. Pois é, você iria achar que virou piada, mas nos tempos de “Marília e Dirceu”, já havia sido inventado o refrigerante. Mais exatamente em 1772, quando o químico inglês Joseph Priestley desenvolveu uma forma de gaseificar a água e fez o primeiro refrigerante.
Só cerca de 100 anos mais tarde é que surgiu a primeira indústria de refrigerantes. Então virou um grande negócio, com sede nos Estados Unidos. Durante esse tempo todo a bebida era produzida apenas artesanalmente, por farmacêuticos, que eram hábeis com a química. Depois da primeira indústria as coisas foram bem mais rápidas. Quinze anos mais tarde foi inventada a Coca Cola. Mais 7 anos e surge a Pepsi. Daí, com duas gigantes brigando, já viu. O negócio se internacionalizou e está aí até hoje.
Na Tecnologia da Informação não é diferente. O intervalo entre a invenção e o negócio é bem menor, afinal o relógio corre muito mais rápido quando tem bits pelo meio. Mas a sequência de fatos parece manter o protocolo de sempre.

INVESTINDO PESADO POR UM LUGAR AO SOL

O caso em questão é a indústria do VOD – Vídeo on Demand, um negócio que surgiu numa vídeo locadora americana, há cerca de 10 anos. O dono resolveu enviar pela Internet tudo que os clientes queriam ver e assim surgiu o Netflix. Só no Brasil, onde chegou em 2011, já são mais de 6 milhões de assinantes. Por enquanto, perde apenas para a NET, a maior e mais tradicional TV a cabo do país, que tem 7 milhões de clientes. O faturamento do Netflix no Brasil já passa de R$ 1,2 bilhão por ano, mais do que algumas das grandes redes nacionais de TV aberta.
Por aí já daria pra afirmar que a invenção foi boa e o negócio muito bem resolvido. Mas a prova definitiva de que esta inovação veio pra ficar foi a entrada de uma gigante da Internet no mercado VOD, com um grande investimento e uma estratégia de vendas agressiva. É o Amazon Prime Vídeo, que traz no nome uma grife de peso do e-commerce internacional. A base operacional recém montada é para atender todo o atual mercado do Netflix, o que soma mais de 200 países, com um total de 40 milhões de assinantes, sem contar os Estados Unidos. E mais, o preço de lançamento da assinatura mensal da Amazon é de US$ 2,99, menos de R$ 10,00 no câmbio atual e cerca de metade da assinatura do Netflix.
Está muito claro que a Amazon tem planos ambiciosos para o mercado VOD e está disposta a bater de frente com o Netflix e outros concorrentes menores.

DOMÍNIO DE PONTA A PONTA

De certa forma, o que se vê nessa disputa pode ser interpretado como um passo histórico no negócio do tipo TV. Ela chegou aos lares do mundo todo, em princípio, como exibição doméstica das produções do cinema. Com o tempo surgiram os programas jornalísticos, transmissões esportivas, o entretenimento – desde os auditórios até os shows especiais – e outras experiências menos duradouras. O cabo rompeu os limites de alcance via espectro eletromagnético e agora, com o VOD, parecem ter caído por terra todos os limites anteriores.
A distribuição de conteúdo no modelo OTT, voando pela Internet, não exige manter infraestrutura de telecomunicações. Pela forma de comercialização e pelo modelo de negócio inusitado, o VOD também não pode ser encaixado em faixas tributárias. São indicadores de que muita gente vai acabar entrando nesse mercado, materializando o fantasma que ameaça a TV por assinatura.
A disputa vai acontecer, mesmo, na geração de conteúdo. Um passo muito acertado do Netflix ao inventar o modelo. As séries e produções exclusivas são diferenciais que vão determinar quem vai se manter no mercado ao longo do tempo. Lembrando que o Netflix surgiu de uma vídeo-locadora, que é uma das pontas dessa cadeia econômica, é importante notar que agora ele se firma no outro extremo, onde é produzido o conteúdo. E com o nível de qualidade top da indústria cinematográfica.
Pois bem, estúdios de Hollywood que se cuidem. O VOD via OTT está verticalizando toda a estrutura, da produção à entrega domiciliar do conteúdo. Mais do que isso, a entrega é pessoal, uma vez que a exibição pode acontecer em dispositivos móveis.
Não é o caso de dizer que as salas de cinema vão desaparecer, porque continuam agradando enquanto evento público, uma oportunidade de convivência social. Mas o grande peso dos investimentos em produções sofisticadas está ganhando players que conhecem mais de perto o mercado insaciável de consumo de vídeo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

PODER E ÉTICA NO USO DA TECNOLOGIA


“Desarmado e perigoso”! Se não for o MacGyver, personagem da lendária série de ação e aventura da TV, só pode ser um policial londrino. A tradição da Scotland Yard, de não usar armas de fogo no policiamento metropolitano de Londres, exigiu do efetivo atributos pessoais e alguns acessórios capazes de intimidar malfeitores. No caso dos acessórios, o mais recente é a câmera de vídeo. Isso mesmo, o que deveria ser equipamento para determinados níveis de oficiais, agora faz parte do uniforme de toda a corporação.
Durante o período de um ano em que foram testadas, as câmeras demonstraram quase um “poder de fogo” no policiamento. Num país onde as leis são levadas mais a sério, alguém que se proponha a transgredir vai pensar mais antes de se expor a provas incontestáveis de som e imagem. Não dá para arriscar na criatividade e contrapor a própria palavra contra a dos policiais, diante do juiz. A verdade ou não sobre eventuais abusos de poder dos policiais também preocupa menos, uma vez que caíram em 90% as reclamações desse tipo depois das câmeras.
Todo o efetivo que faz o policiamento de rua, ou seja, cerca de 22 mil policiais, agora são olhos atentos e programáveis de toda a polícia. Com essas novas câmeras em Londres, agora são mais de 7 milhões de câmeras, entre fixas e móveis, por toda a Inglaterra. É quase uma câmera para cada 10 habitantes. Uma verdadeira nuvem de câmeras sobre o reino de Elisabeth.

GRAVAR NÃO É NADA, PERTO DE GERENCIAR AS INFORMAÇÕES

No jargão tecnológico, é exatamente uma nuvem de câmeras, pelo menos em Londres. Só um sistema do tipo Cloud Computing seria capaz de viabilizar e dar efetividade a esse tipo de vigilância. A quantidade de informação que 22 mil câmeras geram por hora, dos mais diversos pontos de uma metrópole como a capital inglesa, é algo colossal. Quanto maior a capacidade de gestão dessas informações, mais eficiente será a segurança.
Em princípio, as imagens podem ser usadas para comprovar delitos e o correto procedimento dos policiais. Elas ficam arquivadas por 30 dias, podendo ser descartadas depois desse prazo. Porém, numa determinada emergência, uma plataforma desse tipo – como a EiTV CLOUD – pode selecionar as câmeras de todos os policiais que estejam próximos ao local. A vigilância passa a ter uma abrangência maior do que a atenção do policial que está presente. Por questões estratégicas, possivelmente as corporações policiais que adotam câmeras não divulguem todo o potencial do sistema. Mas até o escaneamento de imagens de objetos e pessoas poderá ser utilizado para identificação de ameaças.
Policiais americanos, em determinadas regiões, também já utilizam câmeras pessoais automáticas. As vantagens que esse recurso vem comprovando vão fazer com que, em pouco tempo, polícias do mundo inteiro também adotem. Logo, logo chega por aqui. E, se usado com competência, o sistema vai fazer funcionar a nuvem de tempo bom nas grandes cidades brasileiras.

UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA

Como nada que aqui se inventa é tão perfeito, o poder de vigilância desses sistemas está sendo questionado pela invasão que representa à privacidade dos cidadãos. Na medida em que aumenta a capacidade de interação dos vários bancos de dados posicionados nas nuvens computacionais, uma pessoa pode ter todos os seus passos vigiados.
As leis já começam a estabelecer limites e, com certeza, vão exigir configurações compatíveis nesses sistemas. O uso de alguns recursos como, por exemplo, rastrear a presença de determinada pessoa, só poderá ser autorizado por oficiais de alta patente. Mesmo assim, mediante justificativa documentada em relatório.
Por outro lado, tratando de forma anônima os transeuntes, esses dados podem contribuir para outros setores, como mobilidade urbana, geração de lixo, informações meteorológicas.
A tecnologia está gerando mais e mais poderes. E, em geral, poderes podem ser usados para o bem ou para o mal. Na medida em que o uso indevido vá sendo identificado, cabe aos desenvolvedores criar ferramentas eficazes de controle. Isso deve tornar a ética um atributo cada vez valorizado entre os profissionais da área.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

OS HERÓIS E A CHANCE DE OVERDOSE


O que é, o que é? Serviço de uso pessoal que em um ano, no Brasil, teve mais de 29 milhões de contratos rescindidos. Se você disse “linha de telefone celular” você acertou (ou quase!). Muitos até pensaram nisso, mas devem ter mudado de ideia porque, até há pouco tempo, a quantidade de linhas de celular só aumentava. Cair tanto assim, em tão pouco tempo, parece impossível. Mas caiu. É mais uma lei da natureza que se impõe sobre a força da tecnologia e os poderes do mercado. Foram mais de 29 milhões de linhas desativadas. O “quase” é porque as linhas desativadas eram pré-pagas. As pós pagas cresceram em 5,87% no mesmo período, uma boa taxa, mas que não consegue superar, nem de longe, os 14,3% de redução nas “pré”.
Um mergulho em alguns números desse mercado vai ajudar no raciocínio: depois desses 29 milhões de linhas desativadas, sobraram no Brasil cerca de 175 milhões de linhas pré-pagas. Representam praticamente 70% da telefonia móvel no país, sendo que os 30% restante são celulares pós-pagos. No total, são 251 milhões de linhas ativas. Considerando que o Brasil tem cerca de 210 milhões de habitantes – lembrando dos bebês, crianças abaixo da idade escolar, pessoas muito idosas e outros que não fazem parte do mercado – ainda é muita linha para as pipas das operadoras.
O fato é que a tendência continua sendo de queda. Um viés que se estabeleceu há quase um ano, quando o país caminhava para 280 milhões de linhas ativas. Até então, o saldo mensal só crescia. Os agentes desse setor já detectaram alguns motivos para o que está acontecendo a partir de então.

SE O CRITÉRIO É A ESPERTEZA, ATENÇÃO REDOBRADA

Hoje a crise tem um pouco a ver com tudo, aparece até em horóscopo. A situação das operadoras não é diferente. Elas pagam, entre outros, um tributo anual por linha ativa. Diante do aperto decidiram cancelar de uma vez várias linhas que quase nunca acrescentavam crédito, só recebiam chamadas. Só não pode esquecer que a situação foi criada a partir das estratégias das próprias empresas do setor, que mudavam sempre a relação com o consumidor.
Houve um tempo em que a oferta da vez era falar de graça entre linhas da mesma operadora. Talvez a aposta fosse que o assinante tentasse convencer os amigos a mudarem de operadora, divulgando vantagens oferecidas. Só que, na prática, o usuário pré-pago se virou comprando chips de outras operadoras, para trocar no aparelho, de acordo com o interlocutor a ser chamado. Apareceu até um monte de modelos de celulares com suporte para mais de um chip. Isso fez com que 90% das ligações passassem a ser entre linhas da mesma operadora.
A “barbada” agora são os “planos com minutos para outras operadoras”, o que tornou desnecessários tantos chips. Outro fator de redução de linhas pré-pagas são os chamados planos controle, onde o pacote de dados – o acesso à Internet – fica mais barato. Pronto! Taí o WhatsApp e a gangue toda de aplicativos para chamadas de voz via Internet, sem pagamento de impulsos. É assim que o assinante múltiplo está acabando, descartando chips inúteis e reduzindo o total de linhas ativas. E é assim que os caros impulsos da telefonia móvel estão diminuindo. O que você acha que faltou na estratégia das operadoras? Há controvérsias.

A QUALIDADE FIDELIZA OS CLIENTES

Um negócio transnacional, de alta tecnologia, que movimenta bilhões de cifrões diariamente. Não poderia ser algo tão simples de ser analisado, sobre o qual haveriam conclusões fáceis e evidentes. Porém, partindo-se do histórico brasileiro no setor, fica menos difícil conjeturar.
Telefonia, fixa e móvel, era um monopólio governamental no Brasil que precisaria ser privatizado. Assim foi, transferindo-se monopólios para empresas privadas. Uma insensatez! Começaram por reduzir custos, descartando aqueles empregados “chatos, cheios de protocolos técnicos”, que só impunham custos à empresa. As tarifas altas, que vislumbravam uma redução no ambiente de mercado, acabaram por ser majoradas. Afinal, se quiser, é isso. Se não quiser, também é só isso, não existia concorrência. E o consumidor cada vez mais acostumado a pagar caro por um serviço de baixa qualidade.
Foi nesse ambiente onde, depois de alguns anos, passou a haver concorrência. O preço se tornou o único critério de disputa, uma vez que a má qualidade já fazia parte da “cultura” desse serviço no Brasil. Os governos, em seus respectivos níveis, alucinados com o oportunismo tributário, coonestaram a estratégia de crescimento a qualquer preço, reduzindo custos em detrimento da qualidade dos serviços. Estão aí os Procons, Brasil afora, para comprovar.
Agora, com o calo apertado, as “teles” – é o apelido das operadoras – se voltam contra a tributação. Dizem que o custo do serviço que oferecem está entre os mais baixos do mundo, e é o imposto que aumenta tanto o preço final para o consumidor. O baixo nível de qualidade com certeza leva a crer que o custo dos serviços é mesmo baixo. Mas dizer que apenas os impostos encarecem é um contrassenso.
A UIT – União Internacional de Telecomunicações já apontou que a tarifa da telefonia móvel no Brasil está entre as mais caras do mundo. O órgão que representa as teles contesta, dizendo que a variedade de opções de plano oferece um preço médio nacional muito menor. Porém, não contam as trapalhadas que fazem nas contas telefônicas a partir dessa profusão de planos complicados. Mais uma vez, os Procons que o digam.
Operadoras confiáveis, oferecendo serviços de qualidade, com tarifação simples e preços justos, possivelmente fidelizariam muitos clientes e estariam mais tranquilas nesses tempos difíceis.