sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

UMA NOVA MANEIRA DE VENDER


O intervalo entre um sonho cinematográfico e a realidade diminuiu muito. A ponto de lançar um sinal de alerta para compradores compulsivos. A tecnologia já existe há tempo, mas foi levada às últimas consequências por uma startup da Espanha. É o Touchvie, um aplicativo de smartphone que transformou mais de 1.000 títulos de Hollywood e dez séries de TV, no que pode ser considerado o maior e mais interessante catálogo de compras do mundo.

Do lado de cá da tela da TV, a coisa é muito simples, como tinha que ser. Você está assistindo, por exemplo, House of Cards - uma das séries disponibilizadas - e Claire Underwood, personagem de Robin Wright, está usando um blaiser encantador. Basta abrir o app em seu celular, aguardar ele identificar o programa e a cena através do microfone, selecionar o blaiser da Claire, clicar em "comprar" e uma relação de lojas conveniadas aparece na tela para você comparar o preço. O mesmo para um colar ou qualquer coisa que esteja em cena. Este é o grande trabalho que ficou do outro lado da tela. O sistema do Touchvie reconheceu e indexou mais de 10 milhões de itens, presentes em todo o acervo e associou aos respectivos parceiros varejistas, que podem oferecer, no mundo real, qualquer encanto da tela. A grande praticidade para o telespectador é que o sistema reconhece cada um dos itens automaticamente, inclusive os cenários naturais, para indicar um pacote turístico até aquele local paradisíaco do filme que marcou a sua vida.

O QUE ISSO PODE MUDAR


A estreia do sistema é recente, não tem nem três meses. Se pegar, pode trazer novas fontes de receita para serviços de vídeos gratuitos, como é o caso da TV aberta. Afinal, além de anunciar na TV, as empresas poderiam aumentar suas receitas com as vendas geradas pelo aplicativo. O intervalo comercial não iria mais interromper a programação, mas estaria lá, aos montes, ocultos, aguardando simplesmente o desejo do telespectador.

No próximo mês de abril o Touchvie deve estrear nos outros países da Europa e nos Estados Unidos. Vai ser a grande prova fogo. Pouco se sabe sobre outras estratégias que os usuários pretendem associar ao sistema, o que permite, por enquanto, fazer várias conjecturas. Se um novo hábito de consumo surgir dessa experiência, vai ter gente que vai assistir a filmes de maneira muito diferente. Pra não pegar mal, muitos vão se declarar cinéfilos tão atentos, que perscrutam cada detalhe do figurino. Outros vão dizer que adoram avaliar a direção de fotografia nas grandes paisagens. O enredo pode até passar despercebido. Quem sabe, você vai ouvir a sua esposa pedindo pra você assistir "Joy - O Nome do Sucesso" só pra saber onde encontrar os óculos escuros que a personagem de Jennifer Lawrence usa naquela manhã cheia de neve?

Isso sem contar o que os produtores podem fazer dos próximos filmes, caso esse tipo de marketing funcione. Os menos sutis podem insistir em cenas fechadas em garrafas de licores ou em sapatos femininos, só porque já sabem quantas grifes estariam interessadas em ilustrar as sequências com as peças da marca, pagando muito por isso.

"MADE IN BRAZIL" NÃO VALE? 


O curioso disso tudo é que esta possibilidade já está disponível. Se você pensou que se trata de mais um recurso do Ginga, acertou! É verdade que fica um pouco menos prático para o telespectador porém, para a emissora que coloca uma novela em exibição, fica muito mais simples. A diferença é que o Ginga não tem o poder de identificar cada detalhe na cena. E nem precisa. Com o controle remoto do set-top box (ou conversor, como é mais conhecido), ao clicar em uma cena aparece um menu com os itens em exibição. Dai é só você escolher o que quer e tudo passa a ser tão prático quanto no Touchvie. O grande trabalho que vai ter a mais é abrir o menu.

"-Ah, mas até desenvolverem um aplicativo para isso..." Ops! Só falta corrigir o tempo verbal: até desenvolveram um aplicativo para isso. Foi a EiTV e está no ar na Rede Vida. O detalhe é que o aplicativo da casa, que roda sobre o Ginga, é mais prático e um pouco mais completo. Ao ver o que você quer comprar na televisão, aparece ao lado um QR Code, como na ilustração. Com um smartphone qualquer, basta enquadrar o QR Code e cair direto no site do varejista, exatamente no item que você deseja.

A partir de abril, vamos ver o sucesso que o Touchvie pode alcançar. Vamos ver e ouvir o que especialistas vão falar sobre as reais perspectivas que o novo aplicativo pode trazer para o mercado. Se bater aquela sensação de que estivemos sentados o tempo todo em cima do tesouro, mas não ganhamos porque não acreditamos no Ginga como grande solução tecnológica - só porque é brasileiro - então vamos lembrar mais uma vez de Sérgio Buarque de Holanda falando do "complexo de vira lata" que o brasileiro precisa superar. Quem sabe, o caminho dessa superação, não vai começar por um esforço do setor para popularizar o Ginga?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

MAIS FORÇA PARA O FUTURO


O Brasil é o quinto maior país do mundo. Hoje essa afirmação nem precisa de mais detalhes porque, além do território, a nossa população também é a quinta maior, pelo menos na atualidade. Na Economia, já estivemos em sexto, mas em outros rankings chegamos ao primeiro lugar. Falando apenas dos bons primeiros lugares, um deles é no serviço de TV aberta. Nenhum outro país tem a preferência tão marcante pelos canais gratuitos.

Pra quem é do tempo em que garoava em São Paulo, não é difícil lembrar de notícias do tipo: "a partir de hoje o sinal da nossa emissora também está chegando a mais uma cidade!" Lá vinham aqueles nomes estranhos, de cidades desse Brasil tão grande, multicultural. A conta dessas expansões às vezes ficava para a emissora, às vezes a prefeitura da cidade ajudava, ou assumia tudo. Ia assim. A radiodifusão desbravou os ares brasileiros sem que o telespectador colocasse a mão no bolso. Nos países que adotaram o modelo americano, de canais a cabo, eram os assinantes que bancavam essas expansões. Onde existia demanda, a TV chegava, porém com um sinal melhor e muito mais opções de canais.

Veio a TV digital e parece que ficamos numa boa! A qualidade do sinal aberto chegou no limite máximo, as opções aumentaram muito com os set-top boxes. Será que vai ser tão fácil assim?

CAPÍTULOS DA MESMA NOVELA


Não vale olhar pelo lado de que a história que vai ser tratada aqui é velha. Porque a ação de alguns protagonistas faz tudo começar de novo a cada lance. O desligamento do sinal analógico da TV aberta estava previsto há quase uma década. Aconteceria por etapas, entre 2015 e 2018. Todos os radiodifusores do setor sabiam disso e estavam de acordo. Depois o Brasil passou por um grande crescimento econômico, exaltado no mundo todo, e muitos desses radiodifusores programaram os investimentos para implantar o sinal digital em toda área de abrangência da emissora. Outros, porém, deixaram para a última hora. O Governo Federal também assumiu compromissos em cima desse calendário. Vendeu uma banda de frequência para as teles (operadoras de celulares), contando com a solução técnica da TV digital.

A cidade de Rio Verde, em Goiás, deveria ser a primeira a ficar apenas com o sinal digital. A data do desligamento estava marcada para o ano passado, quando alguns radiodifusores começaram um movimento para adiar a mudança no resto do território brasileiro. No começo, a culpa era da crise. Mas agora, a versão vencedora é a falta de capacidade técnica para se instalar tantos transmissores, em locais tão distantes, em tão pouco tempo. Dizem que não há técnicos suficientes pra isso. Na semana que passou uma reunião foi realizada no Gired, o grupo de implantação da redistribuição do sinal digital. Mudou tudo. A proposta que está valendo agora não é mais a do calendário original. O desligamento do sinal analógico, nos próximos dois anos, vai acontecer apenas em cerca de mil cidades. É onde o tráfego de frequências é mais intenso e precisa "limpar" a banda que as teles compraram. E também onde mora a maioria da população brasileira, onde circula a imensa maioria dos reais, dólares e tantas outras moedas. Nos outros 4,5 mil municípios brasileiros, a TV digital vai chegar até 2023.

FÁCIL PRA BATER


O Gired é um órgão oficial e aceitou a proposta de mudança do calendário. Mas o Ministério das Comunicações ainda precisa dar a palavra final. O curioso é que, se todo mundo sabia que o Brasil é tão grande, que o sinal terrestre demandaria tanto trabalho para ser trocado, por que mantiveram o calendário até a última hora?

É nessas situações que o governo se torna o "travesseiro" mais sonoro que existe. Travesseiro, porque é macio pra bater. E sonoro, porque repercute tanto, que todo mundo ouve, todo mundo acha bonito. Mas a verdade é que, na implantação da tecnologia digital, o Governo Federal fez tudo certinho. Reuniu todos os setores envolvidos, formatou órgãos para debater as mais diversas questões. Tudo sempre foi consensual, respeitando as várias posições. O Governo não teria que ter criado um "ministério da TV digital" para resolver coisas que a iniciativa privada pode e precisa fazer. As emissoras privadas tem todos os especialistas necessários, conhecem o Brasil, os detalhes técnicos. E, dessa vez, tinham também voz.

O resultado é que a maior parte desta quinta população da Terra terá TV digital até 2018. Mas a maior parte do quinto maior território do mundo não vai ter. O principal disso tudo é saber agora qual TV digital vamos ter.

Pelo acordo anterior, todos os beneficiários do Bolsa Família deveriam receber, como compensação das teles, set-top boxes com o Ginga C. É o que garante o melhor nível de interatividade. E isso significa inclusão digital e muitos serviços públicos eletrônicos pela TV. Como esses set-top boxes não vão mais para as 4,5 mil cidades, a proposta é aumentar a distribuição nas mil e tantas cidades contempladas (as maiores). O critério passaria a ser set-top boxes gratuitos para os beneficiários do Bolsa Família, e set-top boxes sem interatividade para os inscritos no chamado Cadastro Único, que recebem atendimento social menor. A EBC (Empresa Brasil de Comunicação) do Governo Federal, que utiliza ativamente aplicativos interativos voltados para a população de baixa renda, está propondo que os set-top boxes para o Cadastro Único tenham uma versão mais simples do Ginga. Garantiria alguma interatividade, a custos bem menores. Se o "canto" do sinal digital não pode ser tão vigoroso e pleno, que possa, pelo menos, existir, ainda que timidamente, como uma promessa para o futuro.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

MUITO BOM PRA SER VERDADE!?


Então a TV aberta passou a ter som e imagem de alta definição, acabaram as interferências, ficou interativa, reduziu o uso do espectro eletromagnético e até o consumo de energia. E ainda continuou grátis. Pronto, então agora vai acabar. "-Como assim??"

Essa conversa de que a TV aberta iria acabar nunca teve muita lógica. Ficou mesmo uma profecia das mais cabalísticas, aquelas coisas que não tem por que acontecer e mesmo assim alguém sai anunciando, só pra chamar atenção. O curioso é que, pelo menos nas três últimas edições da NAB Show e da SET Expo o número de mensageiros apocalípticos só aumentou. Este blog tem sido um defensor irredutível do bom senso, razão pela qual questionou tantos argumentos sobre o tema. Agora, são dados concretos que se impõem. Numa palestra durante a última CES, a maior feira de produtos eletrônicos para consumo, Steve Burke, CEO da NBC Universal, reconheceu que subestimou a TV aberta. Ele disse que o engano aconteceu nas previsões que ele tomou por base quando da fusão com a Comcast, a maior operadora de TV por assinatura dos Estados Unidos.

"Éramos pessimistas com o broadcast. Na época, avaliamos a NBC em quase zero", disse Burke, para uma plateia surpresa. O fato é que a unidade broadcast do grupo faturou no terceiro trimestre de 2015 quase US$ 2 bilhões. E, pra não deixar dúvidas, arrematou: "-O broadcast é bom negócio. As quatro grandes redes fazem mais dinheiro hoje do que há 20 anos."

PESSIMISMO OU SIMPLESMENTE AUTO DEFESA


A TV aberta americana, tradicionalmente secundária, num mercado onde 85% dos lares eram assinantes de canais fechados, ainda está descobrindo a nova realidade. Lá, os radiodifusores já tomaram até alguns "puxões de orelha" pela apatia diante da nova realidade que o sinal digital aberto representa. Mas os tempos já começaram a mudar. Durante a palestra na CES, Burke enfatizou que a publicidade não é mais a única receita da TV aberta. As emissoras vendem conteúdo, fazem distribuição para VOD, descobrem novas fontes de faturamento. Possibilidades que surgiram com as novas tecnologias, que já foram consideradas ameaças ao broadcast.

Por outro lado, as razões de tantas suspeitas quanto ao futuro da TV aberta, também estão evidenciando os verdadeiros motivos. O número de assinantes de canais pagos está diminuindo continuamente nos Estados Unidos. E uma pesquisa recente mostrou ainda que a maioria dos assinantes está mais interessada na banda larga, que faz parte do pacote dos assinantes. As grandes distribuidoras de sinal de TV estão sofrendo com o crescimento do fenômeno "cord cutters", ou seja, as pessoas estão preferindo usar o Netflix, muito mais barato, para aquilo que era o "conteúdo premium". Já a TV do dia a dia fica por conta das redes abertas, uma vez que o sinal digital garante a mesma qualidade do sinal a cabo.

Na realidade brasileira, onde a grande maioria dos assinantes paga apenas para ter uma imagem melhor dos canais abertos, a expansão do sinal digital promete um efeito mais categórico. As grandes redes estão investindo também em aplicativos, para smart TVs, celulares e tablets. Um "Netflix aberto", que traz também muitos recursos dos canais por assinaturas. Falta o quê?

AS VERDADEIRAS TENDÊNCIAS


Quanto mais o tempo passa, mais a qualidade do conteúdo se revela soberana. É o que vai determinar a escolha do usuário. Os meios de veiculação podem se multiplicar, no começo o novo atrai a curiosidade, mas sempre vão se consolidar a partir da qualidade do conteúdo. A eficiência do meio pode contribuir, na medida em que traga mais oportunidades de escolha do conteúdo, que seja fácil de usar e que garanta fidelidade técnica à produção exibida.

Outro parâmetro de peso é o custo para o consumidor final. As tecnologias estão reduzindo drasticamente os custos e são produzidas dentro de estratégias de massificação. Não se inventa mais nada para "poucos e bons". Tem que produzir pra massa, em grande escala, com abrangência planetária. Então o preço tem que cair. Dentro desses critérios, difíceis de serem ignorados, a TV aberta não tem concorrência. Tem, no mínimo, a melhor qualidade audiovisual entre todos os meios, é a mais massificada e o custo para o consumidor final é zero. Num mundo globalizado, grandes marcas dependem de um meio como a TV aberta. Os lançamentos mais importantes precisam da visibilidade que só o broadcast pode garantir.

O maior conforto no hábito de uso, a melhor experiência, estão ganhando mais peso junto aos consumidores. E é aí onde os set-top boxes, as famosas "caixas", prometem acrescentar muito. Grandes players, como Apple e Google, investem no aprimoramento das próprias caixas. Muitas outras empresas pelo mundo - inclusive a EiTV - estudam os caminhos para a melhor experiência audiovisual, combinando funcionalidades de forma cada vez mais criativa. Pensar na aposentadoria precoce de tecnologias é uma grande falta de bom senso. O desafio é descobrir todo o potencial de cada uma delas e ter competência para usa-la de forma a melhorar a experiência do consumidor.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O EPICENTRO DA COMPULSÃO PELO CONSUMO DE ELETRÔNICOS


A pergunta antes era até onde a tecnologia poderia chegar. E hoje a grande questão é que parte dessa tecnologia toda vai servir pra alguma coisa. A frase não é de nenhum filósofo existencialista, mas do próprio Shawn DuBravac, o Economista Chefe da CTA - Consumer Technology Association. É a entidade que organiza a CES, a maior feira de produtos eletrônicos para consumo. O evento, que aconteceu em Las Vegas nessa primeira semana de 2016, não poderia começar sem o esculacho do principal responsável. Ele sabe que ali foram apresentados nada menos que 20 mil itens e você, como qualquer outra pessoa, sabe que seria humanamente impossível ele conhecer cada um deles. Fazer discurso ufanista, messiânico, daria ampla margem para atiçar as gozações, já comuns nesse meio, onde aparecem as bugigangas mais bizarras.

Por outro lado, sabemos que o professor Pardal nunca vai roubar totalmente a cena do Pateta e, na verdade, é lá pelo "non sense", nas fronteiras do impensável, onde surgem as grandes soluções. Precisa tentar. E hoje em dia, com tanta tecnologia disponível, é muito fácil tentar.

Por exemplo, a geladeira que tem um tablet pregado na porta e ainda fotografa o que tem dentro. Dá pra saber o que falta até pelo celular. Como se alguém comprasse somente pela necessidade: "-Cerveja pela metade do preço? Deixe-me ver como está a minha geladeira. Ah, não vou comprar, tem bastante em casa." Não parece provável. Cada vez menos os hábitos de consumo são pautados pela lógica. No entanto, é surpreendente, enche os olhos! O que pode ficar dessa brincadeira é um papel que a geladeira disputa com a televisão. Não, não é o segundo lugar entre os aparelhos mais presentes nos lares brasileiros. É a posição do router doméstico.

O NOVO PET DA SUA CASA


As "coisas" estão ganhando um status quase pet nos lares ocidentais. Elas já tem uma Internet, que promete ser, em breve, mais dinâmica do que esta, dos reles mortais. Você acabou de ver que já tem geladeira ganhando tablet, e só pode ser um mimo. Primeiro porque, para os usuários, é antiergonômico usar aquele tablet pregado na posição vertical. Segundo porque tablet foi feito para dar mobilidade, não pra ficar fixo em algum lugar. Seria muito mais fácil se o tablet da geladeira fosse removível e utilizável em outros lugares. Só que aquele é dela. Mas voltando ao status pet, toda essa conversa entre as coisas via Internet precisa de um router. Nessa edição da CES ele se apresentou em geladeiras e televisores.

Aliás, numa feira que começou há quase 50 anos, televisores sempre tiveram um lugar de destaque. Desta vez resolveram investir mais na antiga promessa da tela "dobrável". "Enrolável", na verdade. Um avanço da tecnologia OLED que deu mais uma enroladinha nos consumidores, porque ainda é só protótipo, não está no mercado. Telas com espessura inferior a um milímetro que, fixadas em vidro viram televisores ultra finos. Não chega a ser tão fino quanto um cartão de crédito, também não vamos exagerar. Mas é mais fina do que dois cartões de crédito. Pode exibir uma imagem na frente e outra no verso, ou ficar transparente, totalmente ou em parte. Gasta um mínimo de energia e tem uma qualidade de imagem superior à qualquer outra tecnologia. Como usa um material orgânico, baseado no fenômeno dos vagalumes, ainda precisa ser enrolada com muito cuidado, para não destruir os pixels. Já é largamente usada em celulares.

Mais acessível, nas prateleiras, são as novas TVs smart things. Elas já trazem novos sistemas operacionais e mais recursos, justamente para sediarem as conversas entre todas as coisas da casa.

É A VEZ DAS COISAS


Como antecipado aqui mesmo, na edição anterior do blog, a CES confirmou que a bola da vez é mesmo a Internet das Coisas. O que consolidou essa ideia foi a proliferação de sensores. Afinal uma coisa é só uma coisa. Não vê, não houve, não sente nada. Então é aí onde os sensores fazem uma coisa ser algo mais. Com a vantagem da precisão eletrônica. Por exemplo, um sensor que vai na escova de dentes do seu filho e indica quando cada dente está limpo. Pra não deixar passar nada, a escova é conectada a um jogo, que só pode ser vencido com todos os dentes escovados. Com direito à relatório pro celular da mamãe. Lá vão chegar também relatórios de outro sensor, adesivo, para bebês. Dá a temperatura, a respiração e os batimentos cardíacos. Nem a vovó sabia tanto sobre você.

Tem também outras maravilhas que os sensores estão trazendo e já tomam grande espaço na CES. A mais destacada entre todas está na linha automotiva. Carros inteligentes estão se tornando uma obsessão entre os expositores. O mais rumoroso no momento é o que ainda virá da parceria recentemente anunciada entre a Ford e o Google, tentando desbancar os avanços da Tesla e da Faraday Future. Outro destaque, vamos tratar como uma aposta, que deverá surgir da VR, ou realidade virtual. Os óculos que exibem imagens como se você estivesse em outro ambiente, fazendo as coisas mais diversas, em breve podem estar conectados na final do Superbowl, por exemplo. Quem sabe em arquibancadas virtuais, onde será possível avistar ao lado outros torcedores, também virtuais. Nos displays do campo mensagens específicas para cada perfil de torcedor, de cada país conectado. E o jogo ao vivo. Será!?

A lição que fica, aparentemente, não é dos engenhos curiosos, mas das partes. As soluções que você precisa, ou que você possa vender para outros empreendedores, podem ser apenas um "puxadinho" dessas tecnologias. Ou uma reconstrução, no estilo lego. São as partes, cada vez mais sofisticadas, que devem levar a criações cada vez mais úteis, ao invés de simplesmente surpreendentes.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A INTERNET DAS COISAS


Ano novo, "coisas" novas! "Coisa" é o tratamento mais genérico que se pode atribuir a algo. Tudo é coisa. E agora a moda é a "Internet das Coisas". Responde também por IoT (Internet of Things), M2M, dentre outras alcunhas, que devem se popularizar mais ainda a partir de agora. O que hoje é chamado de Internet das Coisas pode ser observado quando um ou mais efeitos diferentes acontecem em resposta a dados eletrônicos autônomos. Por exemplo, um sensor de temperatura na sua casa, ligado a um programa onde se conectam todos os equipamentos domésticos. Você pode estabelecer que, ao atingir uma temperatura superior a 25 graus, o ar condicionado seja ligado para manter a temperatura ambiente em 25 graus. No mesmo programa, você pode definir também que, se a temperatura for inferior a 20 graus, o ar condicionado deve ser acionado para elevar o calor ambiente aos mesmos 25 graus. São coisas que acontecem sem a interferência permanente de pessoas, apenas com base na troca de dados eletrônicos, gerados num mesmo local ou remotamente.

O mercado parece ter percebido recentemente que tem muitos novos negócios possíveis a partir desses programas, que nem são tão novos assim. E o novo nome tem o poder de atrair mais a atenção do público para um novo ciclo de negócios. Tudo indica que vai bombar! A questão é que as máquinas não tem nenhuma flexibilidade diante de suas "ordens", ou melhor, suas configurações. Por isso tem gente prevendo problemas sérios que podem surgir a partir dessa "vontade" que se pode determinar para uma máquina.

ENTRE SONHOS E PESADELOS


As "coisas" aparecem no imaginário com uma cara simpática, ainda na infância. Nas fábulas, nos desenhos animados, a xícara é sorridente, amiga do açucareiro, que é amigo do bule e também do gatinho da criança. Tudo muito ingênuo e dócil. Mas as "coisas" também são protagonistas de várias estórias de terror. Talvez a mais marcante, possivelmente a mais genial, é a estória de Matrix, lançada no cinema em 1999. É também a mais próxima da Internet, a fábula aqui em pauta. Matrix era um grande sistema digital cuja complexidade havia lhe permitido desenvolver vontades e uma moral próprias. O grande sistema dominou o mundo de forma que os seres humanos, adormecidos e imersos num líquido, eram conectados à uma rede por um plug, fixado na nuca, diretamente em contato com as terminações nervosas. A máquina provia ar e alimento aos seres humanos que, enquanto vivos, geravam energia para o funcionamento da máquina. O curioso é que aquelas mentes adormecidas "habitavam" virtualmente um mundo digital, como um videogame, muito mais completo, porém, e ali viviam suas sensações pessoais e sociais.

Você já deve ter se irritado com a "vontade" de alguma máquina. Por exemplo, entra no carro de um amigo, todos com pressa, você trazendo alguns pacotes. Fecha a porta e, enquanto coloca os pacotes no banco de trás, seu amigo já coloca o carro em movimento. Começa então um som intermitente porque você está sem o cinto de segurança. Claro que a vontade do carro está absolutamente correta. Mas que enche o saco, enche! A questão é que, para a Internet das Coisas você passa a ser apenas uma coisa, igual a todas as outras coisas que pairam no ambiente. Na vida real não é nada disso.

Outro dia, um articulista, num jornal de grande circulação, falava de um sistema implantado em um banheiro. Você usa a privada e, ao tentar abrir a porta, ela está trancada. É que o sistema "quer" que antes passe pela pia, acione a saboneteira, a torneira e depois o porta toalhas. Só assim a porta se abre. Corretíssimo! E insuportavelmente chato.

VIVA A NOSSA IMPERFEIÇÃO


Quando máquinas tem vontade ou moral elas podem se tornar perigosas. Na verdade, elas multiplicam indefinidamente a vontade de outra pessoa, que não se apresenta socialmente diante daquela responsabilidade. Um magnata que experimente a disciplina de uma máquina, depois de se cansar pode concluir que aquilo seria ótimo para os outros, por exemplo, seus empregados. E então, diante do poder de multiplicar a própria vontade, vai impor rotinas sufocantes na sua empresa, local de trabalho de muitas pessoas.

Até as suas próprias regras podem ser insuportáveis pra você. Imagine que, aquela dieta com a qual você se comprometeu no ano novo, fosse configurada no sistema da sua casa. O armário onde você guarda bombons e biscoitos só abriria uma vez por semana, liberando apenas um bombom e duas bolachas. As geladeiras podem também ter portinhas e se tornarem configuráveis em pouco tempo. Que tal? O seu programa de atividades físicas também poderá, no futuro, dar choques na sua cadeira se você passar mais de uma hora sem se levantar.

Mas, por enquanto, pode ter certeza de que a Internet das Coisas vai começar trazendo apenas coisas inquestionavelmente agradáveis. Como controlar o ar condicionado e deixar a sua casa super confortável pra você chegar. Só não se esqueça de pensar, de vez em quando, como deveria ser a lei que limita a vontade das máquinas. Um dia ela vai ter que existir. Agora, relaxe! O ano de 2016 está chegando, muitos de nós vamos fazer propósitos, alguns até ambiciosos. Vamos lutar pra melhorar a cada dia, pra chegar até a perfeição, se possível. Mas jamais deveremos abrir mão do direito de sermos imperfeitos.