UMA NOVA MANEIRA DE VENDER


O intervalo entre um sonho cinematográfico e a realidade diminuiu muito. A ponto de lançar um sinal de alerta para compradores compulsivos. A tecnologia já existe há tempo, mas foi levada às últimas consequências por uma startup da Espanha. É o Touchvie, um aplicativo de smartphone que transformou mais de 1.000 títulos de Hollywood e dez séries de TV, no que pode ser considerado o maior e mais interessante catálogo de compras do mundo.

Do lado de cá da tela da TV, a coisa é muito simples, como tinha que ser. Você está assistindo, por exemplo, House of Cards - uma das séries disponibilizadas - e Claire Underwood, personagem de Robin Wright, está usando um blaiser encantador. Basta abrir o app em seu celular, aguardar ele identificar o programa e a cena através do microfone, selecionar o blaiser da Claire, clicar em "comprar" e uma relação de lojas conveniadas aparece na tela para você comparar o preço. O mesmo para um colar ou qualquer coisa que esteja em cena. Este é o grande trabalho que ficou do outro lado da tela. O sistema do Touchvie reconheceu e indexou mais de 10 milhões de itens, presentes em todo o acervo e associou aos respectivos parceiros varejistas, que podem oferecer, no mundo real, qualquer encanto da tela. A grande praticidade para o telespectador é que o sistema reconhece cada um dos itens automaticamente, inclusive os cenários naturais, para indicar um pacote turístico até aquele local paradisíaco do filme que marcou a sua vida.

O QUE ISSO PODE MUDAR


A estreia do sistema é recente, não tem nem três meses. Se pegar, pode trazer novas fontes de receita para serviços de vídeos gratuitos, como é o caso da TV aberta. Afinal, além de anunciar na TV, as empresas poderiam aumentar suas receitas com as vendas geradas pelo aplicativo. O intervalo comercial não iria mais interromper a programação, mas estaria lá, aos montes, ocultos, aguardando simplesmente o desejo do telespectador.

No próximo mês de abril o Touchvie deve estrear nos outros países da Europa e nos Estados Unidos. Vai ser a grande prova fogo. Pouco se sabe sobre outras estratégias que os usuários pretendem associar ao sistema, o que permite, por enquanto, fazer várias conjecturas. Se um novo hábito de consumo surgir dessa experiência, vai ter gente que vai assistir a filmes de maneira muito diferente. Pra não pegar mal, muitos vão se declarar cinéfilos tão atentos, que perscrutam cada detalhe do figurino. Outros vão dizer que adoram avaliar a direção de fotografia nas grandes paisagens. O enredo pode até passar despercebido. Quem sabe, você vai ouvir a sua esposa pedindo pra você assistir "Joy - O Nome do Sucesso" só pra saber onde encontrar os óculos escuros que a personagem de Jennifer Lawrence usa naquela manhã cheia de neve?

Isso sem contar o que os produtores podem fazer dos próximos filmes, caso esse tipo de marketing funcione. Os menos sutis podem insistir em cenas fechadas em garrafas de licores ou em sapatos femininos, só porque já sabem quantas grifes estariam interessadas em ilustrar as sequências com as peças da marca, pagando muito por isso.

"MADE IN BRAZIL" NÃO VALE? 


O curioso disso tudo é que esta possibilidade já está disponível. Se você pensou que se trata de mais um recurso do Ginga, acertou! É verdade que fica um pouco menos prático para o telespectador porém, para a emissora que coloca uma novela em exibição, fica muito mais simples. A diferença é que o Ginga não tem o poder de identificar cada detalhe na cena. E nem precisa. Com o controle remoto do set-top box (ou conversor, como é mais conhecido), ao clicar em uma cena aparece um menu com os itens em exibição. Dai é só você escolher o que quer e tudo passa a ser tão prático quanto no Touchvie. O grande trabalho que vai ter a mais é abrir o menu.

"-Ah, mas até desenvolverem um aplicativo para isso..." Ops! Só falta corrigir o tempo verbal: até desenvolveram um aplicativo para isso. Foi a EiTV e está no ar na Rede Vida. O detalhe é que o aplicativo da casa, que roda sobre o Ginga, é mais prático e um pouco mais completo. Ao ver o que você quer comprar na televisão, aparece ao lado um QR Code, como na ilustração. Com um smartphone qualquer, basta enquadrar o QR Code e cair direto no site do varejista, exatamente no item que você deseja.

A partir de abril, vamos ver o sucesso que o Touchvie pode alcançar. Vamos ver e ouvir o que especialistas vão falar sobre as reais perspectivas que o novo aplicativo pode trazer para o mercado. Se bater aquela sensação de que estivemos sentados o tempo todo em cima do tesouro, mas não ganhamos porque não acreditamos no Ginga como grande solução tecnológica - só porque é brasileiro - então vamos lembrar mais uma vez de Sérgio Buarque de Holanda falando do "complexo de vira lata" que o brasileiro precisa superar. Quem sabe, o caminho dessa superação, não vai começar por um esforço do setor para popularizar o Ginga?

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