A INTERNET DAS COISAS


Ano novo, "coisas" novas! "Coisa" é o tratamento mais genérico que se pode atribuir a algo. Tudo é coisa. E agora a moda é a "Internet das Coisas". Responde também por IoT (Internet of Things), M2M, dentre outras alcunhas, que devem se popularizar mais ainda a partir de agora. O que hoje é chamado de Internet das Coisas pode ser observado quando um ou mais efeitos diferentes acontecem em resposta a dados eletrônicos autônomos. Por exemplo, um sensor de temperatura na sua casa, ligado a um programa onde se conectam todos os equipamentos domésticos. Você pode estabelecer que, ao atingir uma temperatura superior a 25 graus, o ar condicionado seja ligado para manter a temperatura ambiente em 25 graus. No mesmo programa, você pode definir também que, se a temperatura for inferior a 20 graus, o ar condicionado deve ser acionado para elevar o calor ambiente aos mesmos 25 graus. São coisas que acontecem sem a interferência permanente de pessoas, apenas com base na troca de dados eletrônicos, gerados num mesmo local ou remotamente.

O mercado parece ter percebido recentemente que tem muitos novos negócios possíveis a partir desses programas, que nem são tão novos assim. E o novo nome tem o poder de atrair mais a atenção do público para um novo ciclo de negócios. Tudo indica que vai bombar! A questão é que as máquinas não tem nenhuma flexibilidade diante de suas "ordens", ou melhor, suas configurações. Por isso tem gente prevendo problemas sérios que podem surgir a partir dessa "vontade" que se pode determinar para uma máquina.

ENTRE SONHOS E PESADELOS


As "coisas" aparecem no imaginário com uma cara simpática, ainda na infância. Nas fábulas, nos desenhos animados, a xícara é sorridente, amiga do açucareiro, que é amigo do bule e também do gatinho da criança. Tudo muito ingênuo e dócil. Mas as "coisas" também são protagonistas de várias estórias de terror. Talvez a mais marcante, possivelmente a mais genial, é a estória de Matrix, lançada no cinema em 1999. É também a mais próxima da Internet, a fábula aqui em pauta. Matrix era um grande sistema digital cuja complexidade havia lhe permitido desenvolver vontades e uma moral próprias. O grande sistema dominou o mundo de forma que os seres humanos, adormecidos e imersos num líquido, eram conectados à uma rede por um plug, fixado na nuca, diretamente em contato com as terminações nervosas. A máquina provia ar e alimento aos seres humanos que, enquanto vivos, geravam energia para o funcionamento da máquina. O curioso é que aquelas mentes adormecidas "habitavam" virtualmente um mundo digital, como um videogame, muito mais completo, porém, e ali viviam suas sensações pessoais e sociais.

Você já deve ter se irritado com a "vontade" de alguma máquina. Por exemplo, entra no carro de um amigo, todos com pressa, você trazendo alguns pacotes. Fecha a porta e, enquanto coloca os pacotes no banco de trás, seu amigo já coloca o carro em movimento. Começa então um som intermitente porque você está sem o cinto de segurança. Claro que a vontade do carro está absolutamente correta. Mas que enche o saco, enche! A questão é que, para a Internet das Coisas você passa a ser apenas uma coisa, igual a todas as outras coisas que pairam no ambiente. Na vida real não é nada disso.

Outro dia, um articulista, num jornal de grande circulação, falava de um sistema implantado em um banheiro. Você usa a privada e, ao tentar abrir a porta, ela está trancada. É que o sistema "quer" que antes passe pela pia, acione a saboneteira, a torneira e depois o porta toalhas. Só assim a porta se abre. Corretíssimo! E insuportavelmente chato.

VIVA A NOSSA IMPERFEIÇÃO


Quando máquinas tem vontade ou moral elas podem se tornar perigosas. Na verdade, elas multiplicam indefinidamente a vontade de outra pessoa, que não se apresenta socialmente diante daquela responsabilidade. Um magnata que experimente a disciplina de uma máquina, depois de se cansar pode concluir que aquilo seria ótimo para os outros, por exemplo, seus empregados. E então, diante do poder de multiplicar a própria vontade, vai impor rotinas sufocantes na sua empresa, local de trabalho de muitas pessoas.

Até as suas próprias regras podem ser insuportáveis pra você. Imagine que, aquela dieta com a qual você se comprometeu no ano novo, fosse configurada no sistema da sua casa. O armário onde você guarda bombons e biscoitos só abriria uma vez por semana, liberando apenas um bombom e duas bolachas. As geladeiras podem também ter portinhas e se tornarem configuráveis em pouco tempo. Que tal? O seu programa de atividades físicas também poderá, no futuro, dar choques na sua cadeira se você passar mais de uma hora sem se levantar.

Mas, por enquanto, pode ter certeza de que a Internet das Coisas vai começar trazendo apenas coisas inquestionavelmente agradáveis. Como controlar o ar condicionado e deixar a sua casa super confortável pra você chegar. Só não se esqueça de pensar, de vez em quando, como deveria ser a lei que limita a vontade das máquinas. Um dia ela vai ter que existir. Agora, relaxe! O ano de 2016 está chegando, muitos de nós vamos fazer propósitos, alguns até ambiciosos. Vamos lutar pra melhorar a cada dia, pra chegar até a perfeição, se possível. Mas jamais deveremos abrir mão do direito de sermos imperfeitos.

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