sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O CARÁTER DAS CANETAS


"Ele tem a força!" Ou, numa interpretação mais atual, "ele tem a ... caneta!" Esse poder de varinha mágica que possuem determinadas canetas é responsável por boa parte do atraso do mundo.  É quando o gestor público esquece que a autoridade se estabelece com base na lei. Recebe um cargo e sai assinando o que tem na cabeça, como se a expressão da própria vontade fosse tudo que se esperava dele. Acredita-se uma sumidade cujos atos serão, por definição, os melhores.

O gestor consciente e competente, antes da lei, terá seus próprios limites morais. Vai respeitar o valor da palavra, as expectativas que gera ao seu redor, os hábitos já estabelecidos, para tratar cada situação com o devido respeito. Porém, quando a palavra dita passa a ser apenas uma arapuca e, quando até a palavra assinada, depois de acordos, desaparece diante de uma assinatura idêntica mais recente, é porque uma crise institucional está se desenhando.

Um exemplo: com o leilão da faixa de 700MHz para as operadoras de celular, formou-se oficialmente um fundo de compensação que, dentre outras medidas, destinaria 14 milhões de set-top boxes (conversor digital) para os inscritos no Bolsa Família. O leilão foi no dia 30 de setembro de 2014. A dúvida ficou em torno das especificações do set-top box. Dependendo do modelo, a "caixa", como é tratada no mercado, pode ficar mais cara. A tão sonhada interatividade, com todos os recursos possíveis, só é viável com a implementação C do software Ginga. Exige mais memória, melhor processamento e portas USB. O Ginga é tecnologia 100% nacional, foi escolhido como referência mundial e o Governo Federal assinou em 2012 o compromisso de promover o Ginga. Seria hora de honra-lo!

UMA MEDIDA PONDERADA, DEBATIDA


O Ginga C não é absolutamente um luxo. É uma ferramenta de cidadania e de economia para a Administração Pública. Com base no Ginga C foi desenvolvido um conjunto de aplicativos que permite a um cidadão qualquer obter, pela tela da TV, o saldo do fundo de garantia, do PIS, as vagas de emprego disponíveis em cada região (por categoria profissional, sexo, idade), pode fazer vários cursos profissionalizantes pela TV e até marcar horário de consultas médicas no SUS. Isso é só o começo. Esse conjunto de aplicativos levou o nome de "Brasil 4D" e foi desenvolvido pela EBC - Empresa Brasileira de Comunicação. É uma transformação possível a qualquer televisor, mesmo os "quadradões", de tubo, desde que conectado à caixa com Ginga C.

Nessa tecnologia o Brasil é o melhor do mundo. Motivo mais do que suficiente para que a maioria das grandes fabricantes mundiais de televisores deixassem de lado o Ginga C. Para elas, o plano é vender o que tem, as smartTVs, para fazer a interatividade através da Internet, favorecendo unicamente os interesses comerciais. O Ginga pode atender também a todos os interesses comerciais, pode se conectar à Internet, sempre mantendo a porta aberta para o apoio cidadão. Mas as emissoras precisariam implantar o sistema e, pelo visto, não demonstram muito interesse em nadar contra a correnteza.

A última semana de prazo para definir o padrão da caixa foi em meados do último mês de maio. O então Ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, viu muito nitidamente de que lado está o interesse público. E, numa maratona de reuniões com emissoras, operadoras de celular e todo o segmento envolvido, conseguiu uma forma de garantir todas as caixas para o Bolsa Família com Ginga C e Brasil 4D. Muitas conversas, consultas a especialistas, a empresas e infinitas contas. A resposta: sim, é viável, o Brasil precisa, assim será. "-Traga a caneta aqui..." e todo mundo assinou.

TUDO CERTO, NADA RESOLVIDO


Hoje a situação é a seguinte: o Governo precisa limpar a faixa de 700MHz que vendeu para as operadoras de celular. Mas o sinal de algumas emissoras de TV ainda trafega por lá, pelo menos nas grandes cidades brasileiras. Como o prazo para as operadoras é 2018, o mesmo do encerramento do sinal analógico de TV, o Governo programou fazer as duas coisas juntas: em cada região onde desliga o sinal analógico, já deixa vazia a banda de 700MHz. Simples!

Agora aparece um outro problema. Muitas pequenas emissoras de TV Brasil afora ainda não iniciaram a transmissão digital, ou ainda não digitalizaram a retransmissão em todas as suas torres. Mas o prazo pra isso ser feito começou em 2008. Nesse período, o Brasil viveu um grande crescimento econômico, cada empresa deveria ter feito as reservas para o investimento nos equipamentos para digitalização. Não foi assim em todas as emissoras. E agora, um grupo delas quer que o Governo Federal faça o remanejamento só nas grandes cidades, deixando as pequenas para 2023. Para conseguir o apoio das operadoras de celular esse grupo propõe que, nas pequenas cidades, o set-top box do Bolsa Família seja o mais simples, sem Ginga C nem Brasil 4D, reduzindo os custos pela metade. Só esquecem que o cidadão que habita os pequenos municípios é tão brasileiro quanto os moradores das grandes cidades. Com a diferença que, nos pequenos municípios, é onde as ferramentas de inclusão são mais importantes.

O atual Ministro das Comunicações, André Figueiredo, já começou a ceder em alguns pontos. Na primeira cidade onde está sendo feita a experiência ele já autorizou compra de set-top boxes sem o Ginga C - o que significa que não é possível rodar os aplicativos do Brasil 4D. A autorização foi para contemplar famílias inscritas no Cadastro Único de assistência social, mas que não estão no Bolsa Família. A norma em relação ao Bolsa Família, portanto, foi atendida. Mas abriu-se uma exceção, sem previsão anterior, para tentar executar o calendário previsto - que, mesmo assim, já foi adiado para fevereiro de 2016. As pressões contra o Ginga C continuam. E as atenções, cada vez mais, se voltam para a caneta do Ministro.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

ALGEMAS REAIS NO MUNDO VIRTUAL


"-Ô, seu guarda... Por que fecharam essa rua aí!?
"-Ah, foi o Juiz que mandou."
"-Mas fechar por quê? Até que horas vai isso?"
"-Sei não. Parece que o cara ali da padaria não pagou as contas dele, então o promotor pediu pra fechar a rua até derrubar o faturamento, pra ele resolver pagar."

Não foi uma rua, mas uma infovia, por onde passam diariamente dezenas de milhões de pessoas. O WhatsApp parou por 13 horas no Brasil e, mais uma vez, levou o nome da pátria amada às manchetes internacionais. Nada de fazer coro à indignação, evocar o absurdo. Pobre coitado, o que será do absurdo? Até as coisas que ninguém imaginou já acontecem, e o significado dele só encolhendo. O fato está aí, na história, e apesar da origem virtual terá reflexos reais que podem impactar o mundo todo.

Tudo começou com um processo crime, ninguém sabe qual, porque corre em segredo de justiça na cidade de São Bernardo do Campo, Grande São Paulo. O promotor do caso quer acessar mensagens trocadas pelos acusados via WhatsApp, para provar culpas e inocências. A juíza concordou e determinou quebra de sigilo mas o WhatsApp não cumpriu até agora. Então para e não volta enquanto não passar as informações que deve à lei. As operadoras móveis receberam a ordem judicial para tirar o tráfego do WhatsApp do ar. O Brasil, em silêncio. Ou, em outros endereços eletrônicos, num barulho poucas vezes visto.

MUITO ESTRANHO, MAIS DO QUE PARECE


Digamos que um juiz tire do ar um site de compras. Os negócios param de imediato, como se um míssil destruísse uma loja inteira, num único lançamento. Daí a direção do site cumpre as exigências e a loja reaparece todinha lá, sem nem o cheiro da pólvora. Mas e o WhatsApp? Você já se perguntou de onde vem a receita da rede social móvel? Nunca aparece propaganda, não descontam nada no banco, não é o governo que paga. Seria o "lanche grátis", que economistas e advogados insistem em dizer que "é absurdo" (olha ele aí de novo). Por que o mais jovem magnata da história teria pago dezenas dos seus bilhões para ter, ou melhor, para nos dar esse brinquedo?

As hipóteses, a partir dessa constatação, podem ser assustadoras. A primeira seria o fim da "degustação". Apareceria alguém na sua porta - mais provável na porta virtual - e perguntaria: "-Gostou do período de degustação do WhatsApp? O que acha de contratar um plano a partir de agora?" Pelos vários casos de sofrência extrema relatados na mídia e nas outras redes sociais, com certeza os donos do negócio coçaram a cabeça. E também os dedos.

A outra hipótese, que não anula a anterior, é de que parte dos seus rastros pelo WhatsApp estejam sendo seguidos, ou melhor, vendidos. Seriam estudos a partir de palavras chaves? Fotos? O aplicativo aumentou as vendas de pacotes de dados para dispositivos móveis e o tempo de conexão Wi-Fi. Esse último, já é utilizado comercialmente para identificar a movimentação de pessoas dentro de grandes lojas. O objetivo é conhecer hábitos de consumo. Será que o WhatsApp não tem mais nenhum outro dispositivo, capaz de enviar informações mais detalhadas sobre suas necessidades imediatas de compra? Mark Zuckerberg quis transparecer que jamais faria isso. Ao saber do bloqueio brasileiro se disse indignado com o que aconteceu, "só porque guardamos muito bem o sigilo dos internautas". Humm...

PAGANDO BEM, EU FICO ZEN


A parte mais complicada e mais imprevisível desse imbróglio é no campo jurídico. A propósito, a Justiça foi a primeira instituição a criar uma instância meio que "virtual". Ela concebeu a "verdade jurídica", que sempre busca ser a "verdade verdadeira", mas pode ser diferente. Uma verdade a parte. Se você é condenado a pagar uma conta que não deve, mas perde o prazo para recurso, vai ter que pagar. Porque a verdade jurídica não foi contestada tempestivamente, então "Dormientibus non sucurrit jus", em português, "O Direito não socorre aos que dormem", em "brasileiro", "você dançou".

Foi em nome da Justiça que o WhatsApp foi citado. A busca é pela verdade verdadeira. E se alguém lá pelos servidores do WhatsApp resolver fraudar alguma informação? Bitcoins or not bitcoins. That's the question! Tudo bem, o mundo real terá outras pistas para perseguir a verdade. Mas serão suficientes para preencher as exigências da verdade jurídica, sem afastá-la da verdade verdadeira?

O episódio da semana foi, sem dúvida, mais um monumental alerta sobre os riscos que crescem pelo mundo virtual. O primeiro diz respeito à parte dos cidadãos que sobrevive daquelas interações virtuais, que pulsa lá dentro. Tanto por paixão como por necessidade profissional, pessoal, de várias naturezas. É uma vulnerabilidade social, potencialmente, até mais perigosa do que a vulnerabilidade do território. Essa parte da vida das pessoas fica em outro mundo, sob o controle de gente que não está aqui, que não sabemos quem é. O abismo tecnológico é outra fraqueza, por nos colocar muito longe de qualquer possibilidade de reação, no caso de um isolamento. Um outro risco ficou patente nas denúncias de Edward Snowden sobre práticas de espionagem, por parte do Governo Americano. Depois do desconforto diplomático, que envolveu também a Alemanha – a mais poderosa nação europeia na atualidade – Barack Obama se comprometeu a não permitir mais que isso aconteça. Lembrando que no ano que vem ele passa o cargo a outro governante; que a ameaça do terror cresce a cada dia; que a China está avançando fortemente sobre mercados americanos; que todos os caminhos e recursos para voltar a espionagem estão lá. Tem uma coleção de “senões” a serem considerados. Diante de tanta preocupação, só nos resta uma saída: correr pro WhatsApp e extravasar toda essa tensão com os amigos mais próximos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

PRÊMIO FINEP DE INOVAÇÃO CONFIRMA O RITMO DA CRIATIVIDADE


Inovação é o fim do mundo! Mas também é o começo de outro. É o que se viu na história da Internet. A grande rede foi idealizada para viabilizar a comunicação entre centros de pesquisas, no caso de uma guerra nuclear. Seria o fim do mundo. Os cientistas teriam a tarefa de reconstruir a civilização, conversando por uma espécie de Whatsapp do Apocalipse. Quando a guerra fria acabou, pensaram em dar outra utilidade a rede. E então surgiu o mundo virtual da Web, onde acontece grande parte da nossa vida real.

Hoje o mundo não é mais o mesmo. Ele está sendo a cada dia algo um pouco diferente. Um pouco mais a cada semana, mudado a cada mês, imprevisível a cada ano, irreconhecível a cada década. Por enquanto, o nome disso é inovação. A Finep - Financiadora de Estudos e Projetos, ligada ao Governo Federal, estimula a inovação no Brasil de todas as formas possíveis. Além de financiar, identificar potenciais, novos nichos, aproximar saberes, ela também premia as mais destacadas inovações a cada ano. Nesta sexta-feira, dia 11 de dezembro, finalzinho de 2015, o Prêmio Finep de Inovação foi entregue, pela quinta vez, para a EiTV. O mais interessante, sem dúvida, é o que a equipe da EiTV fez para merecer o segundo lugar nacional na categoria Tecnologia Assistiva.

OS "OUVIDOS" QUE OS TELEVISORES TRANSMITEM


O ritmo das transformações no mundo não admite abrir mão dos recursos humanos disponíveis. É necessário incluir. As políticas de inclusão, além do caráter humanitário, são pragmáticas, no quadro de uma sociedade que precisa gerar respostas cada vez mais complexas e em maior número. Foram esses dois fatores que motivaram a equipe da EiTV a desenvolver a mais completa ferramenta de inclusão da audiência de deficientes auditivos. É o CCStudio, um aplicativo que gera as legendas ocultas de Closed Caption a partir de qualquer fonte que a emissora escolher.

A fonte de geração das legendas pode ser a voz de um locutor, cadastrado num sistema de conversão de áudio em caracteres da língua portuguesa. Ao registrar o timbre daquela voz, repetindo o áudio da programação, o sistema gera legendas escritas e, pelo teclado, acrescentam-se comentários como (música), (aplausos), (risos), dentre outros. Outra fonte pode ser o sistema do tipo "news" da redação do telejornal. São sistemas que integram entre si todos os jornalistas da redação, mais o "teleprompter", que é o visor que exibe ao apresentador o script que ele lê para o público. Tem ainda a possibilidade de utilizar integralmente o áudio da programação que é convertido automaticamente em legendas, para serem inseridas no ar.

Esse conjunto de soluções atende às exigências da lei federal que trata do assunto e permite aos radiodifusores ajustarem os custos ao sistema mais adequado para cada emissora. Além de milhões de telespectadores deficientes auditivos, o CC Studio permite que TVs de bares, restaurantes e terminais de transporte ofereçam a programação de emissoras à todos que se dispuserem a ler as legendas.

O COMPASSO FIRME DA INOVAÇÃO


Depois de cinco prêmios Finep de Inovação, em dez anos de empresa, Rodrigo Araújo, Diretor da EiTV, não quis "mistificar" as conquistas: "-Inovação está ao alcance de todos. Mais do que investimentos, é necessária a criatividade, a sensibilidade e principalmente, o compromisso de inovar". Como exemplo, ele citou inovações vindas de empresas, instituições de pesquisa ou pessoas físicas, já laureadas com o Prêmio Finep. Em várias delas é visível a genialidade associada à simplicidade. O compromisso de inovar, portanto, é a postura diante da realidade, que exige sempre um passo a frente em eficiência, redução de custos, praticidade. "Todos os dias isso acontece na EiTV", garante Araújo. O prêmio anual da Finep comprova isso, pelo menos a cada 2 anos.

No ritmo dos acontecimentos, dentro de algum tempo produzir e inovar vão ser quase uma coisa só. Nada mais permanece, indiferente ao tempo. A cultura e as tradições vão preservar momentos através da arte, de costumes. Mas as soluções do passado tendem a ser aprimoradas, de forma incremental ou disruptiva, trazendo o mundo novo.

Coincidentemente, o Prêmio Finep foi entregue na semana de encerramento da COP 21, em Paris. Lá, cerca de duzentos chefes de estado procuram salvar o planeta de uma catástrofe climática, principalmente, pela mudança radical da matriz energética do mundo. O grande pleito é zerar a queima de derivados de petróleo em 35 anos. O que os mandatários de todas as nações clamam é por inovações, que permitam essa mudança. Afinal, se a Internet, como máquina do Apocalipse foi disruptiva, a Web, como inovação incremental, criou um mundo novo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A CONFERÊNCIA DO CLIMA E O FUTURO DA POLUIÇÃO


Talvez algum dia reconheçam que a palavra mais devastadora dessas últimas décadas está entre os vocábulos mais ingênuos e politicamente corretos do Ocidente. A tradução pode sofrer algumas variações etimológicas de um idioma pra outro mas, com certeza, em todas as nações, onde existe o atraso essa palavra será usada. Atraso pela procrastinação, pela leniência, pela apatia. A palavra é "conscientizar", em todas as suas flexões, mais a substantivação.

Aí está a COP 21, com o despropósito de trazer propostas para evitar o aquecimento global. Uau, já são 21 anos de conversa, e o que foi feito até agora? Conscientização, oras! É nessa palavra onde param todos os tipos de soluções. Juízes de Direito já apareceram até na TV, criticando, por exemplo, radares de velocidade, para substituí-los por "ações de conscientização". E o trânsito matando! Conscientizar deve ter o poder de tirar os jovens das drogas, manter as ruas limpas e conservadas, erradicar a dengue no Brasil, conduzir à Brasília os mais honestos e eficientes políticos e até baixar o peso, se você passou das medidas. Alguns revolucionários, quando chegam ao poder, pedem pro povão dar um tempo pra se conscientizar. Enquanto isso, não dá pra distribuir tudo que foi prometido, tem que esperar até que a conscientização aconteça.

Dia desses, pela TV, aparecia na Conferência do Clima uma academia cheia de jovens diplomatas, bem criados, pedalando em aparelhos. Assim eles geravam a energia, que fazia funcionar liquidificadores, que faziam suquinho de frutas! Wowm, isso é que é consciência!

O LIXO QUE NÃO PLANA NA ATMOSFERA


Entrando nos detalhes mais "técnicos" do evento, COP 21 é um nome que tem toda pompa diplomática: "Conferência das Partes na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima". Para quem pensava que o "p" de "COP" era de poluição, agora ficou claro que é de "partes". Mas em pouco tempo os dois significados podem ser uma coisa só, com o mundo mergulhado em partes eletrônicas.

Com efeito, hoje é o esgotamento de um ciclo tecnológico, que começou com a máquina a vapor, que está se esgotando de forma a comprometer o clima. Excesso de carbono na Atmosfera e o mundo pode acabar! Ou melhor, o mundo dos humanos pode acabar. O novo ciclo tecnológico tem que trazer a solução pra toda essa modernidade afinal, é a ciência que podemos ter. Mas o novo ciclo tecnológico já não esconde seus pecados.

As lâmpadas que economizam energia, a injeção eletrônica que reduz emissões, os computadores que evitam tantos deslocamentos, os vários aparelhos que garantem conforto nos ambientes, tudo isso, quando vira lixo, é estilhaçado em partes. E elas espalham metais pesados nos pontos mais contraindicados do mundo. E ainda, materiais tóxicos, radioativos, ou simplesmente não biodegradáveis. Quanto? A quantidade de lixo eletrônico que o mundo deve gerar só no ano de 2017, em toneladas, é equivalente a todo o café que a população da Terra consumiu nos últimos 8 anos somados, mais os estoques internacionais do produto. Então, quando você abrir sua gaveta e aqueles aparelhos celulares velhos escorregarem no fundo, cuidado! Você pode ser o vilão da COP 42, se não antes.

TAMBÉM NÃO É ASSIM


Tem que criticar, tem que exigir, mas convenhamos, o que está sendo feito deve ser valorizado. Seria muita rabugice dizer que a COP 21 e as ações de conscientização não servem para nada. Em Paris, o centro das discussões é como chegar aos "acordos vinculantes", ou seja, como fazer para que cada país signatário transforme em lei as decisões da COP 21. Seria um grande avanço! Quanto às ações de conscientização, se não invadirem o terreno de medidas coercitivas ou compulsórias (deixando que aconteçam), serão muito úteis. E tudo isso aponta para atitudes individuais.

Sendo assim, a conscientização de quem produz tecnologia, de quem utiliza tecnologia, pode começar pela atualização dos dados. Quanto à origem do lixo eletrônico, segue o rastro do consumo, da mesma maneira que a emissão de gases do efeito estufa. As duas maiores economias do mundo, Estados Unidos e China, geram juntas praticamente um terço de todo lixo eletrônico global. Os pobrezinhos da América Latina são responsáveis por 9% desses descartes tecnológicos e, entre os países do Continente, o Brasil é o maior gerador: 36,16% do total regional.

O lixo eletrônico, além de muito plástico, ferro, alumínio e zinco, tem chumbo, mercúrio, cromo, bário, berílio, clorofluorcarbonados, arsênico e muitos outros produtos tóxicos, perigosos. Mas tem também pequenas quantidades de ouro, platina, prata. Separar tudo isso não dá pra ser do jeito que acontece nas cooperativas de catadores. Porém, sendo bem feito, pode ser um negócio lucrativo. Portanto, quem não se conscientiza pelos riscos da poluição, tem um outro apelo pra refletir. É só você pensar, pelas vezes que já trocou de computador e, principalmente, de celular, quantas vezes mais devem se repetir essas trocas na sua vida. Ou seja, se o seu celular de hoje não for reciclado, não contribuir em nada com a cadeia de matérias primas, do que vão ser feitos os celulares que vão tocar na COP 42? Algumas partes das máquinas antigas vão ter que estar lá.