sexta-feira, 11 de setembro de 2015

ENTRE MITOS E HERÓIS, O JULGAMENTO DA HISTÓRIA


Construir mitos é uma técnica sofisticada e muito lucrativa. Já faz um tempo que os marqueteiros perceberam a necessidade que o povo tem de se projetar em pessoas perfeitas, acreditar em infalibilidade, em onisciência. Um mito costuma ter tudo isso e, hoje em dia, também uma marca. Por exemplo, Steve Jobs, o mito da marca Apple. Ele tornou-se uma existência tão proeminente que já virou filmes, livros, "cases" dos mais diversos e, sintomaticamente, o patrono da marca mais valiosa do mundo. Na China, o empreendedor da marca de celulares Xiaomi chama-se Lei Jun e é conhecido como o "Steve Jobs mandarim", numa tentativa de aromatizar, com uma pitada do mito americano, a receita de um mito chinês. São negócios, tudo negócio.

Não que os nomes citados não façam jus às respectivas posições alcançadas. A questão é que, enquanto é negócio, todo enfeite que couber, vale, porque atende requisitos de marketing. A maior parte do que é realmente verdadeiro vai demorar um pouco pra brilhar com toda a autenticidade. Vai ter que passar pelo implacável julgamento da História, aquela ciência meticulosa, que avalia um longo período de tempo de forma objetiva, confere os reflexos de cada descoberta ou criação, para então separar o que vale de fato, da mera poeira sedimentada. Como isso demora muito, os verdadeiros heróis de hoje só vão ser revelados no futuro, como sempre foi. Vai ser no futuro que vamos saber se existiu um "Steve Jobs brasileiro" ou, quem sabe, muito mais que isso.

SIM, NÓS PODEMOS


Tomando o mesmo exemplo, Lei Jun gosta de apresentações bombásticas dos novos produtos, exposição pessoal na mídia, ele faz bem o tipo Steve Jobs. Mas e se tivesse um mito brasileiro da TI, como ele seria?

Brasileiro é um povo menos fissurado em dinheiro. Claro que a gente gosta, mas na escala de valores nacional tem concorrentes fortes, o dinheiro às vezes fica pra trás, é até esnobado. Pra ser um mito mesmo, se brasileiro, teria que ser um grande cientista, um estudioso, mas alguém reconhecido no mundo todo. Tipo assim, o criador de um padrão internacional de tecnologia. É, tem um caso brasileiro pelo menos, que é inclusive na área de TI. Mas um mito TI tem que ser mais específico. O Steve Jobs, por exemplo, foi o criador de uma marca de microcomputadores, já o Bill Gates, fez sucesso com um sistema operacional. Cada mito tem um espaço próprio pra dizer que ali, não tem pra ninguém. O brasileiro já iria pra cabeça, algo popular, que todo mundo tem. Celular é mais individual, a gente é mais família, que tal a TV? Isso, TV digital, daí já manda a TV também pro celular e não fica dúvida.

Nosso mito TI, como seria um intelectual, teria aquelas credenciais científicas de peso, como a formação sólida, mestrado, doutorado, pós doutorado no Exterior, muitas publicações em periódicos internacionais, membro de destaque em órgãos científicos do setor, conceituado no mundo inteiro e o que mais se pode pensar para o top acadêmico. Pra finalizar, o perfil ideal do nosso mito é de um cara sangue bom, sem estrelismo, amigo, uma liderança inquestionável. Pois é, esse cara existe!

MUDANDO DE PLANO, MAS MANTENDO OS PLANOS


O Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes Soares, da PUC-Rio, é considerado um dos pais do middleware Ginga, reconhecido pela União Internacional de Telecomunicações como o melhor do mundo. No momento em que o Ginga vai se revelar uma revolução na TV mundial, vai tornar o Brasil pioneiro na plataforma de informática mais prática e inclusiva do planeta, o LF - como era conhecido o professor - foi num streaming lá pro céu, no último dia 8. Pegou todo o segmento científico e empresarial do setor de surpresa, colocando-nos numa orfandade profissional precoce, inimaginável.

O Eng. Raphael Barbieri, aqui da casa, trabalhou ao lado dele até esses dias, no desenvolvimento dos casos de testes para a implementação C do Ginga. E relatou como foi o privilégio de estar ao lado do grande cientista: "-Como verdadeiro mestre, ele nunca se afastou do perfil "professor" da carreira dele. Aquela pessoa que ouve atentamente, deixa você apresentar seu pensamento, pra depois devolver a luz de toda aquela sabedoria." Barbieri fala também da extrema dedicação do mestre ao que ele tanto amava e compartilhava com todos: o trabalho. Dedicado incansavelmente, perfeccionista, fé inabalável na possibilidade de melhorar. E dinheiro, para ele, nunca encheu os olhos. Pelo contrário, foi ativista e ao mesmo tempo soldado da causa "software livre".

Não dá pra dizer que LF morreu. Ele vai continuar no nosso trabalho, nos aplicativos que vamos desenvolver para a TV digital, na integração com outras mídias, no sorriso de tantos que vão curtir muito mais a sala de casa, no conhecimento que vai incluir legiões ISDB-T afora. Vai estar nos livros que escreveu, no cotidiano dos profissionais que formou, em capítulos especiais de livros de História. Ou seja, enquanto estivermos ligados nessa área da ciência, o "carrossel" do nosso sinal vai rodar permanentemente o querido LF. Quem sabe, lá no céu, ele já está configurando uma plataforma nova? Se for o caso, pode ter certeza de que a conexão vai melhorar, e muitas bênçãos vão chegar mais rápido ao cotidiano de quem trabalha nesse mundo da TV digital.

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