sexta-feira, 1 de maio de 2015

ALGUMA COISA ACONTECE...


A quase mil quilômetros da Ipiranga com avenida São João, uma reviravolta de última hora, por parte do Governo Federal, mudou totalmente as perspectivas da interatividade na TV Digital brasileira. Pelo menos pelos próximos 15 dias, que antecedem a próxima reunião para decidir sobre a questão.

Retomando rapidamente o assunto que agora está prestes a saltar ao topo da pauta política nacional: no último leilão de frequência para a Internet 4G, parte da faixa de 700MHz, ocupada por algumas emissoras de TV analógica, foi repassada para as "teles", como são chamadas as operadoras de telefonia móvel. Como compensação, as vencedoras tiveram que bancar um fundo de R$ 3,6 bilhões. O fundo é administrado pelo Gired, um grupo com representantes de todos os setores envolvidos, inclusive o governo. A missão do Gired passa por garantir o acesso à TV digital para 14 milhões de famílias carentes, por definição, as atendidas pelo Bolsa Família. Isso significa doar os set-top boxes, as "caixas" conversoras de sinal, para que qualquer aparelho de TV possa sintonizar a transmissão digital.

Na última quarta-feira, dia 29 de abril, o Gired se reuniu para definir qual o modelo de set-top box seria distribuído às famílias. Estava tudo preparado para anunciar a escolha de um modelo intermediário, onde a interatividade é bastante limitada. Porém, de última hora, a representação do Governo bateu o pé em favor do modelo mais sofisticado, com o Ginga C e canal de retorno em 3G. Esse modelo permite a máxima interatividade entre público e emissoras. Algo que ainda não se vê em nenhum lugar do planeta.

NO CORAÇÃO DA TV DIGITAL


O Ginga é um software, da "categoria" middlleware, que permite a interatividade. Ginca C é a implementação mais completa do software, que trabalha com o canal de retorno 3G, pela banda do celular. Isso permite, por exemplo, que o telespectador responda a enquetes pelo controle remoto, sem interferir na programação que está no ar. Com um equipamento desses o Ginga pode abrir no seu televisor uma tela com a movimentação da sua conta bancária, ou um cadastro pra você preencher e matricular seu filho em uma escola pública. O telespectador pode também procurar emprego, acessar a Internet ou fazer um curso pela televisão, respondendo as questões do professor com o controle remoto, através do canal de retorno.

Se você achou tudo isso maravilhoso, certamente você não é um anunciante de TVs comerciais. De imediato, não se vê aí nada que interesse a um anunciante. Pelo contrário, há o risco desses serviços serem acessados pelos usuários na hora em que os comerciais entraram no ar. Além disso, o público de "nível consumidor" tem celulares sofisticados e tablets, por onde a interatividade que interessa aos anunciantes pode acontecer, sem ofuscar suas marcas. Talvez por isso as emissoras privadas nunca tenham demonstrado maior interesse pelo Ginga. Nos outros países, pelos mesmos motivos - associados ao fato de não terem um middlleware à altura do Ginga - o caminho da interatividade tem sido pela "segunda tela" (celulares e tablets) ou pelas SmartTVs, que acessam a Internet.

PRA QUEM CHEGOU E NADA ENTENDEU


A reunião do Gired foi suspensa porque nunca o grupo tomou uma decisão que não fosse unânime. Diante da intransigência do governo, em favor da interatividade, foi marcada uma outra reunião para o dia 15 de maio. O problema é o custo do set-top box com Ginga C, que pode tomar cerca de R$ 2,5 bilhões do fundo. É muito, levando em conta os outros custos de compensações devidas. Resta entender exatamente por que o governo fez essa reviravolta.

Pode ser só uma encenação, que vai apenas adiar em 2 semanas uma decisão que já está tomada. Porém, vai permitir que o governo se posicione politicamente perante a comunidade científica nacional, como alguém que lutou por uma alternativa brasileira. Pode ser muitas outras coisas, dentre elas, um "projeto Kirchner" brasileiro. A comparação é com o projeto de comunicação oficial empreendido pela presidente argentina, visando uma presença maior do governo na mídia. Lá, o sinal digital foi implantado inicialmente através da TV estatal, que tem também o monopólio de exibição das partidas de futebol nos grandes campeonatos. No caso brasileiro, a hipótese é de que o Governo estaria apostando na interatividade da TV pública federal como um diferencial em relação às TVs comerciais, até que as outras emissoras aderissem à moda. Seja como for, ter acesso interativo e remoto com 50 milhões de pessoas, não deixa de ser um sonho pra qualquer governo.

Pelos lados das empresas brasileiras desenvolvedoras de softwares o que resta fazer nas próximas duas semanas é torcer. Se o governo emplacar o Ginga C um parque de 14 milhões de televisores estará apto a receber uma infinidade de aplicativos, que só brasileiros vão saber produzir. Bancos privados, consultórios particulares e muitas outras empresas poderiam entrar na onda. Como o SBTVD, que usa o Ginga, é o sistema de TV em praticamente toda a América do Sul, as perspectivas de exportação dos aplicativos seriam ótimas. Por enquanto, o que as software houses brasileiras devem estar produzindo é um aplicativo pra repetir a Novena de Santo Antônio o dia todo.

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