sexta-feira, 30 de maio de 2014

SORRIA! VOCÊ ESTÁ SENDO CONFUNDIDO


No mercado financeiro informação privilegiada pode representar um crime grave. E não é à toa. Num ambiente onde uma simples nuvenzinha de boatos pode provocar uma grande tempestade, a transparência nas informações empresariais precisa ser preservada à qualquer custo. Um prato cheio de suspense e ação para a literatura e o cinema, tanto em casos de ficção como da vida real.

Um caso recente da vida real reúne protagonistas de primeira grandeza num cenário ideal para uma trama capitalista das mais eletrizantes. Só não tem nenhum privilegiado na história. Pelo menos, por enquanto. No enredo estão a CIA, a mais poderosa trupe de espiões especialistas, o mega investidor Warren Buffett e uma empresa centenária, digamos, de inteligência: a IBM. Os negócios entre a CIA e a IBM já são antigos e os contratos de que se tem notícia são de total transparência financeira. O milionário americano já é um personagem mais novo nesse ambiente de negócios tecnológicos. Há três anos a carreira dele era marcada pelo sucesso em empreendimentos envolvendo corporações gigantescas como a Coca Cola e a rede American Express. Tinha como “tic nervoso” a resistência sistemática às ofertas de papéis de empresas de tecnologia. Mas veio o sucesso radiante da IBM em 2011, sob o marketing da comemoração do centenário da gigante da informática. Acabou derrubando a cisma de Buffet, que ficou com 5,5 por cento da Big Blue por mais de US$ 10 bilhões.

Demorou pouco para que vigorosas trovoadas começassem a estremecer o céu sobre esses parceiros. Elas ecoaram de nuvens conceitualmente virtuais, que representam uma nova realidade no mundo da computação. Tudo começou quando a CIA decidiu ter um sistema próprio de cloud computing, capaz de armazenar as informações que estão transbordando dos seus servidores. Isso foi em meados de 2012 e atraiu 5 grandes empresas de TI "nativas" para a disputa. O contrato estava estimado em US$ 600 milhões de dólares, ao longo de dez anos.

A tradição da IBM como fornecedora de serviços para a agência americana seria o principal fator do favoritismo. Mas a vencedora foi a Amazon. Um negócio onde a grande oportunidade que a IBM perdeu foi de ficar calada. A empresa quis mais transparência e foi à Justiça, inconformada por ter perdido um contrato onde apresentou um preço equivalente a um terço do cobrado pela vencedora. A CIA, sem nenhum dos habituais segredos, mostrou claramente as razões da sua decisão. E o juiz não teve dúvida em concluir que a capacidade da tecnologia IBM para a computação em nuvem é "marginal". Entendeu as razões da CIA para julgar a IBM como uma escolha de alto risco, com qualidade não competitiva de serviços.

Esse é um dos lados implacáveis da inovação. Mesmo que você inove há mais de 100 anos, praticamente não leva nenhum bônus para o novo ciclo do seu setor. Se esse setor for a Tecnologia de Informação, onde inovar é a regra, a tradição pode até se tornar uma vidraça. Afinal, todos vão lembrar da sua idade, quando você tomar aquele "elástico" bem na frente da grande área.

Esse caso da IBM vai deixar lições históricas no mercado financeiro. Não pelo que já aconteceu mas, com certeza, pelo que está por vir. O mercado respira boatos e tem o poder de transformar papéis azuis em mico e reverter a mágica logo em seguida, várias vezes ao dia. Essas ondas desordenadas, que descrevem o sobe e desce das ações, são o próprio jogo. Aos "players" cabe descobrir se a ponta da linha vai virar para cima ou para baixo. Por isso, quanto mais balança o mercado, mais a galera delira. Nessa lógica, é óbvio que uma marola da IBM tem tudo virar um tsunami sob as pranchas dos operadores de papéis.

A palavra é cautela. No mercado financeiro já se fala na "IBM boa e a IBM ruim", correm notícias de cortes de empregos e investimentos. Mas a empresa está sustentando o preço das ações, dentro do que prometeu. O nome de Buffett é, sem dúvida, uma "griffe" entre as corretoras de todo o mundo e entre as cinco empresas que disputaram o contrato da CIA, a IBM foi a segunda colocada. Só saiu vexada porque tinha entrado com um favoritismo muito grande.

Nesse momento, os pessimistas devem estar dizendo que a derrocada do império histórico da TI está se desenhando. Mas, para os otimistas, o que representa uma nuvem marginal, para quem já enfrentou tantas tempestades ao longo de mais de 100 anos?

sexta-feira, 23 de maio de 2014

POR UM PAÍS MENOS ABITADO (!!)


"Alugam-se antenas". Se você vir um anúncio desses vai pensar por que alguém alugaria uma antena. Veja bem, o aluguel não é daquelas torres onde as operadoras de celulares instalam parabólicas das mais exóticas. O aluguel é mesmo de antena. No horário de verão, quando volto pra casa é comum ver um casal de cacatuas trocando tímidos carinhos na minha antena. Fora elas, não sei quem mais pagaria aluguel por aqueles puleiros. E essa hipótese não é mais romântica – ou irônica – do que você vai ler na sequência do anúncio: "alugam-se antenas para acessar nuvens".

O grande negócio tem pela frente a Suprema Corte dos EUA. E certamente não teria chegado lá se não envolvesse muito dinheiro. A empresa locadora de antenas é a startup Aereo. Ela cobra US$ 8,00 por mês para - segundo jurou no Tribunal - alugar uma antena que mede alguns centímetros. Ah, e a antena nem fica na casa do usuário, é instalada na filial da empresa na cidade do assinante. Através do uso remoto daquela antena, o usuário acessa de tablets, de smartphones ou PCs o conteúdo de emissoras abertas, que a Aereo deixa gravado na nuvem. Num país onde a velocidade da Internet é várias vezes superior à média brasileira, a tecnologia passa a ser prática. Os donos dessa nuvenzinha esperta, que abocanha os sinais de TV que passam ingenuamente pelos ares, acham que estão fazendo um favor aos radiodifusores, por levarem a programação a muitas outras pessoas. Já as emissoras, que gastam milhões em direitos autorais para a execução pública de shows, filmes, jogos e muitos outros programas de TV, querem a parte delas.

No melhor estilo "nada é o que parece ser", os juízes vão ter que escutar toda sorte de abobrinhas cibernéticas para decidir o que está sendo considerado um marco da computação em nuvem: o armazenamento pessoal de mídia na nuvem é legal ou não? Ou ainda, um HD "comunitário", disponível remotamente a muitas pessoas, pode ser considerado um centro de exibições públicas de mídia? As emissoras afirmam que sim, porque os assinantes não veriam nada, se nada estivesse gravado lá. A Aereo contra ataca dizendo que a gravação que ela faz é tão privada quanto qualquer outra gravação feita na nuvem. Só passa a ser compartilhada quando um assinante resolve assistir à TV e aperta o botão, da mesma forma que faz quando liga seu televisor em casa. Como a Aereo só grava sinais de tvs abertas, ela entende que dá na mesma. A única diferença é que o usuário precisa de uma antena, e por isso aluga da Aereo.

Se você quer reler o parágrafo anterior, tudo bem, mas nada indica que você vai conseguir entender exatamente o que está escrito lá. É mais fácil você admitir desde já que essa conversa não passa de um "jogo de papeiros", feito para confundir, e não para explicar. Estão plagiando agora o que Chacrinha, o grande mago da TV brasileira, proclamou há décadas.

Não é só a filosofia do Chacrinha que a TV brasileira tem pra ensinar. O modelo tecnológico, já reconhecido pela International Telecommunication Union como o melhor do mundo, tem soluções como a banda 1-seg, que pode ser captada de dispositivos móveis, até em movimento. Com sistemas de antenas especiais, um ônibus em viagem pode captar até o sinal digital de alta definição das grandes redes brasileiras, praticamente todas, de sintonia aberta. Isso torna muito mais simples todos os modelos de negócios associados à geração de som e imagens no Brasil. E o que é melhor, com muito mais comodidade e custo zero para o usuário final. A radiodifusão, esse fenômeno natural que aceita tão disciplinadamente as manipulações humanas, ainda é a grande alternativa para quem quer tornar tudo visível e contemplável pelo maior número de pessoas. As estruturas pesadas que se firmaram nos países que saíram na frente - como os Estados Unidos - cada vez mais se revelam um passivo tecnológico a ser solucionado. Tanto que o assunto está tomando cada vez mais o tempo dos tribunais do que dos laboratórios de pesquisas e desenvolvimento.

A internet está se tornando uma verdadeira "catraca" para canalizar serviços em direção ao caixa de grandes empresas de mídia. Aqui no Brasil a via de radiodifusão é explorada com mais inteligência. Digamos que os Estados Unidos são um país muito "abitado". Ou seja, tudo que for chegar aos lares, antes tem que virar bit, tem que ser "abitado", para ser cobrado e depois entregue. Acho que o Chacrinha concordaria com o trocadilho......

sexta-feira, 16 de maio de 2014

RELÍQUIAS DA LITERATURA DE NEGÓCIOS


Prepare-se para ver em breve um conto das arábias estampando as capas das principais revistas de economia do mundo. A versão vem turbinada com personagens japoneses e chineses, reunindo mais protagonistas de povos das antigas civilizações orientais. Um enredo cheio de disputas, perseverança, riscos e muita ambição.

De árabe, na verdade, essa história tem apenas o nome e a inspiração. O "conto" Alibaba vai trazer como personagem principal, nesta versão do mercado de capitais, uma operadora de comércio eletrônico, sediada na China. É o site Alibaba.com, que vende de tudo da China para o mundo pela Internet e agora vai fazer uma oferta pública inicial de ações (IPO). Deve acontecer ainda este ano, na Bolsa de Nova York. Os documentos exigidos já foram entregues para a comissão da bolsa que avalia os riscos financeiros para o mercado. Por enquanto, a expectativa é que a oferta alcance cifras superiores aos US$ 17,9 bilhões negociados pela VISA em 2008. A se confirmar, Alibaba vai virar lenda como o maior IPO da história da Bolsa de Nova York.

Nos jornais e revistas de perfil mais popular, o grande nome vai ser Jack Ma, um ex-professor de inglês de Hangzhou, uma cidade da China Oriental. Ele é o dono e fundador do site. Porém, nas publicações especializadas em economia e negócios, quem deve conseguir mais notoriedade será Masayoshi Son, Presidente do SoftBank japonês. Ele investiu, na hora certa, U$S 20 milhões na empresa de Jack Ma e se tornou dono de 34% da Alibaba.com. Isso foi há 14 anos, quando o site estava começando. Hoje, os analistas da Bloomberg avaliam que esse terço da operadora chinesa valha US$ 58 bilhões, quase 3 mil vezes o valor investido pelo banqueiro japonês.

O mercado financeiro gosta de histórias de pessoas espertas, que fazem as apostas certas. O chinês Jack não se encaixa exatamente neste perfil. Ele foi o cara que arregaçou as mangas e trabalhou duro na construção do seu negócio. Já o banqueiro Son tem todos os tics e talismãs que os players do mercado especulativo logo identificam entre os que fazem parte de seu gueto. As posições que ele mantém no mercado somam cotas de mais de 1300 empresas, sempre com foco na tecnologia. Dentre elas, a Yahoo! Japão, a Supercell, produtora de jogos da Finlândia que criou o Clash of Clans, a Brightstar, distribuidora de celulares dos Estados Unidos e o controle acionário da Sprint, a terceira maior operadora americana de celulares. É justamente nesse ramo onde o banqueiro japonês quer perpetuar a sua marca: ele sonha em ter a maior operadora de celulares do mundo, segundo afirmou Satoru Kikuchi, um analista de mercado de Tóquio. Os movimentos do investidor parecem confirmar o que diz o analista. O SoftBank estaria preparando uma oferta para adquirir a T-Mobile nos EUA.

Os cacoetes de investidor compulsivo marcam bem a história de Son, para delírio de fanáticos dos pits das maiores bolsas do mundo. Na bolha de empresas de tecnologia do começo do Século, ele perdeu dinheiro em negócios como o Buy.com e o grupo Webvan. Chorou os milhões perdidos ao mesmo tempo que dava de ombros para a rebeldia do mercado de papéis de tecnologia, e continuou garimpando na mesma lavra digital. A estratégia ele próprio chamou de Netbatsu, um apelido para o que seria a nova era econômica do Japão, sucedendo o período de conglomerados industriais, que ficou conhecido como Zaibatsu. Para ele, inovação tecnológica é o grande tesouro. Nas duas últimas décadas ele financiou centenas de startups de tecnologia e agora, com o IPO do Alibaba, ele deve se cacifar para, no mínimo, chegar muito próximo do seu sonho.

É nesse limiar de mito e realidade onde a história de Alibaba vai ser revivida na bolsa. No conto das Mil e uma Noites, o pobre lenhador Alibaba enriqueceu graças à sorte de ter encontrado o tesouro dos 40 ladrões. Mas ele precisou da esperteza da escrava Morgiana para liquidar todos seus inimigos. O chinês Jack pode ficar com parte do perfil de Alibaba, por ter perseverado tanto na busca de sua fortuna. No caso de Son, a esperteza de Morgiana é um ícone marcante.

O que, com certeza, não vai faltar nessa próxima versão da lenda é muita emoção! Para deixar a história mais característica, espera-se que investidores árabes tragam a liquidez dos seus petrodólares para o pregão. Isso pra quem aposta no final feliz. Afinal, na vida real nada sai exatamente como previsto e o mercado financeiro é o centro nervoso de épicos da história das fortunas.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

SOMOS TODOS MACACOS...... DIGITAIS


Não se faz mais vovó como antigamente. Nada contra as vovós atuais, que participam até de desfiles de beleza, usando biquínis ousados. A questão é que as vovós do passado faziam a ponte com um tempo que a gente não conhecia. Ou melhor, um tempo que ainda não tínhamos conhecido. Porque as primaveras passavam e as gerações acabavam vendo uma realidade não tão diferente, pois o mundo demorava pra mudar. Percebia-se apenas que havia um jeito das crianças falarem, outro dos adolescentes, tinha as expressões que as pessoas maduras usavam e finalmente a conversa dos velhinhos. Cada um nas suas respectivas hashtags. Isso mesmo, verdadeiras hashtags verbais. É por aí que a gente percebe que o mundo digital não inventou tanto assim. Ele inovou! O que significa, inclusive, usar melhor, dar outra vida a algo que já está incorporado aos hábitos das pessoas.

O que tinha de especial nas vovós era a presença mais constante na nossa infância. A "Terceira Idade" não tinha sido inventada, as agências de viagens não tinham pacotes especiais para a turma delas, que costumava se encontrar na missa ou na quermesse para reforma da igreja. Sobrava, então, paparicar os netinhos. Afinal os adultos estavam trabalhando, não tinham tempo, e os adolescentes sempre odiaram os "fedelhos". Assim, a doce presença das vovós, marcava com frases e fantasias a vida das crianças.

Taí outro legado que o mundo digital reconstrói com muito entusiasmo. Lembro-me de fábulas, onde a falta de telefones celulares ou de e-mail levou os autores à soluções do tipo "um passarinho me contou". A frase pegou, atravessou fronteiras e edições de livros até da história real. Não deu outra, virou o ícone de um dos maiores websites do mundo, que hospeda o servidor para microblogging Twitter. Não inventaram nada. Se a vida imita a arte, o futurismo é maquiado, continua imitando o passado, tal qual os macacos, que imitam tudo. Somos todos macacos digitais.

Os poderosos trinados do Twitter finalmente deram veracidade aos argumentos das fábulas. Diariamente, milhões de pessoas mundo afora ficam sabendo de coisas que "o passarinho me contou". As vovós do passado nem imaginavam que as excitantes fofocas iriam se transformar num gênero da literatura "upon" vida alheia. Nada, nada, o gênero está sendo a aposta do Twitter para recuperar o preço das ações negociadas na Nasdaq. As fofocas binárias - ou trinadas - prometem aumentar em 84% a receita publicitária do site neste ano, para US$ 1,1 bilhão. Como toda boa fofoca, tem um grupinho que dispara o babado. No caso, envolve emissoras de TV, empresas de mídia como NBA, NFL ou Viacom e o microblog ornitófilo. Em setembro do ano passado, na final do Open de Tênis dos Estados Unidos, Novak Djokovic e Raphael Nadal disputaram um game durante 54 segundos. Um rali histórico, emocionante! Em poucos minutos, o vídeo foi disparado pelo Twitter, acompanhado da marca Heineken com a mensagem: "Abra o seu mundo". A cervejaria emplacou um aumento de 71% da circulação da sua marca nas redes sociais naquele dia. A zombaria do discurso do ator Zac Effron, por ter recebido o MTV Movie Awards pelo "melhor desempenho sem camisa", foi mais gratificante ainda para a marca Revlon. O vídeo do ator - com a Revlon na garupa - foi exibido mais de 100 mil vezes. Mera fofoca.

Como em tudo que exige criatividade o Brasil sempre se destaca, a hashtag que o craque Neymar gestou nas últimas semanas deve ter marcado um novo record do Twitter Amplify, nome desta nova modalidade publicitária do site. Prevendo a oportunidade, Neymar pediu a uma agência publicitária que criasse a hashtag adequada, combinou com outros jogadores e ficaram esperando o momento ideal para sensibilizar milhões e milhões de pessoas mundo afora. A presença de espírito de Daniel Alves, ao comer uma banana-racista atirada no campo durante um jogo, detonou o movimento pelas redes sociais. Resultado: goleada inesquecível da cidadania em cima da indigência moral.

O segundo ciclo das Grandes Invenções ainda está por vir. Por enquanto, a tônica é reinventar, um dos sinônimos de inovar. Quando Thomas Edson inventou a lâmpada, possivelmente ele nem sonhava que tinha reinventado a vida noturna, a boêmia, e até os workaholics. Se Graham Bell soubesse que inventou o telemarketing, possivelmente teria criado a discagem criptografada. O brasileiro Santos Dumont reagiu tragicamente quando percebeu que tinha inventado uma das mais temíveis armas de guerra. E, com certeza, os ingleses teriam inventado outro esporte, se soubessem que o futebol serviria para colocar o Brasil como a maior potência do esporte mais popular do mundo. Com certeza, há muitas coisas ainda a serem feitas mais ou menos como antigamente.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

A VERDADE SOBRE OS GÊNIOS


Pouca gente imagina como surgiram os gênios que as lâmpadas pulverizam no ar para se submeterem ao desejo daquele que o libertou. Mas o único mistério que a mitologia ainda esconde sobre eles é o surgimento do primeiro gênio. A partir do segundo, a regra é clara. E reúne todas as condições naturais para que os fatos estejam interligados na mais perfeita lógica.

A começar pelo perfil e competências do "libertador". Normalmente alguém muito simples, quase anônimo, de boa índole e inteligente. Mas desastrado, sem noção, o próprio ancestral do nerd, o mais antigo de que se tem notícia. Alguém perfeito para fazer uma trapalhada numa situação trivial, e mesmo assim provocar tanta surpresa.

Claro que haverá os céticos a contestarem essa crença. Não acreditam na existência de gênios capazes de realizar desejos, nem nas fadas, ou em patos e ratos que conversam com cachorros e porquinhos. Certamente não conhecem outros mundos, como o Disney World, onde essa realidade está no cotidiano de maneira tão sólida que tem até um orçamento anual: US$ 14 bilhões. Muito bem, quando se fala em cifras as coisas começam a ficar mais reais. Sim, porque até as mágicas que encantaram milhões de pessoas ao longo de tantas gerações, tem um custo. A mais recente delas na Disney custou um bilhão inteiro dos dólares que circulam por lá
(dólares reais!).

O que os incrédulos precisam entender é que mesmo diante das criações mais fantásticas existem limites. O impossível do impossível! E é aí onde foi construída a lógica da história dos gênios. Preste atenção, porque os fatos a seguir são confidenciais, se você leu até aqui por engano, por favor esqueça e avise o remetente. O primeiro gênio da história já tinha passado várias vezes por este mundo e ouvido os desejos de muitas pessoas. Eis que, logo após deixar Aladdin, foi encontrado por outro desastrado, em mais um tropeço da vida: "-Você agora é meu amo e senhor. Estou aqui para tornar realidade o seu desejo!" O libertador, quase estupefato - sim, no caso deles, demoram até pra se surpreender - coçou a cabeça, olhou fixamente para o nada e depois colocou a ponta do indicador na boca. Ficou assim, absorto, por alguns minutos, até que falou ao gênio: "-o meu desejo é saber exatamente o que eu desejo, no mais íntimo do meu querer". Um silêncio sinistro tomou o ambiente. Agora o gênio olhava para o outro lado do nada. E estupefato, declinou: "-Perdão, meu amo e senhor! Durante milênios vaguei pelo universo, atendi pedidos dos mais diversos. Normalmente dinheiro, prazeres passageiros, fama, ostentação. Mas nunca vi no semblante dos meus senhores o mais verdadeiro e sincero desejo. Ninguém sabe exatamente o que quer, foi isso que eu aprendi na minha jornada." O libertador, um tanto frustrado, queria encontrar algo a dizer. Mas o gênio continuou: "-Eis que esse será agora o seu destino. Vai assumir os meus poderes e a minha imortalidade, ouvir todos os pedidos, refletir sobre cada um deles no silêncio dessa lâmpada, até que descubra uma maneira de entender exatamente o que os humanos querem. Ou até que alguém lhe faça essa mesma pergunta novamente. Se ainda não souber responder, voltará a ser um mortal comum, como passo a ser agora".

A Disney, que conhece muito bem essa história, se prepara a cada dia para o momento em que o gênio surgir diante dela. E investe muito na inovação, em coisas surpreendentes, pra ver se descobre o que os humanos querem. Foi aí onde investiu o bilhão de sua última mágica, o MyMagic+, um sistema inédito de controle de multidões, coleta de dados e tecnologia wearable. Os superpoderes estão numa pulseira, com chips de identificação por radiofrequência (RFID), ligados a um banco de dados criptografado, com informações do turista. Com elas o cliente paga ingressos, abre a porta do apartamento no hotel, faz pagamentos para lançar como débito ou crédito. A partir do sistema pode ser feita a reserva e todo o planejamento de passeios, através de um site ou de aplicativo próprio para smartphone. O sistema pode mudar a maneira como as pessoas se divertem e gastam. Uma volta a infância, quando você escolhia livremente o que fazia, pensando só em se divertir. E seus pais se encarregavam dos pagamentos, da organização para que as coisas acontecessem do seu jeito. O MyMagic+ permite que você faça o pedido do seu almoço pela tela sensível que fica na porta daqueles imensos restaurantes dos parques da Disney. Daí é só entrar e escolher qualquer lugar. Em seguida, o garçom chega e coloca na mesa a sua refeição, sem perguntar nada, só com um sorriso. Pela sua movimentação no parque, pelas suas escolhas, o sistema pode conhecer mais você e apresentar sugestões que certamente você vai gostar.

Poderia ser a mágica perfeita, convincente. Mas agora o problema não são os céticos. Os insatisfeitos com esse tipo de mágica são gente muito séria, pessoas que questionam o avanço que esse sistema permite na sua privacidade, a intimidade que você não quer compartilhar com empresas. Afinal, é o espaço mais próximo do seu desejo, que seus pais conheciam tão bem e as empresas inovadoras tem a maior curiosidade a respeito. Os protestos contra os rastros que esse sistema registra, através de bancos de dados poderosos pode se tornar, em breve, um problema para a Disney resolver com advogados, e não com magos.

Definitivamente, inovar é fazer muitos amigos, mas também alguns inimigos. A sua chance de fazer só amigos é encontrar a lâmpada do gênio. Até lá é preciso acreditar, investir, inovar, sempre tentando compreender e aprender. Avance em direção às fantasias e tenha certeza de que, antes de encontrar um gênio em uma lâmpada, há muitas coisas excitantes a serem inventadas, que podem se tornar ótimos negócios.