sexta-feira, 23 de maio de 2014

POR UM PAÍS MENOS ABITADO (!!)


"Alugam-se antenas". Se você vir um anúncio desses vai pensar por que alguém alugaria uma antena. Veja bem, o aluguel não é daquelas torres onde as operadoras de celulares instalam parabólicas das mais exóticas. O aluguel é mesmo de antena. No horário de verão, quando volto pra casa é comum ver um casal de cacatuas trocando tímidos carinhos na minha antena. Fora elas, não sei quem mais pagaria aluguel por aqueles puleiros. E essa hipótese não é mais romântica – ou irônica – do que você vai ler na sequência do anúncio: "alugam-se antenas para acessar nuvens".

O grande negócio tem pela frente a Suprema Corte dos EUA. E certamente não teria chegado lá se não envolvesse muito dinheiro. A empresa locadora de antenas é a startup Aereo. Ela cobra US$ 8,00 por mês para - segundo jurou no Tribunal - alugar uma antena que mede alguns centímetros. Ah, e a antena nem fica na casa do usuário, é instalada na filial da empresa na cidade do assinante. Através do uso remoto daquela antena, o usuário acessa de tablets, de smartphones ou PCs o conteúdo de emissoras abertas, que a Aereo deixa gravado na nuvem. Num país onde a velocidade da Internet é várias vezes superior à média brasileira, a tecnologia passa a ser prática. Os donos dessa nuvenzinha esperta, que abocanha os sinais de TV que passam ingenuamente pelos ares, acham que estão fazendo um favor aos radiodifusores, por levarem a programação a muitas outras pessoas. Já as emissoras, que gastam milhões em direitos autorais para a execução pública de shows, filmes, jogos e muitos outros programas de TV, querem a parte delas.

No melhor estilo "nada é o que parece ser", os juízes vão ter que escutar toda sorte de abobrinhas cibernéticas para decidir o que está sendo considerado um marco da computação em nuvem: o armazenamento pessoal de mídia na nuvem é legal ou não? Ou ainda, um HD "comunitário", disponível remotamente a muitas pessoas, pode ser considerado um centro de exibições públicas de mídia? As emissoras afirmam que sim, porque os assinantes não veriam nada, se nada estivesse gravado lá. A Aereo contra ataca dizendo que a gravação que ela faz é tão privada quanto qualquer outra gravação feita na nuvem. Só passa a ser compartilhada quando um assinante resolve assistir à TV e aperta o botão, da mesma forma que faz quando liga seu televisor em casa. Como a Aereo só grava sinais de tvs abertas, ela entende que dá na mesma. A única diferença é que o usuário precisa de uma antena, e por isso aluga da Aereo.

Se você quer reler o parágrafo anterior, tudo bem, mas nada indica que você vai conseguir entender exatamente o que está escrito lá. É mais fácil você admitir desde já que essa conversa não passa de um "jogo de papeiros", feito para confundir, e não para explicar. Estão plagiando agora o que Chacrinha, o grande mago da TV brasileira, proclamou há décadas.

Não é só a filosofia do Chacrinha que a TV brasileira tem pra ensinar. O modelo tecnológico, já reconhecido pela International Telecommunication Union como o melhor do mundo, tem soluções como a banda 1-seg, que pode ser captada de dispositivos móveis, até em movimento. Com sistemas de antenas especiais, um ônibus em viagem pode captar até o sinal digital de alta definição das grandes redes brasileiras, praticamente todas, de sintonia aberta. Isso torna muito mais simples todos os modelos de negócios associados à geração de som e imagens no Brasil. E o que é melhor, com muito mais comodidade e custo zero para o usuário final. A radiodifusão, esse fenômeno natural que aceita tão disciplinadamente as manipulações humanas, ainda é a grande alternativa para quem quer tornar tudo visível e contemplável pelo maior número de pessoas. As estruturas pesadas que se firmaram nos países que saíram na frente - como os Estados Unidos - cada vez mais se revelam um passivo tecnológico a ser solucionado. Tanto que o assunto está tomando cada vez mais o tempo dos tribunais do que dos laboratórios de pesquisas e desenvolvimento.

A internet está se tornando uma verdadeira "catraca" para canalizar serviços em direção ao caixa de grandes empresas de mídia. Aqui no Brasil a via de radiodifusão é explorada com mais inteligência. Digamos que os Estados Unidos são um país muito "abitado". Ou seja, tudo que for chegar aos lares, antes tem que virar bit, tem que ser "abitado", para ser cobrado e depois entregue. Acho que o Chacrinha concordaria com o trocadilho......

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