sexta-feira, 18 de abril de 2014

VANGUARDISMO BRASILEIRO


Definitivamente, o planeta já teve uma versão 1.0. Deve haver alguma polêmica para marcar a data em que ficou pronta. Mas com certeza não faz muito tempo e inclui a descoberta dos 5 continentes, o fim da escravatura, a Revolução Francesa, depois a industrial, o surgimento dos empregos ...... Há quem considere que a Declaração Universal dos Direitos do Homem e dos Cidadãos deveria ter sido encerrada com a icônica frase das softhouses: "-Alô, Mundo!" Foi ali que o planeta Terra ficou pronto.

De lá pra cá, estamos testando os bugs. E um dos mais sérios, que bate de frente com a inovação, é justamente o conjunto de leis feitas em nome dos direitos. Sem dúvida é o maior avanço da humanidade, mas tem a irremovível marca da falibilidade, da fraqueza diante da missão hercúlea de apontar o certo e o errado. Começa que, numa auditoria de projeto, bateria de frente com o princípio de eficiência mais elementar, que é a concisão. Com efeito, se Deus fez suas leis em 10 mandamentos, é de se estranhar que os homens inventem 30 artigos pra tentar dizer a mesma coisa. Imagino o que seria de Moysés - que trouxe os mandamentos numa placa de pedra - se Deus fosse tão prolixo quanto os participantes da Assembleia. Desde a primeira linha, no nome da bem aventurada Declaração, vê-se a marca de ingenuidade numa falha gritante, que as feministas logo se encarregaram de mudar para Declaração dos Direitos Humanos - não mais do homem.

Por essas e outras as mentes inovadoras, que se ocupam a cada instante de construir as novas versões do mundo, vira e mexe tropeçam em oportunismos legais da versão 1.0. E, quanto mais passa o tempo, esse oportunismo regulatório obtura mais e mais os espaços para o futuro. Tanto que, no início do século passado, nenhum fabricante de carroça entrou com uma ação na justiça pra tentar impedir o lançamento dos carros. Fosse hoje ...... Ainda bem que a tábua legislativa dos homens - que é também das mulheres, claro - já se desdobrou o suficiente para, pelo menos, gerar disposições em contrário.

Mais uma vez, o caso é a briga entre "broadcasters" e "interneters" nos Estados Unidos. No capítulo desta semana está a compra da Time Warner Cable pela Comcast. É a maior operadora de TV a cabo de lá, querendo engolir a segunda. Se você já tinha se surpreendido com o que aconteceu até agora nesta briga, espere para ver o que tem pela frente! Primeiro é importante esclarecer melhor os detalhes das "etnias" envolvida na disputa. As operadoras americanas de TV por assinatura são meio híbridas. Mestiças, com raízes broadcaster, por distribuir o sinal das emissoras, mas com parentesco interneter, por serem provedoras ISP. O que as faz pender mais para o lado broad é a proximidade bem maior com os produtores de conteúdo. Hoje, sem dúvida, eles são o fiel da balança. Afinal, entre os maiores produtores de conteúdo estão justamente os broadcasters da gema, os genuínos. No fundo, as operadoras de TV por assinatura são só atravessadores, que ganham apenas pra entregar o produto no varejo.

Pois bem, diante do FCC, que regulamenta o mercado para garantir a concorrência, a Comcast apresentou um argumento inusitado. Apontou como concorrentes severos os gigantes do Vale do Silício, os serviços DSL e das empresas que operam por satélite. Quanto a Time Warner Cable, ela prova que não existe absolutamente concorrência. Nos 100 milhões de pontos de distribuição de sinal a cabo dos Estados Unidos, não há um único onde Comcast e Time Warner disputam clientes. As áreas estão harmonicamente divididas. A conclusão óbvia é que a concorrência desse segmento é, sem dúvida, a inovação!

Foi por conta desse contrassenso que no início deste mês Tom Wheeler, Chairman da FCC, aproveitou um encontro na NAB, em Las Vegas, para dar um puxão de orelhas nos broadcasters. Ele reclama que o segmento se esconde atrás da regulação quando se sente ameaçado. E colocou os radiodifusores na parede perguntando quando vão se tornar empresas de mídia digital. Citou como exemplo as próprias distribuidoras de sinal, que cresceram incluindo o serviço ISP e outros de perfil puramente digital. O que só os brasileiros ouviram nessa crítica foi um apelo subliminar para que os radiodifusores olhem mais ao sul, exatamente para o Brasil. Sim, é aqui onde está o modelo para o qual o gigantismo americano deve migrar, que é o sinal aberto de TV.

A TV a cabo é um acidente de percurso na história da TV. Ela surgiu do espírito empreendedor de um vendedor de aparelhos, na década de 40, nos Estados Unidos. Como o sinal chegava com baixa qualidade pela antena doméstica, quase inaudível, ele resolveu puxar cabos da antena de retransmissão mais próxima da cidade até as casas. Os americanos, consumidores exigentes, aderiram à moda até que anos mais tarde outro empreendedor, fundador da HBO, viu a oportunidade de agregar valor à programação ampliando a oferta de conteúdo via cabo.

A realidade hoje é outra. O sinal digital aberto não tem interferências, chega com total qualidade ao aparelho e permite agregar mais conteúdo. Por que depender dos distribuidores de sinal? Principalmente agora que o sistema ATSC, da TV digital americana, chegou à terceira versão com muito mais recursos.

Por aqui falta os radiodifusores serem mais ousados em suas investidas, por exemplo, disputando mais seriamente as telas dos telefones celulares. O sinal de TV para smartphones já está no ar há anos, com ótima qualidade, mas as fabricantes tem privilegiado a internet sem fio. Se o Brasil ainda está devendo muito em outras áreas, ninguém pode negar que no mundo da TV, a nossa versão já é a 2.0.

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