sexta-feira, 25 de abril de 2014

A VIDA SEM GELADEIRA


Se você sentiu calafrios em pensar como seria a sua vida sem geladeira é bom lembrar que, para milhares e milhares de lares brasileiros, esta foi a saída para garantir a TV em casa. Há tempo as pesquisas do IBGE revelam que o aparelho mais presente nos lares brasileiros é o fogão. Em segundo vem a TV, provando que, pra assistir à telinha, a população deste país tropical até dá um gelo no pinguim.

Não é só isso que está em jogo no leilão da banda de 700 MHz para a Internet 4G. Polêmicas a parte - sobre tudo que se fala a respeito da programação de TV - a verdade é que ela presta um serviço social insubstituível no Brasil de hoje. Pergunte à OMS, a Organização Mundial da Saúde. A entidade considera as campanhas de vacinação no Brasil um exemplo a ser seguido no mundo todo, inclusive no primeiro. E se não fosse a TV, muito desse esforço certamente estaria limitado. Há uma infinidade de outros argumentos para provar que a TV hoje é uma instituição nacional.

Mas antes de continuar essa conversa aqui na sala, vamos dar uma passadinha na confusão do armário de ferramentas. Afinal, você pode ter certeza de que essa história de troca de banda vai acabar fazendo você dar um tempo por ali. O sinal digital que chega na sua TV hoje vem pela banda de UHF - Ultra Hight Frequency, cujo limite está um pouquinho abaixo dos 700 MHz. O Brasil hoje já tem uma experiência de internet 4G, que está trafegando numa banda bem acima, de 2,5 GHz. Acontece que, para trabalhar nessa frequência, as operadoras tem que investir em
muitas antenas repetidoras. A alternativa mais indicada é operar na banda de 700 MHz, colada na frequência onde opera a TV digital. Tecnicamente, isso representa um risco de interferências nos dois serviços, tanto de TV como na banda ultra larga 4G. Principalmente nas regiões próximas aos grandes centros, onde o tráfego de ondas eletromagnéticas de todas as frequências, é bem parecido com o que se vê dentro dos ônibus no horário de pico.

A questão é que as operadoras querem porque querem a banda de 700 MHz para o 4G e o governo sabe que elas podem pagar bem por isso. Vão ser oferecidas 3 licenças para cobertura nacional, que serão disputadas em leilão pelas 4 grandes: Tim, Claro, Vivo e Oi. Como nenhuma delas quer sair com o mico, a expectativa é de que o leilão alcance a marca dos R$ 18 bilhões. Seria tudo perfeito para o governo se não tivesse 200 milhões de brasileiros passando em média 3 horas do dia em frente à TV - a estimativa está baseada nos dados apurados nos EUA sobre o hábito do adulto americano, que é de 5 horas diárias em média. Por isso o edital do leilão vai exigir audiências, testes e mais testes e até a distribuição de filtros de frequência - para quem já tem a sintonia digital. Para os que ainda assistem pelo analógico, o leilão deve garantir um set- top box para cada lar.

Muito bem, voltando pra sala de TV - que está em guerra nos EUA - o assunto agora é set-top box. A caixinha chegou ao Brasil conhecida como "conversor digital". Não deixa de ser, mas a simplificação é mais ou menos como se ouviu na conversa da secretária dos anos 90, que encontrou um microcomputador na sua mesa e ligou pra amiga dizendo que ganhou uma máquina de escrever super incrementada. O set-top box tem o potencial de desbancar as tradicionais gigantes de canais por assinatura nos Estados Unidos, por isso é a razão da "guerra nas salas de TV". Lá, as grandes investidas tecnológicas no mercado televisivo neste instante são os set-top box da Apple, Amazon, Roku e Google, dentre outras. Cada um deles com maior potencial para oferecer serviços personalizados pela TV, já que o alto nível de qualidade de som e imagem é um quesito comum.

Para as salas do Brasil, onde a TV aberta lidera folgadamente, o set- top box só pode trazer mais paz! Entre os serviços personalizados que ele pode oferecer aos cidadãos estariam o agendamento de consultas e exames médicos na rede pública de saúde, solicitação de documentos, reservas de matrículas nas escolas, troca de mensagens com pais de alunos enfim, muito mais cidadania. Até o programa 4D - este é 4D, voltado para a inclusão digital - encontraria um espaço privilegiado numa TV qualquer que estivesse plugada num set-top box de alto desempenho. É nessa onda onde os 700 MHz podem fazer o governo surfar na inovação.

Como estamos falando de um universo de 10 a 15 milhões de lares que vão receber o set-top box, não caberia propor a distribuição de aparelhos de alto desempenho para todos. Embora o custo possa cair imensamente em função da escala de produção, fica melhor pensar em uma amostra, para que o governo testasse projetos de inclusão desses serviços via TV. Bastaria desenvolver os aplicativos e ajustar aos procedimentos dos respectivos órgãos públicos. Aliás, uma ação nesse sentido é urgente! Uma pesquisa do IBGE sobre a Gestão do Território Nacional, divulgada no final da semana passada, trouxe dados alarmantes nesse sentido. Ela coloca em condição de exclusão 60,4% das cidades brasileiras, pois não possuem nenhuma representatividade da burocracia federal ou ficam totalmente fora da estrutura de ligação entre importantes instituições públicas nacionais. O estudo analisou a presença de órgãos federais com considerável capilaridade: IBGE, INSS, Justiça Federal, Ministério do Trabalho e Emprego, Secretaria da Receita Federal, Tribunais Regionais Eleitorais e Tribunais Regionais do Trabalho. As prefeituras dessas cidades seriam candidatas naturais a receberem set-top box de alto desempenho, para montarem micro centrais de atendimento para órgãos públicos federais. Escolas e famílias mais numerosas, idem. O objetivo seria aproveitar o momento para testar a cidadania via TV. Mais tarde, com um programa testado e bem sucedido, e a natural redução dos preços das tecnologias, o modelo seria universalizado.

A enorme redução de custos do governo, a economia para toda a sociedade e o aumento da oferta de serviços às famílias carentes, com certeza contribuiriam muito para que mais e mais lares finalmente, chegassem às suas geladeiras.

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