sexta-feira, 28 de março de 2014

O OITAVO MANDAMENTO


Não existe nada mais arcaico e engulhento no mundo dos negócios do que a cartelização. É exatamente o oposto da inovação. O grupo de fornecedores de algum produto ou serviço percebe que pode se organizar para pilhar o consumidor: "-vamos ganhar muito e entregar a mesma coisa de sempre, do jeito que quisermos. Quem quiser, tudo bem, quem não quiser, amém, porque vai ter de comprar de nós mesmos".

A cartelização já era inaceitável antes de existir o mundo. Tanto que, na Bíblia, consta que a maçã só foi proibida porque o Paraíso oferecia uma imensa gama de opções em frutas, de todas as cores e sabores. Nada mais limitava a vontade do consumidor. E o Criador já havia determinado que as espécies, inclusive vegetais, poderiam variar características e até seriam combináveis, para produzirem mais e mais texturas e aromas. Com todo respeito à senhora Eva, foi por pura preguiça que ela não se deu ao trabalho de fazer alguns enxertos, já que queria um fruto diferente. Ela tinha todo o tempo do mundo pra isso. Mas não quis inovar e foi logo pôr a mão onde não devia. Um pecado por pura falta de originalidade.

Talvez hoje a cartelização faça parte do castigo imposto à preguiça da espécie humana. Vira e mexe alguém resolve proibir algum fruto do mercado, ou melhor, elevá-lo a preços quase proibitivos, por ter domínio sobre ele. Esse alguém sempre é um cartel, que não tem nada de "criador", mas tem a empáfia de se achar assim um deus. Imagine que isso ainda acontece num mundo virtual, surgido de tanto progresso da humanidade. E, pasme, sob as barbas do próprio Tio Sam, aquele que é lembrado por ter as chaves do livre mercado nas mãos!

Por não haver leis regulamentando o que passa a cada relevo de um chip, muita gente não se vê impelida a pensar com a mínima ética. Alguns grandes provedores de Internet, os ISPs, resolveram tomar seus clientes como reféns. Tudo para cobrar mais de quem descobriu uma forma de ganhar dinheiro usando o tráfego que o consumidor paga. Foi esse o desabafo de Reed Hastings, CEO da Netflix, num blog da empresa há duas semanas. Segundo ele, os grandes provedores americanos estão cobrando uma espécie de "pedágio" para entregar o conteúdo deles na velocidade que o consumidor contratou. Ora, se o consumidor paga para ter aquela velocidade, não há porque cobrar a mais do remetente do streaming de vídeo. Os protestos não são apenas da Netflix, mas de outros prestadores de serviços de rede que entregam conteúdos, os CDNs. A Comcast, maior distribuidora de sinal de TV por assinatura dos EUA e provedora ISP, não concorda. Reclama que os gigabytes dos filmes da Netflix estão entupindo a rede. Só esquecem que esses streamings também levam milhares de assinantes mensalmente para os provedores ISPs.

Num país como os Estados Unidos, onde mais de 85% dos lares tem TV por assinatura, o poder de uma dsitribuidora de sinal como a Comcast é muito grande. Sem um marco legal específico para regulamenta-las, essa força cresce além do sensato. No Brasil, onde a força muito maior é da TV aberta, um produtor de conteúdo como a TV Globo tem outro poder de fogo. As condições do acordo assinado no fim da semana passada com a Oi, para oferecimento de conteúdo, devem ser reveladoras no que diz respeito à parte mais forte do contrato. A Oi vai disponibilizar para todo o Brasil conteúdos de todas as 43 emissoras da TV Globo em HD via satélite. Na disputa americana entre os territórios tecnológicos de "broadcasters" e "interneters", a Apple, que sempre corre por fora com alguma grande inovação, pretende lançar uma nova versão do Apple TV sem questionar o custo do “pedágio” das distribuidoras. Além dos serviços de streaming já disponíveis, o novo set-top box poderá utilizar uma maior largura de banda das redes cabeadas dos ISPs para entregar conteúdo linear e sob demanda de tv por assinatura com maior qualidade para os assinantes. Por enquanto, uma ótima ideia, mas sob grande desconfiança. A Apple está procurando gigantes da distribuição de sinal como a Comcast, Time Warner Cable e DirecTV, para distribuir o conteúdo delas pelo seu aparelho. O problema é que a Apple quer que os clientes estejam logados com credenciais dela. Na prática, significa ter o domínio da relação com a turma que paga a conta.

Curioso que, num país tão desenvolvido, a briga pelo cliente esteja tão centralizada no hermetismo da tecnologia de distribuição, e não na qualidade do conteúdo! Por isso, nos Estados Unidos, a expectativa de dar vez ao consumidor fica por conta de leis que garantam a neutralidade da rede da Internet. Pelo princípio da neutralidade, nenhuma empresa pode alterar a velocidade de conexão por conta de pagamentos deste ou daquele produtor de conteúdo. No Brasil, onde o marco civil da Internet acaba de ser aprovado na Câmara, políticos mais influentes já começam a dar sinais da presença dos fortes lobbies de "interneters" por aqui. Afinal, a discussão no Senado ainda promete.

Independente desses rumos, o Brasil já tem também as alternativas no que diz respeito ao sinal de TV mesclado com serviços de streaming via Internet. A smartBox, uma caixa eletrônica recém lançada por uma empresa 100% nacional, tem características muito semelhantes ao projeto da Apple, com a vantagem de receber o sinal das TVs abertas. O equipamento veio na cola da Copa do Mundo, mas acabou equilibrando também a discussão em torno do marco civil da Internet. Como é "prata da casa", não cabe se estender aqui à respeito. Mas não deixa de ser uma prova de que, em termos de TV, o Brasil está bem perto do top tecnológico.

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