sexta-feira, 30 de março de 2018

OS ESPERTOS, SEMPRE ALERTAS



“-Ô tio, cê usa camisinha!?”

O que responder quando um sobrinho de 5 anos lhe faz uma pergunta dessas, a queima roupa, numa festa em família? Se disser que sim, será que ele vai pedir para ver? E se disser que não? Estávamos nos anos 80, éramos mais conservadores e a epidemia de AIDS explodia, campanhas de conscientização em todas as mídias, locais públicos e privados, nas escolas, no trabalho:

“-Camisinha pra quê?”, tergiversei.

“-Pra não pegar AIDS!!”, me explicou o Gabriel, como quem repete algo muito evidente. Eu quis testar quanto ele sabia sobre o que estava falando:

“-Hmm... Você usa?”

“-Não.”

Ele mostrou alguma frustração pela resposta sincera. Mas não deixou por menos:

“-É, mas minha amiga de escola usa.”

“-Ah, é!? E como a sua amiga usa camisinha?”

“-A mãe dela coloca na lancheira, pra ela tomar com água, se ficar nervosa.”

Um exemplo do que uma avalanche de apelos dramáticos, dirigidos à massa, pode produzir na cabeça de uma criança, incapaz de entender o que estava acontecendo!

A condição “criança”, no caso uma referência etária, hoje se evidencia mais pela incapacidade de compreensão. Nessa segunda década do Século XXI, com tantas e tão rápidas mudanças, estamos “crianças” diante de boa parte delas. Não entendemos nada e, por isso, muitas vezes tememos.

Gente que já teve o nome na lista telefônica (até com certo orgulho), hoje está assustada com a “grande ameaça” que representa o compartilhamento de dados pessoais básicos por empresas que negociaram com o Facebook. Não está certo, é uma violação de privacidade, se quiser levar ao pé da letra. Mas não dá pra perder o sono.

O que torna dados tão básicos mais importantes é a possibilidade de acumular e manipular em listas infindáveis. Cruzar eletronicamente com outras listas, sobre o que cada um consome, onde frequenta, o padrão de vida que leva. Tudo isso em alguns segundos. Assim dá até para dividir populações em grupos, caracterizados inclusive psicologicamente, e então colocar robôs pra conversar com cada um desses grupos, e até mesmo com cada uma dessas pessoas. Estratégias de vendas.

QUEM VOCÊ É


Há um novo fenômeno a ser compreendido, que mistura de maneira inédita as noções de individual e social. Privacidade, lá no princípio, dizia respeito a um nível mais profundo de conhecimento sobre o indivíduo. Lembrando mais uma vez que informações pessoais como nome, endereço e telefone constavam de listas públicas, editadas anualmente e distribuídas de graça pelas companhias telefônicas.

Até hoje, toda semana apresentamos informações pessoais muito mais detalhadas em postos de gasolina, padarias, botecos. Essas informações mais básicas não costumam representar um risco para o indivíduo que as expõe. Mas os fatos recentes mostram que elas representam, sim, um risco para a sociedade. E é por aí, pela influência nas escolhas da sociedade, onde o problema um dia vai bater à porta de cada indivíduo.

Mais objetivamente, quem vasculha esses terrenos quer chegar à sua identidade, ou seja, querem a cabine de comando do seu “eu”. Pelo menos para decisões de consumo, lazer, e até outras mais delicadas, como grupo político, ou o voto. Precisam de uma “amostra válida” do seu “tecido existencial”, onde vão testar suas reações e atitudes.

Essa amostra está sendo refinada, já há algum tempo, pelos big datas de seus cartões de crédito, seus acessos na Internet, consultas sobre temas no Google, programas na TV por assinatura e, possivelmente, por uma série de outros caminhos, cadastrais ou não, que ainda nem sabemos. São dados da sua intimidade individual que falam muito sobre você.

Mas agora, estudos apontam amostras mais simples de você que podem ser até mais reveladoras do que essas mais íntimas – e tão caras.

Por exemplo, Donald Trump teria contado com um diferencial muito importante para “vender seu peixe” na última eleição presidencial americana. Esse diferencial veio de mensagens muito bem direcionadas, quase personalizadas, para os vários segmentos do eleitorado. Ele ficou sabendo, entre os americanos, quem era do tipo “mente aberta”, ou do tipo “consciencioso”, ou “extrovertido”, ou “cordato” ou “neurótico”. Em inglês esses cinco perfis formam a sigla “ocean”. E para saber em qual desses perfis cada eleitor se encaixava foi muito simples obter as “amostras”. Bastou analisar as postagens que cada um curte numa rede social!

Esse método foi desenvolvido a partir de pesquisas da Universidade de Stanford e do Centro de Psicometria da Universidade de Cambrigde. Um dos pesquisadores, Aleksandr Kogan, usou esse estudo para desenvolver o aplicativo thisisyourdigitallife, que traz dados de usuários do Facebook para big datas do Ocean. Então vendeu o app para a empresa Cambridge Analytica, que vendeu para o Trump, que ficou presidente.

Você deve ter percebido que essa “amostra” de uma identidade não é obtida a partir da intimidade individual de alguém. Mas da mais discreta presença social, quando clica no “curtir”. É mole!

QUEM ELE É


A riqueza de detalhes que o método Ocean pode obter sobre alguém seria algo impressionante. De acordo com a pesquisa, a análise de 70 curtidas de uma pessoa permite conhece-la melhor do que os próprios amigos dela. Com 150 curtidas o sistema sabe o que nem os pais do indivíduo conhecem a respeito do perfil do próprio filho. E assim vai, até que algumas centenas de curtidas revelariam o que nem você próprio sabe a seu respeito (atenção, psiquiatras: a batata vai assar!).

Claro que a classificação em cada um dos cinco perfis deve exigir uma análise apurada. Deve haver sub perfis, as curtidas significativas talvez precisem ser validadas previamente, os assuntos selecionados. Mesmo assim, por enquanto, não acredite em nada disso. Tudo ainda é muito simples para ser verdade.

Há décadas, da boca pequena, falava-se de uma tal de “propaganda subliminar”. Consistia em poucos frames, com o layout de uma marca, inseridos várias vezes na fita de um filme. O olho de quem assistia ao filme não era capaz de perceber a marca, pela rapidez da exibição. Mas, ao final da sessão de cinema, todos sentiam uma forte atração por algum produto da marca. Por exemplo, tomariam uma coca-cola, caso fosse a marca inserida. Esse tipo de propaganda, por ser tão poderosa, teria sido proibida no mundo todo.

Anos se passaram e ninguém nunca soube de nada concreto a respeito dessa tal propaganda. Nem de alguma lei proibindo. Mas, com certeza, alguém ganhou muito dinheiro com isso. Desta vez, convém lançar pequenos barcos neste novo oceano de estratégias dominadoras. Não é hora de correr o risco de naufragar ali sua principal embarcação.

Vivemos numa sociedade onde é notável o aumento da ingenuidade de determinados segmentos. São vulgarmente denominados otários. Esses, tendem a ser manipuláveis, sem exigir requintes científicos. Não deve ser a censura de aplicativos que vai livrar o mundo desses desacertos. Mas a justa distribuição de oportunidades educacionais de qualidade.

Quanto ao Facebook, basta lembrar como ficamos sabendo da existência de seu proprietário. Mark Zuckerberg encarna a esperteza bem sucedida, justamente por ter estrelado um block buster autobiográfico, mostrando o que ele é capaz de fazer pelos seus bilhões de dólares. Das fake news às fake sorry (você acreditou nas desculpas que ele apresentou publicamente?), tudo pode virar moeda. E você, que vive o Século XXI, sabe bem disso. Cuide-se, apenas. Nada de desespero.

sexta-feira, 23 de março de 2018

E-DIGITAL: CEM AÇÕES OU SEM AÇÕES?


O ano novo brasileiro na Internet começou na última quarta-feira. Ou, pelo menos, o ritual foi muito parecido. Com tantas boas intenções anunciadas no E-Digital – a Estratégia Digital do Governo Federal – o documento ficou parecido com aquelas promessas que fazemos a nós mesmos na noite do réveillon, cuja efetiva realização não tem fundamentos sólidos.
Ao todo são cem ações propostas para os próximos 4 anos, visando aumentar a disponibilidade de soluções digitais no Brasil. Basicamente, maior e melhor cobertura por banda larga.
No documento há fortes sinais de gestação em gabinetes, até com algum amadorismo. Por exemplo, ao se referir às fontes de recursos para cumprimento das ações, um dos itens se apoia na "possibilidade concreta de aporte significativo das operadoras de telecomunicações na ampliação das suas redes de transporte de dados e de acesso (fixo e móvel) em banda larga." Ora, ora, o Governo não tem dados a respeito do potencial de mercados Brasil afora para atrair investimentos das operadoras? Não cogita abrir esses mercados para outras empresas do setor, no caso das atuais prestadoras não se interessarem? Ou sabe de tudo isso e concluiu que vai depender de atos de benemerência das empresas de telecomunicações?
Por tudo isso o E-Digital, desenvolvido por um Grupo de Trabalho Interministerial, sob coordenação do MCTIC – Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, ficou com cara de peça publicitária de campanha do titular da pasta, Gilberto Kassab. Ele está às vésperas de deixar o cargo para se candidatar a vice-governador de São Paulo. Lembrando que no ano que vem o presidente será outro, as cem ações propostas podem fazer do E-Digital um documento sem ações.
O ex-prefeito de São Paulo passou pelo MCTIC num período de muitas mudanças no setor. Como exemplo, o desligamento do sinal analógico de TV aberta e o lançamento do primeiro satélite brasileiro (SGDC). Mas uma das marcas da gestão – que até pode não ser por determinação do Ministro – é o excesso de cuidados no trato de questões relacionadas às teles. Hoje elas são tratadas no Governo como gigantes do provimento de uma infraestrutura indispensável para o país, de perfil estratégico, grandes empregadoras e investidoras. Ou seja, tornaram-se as empresas privadas que desfrutam de um certo status de estatais.

A “LEI DA PALMADA” PARA AS TELES

Educadores em geral, principalmente os mais voltados à primeira infância, costumam repetir insistentemente: “-não adianta bater, o importante é conversar”. Levaram tão longe a recomendação que fez surgir a famosa “Lei da Palmada”. O pai que der palmadas ou aplicar outros castigos físicos ao próprio filho, pode ser processado pelo estado.
Nesta semana a Anatel apresentou um discurso parecido durante evento sobre o RQUAL, o novo Regulamento de Qualidade dos Serviços de Telecomunicações. Num workshop o Superintendente Nilo Pasquali, da área de Planejamento e Regulamentação da agência, disse que as multas não têm se mostrado eficientes para manter a qualidade dos serviços prestados pelas teles. Ele entende que novos mecanismos devem ser agregados.
O novo RQUAL, que estará em consulta pública por mais duas semanas, vai reduzir de forma significativa a quantidade de indicadores usados para mensurar a qualidade dos serviços. O argumento é de que a Anatel quer “a visão do usuário”, que seria diferente de um monte de dados técnicos. O afrouxamento das regras inclui também a publicação semestral dos dados referentes a cada indicador, ao invés da publicação mensal, como ocorre atualmente. Lembrando que a coleta dos dados estará a cargo das próprias operadoras. Pasquali cita ainda a tendência de diminuir a regulamentação no setor.
Numa avaliação mais baseada nos fatos fica difícil afirmar que as multas não surtiram efeito. Por enquanto, os PADOs – Procedimentos de Apuração de Descumprimento de Obrigações, têm se transformado em processos administrativos e judiciais, não em recolhimentos em favor da agência. As “não-multas”, essas sim, não demonstraram qualquer eficiência. São os TACs, Termos de Ajuste de Conduta, onde a prestadora recebe um leve puxão de orelhas, reconhece suas falhas e assume obrigações compensatórias, fazendo com que as multas sejam anuladas.
O TAC da Telefônica é o mais famoso até agora. Foi aprovado em 2016 e previa a transformação de R$ 3 bilhões de multas da concessionária em R$ 5 bilhões de investimentos na própria rede da empresa, para melhorar o atendimento dos usuários. Há um ganho claro para o consumidor nessa troca. Com a ressalva de que ele nunca aconteceu. No início deste mês a Telefônica Brasil S.A. enviou a carta CT.LLACB n° 224/18 à Anatel decidindo não prosseguir na finalização do TAC nas bases em discussão. Foi só a Anatel afirmar que então cumpriria “de modo estrito, as previsões legais e regulamentares em vigor” (cobrar as multas) e a Telefônica pensou melhor. Se desmentiu, disse que nunca quis anular o TAC. A Anatel, compreensiva como sempre, voltou atrás e o TAC continua em negociação. A empresa deveria estar assustada, né!? Ô, dó!

A GENTE SABE COMO É

Haveria uma explicação aceitável para essa proteção que o firmamento das autoridades constituídas emana em direção às teles: elas pagam quantias vultosas em impostos. Tanto na esfera federal quanto na estadual. Em alguns estados, para cada 3 minutos em que você usa o celular, um minuto é pago como imposto. Varia de um para outro, mas, em nenhum caso, um minuto de imposto paga mais do que 5 minutos de uso. Isso só em tributos estaduais.
Porém, o potencial tributário não parece ser o único motivo de tanta adulação. Sem considerar as eventuais razões inconfessáveis, as autoridades demonstram sinais de incompetência para tratar qualquer assunto no segmento empresarial de tecnologia. São produtos e serviços complexos, que se substituem continuamente, gerando novos modelos de negócios, derrubando outros. É uma dinâmica que não faz parte do cotidiano das autoridades. É o que demonstram nas argumentações mais elementares. 
Ao citar, por exemplo, a ineficiência da divulgação mensal dos dados referentes à qualidade dos serviços de telecomunicações, o Superintendente Nilo Pasquali argumenta, em outras palavras, que não dá tempo para os usuários acompanharem e nem para as operadoras agirem. Desde quando dados precisos podem ser tóxicos aos gestores? Os períodos de análise de séries históricas podem variar, porém, quanto mais dados houver, mais segura será a tomada de decisões de correção.
E, se no final das contas, as autoridades estão corretas em tudo que dizem sobre as telecomunicações, então é a comunicação oficial que não está clara. Os argumentos que apresentam são frágeis e quase insultam a inteligência de quem escuta. Afinal, independentemente da complexidade que cerca esses temas, quando a gente olha para o celular fica difícil sentir a sensação de segurança. Quando acessamos a Internet, sabemos que não podemos contar sempre com o mesmo padrão de qualidade, muito menos com as promessas do vendedor. Nem o filme que a TV a cabo anuncia é certeza de entrar no ar. Simples assim. 

sexta-feira, 16 de março de 2018

O BRASIL NAS ALTURAS


Imagine qual foi o principal assunto num evento internacional de tecnologia, nesta semana, em Washington? O Brasil! Mas ninguém vai ficar orgulhoso em saber os motivos.
Foi no principal encontro sobre tecnologia de satélites do mundo. E lá, entre as maiores empresas do setor, a Telebrás foi colocada como suspeita de uma negociata. O fato envolveria também uma das empresas participantes do evento, a ViaSat, de capital americano, que teria sido beneficiada.
Embora já tenha um pedido formal de esclarecimento à Telebrás, por enquanto a questão está fora dos tribunais. Porém, analistas acreditam que, dependendo da resposta que for apresentada, pode haver judicialização.
A questão é relacionada ao SGDC – Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação, lançado em maio do ano passado. Trata-se do primeiro satélite totalmente controlado pelo Brasil. Ele foi projetado para cobrir todo o território nacional e construído na França, com o acompanhamento de técnicos brasileiros. Trinta por cento da capacidade do satélite são dedicados à Defesa e estão sob operação militar.
O restante dependeria de empresas interessadas em explorar comercialmente os 60 Gbps de banda ka. Lançado o edital, a empresa vencedora construiria toda a infraestrutura em terra para utilização do sinal do satélite. Teria ainda de disponibilizar parte dos serviços para atendimento de programas educacionais e sociais, além do uso para instituições públicas.
O edital foi publicado e, no prazo limite, que encerrou em outubro de 2017, não apareceu uma única proposta. O satélite, que custou R$ 2,8 bilhões, tem embarcados combustível e equipamentos de operação que lhe garantem 18 anos de vida útil. Como já está em órbita, a cada dia são cerca de R$ 300 mil perdidos, pois os recursos civis que ele oferece não são captados em terra.
Mas a Telebrás teria encontrado na Lei das Estatais – 13.303, de 2016, uma forma de contratar diretamente uma empresa para prestar esses serviços, uma vez que não houve manifestação de interesse no prazo do chamamento público. A preferida foi a americana Viasat. Ninguém sabe ainda as condições que o Governo ofereceu à empresa, que há menos de 6 meses não se interessou em concorrer nas bases exigidas no edital. Tudo muito estranho.

FALA BAIXO POIS É SEGREDO

Tudo que diz respeito à operação civil do satélite sempre esteve nebuloso. Esse teria sido um dos motivos de não haver empresa interessada em trabalhar nas bases apresentadas no edital. No mercado de telecomunicações comentava-se que faltavam definições a respeito do PNBL – Plano Nacional de Banda Larga, incluído no edital. As potenciais interessadas teriam ficado receosas em assinar um contrato que envolveria contrapartidas ainda não definidas.
A operação do SGDC vai viabilizar o programa Banda Larga para Todos, que o Ministro Gilberto Kassab quer ter acrescido ao seu portfólio político. O programa já teve adesão de quase 2.500 municípios, em evento solene realizado no início da semana, em Brasília.
O Banda Larga para Todos deve disponibilizar serviço de banda larga mais barato porém, apenas para "comunidades em estado de vulnerabilidade social, localizadas em áreas rurais, remotas e nas periferias urbanas”, ou outras "localidades onde inexista oferta adequada de acesso à internet em banda larga, identificadas pelo MCTIC". Como seriam identificadas essas localidades, ninguém explicou. Para operação local será necessário contar com "prestadoras de serviços de telecomunicações que demonstrem capacidade de atender às localidades", mas não estão definidos os critérios que atestem a “capacidade” exigida. Aliás, o valor do serviço de banda larga “mais barato”, por enquanto, só está definido como “preço justo e razoável". Quanto é isso em reais, ninguém sabe.
Nenhuma outra empresa do setor teria sido consultada sobre eventual interesse em operar nas novas condições, oferecidas no acordo com a Viasat. E, ao divulgar o “fato relevante” do acordo, a Telebrás informou que os equipamentos começariam a chegar em 2 dias, o que tecnicamente teria demandado um período razoável de acertos prévios.
A Viasat não tinha operações no Brasil e agora representa uma ameaça para as concorrentes que já estão por aqui há tempos. Por isso o SindSat, que representa essas empresas, foi à Telebrás pedir detalhes sobre o acordo, inclusive para “preservar o equilíbrio das condições competitivas no mercado brasileiro”. Só como exemplo, o custo da banda larga em ka, que é a banda civil de operação do satélite, pode ficar até em um décimo do custo das outras tecnologias utilizadas no Brasil.
Há rumores de que a Viasat vai ficar com 60% da capacidade civil do SGDC e a Telebrás com os 40% restantes. Com quem ficariam os grandes clientes governamentais? Quais outros serviços que a Viasat vai explorar aqui no Brasil? Esperamos saber em breve.

GANHAR MAS NÃO LEVAR

É o que pode acontecer com “os que mais precisam”, segundo a classificação governamental. A falta de transparência do programa Banda Larga para Todos pode estar escondendo carências, que tornariam impossível o atendimento prometido com o uso do satélite. Em artigo de Samuel Possebon, publicado no site Teletime, o Jornalista confronta dados para equacionar promessas e efetiva capacidade operacional.
Por enquanto não está estabelecido se vai haver franquia na contratação dos serviços e sequer se uma velocidade mínima vai ser exigida. A fiscalização da qualidade dos serviços não tem parâmetros fixados.
A viabilização dos “preços justos e razoáveis” pode balançar, uma vez que o Governo Federal anuncia isenção de ICMS, que é um imposto dos estados. O Ministério afirma que isso faz parte de um acordo firmado em 2007, para desonerar o Gesac – Governo Eletrônico e Serviço de Atendimento ao Cidadão. Como o Banda Larga para Todos é o nome atual do Gesac, com alterações, o entendimento da pasta é de que todos os acordos anteriores continuam valendo.
Na verdade, tudo está muito diferente. O Gesac foi criado por lei aprovada em 2002 para que o Governo oferecesse acesso à Internet em pontos públicos fixos. Alguns sites de serviços do governos eram franqueados, no caso de outros conteúdos era cobrado o acesso. Nesses termos, o Confaz – que reúne as secretarias da fazenda dos estados – deliberou em 2007 que os estados não cobrariam o ICMS dos acessos nos pontos do Gesac.
Já o Banda Larga para Todos surgiu de uma portaria do ano passado, que incluiu no Gesac a possibilidade de credenciamento de empresas privadas para oferecer banda larga mais barata. O Ministério entende que a isenção de ICMS pode ser transferida para essas empresas. Será?
Por fim, considerando a capacidade do satélite, os 2,5 mil municípios que já aderiram e a previsão de atendimento de 30 mil localidades no Brasil – entre bairros periféricos e zonas rurais – é bem provável que o programa alcance em torno de 50 mil assinantes. A capacidade civil do satélite seria insuficiente para essa demanda em banda larga. Isso sem contar a promessa de atender, além do programa, as escolas públicas e a rede do SUS em todo o país. Aí é que a conta não bate, mesmo. E olha que a matemática não costuma errar!

sexta-feira, 9 de março de 2018

A HORA DO ESPANTO NA TECNOLOGIA

Computador “marca” Frankenstein. É dos tempos áureos do desktop, quando a micro informática estava dominando empresas e lares. As grandes marcas lideravam o mercado varejista e capitalizaram intensamente todo o segmento TI. 
A típica arquitetura PC tinha um projeto modular. Isso facilitava que novas funcionalidades fossem acopladas em casos específicos, dependendo da necessidade de cada cliente. Foi também o que permitiu uma rotina de upgrades, na medida em que os avanços tecnológicos acontecessem primeiro neste ou naquele componente da máquina. 
Ora, se eu posso comprar as partes no mercado e, fazendo as contas, sai mais barato do que pagar pela grife da máquina, eu construo o meu PC aos pedaços. Ou, o PC Frankenstein
Novas marcas surgiram assim e se estabeleceram no varejo. Na indústria, fabricantes de componentes “segunda linha” entraram na concorrência, sem a rigidez do controle de qualidade. A corrida high tech acelerou tanto que, os que combinavam preços mais baixos com produtos de qualidade não apenas lideraram, mas passaram a dominar o produção em seus segmentos. Uma liderança que sempre esteve longe de ser um lugar confortável. 
O mercado entrou em permanente estado de espanto. Assombro, muito além da imagem do mito Frankenstein. Por isso, liderar significava ter mais dinheiro para investir e a obrigação de surpreender mais. Um piscar de olhos poderia levar o seu produto à desaparecer sob uma novidade disruptiva. 
Nessa linha do tempo parece que estamos chegando a um ser humano acostumado com a tecnologia movimentando tudo ao seu redor. E isso nos torna mais exigentes. Se uma emissora de TV transmite ao vivo, por que a camera do meu celular também não o faz? Se o avião voa a maior parte do percurso sozinho, por que meu carro depende tanto de mim?
É esse nível de exigência que está combinando recursos tecnológicos disponíveis para novas soluções. Com o cuidado de não gerar Frankensteins, e sim conforto e beleza. Criatividade abrindo novas frentes de negócios.  

“DESIGNERS” DO FUTURO PRÓXIMO 

Não tem nada a ver com aquela coisa improvisada, que funciona precariamente, abaixo dos padrões das grandes marcas. Pelo contrário, são equipamentos de ponta, desenvolvidos por empresas sérias, ainda que pequenas, em alguns casos. Elas não querem oferecer mais do mesmo para a base da pirâmide. Ao contrário, querem aquela ponta lá do alto, que paga bem por produtos exclusivos. O mercado empresarial também está na meta. Esses produtos aparecem numa matéria do site IDGNow.
Light Phone 2, por exemplo, atende o lado mais prático do celular. Pense bem, não é toda hora que você quer tirar fotos ou entrar no Facebook. Principalmente quando entra numa planta industrial, onde fotos e vídeos são proibidos. O Light Phone 2 só faz e recebe chamadas, envia e recebe mensagens, executa funções básicas do autêntico telefone celular. O diferencial está no tamanho, comparável a um cartão de crédito, para guardar na carteira. Como 4G LTE ele se torna um equipamento secundário, enquanto o smartphone principal está guardado no melhor lugar. Em breve, talvez as grandes marcas lancem seus modelos de ponta com um light phone como acessório.
No outro extremo das dimensões está o Power Max P16K, fabricado pela Energizer. Ele tem o dobro da espessura e do peso dos Androids em geral, mas a bateria é de 16.00mAh. Significa que pode ser usado por uma semana a cada recarga.
Para outro segmento, o Movi Smartphone chega para impressionar. Produzido pela Wireless Mobi Solution traz um projetor a laser de 50-lumen, capaz de projetar a própria tela em até 100 polegadas, com resolução 720p. No mais, é um Android de nível intermediário, bateria de longa duração (faz até 4 horas de projeção) e tem câmeras de até 16 MP. Para aquele velho desafio de apresentar um negócio durante 15 segundos, num elevador, é um diferencial e tanto. 
Os televisores também estão se diferenciando. Querem se tornar peças de decoração ou até paredes do cômodo. Logo vão entrar nas matérias obrigatórias dos arquitetos. Os tradicionais, de ambientes. A Samsung, por enquanto, é quem mais investe na estratégia. O The Wall, o paredão modular que chamou atenção durante a CES 2018, chega para o mercado em agosto. Dentro do imenso display o usuário escolhe as dimensões da tela da TV. E a imagem decorativa que quer ao redor. Pode ser uma parede de tijolinho a vista, um bosque. 
O cabo único, de fibra ótica, ligado a um hub, agora conduz também energia. Um detalhe importante para essa nova finalidade dos televisores. Modelos da linha QLED, com telas menores, podem ser emoldurados e fixados, na vertical ou horizontal. Enquanto desligados, exibem obras de arte ou outras imagens que você escolher, no tamanho que quiser. Os arredores da tela fazem um fundo branco, quebrando a tradição da tela preta na sala. Se é complicado operar? Tudo por comando de voz, pelo assistente Bixby.
São recursos que você já viu antes. Mas nunca estiveram tão bem harmonizados. É o inverso do antigo paradigma Frankenstein

VOCÊ AINDA NÃO COMEU SEU MELHOR HAMBÚRGUER

Os prazeres são assim. Podem crescer muito com uma simples tostada, ou com um ingrediente aparentemente estranho. É o chocolate com menta, ou até com pimenta, a pizza de berinjela, ou de goiabada, churrasco de chão ou na grelha.
Na medida em que a tecnologia vai sendo domesticada ela cresce também como instrumento de prazer. A qualidade dos “ingredientes” passa a ser exigência obrigatória, para que os destacados chefs cheguem à melhor receita para ser apreciada.
E já que a comparação chegou à cozinha, vale atentar para outra máxima dos grandes chefs: bom gosto não é necessariamente caro. A boa comida caseira, receitas tradicionais como uma boa galinhada, também são desafios que podem render sabores especiais.
Aqui no caldeirão TI, atente para o que a combinação cloud e mobile vem produzindo. Dados em escala infinitesimal, em qualquer formato, acessíveis a todos os comandos, de forma interativa, sem limite de participantes. E lá se vão gavetões de aço, toneladas de papéis, fitas magnéticas, salas e paredes, tudo para o espaço. Mas também para a ponta do seu dedo. Tudo com a segurança que você jamais teve das empresas de vigilância ou das apólices de seguro.
As plataformas EiTV Play e EiTV Cloud trabalham com arquivos audiovisuais. Com elas, é possível criar verdadeiras “emissoras de TV” segmentadas, abertas ou por assinatura, com mais interatividade do que se pode ver nas emissoras convencionais. São fortes instrumentos de monetização de conteúdos, de massificação de mensagens, de fidelização de grupos. O ambiente só muda no layout do seu canal, com a marca da sua organização.
A tecnologia de consumo está deixando de ser aquela máquina curiosa, que fica em exibição num pedestal, que ocupa um lugar de destaque da sua casa. Hoje a gente se familiariza rápido com elas e assim, passam a estar, cada vez mais, a serviço dos nossos desejos. E até caprichos.

sexta-feira, 2 de março de 2018

TECNOLOGIA E IRRESPONSABILIDADE


Você nunca jogou um videogame russo. Também não tem celular russo, notebook, não lembro de ter ouvido falar sequer de um desktop. Quando o assunto é TI, o que a Rússia exibe na ponta são os hackers.
Outras paixões de consumo como carros, motocicletas, tênis com alta tecnologia, também não veem da Rússia. O país, que já foi um celeiro de cérebros, que colecionava prêmios Nobel, há um bom tempo só se notabiliza pelas mulheres lindas oferecidas na Internet como acompanhantes.
São contrastes que podem ser observados sem necessariamente estabelecer valores. Mas o anúncio do míssil hipersônico mais potente do mundo, “imbatível” entre quaisquer similares da Terra, não foi nada saudável, nem promissor. O pior é constatar que o atual presidente, Wladimir Putin, deu essa tétrica demonstração de força para turbinar sua campanha para mais um mandato. Faz crer que uma ameaça dessa magnitude soa musicalmente aos ouvidos da maior parte daquele país.
No país vizinho, a China, onde o ursinho Pooh está proibido na Internet – para impedir piadas com o manda chuva Xi Jinping – agora é a letra N que está sob suspeita. Ela não é aceita em qualquer tentativa de acesso à Internet, porque a cúpula do poder descobriu nela alguma ameaça ao establishment político! É nesse clima que o partido comunista planeja autorizar o atual mandatário a ocupar o cargo indefinidamente. Ele teria, dentre outros, o mérito (??) de ter aumentado os investimentos no desenvolvimento de armas, que chegam a US$ 150 bilhões/ano.
Próximo a esses valores, quem aparece em destaque nos gastos armamentistas é um país com altos níveis de analfabetismo e baixa escolaridade. A Arábia Saudita já paga mais do que a Rússia para aumentar seu arsenal.
Alguma coisa está errada. Na década de 80 do século passado as armas nucleares disponíveis já eram suficientes para destruir o mundo dezenas de vezes. Armas químicas e biológicas também se multiplicavam. Até que começaram a perceber que todo esse dinheiro era gasto para que nada disso fosse usado. Acordos de desarmamento ganharam a pauta internacional e o mundo relaxou um pouco.
Agora as velhas ameaças parecem estar voltando. E, se antes o pano de fundo da disputa se justificava num confronto ideológico, hoje é puro exibicionismo, uma ameaça despótica eivada de personalismo. Ou, tanto investimento em armas, seria uma preparação para entrar em guerra contra outros mundos?

ADRENALINA SIDERAL

O risco extraterrestre existe. Não na magnitude que justificasse essa nova corrida armamentista, mas como um sinal de que, se o interesse é destruir a Terra, talvez nem seja necessário investir em bombas.
Neste final de semana um asteroide, cujo tamanho não chega a 12 metros, passa a cerca de 110 mil quilômetros de distância do nosso planeta. Os especialistas garantem que não há risco de ele se chocar com a Terra. Nem seria o nosso fim, caso o impacto acontecesse. Mas, tomar uma pedrada dessa, que viaja numa velocidade pouco superior ao super míssil de Putin, poderia representar uma tragédia inominável. Imagine se caísse sobre uma usina nuclear? Ou sobre um arsenal nuclear de uma dessas irresponsáveis potências? E se acertasse bem no meio do nosso Congresso Nacional? Poderia até ter algum parlamentar por ali!
Asteroides “tirando fina” da Terra não são raros. A Nasa classifica como NEOs (Near Earth Object) os asteroides que passam a uma distância menor do que entre a a Lua e nós, que é de 385 mil quilômetros. Mal terminou o carnaval e, neste ano, já foram observados 18 NEOs. Cinco deles passaram mais próximos do que este último.
Já faz algum tempo que se fala em uso de armas nucleares para destruir asteroides em eventual rota de colisão com a Terra. Esse último míssil russo seria até interessante para esse tipo peculiar de defesa do planeta. Mas Putin não demonstrou qualquer preocupação com isso. Ele está pensasdo é no seu sono. Quer o mundo com medo por saber que alguém capaz de autorizar o bombardeio sobre hospitais, civis e crianças na Síria, tem ao alcance do dedo uma ameaça tão aterrorizante.
Um outro recente líder chinês, Deng Xiaoping, que implantou o chamado “socialismo de mercado”, demonstrava preocupação com personalidades como a de Putin, Nicolas Maduro e até do compatriota, agora em evidência, Xi Jinping. Ele esteve no comando da China até 1992 e, para evitar o perigoso culto à personalidade, Xiaoping estabeleceu limites para os mandatos de seus sucessores. É justamente o que o atual líder quer revogar. Gostou da cadeira.
O irônico é que o apoio mais firme para esses senhores está justamente na tecnologia. É ela que materializa as ameaças que lhes dão notoriedade, ao contrário do que se supunha em tempos anteriores. Acreditava-se que a tecnologia traria soluções para carências da humanidade, que então poderia conviver mais harmoniosamente. A tecnologia até faz a parte dela. A questão é que a escolha dos mandatários sempre aponta em outra direção.

A LÓGICA DE TANTA FALTA DE LÓGICA

Parece claro que o rebaixamento abrupto do nível do discurso veio a reboque do atual governo americano. Trump não se deu conta de que a Casa Branca não serve de palco para reality show. Abusou do discurso de fogo e fúria como uma criança que brinca de cowboy. E agora está se deparando com parceiros que gostam da mesma molecagem.
O povo se vê na situação dos sapos que param para assistir à briga dos touros. Sabe que o risco é todo dele, pode ser esmagado num passo em falso dos grandões. Já os protagonistas podem sofrer arranhões na popularidade, mas devem deixar a contenda inteiros, isso é o que lhes importa. Mesmo assim os “sapos” não arredam pé dos riscos do conflito. Muitos gritam incessantemente, torcendo pelo touro do seu território. É isso que eleva a temperatura nessas disputas.
Daqui de longe a gente fica pensando no comichão que está sufocando agora o ditador Kim Jong-un. Todo mundo apavorado e ele nem é o Freddy Krueger da vez. Justo ele que, ainda criança, virou até “brasileiro” pra entrar na Disneylândia japonesa, em busca do vilão mais assustador. Agora está longe de provar que o botão dele é maior do que o do Trump. Fica a dúvida de que, neste momento, ele possa estar discutindo com seu estado maior a “oportunidade estratégica” de disparar seu míssil e assim, arrear a besta do apolcalipse.
É claro que não se pode ainda comparar com personagens tão deploráveis. Mas Hitler, Stalin, Pol Pot e outros genocidas históricos começaram assim. Precisavam de mais e mais poder, guardavam certezas acima de qualquer debate e gostavam de ser cultuados. As consequências são manchas chocantes na História. Será que não avançamos nada desde então?