OS ESPERTOS, SEMPRE ALERTAS



“-Ô tio, cê usa camisinha!?”

O que responder quando um sobrinho de 5 anos lhe faz uma pergunta dessas, a queima roupa, numa festa em família? Se disser que sim, será que ele vai pedir para ver? E se disser que não? Estávamos nos anos 80, éramos mais conservadores e a epidemia de AIDS explodia, campanhas de conscientização em todas as mídias, locais públicos e privados, nas escolas, no trabalho:

“-Camisinha pra quê?”, tergiversei.

“-Pra não pegar AIDS!!”, me explicou o Gabriel, como quem repete algo muito evidente. Eu quis testar quanto ele sabia sobre o que estava falando:

“-Hmm... Você usa?”

“-Não.”

Ele mostrou alguma frustração pela resposta sincera. Mas não deixou por menos:

“-É, mas minha amiga de escola usa.”

“-Ah, é!? E como a sua amiga usa camisinha?”

“-A mãe dela coloca na lancheira, pra ela tomar com água, se ficar nervosa.”

Um exemplo do que uma avalanche de apelos dramáticos, dirigidos à massa, pode produzir na cabeça de uma criança, incapaz de entender o que estava acontecendo!

A condição “criança”, no caso uma referência etária, hoje se evidencia mais pela incapacidade de compreensão. Nessa segunda década do Século XXI, com tantas e tão rápidas mudanças, estamos “crianças” diante de boa parte delas. Não entendemos nada e, por isso, muitas vezes tememos.

Gente que já teve o nome na lista telefônica (até com certo orgulho), hoje está assustada com a “grande ameaça” que representa o compartilhamento de dados pessoais básicos por empresas que negociaram com o Facebook. Não está certo, é uma violação de privacidade, se quiser levar ao pé da letra. Mas não dá pra perder o sono.

O que torna dados tão básicos mais importantes é a possibilidade de acumular e manipular em listas infindáveis. Cruzar eletronicamente com outras listas, sobre o que cada um consome, onde frequenta, o padrão de vida que leva. Tudo isso em alguns segundos. Assim dá até para dividir populações em grupos, caracterizados inclusive psicologicamente, e então colocar robôs pra conversar com cada um desses grupos, e até mesmo com cada uma dessas pessoas. Estratégias de vendas.

QUEM VOCÊ É


Há um novo fenômeno a ser compreendido, que mistura de maneira inédita as noções de individual e social. Privacidade, lá no princípio, dizia respeito a um nível mais profundo de conhecimento sobre o indivíduo. Lembrando mais uma vez que informações pessoais como nome, endereço e telefone constavam de listas públicas, editadas anualmente e distribuídas de graça pelas companhias telefônicas.

Até hoje, toda semana apresentamos informações pessoais muito mais detalhadas em postos de gasolina, padarias, botecos. Essas informações mais básicas não costumam representar um risco para o indivíduo que as expõe. Mas os fatos recentes mostram que elas representam, sim, um risco para a sociedade. E é por aí, pela influência nas escolhas da sociedade, onde o problema um dia vai bater à porta de cada indivíduo.

Mais objetivamente, quem vasculha esses terrenos quer chegar à sua identidade, ou seja, querem a cabine de comando do seu “eu”. Pelo menos para decisões de consumo, lazer, e até outras mais delicadas, como grupo político, ou o voto. Precisam de uma “amostra válida” do seu “tecido existencial”, onde vão testar suas reações e atitudes.

Essa amostra está sendo refinada, já há algum tempo, pelos big datas de seus cartões de crédito, seus acessos na Internet, consultas sobre temas no Google, programas na TV por assinatura e, possivelmente, por uma série de outros caminhos, cadastrais ou não, que ainda nem sabemos. São dados da sua intimidade individual que falam muito sobre você.

Mas agora, estudos apontam amostras mais simples de você que podem ser até mais reveladoras do que essas mais íntimas – e tão caras.

Por exemplo, Donald Trump teria contado com um diferencial muito importante para “vender seu peixe” na última eleição presidencial americana. Esse diferencial veio de mensagens muito bem direcionadas, quase personalizadas, para os vários segmentos do eleitorado. Ele ficou sabendo, entre os americanos, quem era do tipo “mente aberta”, ou do tipo “consciencioso”, ou “extrovertido”, ou “cordato” ou “neurótico”. Em inglês esses cinco perfis formam a sigla “ocean”. E para saber em qual desses perfis cada eleitor se encaixava foi muito simples obter as “amostras”. Bastou analisar as postagens que cada um curte numa rede social!

Esse método foi desenvolvido a partir de pesquisas da Universidade de Stanford e do Centro de Psicometria da Universidade de Cambrigde. Um dos pesquisadores, Aleksandr Kogan, usou esse estudo para desenvolver o aplicativo thisisyourdigitallife, que traz dados de usuários do Facebook para big datas do Ocean. Então vendeu o app para a empresa Cambridge Analytica, que vendeu para o Trump, que ficou presidente.

Você deve ter percebido que essa “amostra” de uma identidade não é obtida a partir da intimidade individual de alguém. Mas da mais discreta presença social, quando clica no “curtir”. É mole!

QUEM ELE É


A riqueza de detalhes que o método Ocean pode obter sobre alguém seria algo impressionante. De acordo com a pesquisa, a análise de 70 curtidas de uma pessoa permite conhece-la melhor do que os próprios amigos dela. Com 150 curtidas o sistema sabe o que nem os pais do indivíduo conhecem a respeito do perfil do próprio filho. E assim vai, até que algumas centenas de curtidas revelariam o que nem você próprio sabe a seu respeito (atenção, psiquiatras: a batata vai assar!).

Claro que a classificação em cada um dos cinco perfis deve exigir uma análise apurada. Deve haver sub perfis, as curtidas significativas talvez precisem ser validadas previamente, os assuntos selecionados. Mesmo assim, por enquanto, não acredite em nada disso. Tudo ainda é muito simples para ser verdade.

Há décadas, da boca pequena, falava-se de uma tal de “propaganda subliminar”. Consistia em poucos frames, com o layout de uma marca, inseridos várias vezes na fita de um filme. O olho de quem assistia ao filme não era capaz de perceber a marca, pela rapidez da exibição. Mas, ao final da sessão de cinema, todos sentiam uma forte atração por algum produto da marca. Por exemplo, tomariam uma coca-cola, caso fosse a marca inserida. Esse tipo de propaganda, por ser tão poderosa, teria sido proibida no mundo todo.

Anos se passaram e ninguém nunca soube de nada concreto a respeito dessa tal propaganda. Nem de alguma lei proibindo. Mas, com certeza, alguém ganhou muito dinheiro com isso. Desta vez, convém lançar pequenos barcos neste novo oceano de estratégias dominadoras. Não é hora de correr o risco de naufragar ali sua principal embarcação.

Vivemos numa sociedade onde é notável o aumento da ingenuidade de determinados segmentos. São vulgarmente denominados otários. Esses, tendem a ser manipuláveis, sem exigir requintes científicos. Não deve ser a censura de aplicativos que vai livrar o mundo desses desacertos. Mas a justa distribuição de oportunidades educacionais de qualidade.

Quanto ao Facebook, basta lembrar como ficamos sabendo da existência de seu proprietário. Mark Zuckerberg encarna a esperteza bem sucedida, justamente por ter estrelado um block buster autobiográfico, mostrando o que ele é capaz de fazer pelos seus bilhões de dólares. Das fake news às fake sorry (você acreditou nas desculpas que ele apresentou publicamente?), tudo pode virar moeda. E você, que vive o Século XXI, sabe bem disso. Cuide-se, apenas. Nada de desespero.

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