TECNOLOGIA E IRRESPONSABILIDADE


Você nunca jogou um videogame russo. Também não tem celular russo, notebook, não lembro de ter ouvido falar sequer de um desktop. Quando o assunto é TI, o que a Rússia exibe na ponta são os hackers.
Outras paixões de consumo como carros, motocicletas, tênis com alta tecnologia, também não veem da Rússia. O país, que já foi um celeiro de cérebros, que colecionava prêmios Nobel, há um bom tempo só se notabiliza pelas mulheres lindas oferecidas na Internet como acompanhantes.
São contrastes que podem ser observados sem necessariamente estabelecer valores. Mas o anúncio do míssil hipersônico mais potente do mundo, “imbatível” entre quaisquer similares da Terra, não foi nada saudável, nem promissor. O pior é constatar que o atual presidente, Wladimir Putin, deu essa tétrica demonstração de força para turbinar sua campanha para mais um mandato. Faz crer que uma ameaça dessa magnitude soa musicalmente aos ouvidos da maior parte daquele país.
No país vizinho, a China, onde o ursinho Pooh está proibido na Internet – para impedir piadas com o manda chuva Xi Jinping – agora é a letra N que está sob suspeita. Ela não é aceita em qualquer tentativa de acesso à Internet, porque a cúpula do poder descobriu nela alguma ameaça ao establishment político! É nesse clima que o partido comunista planeja autorizar o atual mandatário a ocupar o cargo indefinidamente. Ele teria, dentre outros, o mérito (??) de ter aumentado os investimentos no desenvolvimento de armas, que chegam a US$ 150 bilhões/ano.
Próximo a esses valores, quem aparece em destaque nos gastos armamentistas é um país com altos níveis de analfabetismo e baixa escolaridade. A Arábia Saudita já paga mais do que a Rússia para aumentar seu arsenal.
Alguma coisa está errada. Na década de 80 do século passado as armas nucleares disponíveis já eram suficientes para destruir o mundo dezenas de vezes. Armas químicas e biológicas também se multiplicavam. Até que começaram a perceber que todo esse dinheiro era gasto para que nada disso fosse usado. Acordos de desarmamento ganharam a pauta internacional e o mundo relaxou um pouco.
Agora as velhas ameaças parecem estar voltando. E, se antes o pano de fundo da disputa se justificava num confronto ideológico, hoje é puro exibicionismo, uma ameaça despótica eivada de personalismo. Ou, tanto investimento em armas, seria uma preparação para entrar em guerra contra outros mundos?

ADRENALINA SIDERAL

O risco extraterrestre existe. Não na magnitude que justificasse essa nova corrida armamentista, mas como um sinal de que, se o interesse é destruir a Terra, talvez nem seja necessário investir em bombas.
Neste final de semana um asteroide, cujo tamanho não chega a 12 metros, passa a cerca de 110 mil quilômetros de distância do nosso planeta. Os especialistas garantem que não há risco de ele se chocar com a Terra. Nem seria o nosso fim, caso o impacto acontecesse. Mas, tomar uma pedrada dessa, que viaja numa velocidade pouco superior ao super míssil de Putin, poderia representar uma tragédia inominável. Imagine se caísse sobre uma usina nuclear? Ou sobre um arsenal nuclear de uma dessas irresponsáveis potências? E se acertasse bem no meio do nosso Congresso Nacional? Poderia até ter algum parlamentar por ali!
Asteroides “tirando fina” da Terra não são raros. A Nasa classifica como NEOs (Near Earth Object) os asteroides que passam a uma distância menor do que entre a a Lua e nós, que é de 385 mil quilômetros. Mal terminou o carnaval e, neste ano, já foram observados 18 NEOs. Cinco deles passaram mais próximos do que este último.
Já faz algum tempo que se fala em uso de armas nucleares para destruir asteroides em eventual rota de colisão com a Terra. Esse último míssil russo seria até interessante para esse tipo peculiar de defesa do planeta. Mas Putin não demonstrou qualquer preocupação com isso. Ele está pensasdo é no seu sono. Quer o mundo com medo por saber que alguém capaz de autorizar o bombardeio sobre hospitais, civis e crianças na Síria, tem ao alcance do dedo uma ameaça tão aterrorizante.
Um outro recente líder chinês, Deng Xiaoping, que implantou o chamado “socialismo de mercado”, demonstrava preocupação com personalidades como a de Putin, Nicolas Maduro e até do compatriota, agora em evidência, Xi Jinping. Ele esteve no comando da China até 1992 e, para evitar o perigoso culto à personalidade, Xiaoping estabeleceu limites para os mandatos de seus sucessores. É justamente o que o atual líder quer revogar. Gostou da cadeira.
O irônico é que o apoio mais firme para esses senhores está justamente na tecnologia. É ela que materializa as ameaças que lhes dão notoriedade, ao contrário do que se supunha em tempos anteriores. Acreditava-se que a tecnologia traria soluções para carências da humanidade, que então poderia conviver mais harmoniosamente. A tecnologia até faz a parte dela. A questão é que a escolha dos mandatários sempre aponta em outra direção.

A LÓGICA DE TANTA FALTA DE LÓGICA

Parece claro que o rebaixamento abrupto do nível do discurso veio a reboque do atual governo americano. Trump não se deu conta de que a Casa Branca não serve de palco para reality show. Abusou do discurso de fogo e fúria como uma criança que brinca de cowboy. E agora está se deparando com parceiros que gostam da mesma molecagem.
O povo se vê na situação dos sapos que param para assistir à briga dos touros. Sabe que o risco é todo dele, pode ser esmagado num passo em falso dos grandões. Já os protagonistas podem sofrer arranhões na popularidade, mas devem deixar a contenda inteiros, isso é o que lhes importa. Mesmo assim os “sapos” não arredam pé dos riscos do conflito. Muitos gritam incessantemente, torcendo pelo touro do seu território. É isso que eleva a temperatura nessas disputas.
Daqui de longe a gente fica pensando no comichão que está sufocando agora o ditador Kim Jong-un. Todo mundo apavorado e ele nem é o Freddy Krueger da vez. Justo ele que, ainda criança, virou até “brasileiro” pra entrar na Disneylândia japonesa, em busca do vilão mais assustador. Agora está longe de provar que o botão dele é maior do que o do Trump. Fica a dúvida de que, neste momento, ele possa estar discutindo com seu estado maior a “oportunidade estratégica” de disparar seu míssil e assim, arrear a besta do apolcalipse.
É claro que não se pode ainda comparar com personagens tão deploráveis. Mas Hitler, Stalin, Pol Pot e outros genocidas históricos começaram assim. Precisavam de mais e mais poder, guardavam certezas acima de qualquer debate e gostavam de ser cultuados. As consequências são manchas chocantes na História. Será que não avançamos nada desde então?

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