sexta-feira, 29 de setembro de 2017

SEU VOTO INCONSCIENTE APURADO PELA INTERNET


Se você procura um candidato que diga exatamente o que você quer ouvir, prepare-se. Vão aparecer aos montes. Isso não significa, necessariamente, que se eleitos, vão fazer o que você espera. O avanço vai ser na “afinação do discurso” do candidato com o eleitor. O que era feito na base do feeling de marqueteiros caríssimos, está passando a ser objeto de ferramentas cibernéticas muito mais precisas.
Tudo começa pelo seu perfil em alguma rede social. É muito pouco sobre você, mas é uma amostra representativa do personagem que você é para o mundo exterior. O cidadão que assina seu nome. É ele que entra na cabine indevassável com o seu voto.
Aquelas inúmeras experiências de vida, suas preferências, seu passado e seu presente, sua intimidade, são algumas das partes da sua essência que se combinam na sua mente. Atuam em processos naturais conhecidos, ou ainda inatingíveis para a ciência. No fim projetam algumas marcas no seu personagem social, o bastante para revelar boa parte do seu pensamento como eleitor. Bingo!
Nesse garimpo de preciosos votos, outros veios reluzentes estão pelas cavernas big data. Alguma vez você leu os famosos “termos e condições” que assina com um clique em endereços pela Internet? Pois é, há um grande vazio jurídico sobre como os dados pessoais que você coloca lá podem ser usados. Isso quer dizer que aquela contida e resguardada “privacidade”, que você tanto preza, está quase tirando a calcinha. É por esses caminhos onde a inteligência artificial avança e descobre muito mais sobre comunidades cada vez maiores.
Tente lembrar quantas vezes você falou sobre o comportamento do eleitor americano. Quanto a mídia brasileira já discorreu sobre o perfil daquele povo. Sabem de nada, inocentes! Lembre agora da surpresa que lhe causou a eleição de Donald Trump. O uso dessas ferramentas cibernéticas é apontado como um dos principais recursos na vitória do milionário. Mais especificamente, sob a gestão da empresa Cambridge Analytica, que está chegando aqui no Brasil e promete perder o sotaque em muito pouco tempo.

“NÃO SOU PRÉ-CANDIDATO A NADA”

João Dória, atual prefeito “não político” de São Paulo, é cliente da “Social QI”, uma jovem empresa que trabalha como integradora de 5 softwares de monitoramento ligados a imensos bancos de dados. O publicitário Daniel Braga, que há dois anos trabalha diretamente com Dória, é um dos sócios. Ele afirma que monitora a repercussão de tudo que o prefeito fala.
Há uma verdadeira cadeia tecnológica nesse tipo de trabalho. War Room, por exemplo, é o sugestivo nome de um programa que Daniel utiliza para rastrear as redes sociais. Faz parte de um serviço oferecido pela startup brasileira “Stilingue”, cuja pontaria é afinada por 35 desenvolvedores que ficam em Ouro Preto – MG.
War Room é capaz de procurar tudo que é publicado sobre qualquer assunto na imprensa. No conjunto de atividades denominadas “gestão de imagem” para políticos, o software procura aquele nome em redes sociais como Facebook, Instagram e Twitter. Com ferramentas de reconhecimento de imagem busca os memes de interesse que estão na rede. E ainda faz a “psicometria”, a tal da análise dos perfis que vai muito além de idade, sexo, instrução, “direita” ou “esquerda”.
Nesse imenso universo de informações os analistas de dados mandam o programa buscar o que julgam importante para as suas conclusões. E, a partir do cenário obtido, orientam o discurso do político. Segundo Braga, nada disso é para mudar a plataforma do candidato, simplesmente ajuda o candidato a “falar da melhor forma” o que pensa, “para ele ser bem entendido”.
No caso de Trump, a psicometria teria sido usada para a “análise de sentimento”. O programa rastreou manifestações espontâneas nas redes sociais que permitissem inferir sobre medos, anseios e alguns outros sentimentos considerados importantes para aquele momento nacional. Isso permitiu uma certa transversalidade no discurso do candidato, que conseguiu sensibilizar eleitores de esquerda ou de direita, ao tratar, por exemplo, de medos frequentes entre a população.
War Room foi desenvolvido com base no processamento de linguagem natural. Os desenvolvedores alimentam permanentemente o sistema com textos em português, para que ele identifique padrões comuns e assim possa entender o idioma e até interpretar mensagens.
Rodrigo Helcer, um dos sócios da Stilingue, citou um exemplo de eficiência no uso adequado do sistema, relacionado ao monitoramento do Congresso Nacional. O caso específico foi a votação na Comissão Especial da Câmara dos Deputados para a reforma da Previdência. Com base em manifestações e entrevistas dos 37 membros da Comissão, o sistema previu como eles votariam. Errou apenas dois votos. Helcer afirma que a redação de um jornal de grande circulação em São Paulo havia consultado, por telefone ou e-mail, todos os membros da Comissão, para saber como votariam. A prévia publicada pelo jornal errou 4 votos.

SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?

Quem gosta de usar as redes sociais para discutir sobre política partidária já deve ter levado altos papos com robôs. Os chamados social bots são perfis nas redes sociais conduzidos por inteligência artificial. Segundo o Prof. Fabricio Benevenuto, da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, esses programas são utilizados até para espalhar informações falsas. Eles também debatem com internautas reais para colherem impressões importantes para a elaboração de estratégias políticas.
O professor conta que em um experimento, em 2013, seu grupo na universidade criou 120 desses perfis no Facebook e no Twitter. Robôs, inteligência artificial que começou a interagir com pessoas na rede. Alguns foram bloqueados por internautas. Outros desses bots, porém, conseguiram mais interesse do que celebridades do porte de Justin Bieber, conforme apontou o medidor Twitalyzer.
Atualmente Benevenuto trabalha no Instituto Max Plank, na Alemanha, mas também é consultor da Stilingue. Ele apoia o núcleo que está encarregado de detectar e filtrar bots na rede. Um cuidado importante para quem quer apurar as manifestações virtuais mais autênticas.
É por conta de tecnologias desse tipo que o Prefeito “não político” e agora, “não candidato”, através da página pessoal dele no Facebook, conseguiu interagir com 23,5% dos 114 milhões de brasileiros usuários únicos da rede social. De acordo com o Daniel Braga, entre 7 possíveis presidenciáveis monitorados, o segundo lugar ficou com Jair Bolsonaro, com 7,1% de interações.
Mais uma vez, prepare-se! “Voto eletrônico” vai passar a ser um novo conceito. E “plataforma política”, que nunca significou muita coisa aqui no Brasil, deve passar a ser um item poderoso nas campanhas eleitorais.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

DEPOIS QUE ACONTECE, TUDO TEM LÓGICA


Seria um bom momento para juntar os perrengues pelos quais está passando a Simba Content e concluir que “isso era evidente”. A empresa é uma joint venture que reúne a RedeTV!, o SBT e a Record e foi criada para dar mais peso a essas redes em negociações do setor.
Até agora essa união estratégica rendeu muito menos do que o pretendido para as emissoras e muito mais do que o previsto para os advogados. Um prato cheio para os arautos do apocalipse, aqueles que gostam de dizer que “estava na cara que iria dar nisso”. Mas a saga da Simba mais parece uma rica experiência empresarial que, por enquanto, está longe de ser um fracasso.
No início da articulação a Simba enfrentou a acusação de cartel. A proposta foi aprimorada com o compromisso da produção de conteúdo e outros itens no objeto da nova empresa.
Com a nova legislação da TV Digital a empresa viu uma brecha para negociar um preço para exibição de suas três redes no line up das TVs por assinatura. Agiu profissionalmente e contratou um especialista em grandes negociações. A estratégia adotada foi contundente. Estabeleceu-se um valor de R$ 15,00 por assinante e fecharam os sinais da Simba nas operadoras, até que concordassem em pagar o valor.
De imediato, o resultado prático foi perda de audiência, negativas por parte de órgãos reguladores e de defesa do consumidor e um solene silêncio da preferência pública. Mas o aparente fracasso não se confirma ao aprofundar a análise.
A primeira evidência de sucesso está na coesão da aliança. Afinal, veio a tempestade e não houve pânico na condução do barco. No mais, as emissoras ousaram, se colocaram publicamente e hoje conhecem muito melhor o mercado onde atuam. Sem ousadia fica muito difícil inovar. E as três redes se lançaram a uma experiência inédita no Brasil. O retorno financeiro do empreendimento já começa a aparecer.

CONTINUA NA MESA

Diante das dificuldades a Simba demitiu o Executivo especializado em negociações e adotou outra estratégia. Há alguns meses conseguiu fechar um primeiro contrato, com a Vivo TV. No lugar dos R$ 15,00 ficaram “alguns centavos” por assinante. É muito pouco, mas já é algum retorno, sem dispender nem um real a mais. Com valores da mesma ordem, mais recentemente foi fechado outro contrato, com a America Movil (Claro, Net e Embratel). José Felix, presidente da nova cliente da Simba, falou sobre o assunto durante esta semana no Painel Telebrasil 2017, um evento realizado pela Associação Brasileira de Telecomunicações. Para Felix, a Simba “caiu na realidade” e ambas as partes abriram mão de premissas iniciais.
Regateou um pouco, ao dizer que não sabe por quanto tempo vai manter o acordo: “-um sinal que está no ar não tem que ser pago”. A afirmação é lógica... ou não. No sofá, berço esplêndido do telespectador, a troca de controle remoto é uma operação demasiadamente complexa e penosa, que não se encaixa no hábito de zapear. Tanto é que, por essa mesma lógica, as operadoras de TV por assinatura pagam para as emissoras Globo pela exibição do sinal. Não querem correr o risco de ver o telespectador se acomodar com o controle remoto do sinal aberto nas mãos, só para ver a campeã de audiência.
Porém, se as emissoras em questão, de fato, caíram “na realidade”, é algo que vai se revelar em outra situação. Elas já entenderam que as operadoras por assinatura não vão render o suficiente para dobrar o faturamento de cada uma delas. Falta agora despertarem para o mercado de novos conteúdos, cuja produção foi um compromisso assumido desde a fundação da Simba Content.
A expansão na produção de conteúdo ainda não vê limites. Ao contrário, o que está acontecendo são inversões antes descabidas para o contexto do audiovisual. Iniciativas inesperadas de produção, como no caso da Netflix, estão tornando o investimento em TV mais atraente do que no cinema. É o que se depreende dos rumos tomados por alguns produtores e atores de grande sucesso.
E, mais uma vez, é necessário lembrar, como em outros artigos deste blog, a variável tecnológica. O sinal da TV aberta não tem mais diferença em relação ao que chega pelo canal pago. A Internet vai continuar crescendo e as operadoras de telefonia estudam novos meios de recuperar faturamento, depois da queda imposta pelos aplicativos OTT. De repente as teles resolvem “meter a colher” no mercado de produção de conteúdo. Talvez para diferenciar sua oferta de TV por assinatura. Uma briga que só vai fazer aumentar as perspectivas para os produtores de conteúdo. Esta é a grande realidade.

SE AINDA PARECE POUCO...

Antes mesmo de constituírem a Simba, RedeTV!, SBT e Record se juntaram num outro empreendimento. Fizeram um acordo com a GfK alemã para trazer ao Brasil uma medição de audiência mais precisa e mais qualificada do que a do Kantar Ibope Media.
As negociações começaram em 2013 e ficou estabelecido que a empresa estaria apresentando seus relatórios de audiência a partir de maio de 2015. Como parte do acordo as emissoras iriam investir, juntas, mais de R$ 300 milhões.
A data estabelecida foi apenas o início dos problemas. Segundo representantes das emissoras a GfK demorou um ano além do prazo para começar a medir audiência. As metas de qualidade do serviço, como a porcentagem de aparelhos medidores ligados permanentemente, não teriam sido cumpridas e reclama-se até do painel de medição, que não reproduz com fidelidade o perfil sócio econômico da população brasileira. Outra reclamação é de que, no geral, os números apresentados pela GfK não eram significativamente diferentes do que relata o Ibope.
As emissoras teriam pago apenas R$ 40 milhões do total combinado e a gota d’água para o rompimento teria sido uma cobrança extrajudicial de pagamento por parte da GfK. A Record foi a primeira a entrar na Justiça. O Juiz Rogerio Marrone de Castro Sampaio já deu prazo para o instituto pagar quase R$ 28 milhões para a emissora. A expectativa é de que, com as ações a serem ajuizadas por RedeTV! e SBT a GfK tenha que pagar mais de R$ 100 milhões a título de indenizações por não cumprimento de contrato e devolução de valores pagos sem a devida contraprestação de serviços.
Por conta dos entreveros a GfK deve encerrar seus negócios no Brasil. Na última quinta-feira foram demitidos 149 funcionários, praticamente todo o efetivo da companhia.
É mais um desafio a ser enfrentado neste ano pelas redes acionistas da Simba. Fica a lição de que, o desejo de ver números diferentes de audiência, passa mais por investir na produção de conteúdo do que nas metodologias de medição.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

TECNOLOGIA E IMPULSOS PASSIONAIS


Se seres evoluídos, de outro planeta, descobrissem a Terra e fizessem um estudo sobre a cultura que rege o comportamento dos humanos, possivelmente encontrariam uma chave chamada marketing. Pode conferir: um jogador de bola, milhões e milhões de euros para traze-lo a um clube e apresenta-lo a um estádio lotado, vestindo a camisa de um patrocinador; uma funkeira sedutora rebolando na Internet para exibir marcas; uma plataforma cibernética móvel cheia de novos brinquedos, para adultos ostentarem uma marca que os identifica como “elite”.
O que mais pode significar um smartphone de ponta!? Muito pouco, além do puro marketing. Ponha à prova. No dia seguinte ao lançamento da nova linha iPhone nos Estados Unidos, foi lançado aqui no Brasil um outro celular, desenvolvido em Portugal. Na verdade é um sistema baseado em um celular, que tem também um relógio e um chaveiro. Chama-se True Kare.
Com ele é possível monitorar, do outro lado do mundo, um idoso que pode ter episódios de esquecimento ou alguma alteração nos indicadores vitais. O chaveiro e o relógio servem para avisa-lo quando se distancia do celular e também carregam sensores. Lembra a hora de tomar remédios, indica a localização, dá alertas para socorro e desenvolve muitas outras funções que permitem uma sensação maior de autonomia e individualidade a um idoso. Além da tranquilidade para milhões de famílias que precisam trabalhar e cuidar da própria vida. Até agora, nenhum meme...
Que mala, hein!? Convenhamos, essa visão carrancuda da tecnologia é injusta, independentemente da verdade que possa conter. Novos smartphones, no mínimo, fazem o mundo mais divertido. Um efeito muito importante. Além disso, sinalizam um futuro que poderá trazer muitas soluções.
Se todas as nossas ações tivessem que revelar utilidade imediata, o homem estaria pensando agora em ir para a Lua. É, mas já vai fazer 50 anos. Estudiosos americanos garantem que foi um plano de marketing para promover a indústria norte americana e lhe conferir o mais elevado conceito no mundo. O fato é que a expedição científico-marqueteira motivou centenas de avanços e utilidades desde então. Embora, a amostra de solo que foram buscar lá, até agora, não serviu pra nada.
Pão e circo, é assim que a banda toca!

QUEBRA DE UM PARADIGMA

iPhone X (dez, em algarismo romano) tem, sim, uma virtude histórica. Ele supera o paradigma tecnológico do Século XX: o botão. O botão físico, digamos. É a interface mais avançada das máquinas analógicas. “Ao apertar um botão” tornou-se o bordão das transformações do século passado: “Ao apertar um botão aparece uma imagem em movimento numa tela luminosa que fica na frente do aparelho...”; “ao apertar um botão o vidro do carro sobe ou desce”; “... a antena do carro aparece”; “... uma cópia do documento chega ao destinatário”; “... ; ...”; “ao apertar um botão a guerra nuclear pode destruir o planeta”.
A exclusão do home button como botão físico dá a “infinitude” na tela do IPhone X, que não “sangra” (termo gráfico) nas laterais, como no Galaxy S-8, concorrente direto da Samsung. A tela do smartphone da Apple ficou mais resistente e, com uma pequena esticadinha na caixa, mais o espaço que o botão físico ocupava, chegou a 5,8 polegadas.
Com o Face ID, que faz a identificação facial, o iPhone X reconhece o dono e passa a obedece-lo. Antes, só precisa “riscar” a tela com o dedo, de baixo para cima. Ele reconhece a face, mais um risco na tela e aparece a tela com os aplicativos. Só então um toque vintage com botões... virtuais! São os dos aplicativos. O smartphone está cumprindo seu destino pet, que já foi citado neste blog. Você olha para ele e ele se abre pra você. Lembra seu cachorrinho.
Ele também manda para o museu os filmes mais recentes de ação e ficção, que exibem o idoso reconhecimento datiloscópico. Coisa do passado. O agente super secreto vai entrar numa sala e coloca a mão sobre uma leitora biométrica. O Face ID, além da câmera frontal, extremamente precisa, usa um micro projetor de luz infravermelha que mapeia 30 mil pontos do rosto da pessoa. Isso torna a biometria 20 vezes mais segura do que na leitura digital.
O sistema poderá ser utilizado em outros aplicativos que desenvolvedores inventarem. O Snapchat, por exemplo, adapta máscaras precisamente sobre os rostos de proprietários do iPhone X que brincarem com o aplicativo. Os emojis do aparelho também já estão adaptados ao Face ID. Eles acompanham os movimentos da face do “iphoner” a ponto de reproduzir com clareza a articulação das sílabas na boca do personagem emoji escolhido. As mensagens gravadas com o emoji podem ser enviadas para um outro iPhone.
A outra novidade é o carregamento de baterias “sem fio”. Quer dizer, sem fios em termos, porque a base de carregamento precisa estar conectada na tomada. A grande vantagem é que, sobre ela, podem ser colocados simultaneamente o celular, os fones de ouvido sem fio e o Apple Watch.

O MARKETING DO MARKETING

O costume de apresentar novos produtos em eventos presenciais para a mídia é uma tradição da Apple. Pode acabar no dia em que não der quórum. Talvez por isso, dessa vez, a empresa aproveitou para apresentar também a nova linha de relógios smartwatches e a caixa de streaming Apple TV, um set-top box que concorre com o Chromecast, Roku e similares. O iPhone garantiu plateia para todos.
Como nenhum deles vai chegar ao Brasil tão cedo, os detalhes são poucos. O mais inovador foi o sistema de conexão à rede celular do Apple Watch, que passa a fazer ligações sem precisar do iPhone por perto. O sistema depende de novos planos de telefonia celular a serem oferecidos pelas operadoras. A conferir.
Desta vez a surpresa foi o iPhone X. Porque todos estavam esperando a linha iPhone 8. O inusitado está no fato de que eles também foram apresentados. O 8, com tela de 4,7 polegadas e o 8 Plus, com 5,5 polegadas. Ambos têm o mesmo processador do X, que é o A11 Bionic, nas versões de 64 GB ou de 256 GB de armazenamento e câmeras de 12 MP. O Plus vem com duas câmeras na traseira, como o X. O iPhone 7 Plus já trazia esse recurso, mas o alinhamento das duas objetivas é horizontal. Já no iPhone X, elas estão na vertical.
Em termos de hardware, as diferenças entre o 8 Plus e o X, basicamente estão na ausência do home button e nos projetores infravermelhos do sistema Face ID. Fica aí a dúvida sobre o que a Apple pretende ao lançar essas três opções de uma vez só. Por que não chamou todos como sendo variedades da linha 8?
Possivelmente a resposta passa pelo preço. Enquanto o 8 custa US$ 699 e o 8 Plus US$ 799, o X quebra um outro paradigma e chega a US$ 999. Psicologicamente, atinge a barreira dos mil dólares, algo especial entre smartphones. Quem tiver “daquele sem home button”, estará exibindo um distintivo de elite. E quem não tiver grana para tanto, não vai precisar ficar atrás do concorrente direto, o Galaxy S-8.
Ser chique é pagar mais. Vira e mexe esse marketing aparece. Se é para demonstrar poder, aqui no Brasil ainda falta chegar o celular que só grava quando o pensamento do dono autorizar. Na falta dele, o poder estremece.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MODELOS DE NEGÓCIOS CONCORREM CONTRA TECNOLOGIAS


Não faz muito tempo que você ouviu algum especialista dizer – ou reiterar – que a TV aberta não tem futuro. E, mais ou menos nesse mesmo tempo, também deve ter ouvido alguém falar que a TV por assinatura vai naufragar na onda dos cord cutters. Isso valeria tanto para operadoras a cabo como por satélite (DTH), que estariam mais arriscadas ainda, por não levarem a conexão à Internet juntamente com o sinal da TV via satélite.
Finalmente há quem entenda que existe espaço para todos e, com o crescimento da geração de conteúdo, em qualidade e diversidade, a tendência é de crescimento para todos os setores. A vantagem é toda do consumidor. É o que se confirma cada vez mais, com o amadurecimento empresarial das alternativas de acesso ao audiovisual. Pelo menos por enquanto, neste mundo de tecnologia fugazes.
O Brasil é destaque em todas as plataformas de comunicação. “País continental, mais de 200 milhões de habitantes” e outros chavões de palanque se confirmam nos balanços de empresas provedoras. Na modalidade DTH (aquela da pequena parabólica que fica na sacada, conectada ao satélite) os brasileiros são o terceiro maior grupo de clientes do mundo. Rendemos quase US$ 5 bilhões ao ano descendo conteúdo. Eis a forte inspiração para o investimento de R$ 1,5 bilhão no Sky B1, um grande satélite lançado no primeiro semestre. A mesma empresa também montou um centro de transmissões em Jaguariúna – SP para dar suporte à inclusão de mais de uma centena de canais nos pacotes.
Flagrante a prioridade da empresa em manter o satélite como base do negócio. Nem por isso vai ignorar a alternativa OTT. O Sky Media Center, oferecido num pacote premium, é uma caixa inteligente que acrescenta canais online e serviço VoD, tudo por streaming. Ela pode gravar conteúdos de até 5 canais automaticamente, com base nos hábitos do cliente, e disponibilizar como opção. Quando programada, tem espaço para gravar 400 horas de vídeo em HD ou 800 horas em SD.
Para as opções via streaming é necessário uma conexão Internet com pelo menos 4 Mbps de velocidade. Por enquanto, porque a partir do ano que vem a empresa vai oferecer Internet banda larga 4G, dentro do pacote, para conectar também o desktopnotebooktablet, além da TV.

QUEM DISSE QUE NÃO PODEM SER AMIGOS?

A estratégia da Oi TV é bem semelhante, mas prevalece da vantagem de já ter uma base consolidada de Internet banda larga. Um extenso conteúdo é distribuído via OTT, por meio do serviço Oi Total Play, para clientes conectados acima de 5 Mbps. Você se lembra da briga entre teles e OTTs? Parece que estão se entendendo. Esse serviço da Oi chegou a 100 mil ativações em um mês, o dobro das ativações líquidas da TV via satélite (DTH) que a empresa oferece. Enquanto isso, no mercado brasileiro como um todo, o momento da TV por assinatura tende à retração. Sinal de que a estratégia da empresa está funcionando.
A base dos serviços fixos da operadora nacional estaria sendo mantida por conta de uma boa combinação dos planos banda larga, celular e TV. A afirmação é de uma fonte da empresa que, durante a semana passada, participou do Congresso Latino Americano de Satélites, realizado no Rio de Janeiro, pela Teletime.
Para não parecer contraditório, o encolhimento da TV por assinatura no Brasil, em boa parte, está sendo associado à crise econômica. Em condições normais poderia tender ao crescimento. Além disso, há um outro fator que interfere de várias formas na análise desse mercado. Um fator que não é monitorado de perto, por causa da distância dos indicadores formais. É o mercado da pirataria. Esse contingente, só na tecnologia DTH, seria suficiente para sustentar a terceira posição no ranking nacional de operadoras. As estimativas indicam 4 milhões de piratas desse sinal só no Brasil.

SE SOBRAR NA MINHA FRENTE, TOMA

O equilíbrio entre as várias telas – via terrestre, cabo, DTH ou OTT – tende a se alterar de acordo com o movimento das inovações. Mas não há indicadores concretos de que algum deles deva ficar abaixo da linha do viável. Eles estão aprendendo a conviver em harmonia, compondo pacotes para atender aos mais diversos gostos. No caso da Sky, por exemplo, o aumento na capacidade de transmissão abriu espaço para 36 praças da TV Globo, 18 em HD. O cliente passa a ter acesso à programação local, que antes ele só sintonizava no canal aberto. Era uma carência da tecnologia DTH. Olha só TV paga e aberta se completando!
O OTT, que também estaria fragilizando a TV paga, está sendo habilmente agregado pelas operadoras do setor. Elas não podem controla-lo, porém, enquanto tecnologia universalizada, o OTT não vê inimigos no espectro. Embarca em qualquer frequência. Vai depender da eficiência de cada aplicativo, para cada finalidade específica.
A propósito, no dia 18 deste mês, o OTT é tema de reunião em Genebra, na sede da UIT – União Internacional de Telecomunicações. A entidade internacional precisou abrir uma consulta pública sobre o tema, tal é a polêmica pelo impacto nos mercados de aplicativos como Netflix e WhatsApp. Os aplicativos de vídeo balançaram a TV por assinatura. Principalmente das operadoras via satélite, que não proveem sinal de Internet. E os de voz estão mudando completamente o mercado das chamadas teles, provedoras de telefonia e Internet móveis.
O Brasil enviou 6 contribuições, onde fica nítido o confronto entre os setores citados. De um lado aparecem propostas semelhantes da Abrint (Associação dos Provedores de Internet), Abranet (pequenos provedores), Brasscom (entidades de software) e o Idec – Instituto de Defesa do Consumidor. Basicamente propõem que os órgãos reguladores das várias nações não interfiram na questão, uma vez que existem para defender interesses do consumidor e não o mercado de determinados segmentos empresariais.
Do outro lado estão o Sinditelebrasil (operadoras de telefonia móvel) e a Claro, que enviou uma contribuição em particular. Elas querem incluir as aplicações de conteúdo na mesma regulamentação que elas seguem. Ou, no mínimo, querem reduzir a discrepância tributária que observam, entre elas e os titulares de aplicações cujos serviços “se confundem” com os prestados pelas empresas que proveem o sinal. Só não se referem ao fato de que as aplicações pagam pelo acesso.
O prazo para envio de contribuições encerrou no final do mês passado. No dia 18 a UIT começa a analisar o que foi alegado por entidades e empresas do mundo todo. A expectativa é de que a mesma polarização seja observada nos diversos países.
No Brasil, os planos anunciados no mercado da telefonia móvel já refletem o efeito OTT. A tendência é ofertar planos com preço único, com todos os serviços de telefonia liberados, independentemente de ligações entre diferentes áreas ou operadoras. Incluem também pacotes de dados robustos, para navegar à vontade pelas aplicações via Internet. Já dizia o ditado: “se não é capaz de enfrentar um adversário, alie-se a ele.”

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

UM LABORATÓRIO SUSPEITO DE BOAS INTENÇÕES


Não se tem notícia de algum craque de futebol que tenha sido feito “em laboratório”. O melhor treinamento que possa existir, a mais competente orientação, a maior boa vontade, podem produzir no máximo um jogador de série A. Pra ser um craque “fora de série” tem que ter nascido com a parte principal pronta: o talento.
Essa exigência da natureza se repete em todas as áreas. Alguns “experimentos” estão mostrando que a regra vale até para grandes empresas. Depende de pessoas talentosas e determinadas que se esforcem, meçam riscos, empreendam, tudo com total disposição de aprender. Se o grupo de gestores tiver a competência para gerar a suficiente sinergia, terá surgido uma grande empresa.
A Oi, gigante das telecomunicações, deveria ser um player brasileiro no mercado internacional. Tornou-se a empresa privada do Brasil com a maior dívida. Só perde para a estatal Petrobras, cujo monopólio e salvaguardas oficiais permitiram chegar à maior dívida do mundo. O paradigma de negócios é o mesmo, baseado em planos muito ambiciosos, com o caixa liberado pelo governo.
Um caso que parece ter chegado a bom termo é a J&F. Mas é um grupo de frigoríficos, um tipo de negócio que existe há séculos. Mesmo assim, não dá para negar que houve competência na gerência do negócio, ainda que maculada por práticas ilegais.
Num segmento tão competitivo como o de telefonia móvel, totalmente dependente de alta tecnologia, a trajetória traçada para a Oi não poderia chegar a outro resultado. Prejuízo recorde no balanço e, maior ainda, na soma de milhões de clientes prejudicados pelos maus serviços que afetaram seus negócios e vida pessoal.
No próximo mês de outubro os credores da empresa, reunidos em duas assembleias, vão analisar o plano de recuperação judicial da Oi. As expectativas não são boas. Comenta-se que os sócios, que receberam tanto dos cofres públicos, estariam reticentes em colocar do próprio bolso nesta hora difícil. Isso sem contar outros entraves jurídicos pelo caminho.

HÁBITOS NÃO RECOMENDÁVEIS

Quando se fala nos “experimentos empresariais” do Governo só se ouve “bilhões”. No caso da Oi não é diferente. A maior credora é a própria Anatel, a agência reguladora, também do Governo Federal. A Oi reconhece uma dívida de cerca de R$ 11 bilhões com a Anatel. Mas a agência fala em mais de R$ 20 bilhões.
O mais curioso é que, pelas leis brasileiras, dívidas com o poder público não podem ser incluídas no mesmo bolo de credores, em planos de recuperação judicial. Porém, na semana passada, a Justiça do Rio de Janeiro, em segunda instância, garantiu a inclusão da dívida com a Anatel no plano de recuperação. Foi a confirmação de uma decisão que já tinha sido anunciada em primeiro grau. Pelo tempo que falta será muito difícil mudar essa regra numa instância superior do Judiciário, em Brasília. E o dinheiro devido ao erário vai ser negociado na base do encolhe valor e estica o prazo.
A propósito, por quê será que a Oi tem uma dívida tão grande com a Anatel? Em boa parte por excesso de esperteza. Vende e não entrega, combina e não comparece, promete mas não cumpre. Uma realidade na grande maioria dos serviços de tecnologia aqui no Brasil, que teve na Oi mais uma deplorável primeira colocação. Esse padrão de relação comercial, na base do quem pode mais chora menos, é um dos grandes passivos históricos na imagem das empresas brasileiras lá fora.
Se o objetivo é ganhar o mercado internacional, o melhor caminho deve ser investir seriamente em credibilidade. A Justiça em países do chamado Primeiro Mundo não costuma ser tão benevolente como os tribunais brasileiros. Tanto que uma subsidiária da Oi na Holanda já foi encerrada judicialmente por operações ilegais.
As empresas internacionais que atuam no mesmo segmento aqui no Brasil parecem já ter incorporado o modus operandi padrão camelô. Estrangeiros que utilizam serviços das mesmas empresas em outros países, muitas vezes se declaram surpresos com o que veem por aqui. Sabe-se lá os termos que foram impostos pelos agentes públicos para as concessões. Se seguiram o padrão de empreiteiras e outras grandes empresas beneficiadas pelo BNDES, é bem provável que, em breve, saibamos pelos jornais. As suspeitas não são infundadas. Pelo Congresso que temos, a recente tentativa de aprovação urgente e silenciosa de uma série de medidas para beneficiar as teles, coloca as barbas de molho.

TOME TENTO, SENHORA OPERADORA

Mesmo com tantas dificuldades parece que a Oi ainda não aprendeu. Também na semana passada o Ministério Público Federal, do Rio de Janeiro, acionou a Oi Móvel por cobrança indevida no serviço 3G. E, desta vez, a empresa vai ter que provar a própria incompetência para não se declarar desonesta.
Na contabilidade do tráfego de dados a operadora usa uma base decimal, algo inexistente numa tecnologia integralmente baseada na lógica binária. Assim, a cada 1000 kilobytes de tráfego a Oi lança a cobrança de 1 megabyte. Essa referência só serve como comparação didática uma vez que, na base binária, 1 megabyte é igual a 1024 kilobytes. Será que nenhum engenheiro da casa sabe disso?
A falha é tão escandalosa que o MPF incluiu até a Anatel na ação. O órgão regulador também tem papel na fiscalização e não poderia deixar passar um erro tão gritante.
Os procuradores federais do Rio de Janeiro querem que a Oi seja condenada a restituir em dobro os valores pagos a mais pelos usuários, além do pagamento de danos morais individuais e coletivos. A reivindicação é em favor de usuários da Oi Móvel em todo o Brasil. Para a Anatel o MPF pede como condenação a fiscalização da contabilidade do tráfego de dados móveis da Oi e pagamento indenizatório por dano difuso. Olha aí a Anatel do mesmo lado da Oi!
Mesmo com todas essas mazelas é evidente que uma eventual falência da Oi tende a representar um grande prejuízo para o país. Não apenas por ser a maior operadora de telecomunicações do país, ou por ser uma empresa nacional. Mas principalmente pelo vazio que vai ser gerado no setor. Por enquanto, o entrevero é mais uma prova de que agentes públicos, quando interferem diretamente na gestão privada, dificilmente estão com boas intenções.