sexta-feira, 30 de junho de 2017

PREVISÕES, INVENÇÕES E O FUTURO


Previsão para o futuro: em grandes cidades as principais avenidas terão plataformas para escapar de congestionamentos. Um carro pode parar em cima de uma delas, que vai descer até um túnel subterrâneo. Haverá dezenas de camadas de túneis, onde cada plataforma (com o respectivo veículo) vai se deslocar à velocidade de 200 Km/h. Chegando a um acesso próximo ao destino a plataforma será elevada para a superfície, num ponto de outra avenida. Então, tá.
Fosse um prefeito falando, seria considerado de pitoresco a megalomaníaco. Mas o guru dessa ideia é Elon Musk, CEO de potências tecnológicas empresariais como a Tesla, a SpaceX e Neurolink. Isso significa que, no máximo, ele pode ser chamado de excêntrico. É tratado na mídia especializada como um gênio e o mais importante: tem dinheiro suficiente para a construção de túneis experimentais, que já estão prontos debaixo da unidade industrial da SpaceX.
Justiça seja feita, pelo currículo que ele assina, Musk merece respeito. Por outro lado Thomas Edson, o inventor mais bem sucedido da história, também pariu bobagens e perdeu muito dinheiro com elas.
“O futuro a Deus pertence”, já diziam os mais velhos. Nem por isso somos impedidos de tentar inventa-lo a nosso gosto. A coisa fica sem graça quando se quer dar um ar de ciência para essas especulações. Mais ainda quando o ritmo de mudanças está na velocidade que já vemos, com certa vertigem.
Essas conversas têm até lugar certo para acontecer. No Fórum Econômico Mundial de Davos, no ano passado, Klaus Schwab fez um alerta sobre o que chamou de “Quarta Revolução Industrial”, a digital, onde veremos uma “fusão de tecnologias borrando as linhas divisórias entre as esferas físicas, digitais e biológicas”. Belas palavras para dizer algo que já se murmura há tempos por aí. O Fórum Econômico declarou que o assunto está em estudo e já tem publicações a respeito. A grande preocupação é com os empregos e com a condição marginal de países que não tiverem condições tecnológicas para competir. O tom desses estudos é bem alarmista.

MINHOCA ATÔMICA OU ZANGÃO

Fazer previsões já foi bem mais enobrecedor e até divertido. O tal futuro ficava tão longe que os cartomantes de plantão não estariam lá para ouvir as cobranças. Bastava ter muita imaginação e um pouco de conhecimento sobre o que se passava no seu tempo. E, claro, dependia também de um certo status na sociedade, para que as pessoas dessem alguma atenção.
Hoje em dia a coisa é muito rápida e absolutamente fora do controle de qualquer organização, governo ou religião. Se alguém tivesse alguma revelação sobre as tendências tecnológicas nos próximos dois anos, não haveria nada a ser feito agora para minimizar impactos. A única atitude consequente seria correr para a Nasdaq e comprar as ações dos negócios que vão prosperar.
Não terminamos de inventar sequer a Internet, que ainda deve surpreender muito. O jovem Elon Musk possivelmente não é do tempo em que os desenhos animados dos Jetsons mostravam um futuro cheio de aeronaves no céu. Por isso a invenção dele é o contrário, tudo debaixo da terra. Qual seria a mais absurdamente futurista? Com o dinheiro exigido para construir tantos túneis, energizar o suficiente para que milhares de veículos se desloquem a 200 Km/h, com elevadores, manutenção, segurança, etc, etc, os Jetsons parecem mais viáveis. Já se fala em drones para um ou dois passageiros.
Há cerca de 3 anos a previsão era de que, hoje, eu teria um Google Glass na cara. A onda esfriou e agora o Mark Zuckerberg já fala de novo em óculos para daqui a 10 anos, mas como substituto do celular. Com certeza vai existir, como também existiu Google Glass e existem similares por aí. A questão é se vai virar um negócio viável. O que se pode ter como certo é que palito de fósforo, rolha de cortiça e carvão para churrasco vão continuar existindo. Esse tipo de invenção, simples e que nunca envelhece, sempre foram os grandes negócios.

FUTURO VAI ATÉ QUANDO?

Quem já está no mercado de trabalho de nível superior viveu uma experiência história muito especial no que diz respeito a previsões. Foi o ano 2000. Uma data quase cabalística, sobre a qual foram despejadas previsões durante séculos. A grande maioria virou piada, embora os videntes de maior status histórico sejam respeitosamente declarados ingênuos.
Imagine que na Década de 60 do século passado – veja bem, o homem já tinha pisado na lua! – cientistas previram que, no ano 2000, seria possível prever terremotos com um mês de antecedência. Fukushima que o diga. Estavam tão animados que foram mais adiante para prever até 2011 a elucidação completa das causas do câncer.
Há 10 anos qual foi a particular esperança que você colocou sobre as células tronco? Falava-se em tantas maravilhas possíveis que, certamente, pelo menos uma delas encheu você de esperanças. Voltar a crescer cabelos em carecas esteve entre os trending topics, pode apostar.
As previsões precisam ser feitas e devem continuar. Porém, com a responsabilidade de quem já tem noção da volatilidade delas. As de médio e longo prazo tendem a ser cada vez menos importantes. Seria melhor investir em previsões tecnológicas de curto prazo, tipo um horóscopo-das-coisas: “-Atenção celulares! A conjunção de Júpiter com Urano indica que os flips devem voltar com força, aumentando as telas que cabem no bolso. As luas de Saturno indicam que os chip sets devem desaparecer entre os anéis do planeta; o período é bom para placas de processamento discutirem a relação com os respectivos sistemas eletromecânicos, que não param de colocar a culpa nelas.”
A previsão mais antiga e certeira é sobre o que devemos e podemos fazer para melhorar o mundo todo: uma boa educação. Ela vai servir para nos adaptarmos adequadamente, seja qual for o futuro da indústria ou dos nossos cabelos. Mesmo assim são poucas as nações que dão atenção a esta previsão milenar. E olha que ela fica mais atual e mais eloquente na medida em que o tempo passa.
Só a boa educação vai nos levar a avanços certeiros. Imagine uma empresa baseada na honestidade. Não como valor moral, mas como diferencial de negócio. Você daria a preferência para uma operadora de telefonia móvel que explicasse claramente as vantagens e também as eventuais desvantagens dos novos planos que ela oferece para você? Que colocasse atendentes preparados para o call center do suporte e não apenas para o de vendas? Você pagaria mais numa oficina mecânica que demonstrasse com toda transparência o que foi feito no motor do seu carro e quais as garantias que você teria?
Esse lado humano e inquestionavelmente atraente para todo tipo de cliente precisa entrar nas previsões para novos negócios e empregos. São inovações desse tipo que o mundo todo espera há muito tempo.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

CRIME E IRRESPONSABILIDADE NA REDE


Tem gente forte na Internet que parece ter uma única preocupação: os Dez Mandamentos. E não é para guarda-los, muito pelo contrário. Eles querem que a Lei Mosaica seja totalmente ultrajada, talvez para não deixar o mundo virtual devendo nada para o real.
O pecado mais disseminado, com certeza, é o falso testemunho. Mentira é o que não falta. A cobiça pela mulher do próximo já é antiga na rede, a castidade então, parece que nem passou por lá. Tem gente que se acha um Deus, outros que usam o nome dele em vão, muitos só semeiam o ódio, quando deveriam amar o próximo. Ah, aquele dia sabático semanal pode esquecer, a Internet põe você a trabalhar todos os dias. E entre tantos outros pecados o mais preocupante no momento é o roubo.
As previsões apontam prejuízos da ordem de trilhões de dólares nos próximos 5 anos, só para as empresas. Segundo pesquisa global da Grant Thornton, nos últimos 12 meses foram US$ 280 bilhões, ainda abaixo dos US$ 315 bilhões no ano 2015. Os ataques comprometem seriamente a reputação das empresas, tomam muito tempo para recuperação, espantam clientes.
Investigações rastreiam os ciber criminosos pelos dois mundos. Mas não é fácil pegar. Estão envolvidos com organizações ligadas à interesses diversos, de ideológicos a puramente lucrativos.
Na onda de ataques do último mês de abril, que atingiu não apenas empresas, é onde se pode ver claramente o perfil de roubo, mesmo. Porque, pela lei penal, roubo se caracteriza pela violência do ato na hora de tomar o que é de propriedade do outro. Quando a coisa simplesmente é levada e não tem ninguém por perto, trata-se de furto. Imagine a violência de você abrir o seu computador e ver nos seus arquivos aquele monte de códigos que não dizem nada. Depois a mensagem informando que eles foram criptografados e que, se quiser abri-los, terá de pagar um resgate.
Há indícios de que o grupo que efetuou o ataque é o Lazarus, nome de um personagem bíblico que só viveu na pobreza. Quem sabe a ironia não é proposital? Nos ataques de abril eles usaram o ransomware WannaCry. Mas teriam usado outros tipos de malware para atacar a Sony Pictures, no final de 2013 e no roubo de US$ 81 milhões do Banco Central de Bangladesch, no ano passado.

LIMITAM ATÉ O DESENVOLVIMENTO

Como acontece com todo tipo de crime, muitos interesses estão envolvidos. As companhias de seguro ainda não fazem apólices para “conteúdos digitais”. Mas a indústria de defesa cibernética não para de crescer. Neste ano o mundo deve gastar US$ 93 bilhões com a segurança na rede, aponta a Juniper Research. E isso porque mais da metade das empresas ainda não investe na prevenção.
No Brasil os bancos já admitem que o risco de ataques deve reduzir a evolução de serviços bancários. Durante o Congresso de Tecnologia da Informação para Instituições Financeiras, promovido pela Febraban no começo do mês, até rotinas internas dos bancos devem mudar em função da ciber segurança. Isso sem contar a necessidade de treinamentos.
Da mesma forma que no mundo real, o crime pela Internet também pode ocorrer em função de descuidos. Como a janela que deixamos aberta em casa, ou como a ingenuidade de quem compra um bilhete premiado.
Também neste mês uma mensagem pelo WhatsApp ameaçou mais de 100 mil pessoas no Brasil em menos de 24 horas. Uma falsa promoção oferecia um cupom de R$ 70,00 para gastar na rede McDonald’s: “- É só passar para 10 amigos seus e fazer o cadastro”, uma conversa mais ou menos assim, que pode dar problemas para muita gente durante um bom tempo. Convenhamos, tem que ser muito descuidado para cair nessa (usando um eufemismo bem-educado).
Muita gente ainda não percebeu que segurança é uma condição que não depende apenas de proteção. A exposição aos riscos pode ser reduzida pelo mínimo de bom senso. É verdade que algumas pessoas são, por natureza, menos atentas do que outras. Mas no uso da Internet determinadas “pegadinhas” já ficaram velhas. Parece que o fato de estar num lugar muito seguro no mundo real – como o local de trabalho ou em casa – dá uma grande sensação de segurança também para o internauta, que não está só no mundo físico.
O uso da Internet mais frequentemente pelo celular pode aumentar muito os riscos. Tanto pela distração como pelo excesso de zelo, aquele medo de tudo, que pode levar a atitudes precipitadas.

“-MAS EU SÓ REPASSEI”

Esse é o tipo de argumento que pode revelar muito sobre um internauta. Quem ainda é capaz de acreditar que “só repassar” uma mensagem não representa nenhum risco, está entre a ingenuidade e a irresponsabilidade.
Muito antes do crime, um certo tipo de diversão perversa cresceu rápido pela rede. Talvez essa diversão tenha servido para ajudar os criminosos a conhecerem mais sobre a vulnerabilidade da sociedade.
Um caso, nem tão recente, envolve um hospital oftalmológico especializado no transplante de córneas. Uma mensagem pelas redes sociais divulgava um “excesso de disponibilidade” de córneas que estaria levando a direção clínica a descartar muitas delas, pelo tempo decorrido. Por isso conclamava a avisar os conhecidos que precisavam de transplante. Na mensagem constava o número do telefone do hospital. E era o número verdadeiro. Durante algum tempo deve ter dado até mais credibilidade à mensagem. Quem ligava e ouvia a atendente virtual anunciar que se tratava do hospital oftalmológico, muitas vezes pensava que já sabia de tudo que precisava fazer.
Porém, passado um período, o hospital precisou tomar uma providência. Programou como primeira advertência da atendente virtual uma gravação explicando que o “excesso de córneas” não era verdadeiro, apenas um trote. Mesmo assim, entre aqueles que estavam com pressa em fazer o bem (??) e resolveram “apenas repassar”, continuou o ataque à rotina do hospital. Devem ter atuado para frustrar muitas pessoas que, durante algum tempo, acreditaram que poderiam voltar a enxergar bem antes das previsões do banco de olhos. Há muitos anos isso poderia ser apenas ingênuo. Porém, com o tempo, esse tipo de displicência está caracterizando mais uma irresponsabilidade.
E por falar em coisas que já estão ficando velhas, é oportuno citar uma frase que, por mais antiga, ainda é muito verdadeira: “A segurança é você quem faz.”

sexta-feira, 16 de junho de 2017

WHAT'S UP COM O WHATSAPP? A JUSTIÇA QUESTIONA


Entra muita filosofia no debate sobre leis e tecnologia. É o que torna difícil falar da privacidade do WhatsApp no contexto das leis brasileiras. O tema voltou a esquentar com a audiência pública sobre o assunto no começo deste mês, no Supremo Tribunal Federal.
Quem veio dar explicações pessoalmente foi Brian Acton, um dos fundadores do serviço, hoje de propriedade do Facebook. Dia antes da audiência ele reuniu jornalistas, possivelmente porque a estratégia da empresa passa por conseguir mais apoio junto à opinião pública. Começou a conversa com o velho papo jabuticaba, dizendo que só o Brasil está questionando a criptografia das conversas. Depois insistiu na impossibilidade de qualquer tecnologia interceptar mensagens do aplicativo.
Acton disse que a criptografia muda a cada mensagem, segundo parâmetros que o celular do emissor cria e emite, com base no aplicativo. Segundo ele, tudo isso é aleatório, o que reserva a escolha dos códigos às respectivas plataformas móveis.
O significado deste diagnóstico técnico soa diferente em cada orelha. Para uma turminha muito famosa ultimamente eles ouviriam da seguinte maneira: para organizar qualquer atentado terrorista podem contar com o WhatsApp, ele é imune à bisbilhotice policial. Já o governo americano, que intercepta até pensamento, ouviria bem diferente: estamos ganhando um rastreador exclusivo de celulares do terror.
A grande questão é saber quem, aqui no Brasil, vai dizer pra eles que a conversa não cola. O Judiciário e a Polícia Federal estão tentando. E contam com as operadoras de celular, que não aguentam mais as bolas nas costas que tomaram, desde que o aplicativo chegou ao grande público. Primeiro desbancou o SMS e pouco depois engoliu a principal fonte de receitas das teles até então, quando viabilizou chamadas de voz totalmente free.
A gente sabe que, em termos de Internet, o Brasil não é fraco não. Temos 10% dos “zap zap” da Terra, são mais de 120 milhões de usuários. Quase metade de todos os chips que as teles operam em território nacional. E por aqui o nosso terror está no tráfico de drogas e outras organizações “satélites”, que giram em torno do PIB do tráfico.

VOLTANDO PARA A ESCOLA

A gente reclama da falta de privacidade, mas também reclama da falta de segurança. O governo diz que segurança pública precisa vir antes da privacidade, enquanto as universidades acham que a escola deveria chegar antes da polícia. É por aí o debate filosófico. O que complica é quando entra a política no meio, que precisa dizer que tudo está bem, tudo está certo. Ou que tudo está errado, tudo está péssimo, depende de que lado vem. É a guerra de dados e de versões que não acaba mais.
O que dá pra tirar daí é a importância da escola. Primeiro porque a criminalidade é muito menor nos países em que a Educação Pública tem mais qualidade. Segundo porque é o único caminho por onde se pode reduzir o abismo tecnológico entre quem produz a tecnologia de ponta e quem só depende dela.
Já existe um mundo em torno da Internet todo feito de bits. E é lá onde está o WhatsApp. As regras desse mundo não passam pelos tribunais, mas nascem da formação que começa nas escolas. A dependência tecnológica está se tornando um risco muito mais crítico do que a dependência do petróleo foi historicamente. Com a Internet das Coisas (IoT) essa dependência pode ser vital. Hoje em dia não há força policial ou pressão jurídica capaz de superar a tecnologia. Ou você tem conhecimento ou não participa. Se nesse momento isso ainda é um tanto relativo, em muito pouco tempo vai passar a ser simples assim. O Brasil sabe bem disso. Sem capacidade para inovar nem a nossa Economia vai se sustentar.

PODE DEIXAR PRA DEPOIS?

Uma presença muito humana nesse debate é a comodidade, uma certa preguiça em fazer as coisas, ou de pôr a mão no bolso. A polícia brasileira em geral, dos estados e a federal, gosta muito de investigar por conta de grampos. O juiz autoriza, o agente policial entrega na operadora e entra no bate papo que quiser. Mas pode ser diferente, sim. E com muito mais eficiência. É o que mostra a Operação Lava Jato. É a maior e mais eficiente operação policial do país e só agora, depois de 3 anos de sucesso, começam a aparecer alguns grampos telefônicos.
O substrato para conseguir isso é o mesmo da tecnologia. Chama-se inteligência. Para ser eficiente nesses casos precisa também ser guiado pelo respeito às leis e por muita seriedade da parte das autoridades. Elas precisam colocar o interesse público em primeiro lugar e se articularem enquanto instituições. Claro que a tecnologia é indispensável, mas ela não faz nada sozinha.
Da parte do WhatsApp a preguiça é outra. Criar condicionantes no código do aplicativo, nem tanto. O complicado seria ampliar enormemente seus escritórios pelo mundo, com profissionais caros, para atenderem as polícias e tribunais de cada país.
De certa forma o WhatsApp foi inventado para tomar informações das pessoas. Ou ele seria um presente do Facebook por puro amor à sociedade planetária? Os custos para manter essa estrutura toda no ar são elevados. E ninguém paga fatura no fim do mês, ninguém anuncia nada no aplicativo. Será que o Mark Zuckerberg também se alimenta de bits? Não, ele conecta os metadados do WhatsApp com o Facebook e direciona mais cirurgicamente a publicidade. O mercado paga bem por isso.
De quebra, é de se desconfiar que o Facebook, Google e outros ciber habitantes da Internet tenham uma sala física na NSA. Até porque, sem esse apoio para operações no mundo físico, essas empresas também estariam sob sérias ameaças.
Por fim, tem essas coisas complicadas que tanto marcam o nosso mundo. A maioria do que foi discutido aqui são coisas que não podem ser ditas nos tribunais ou que ferem os ouvidos de governantes e das grandes corporações. Isso faz com que esses problemas continuem a gerar prejuízos, enquanto se buscam as palavras certas para abrir o debate de forma mais clara. Ao cidadão comum resta abrir o WhatsApp e procurar alguma piada que torne tudo isso, pelo menos, um pouco divertido.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

MAIS UM TÍTULO MUNDIAL. BOM OU RUIM!?


Dormir e trabalhar. São as duas coisas que mais tomam tempo das pessoas em geral. Os motivos são reciprocamente explicativos. Depois dessas duas ocupações o uso que as pessoas fazem do próprio tempo varia. Um provável terceiro colocado seria o hábito de assistir à TV. Mas no Brasil, em particular, existe uma concorrência muito forte. É o telefone celular.
Recente pesquisa divulgada pela grande mídia revela que ninguém no mundo fica mais tempo no celular do que o brasileiro: a média diária foi de 4 horas e 48 minutos no ano de 2016. Isso suscita explicações.
Um dado relevante para incluir nesta análise é o crescimento acelerado dessa nova mania verde amarela. Em 2012 a média nacional era inferior a duas horas por dia. Ou seja, em 4 anos mais do que dobramos a atenção dedicada ao pet cibernético. O que mais, de tão especial, teria acontecido no Brasil nos últimos quatro anos que pudesse aumentar tanto o interesse pelo telefone celular? A tecnologia é um bom começo para essa resposta.
A venda de smatphones – muito mais atraentes para o usuário do que os celulares tradicionais – vem crescendo rapidamente nesse período. No ano passado 89,9% do total comercializado no varejo nacional foram aparelhos do tipo smart. Os aplicativos OTT, como o Netflix, se expandiram e as redes sociais, que já tinham caído nas graças do brasileiro há tempo, ficaram mais à vontade com inovações nas plataformas móveis. Levando em conta que esses fatos são uma realidade global e não apenas brasileira, a avaliação da intensidade com que acontecem em cada país deve contribuir para explicar a primazia nacional.
Porém, alguns fatores muito nacionais devem ter jogado a favor do uso de celulares no Brasil. E nesse quesito pode haver razões nas quais não dá para projetar um orgulho de campeão.

TAMBÉM UM PASSATEMPO

Antes de prosseguir é oportuno olhar os concorrentes mais próximos. O segundo país mais vidrado em celulares é a China. A média por lá é bem inferior, 3 horas de 3 minutos por dia. Em terceiro lugar o Tio Sam, que não fez questão de honrar o America First que elegeu Trump. E olha que a distância ficou grande, com 2 horas e 37 minutos ao dia. Quase levaram uma macarronada dos italianos, que ficaram em quarto lugar com apenas 4 minutos a menos na média diária. O quinto tem praticamente um bloco, com 2 horas e 11 minutos na Espanha, um minuto a menos na média estão Coreia do Sul e Canada e em oitavo, com menos outro minuto estão os ingleses (2:09h). Alemanha com 1 hora e 37 minutos e França, com 1 hora e 32 fecham os 10 primeiros.
Veja só, o único cucaracha do grupo, o representante do Terceiro Mundo é justamente o primeiro colocado! É aí onde começa a ladainha vira-lata. Como a velocidade média da Internet no Brasil está muito longe de todos os outros, é de se supor que boa parte do tempo que passamos no celular fica por conta do tempo de espera para download/upload. A diferença de velocidade é tanta que, em 2016, comemoramos o 79o lugar no ranking mundial. E comemoramos muito! Porque o Brasil foi a nação que mais aumentou a velocidade de dados de 2015 para 2016. Imagine como estávamos antes.
A falta de infraestrutura mostra que temos um país enorme mas construímos um país pequeno dentro dele. Em extensão territorial o Brasil é o quinto maior do mundo. Mas faltam rodovias, as ferrovias são pequenas e capengas, aeroportos operam no limite, portos enfileirando até 100 Km de caminhões na espera para descarregar. Falta até rodoviária em muitos municípios de porte, sem falar na carência de água encanada, esgotamento, aterros sanitários, leitos hospitalares, etc, etc. O celular, com certeza, ganha espaço no meio disso tudo. No trânsito parado, na espera pela consulta, no atraso do voo e durante boa parte do tempo em que perdemos tempo. E ainda, na lista das mazelas, tem o uso dentro das penitenciárias, que é proibido e não deve acontecer nos outros países do topo da lista.
Então não há nada para festejar nesse primeiro lugar no uso de celular? Se existe alguma vantagem nisso vai ser difícil encontrar. Temos a tarifa mais cara do mundo e, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, já foi criada uma unidade específica para tratar pessoas viciadas no uso do celular. Sim, literalmente doentes por celular.

REMÉDIO E VENENO

O fato de o brasileiro ser um povo comunicativo deve influir pouco nesse comportamento. Senão o segundo colocado também não seria a China, um país não tão tagarela e com Internet limitada e vigiada pelo governo, por questões de “segurança nacional”.
Considere-se também que o celular se transformou mais em uma alternativa de isolamento do que de integração. Atualmente é até impróprio falar em “telefone celular”. Mais precisamente no primeiro trimestre deste ano as operadoras nacionais apontaram maior receita com o fluxo de dados do que por chamadas de voz. É outra tendência mundial, operadoras de telefonia se transformam em provedores móveis. Tudo bem, uma parte das conversas agora não paga impulsos porque é feita pelo WhatsApp e similares. Isso ainda pode segurar o status de “telefone” para o celular. Mas esses mesmos aplicativos são mais utilizados para tráfego de dados. Quantas piadas por dia você lê ou escuta por esses aplicativos?
Mesmo com todas as culpas que se queira lançar sobre o celular ninguém pode perder de vista o fato de que o aparelho representa um grande progresso para a sociedade. E ainda acelera o desenvolvimento de praticamente todos os segmentos da nossa vida. A questão, mais uma vez, está na dose. É o que faz a diferença entre o remédio e o veneno.
Em todo caso está lançado o desafio. Qual é a vantagem em sermos o país onde se usa o celular por mais tempo durante o dia? E numa dianteira que não é por “uma cabeça”, mas por um período 50% maior do que o segundo colocado. Se houver algum benefício nisso, favor divulgar o quanto antes por algum aplicativo para celulares. Será a maneira mais rápida de todo mundo ficar sabendo.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

RIQUEZA QUE SÓ A INTERNET PODE CRIAR


A gente fala muito do que não entende e dá valor a coisas sobre as quais não sabemos nada. Há décadas uma bandeira de combustíveis divulgava enigmática vantagem perante os clientes: “-só a nossa gasolina tem ICA.” Então tá, o que é ICA? Uma sigla, em inglês, que quase a totalidade dos engenheiros do mundo não sabia ao que correspondia na prática. Muito menos o cidadão comum, que dava a preferência ao produto com a sigla.
Desde sempre isso acontece. Poemas eruditos, com palavras de uso raro, já faziam analfabetos se emocionarem. Compostos até da pasta de dente são desafios ao nosso vocabulário. Até que determinada situação nos obrigue a superar aquela ignorância em particular. Parece que já chegou a hora de você saber o que é bitcoin. “Ah, é uma moeda digital”, ou “virtual”, não diz quase nada sobre esse sonho de uma nova economia. Ou sobre um investimento que pode valorizar mais de 15% em dois dias.
A moeda é baseada em criptografia. Um bitcoin é o conjunto de uma chave pública e uma chave privada. Quem tem a chave privada é o dono daquele bitcoin (ou BTC, ou ainda XBT).
A ideia da tal moeda virtual surgiu com o lançamento anônimo do protocolo de uma rede P2P de código aberto. Cada computador que passa a ser integrado à rede pode gerar 50 bitcoinsdesde que, utilizando um determinado aplicativo, o usuário resolva desafios matemáticos de criptografia. Isso acontece, em média, a cada dez minutos.
As negociações em BTCs são checadas por nodos da rede, escolhidos aleatoriamente para cada caso. Assim a moeda não pode ser fraudada de qualquer forma.
Quem desenvolveu esse sistema lançou tudo pela Internet sob o pseudônimo de Satoshi Nakamoto. Possivelmente era um pequeno grupo de conhecedores das ciências da computação, até hoje não identificado. Acredita-se que seja mais ligado ao meio acadêmico do que ao mercado. Em 2010, quando foi lançada a moeda, a primeira compra exigiu a importância de 10.000bitcoins por uma pizza que custava US$ 25,00. Cada um desses 10.000 BTCs vale hoje mais de US$ 2.000 dólares.
Assim como as outras moedas ela tem oscilações na cotação de mercado. A estimativa é de que, em um ano, cada BTC esteja cotada, no mínimo, a US$ 3 mil. No entanto analistas acreditam que, nesse período, é realista estimar que a cotação da moeda esteja a US$ 10 mil. Interessante, né!?

DINHEIRO, UMA COISA SUJA

Toda moeda é uma representação de valor aceita num determinado grupo social. As moedas já foram lastreadas em ouro e em outros valores. Mas hoje são garantidas pelos governos nacionais que as emitem. Ao lançar o sistema bitcoin, o sonho de Satoshi Nakamoto, ou de quem quer que ele(s) seja(m), era criar uma moeda global, livre da interferência de qualquer governo e dos bancos, uma moeda totalmente decentralizada.
Muito bom porque barateia as transações, evita a interferência custosa dos bancos e agiliza negócios em qualquer parte do mundo. Muito perigoso também, porque facilita compra de drogas, de armas, financia pedofilia e outros crimes hediondos. No maior ciber ataque da história, há poucos semanas, os criminosos exigiram resgates em BTCs.
Essas características da moeda digital atraíram a atenção de comunidades hackers e de grupos que se identificam com ideais anarquistas e libertários. Eles contribuíram para a evolução da ferramenta open source. Num evento realizado em 2013 sobre a economia bitcoin estava Jacob Appelbaum, um “cypherpunk”, conhecido por muitos como o homem mais perigoso do ciber espaço. Nesse tipo de evento, no entanto, o risco é “ideológico” porque atrai pessoas não identificadas com o sistema político-econômico hegemônico.
Quanto ao risco de lavagem do dinheiro do crime ou do terror, as instituições de câmbio que trocam a moeda digital por moedas nacionais – como o Mt Gox, do Japão – sofrem fiscalização nas grandes transações. O próprio sistema bitcoin grava as transações de grandes valores o que torna difícil, para os criminosos, lavar grandes quantias.
É por isso que o status do BTC está crescendo na Economia Mundial. No Japão o BTC já é reconhecido como meio de pagamento, sites importantes, como o Wordpress, já aceitam a moeda em seus negócios. Isso inspirou a criação de muitas outras moedas virtuais que já circulam pela Internet, expandindo essa ideia.

A “CONTRIBUIÇÃO” DO PARLAMENTO BRASILEIRO

Nesta quarta-feira vai acontecer a primeira reunião de uma Comissão Especial da Câmara dos Deputados que tem uma missão surpreendente, pra não dizer impossível. Pretende regulamentar as negociações com moedas virtuais no Brasil. O Deputado carioca Aureo Ribeiro, autor do Projeto de Lei, anuncia que “vamos trabalhar para proteger o consumidor brasileiro e criar uma legislação que possa ser referencia mundial”. Ele considera o fato de que “tanto o Banco Central como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e os órgãos do consumidor já tem competência para fiscalizar e regular moedas virtuais.”
Desde o surgimento do BTC a comunidade financeira internacional tenta colocar rédeas no movimento. Se fosse possível, já deveria ter acontecido. A proposta do Deputado parece vir na mesma maré dos bancos e operadoras de cartões de crédito. Tentará criar embaraços para quem compra e para quem vende em BTCs.
Fica difícil mensurar o quanto isso interessa ao Brasil. Somos uma nação que mais apanha do sistema financeiro do que leva vantagens ao lado dele. Talvez uma legislação que valorize os meios alternativos de pagamento poderia ajudar a sermos vistos com mais respeito pelos bancos.
Alguma eventual dificuldade que a nova lei represente pode ainda levar o consumidor a fazer compras fora do Brasil, principalmente pela facilidade dessas operações pela Internet, de onde as moedas virtuais são nativas.
O projeto de lei foi apresentado em 2015 mas a tramitação ficou suspensa por algum tempo. Com a criação da comissão especial, instalada na semana passada, espera-se dar um novo fôlego à ideia. O projeto inclui também negócios com o uso dos pontos gerados por milhagens oferecidas por companhias aéreas.
Nesses tempos de tanta exposição do nosso parlamento na mídia internacional, nos resta torcer para que o tal projeto traga alguma coisa de útil para a discussão dessa questão em nível mundial. Caso contrário nossa capacidade de escolha, como eleitores, tende a ficar mais comprometida diante da opinião pública planetária.