sexta-feira, 26 de maio de 2017

O QUE PODE DAR ERRADO NA INTERNET


A Internet pode deixar de ser o mundo virtual para se tornar um mero bairro cibernético. Um lugar por onde passaríamos assustados, até chegarmos a um endereço seguro, cercado de muros de fogo. Faríamos apenas o necessário para, em seguida, retornar ao nosso mundo sensorial. Isso significa que você não estaria lendo esta página como faz agora.
O alerta é de especialistas do LACNIC – Registro de Endereçamento da Internet da América Latina e Caribe, que se reuniram nesta semana num evento em Foz do Iguaçu. Adiel Akplogan, do ICANN, disse que o desafio de expandir a infraestrutura da Internet já está superado. A evolução da rede agora depende de regras de uso. Normas capazes de garantir a necessária segurança. Só assim será possível ter o espaço virtual aberto, onde vários modelos de negócio poderão ser testados para simplificar a vida das pessoas. Essa é a vocação da Internet desde que surgiu. O inverso desse cenário seria a chamada “ciberguerra”, onde gangues estariam alocadas no espaço virtual na expectativa de confundir e extorquir pessoas.
O caminho da paz, segundo os especialistas, passaria por duas providências importantes. A primeira é a migração para o IPv6, o novo protocolo da Internet, muito mais abrangente e eficiente, que chegou para substituir o IPv4. Os parâmetros para o novo protocolo foram definidos a partir de 1997 e há cerca de uma década ele já vem sendo testado. O IPv6, no entanto, só foi oficializado em 2012.
A outra medida seria a padronização de procedimentos para atualização da segurança em dispositivos interconectados em IoT (Internet das coisas). Christine Hoepers, que faz parte do Comitê Gestor da Internet no Brasil, afirmou durante o encontro que os sensores e equipamentos estão sendo produzidos e conectados hoje sem a devida atenção para os riscos de ataques. Esse hardware todo sai dos fabricantes e a segurança deles não está objetivamente sob a responsabilidade de ninguém.
Nessa batalha para salvar o mundo (o virtual) o Brasil ainda tem muito a fazer. Mas não está mal posicionado.

TUDO TEM LIMITE

Parece até piada mas o protocolo mais usado da Internet, o IPv4, suportaria apenas cerca de 4 bilhões e 300 milhões de endereços. Um número que já deve ter sido ultrapassado, graças à migração gradativa para a nova geração de protocolos, o IPv6. Para se ter uma ideia de quanto esse número imenso é pequeno, diante da extrema importância da rede, basta lembrar que 40% da população da América Latina ainda não tem uma “varanda” na rede (parece estranho para quem está acostumado a falar de rede na varanda).
O novo protocolo multiplica por várias vezes o espaço na Internet. E isso é muito importante. Afinal, mesmo que cada cidadão do Planeta tenha pelo menos um endereço na Internet, a mania de navegar também tomou conta das “coisas”. Estima-se que, em alguns anos, bilhões de equipamentos estarão espalhados pelo mundo conectados entre si. E interagindo mais do que costumam fazer os “ratões de Facebook”.
O IPv6 resolve definitivamente essa questão e traz outras importantes vantagens para a rede. Com endereçamento de 128 bits, além de ser mais seguro, o novo protocolo oferece conexões adequadas para aplicações de áudio e vídeo, garantindo melhor qualidade. Ele reduz a carga de processamento e traz muitas outras vantagens.
No mundo todo cerca de 10% do tráfego da Internet já acontece com o novo protocolo. No Brasil os números são maiores, ultrapassam 17%. Mesmo assim, ainda somos o segundo maior alvo de ataques cibernéticos no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Na escala de número de usuários da rede estamos em quarto lugar o que justifica, em parte, a maior vulnerabilidade.
A segurança vai aumentando na medida em que o tráfego vai migrando para o novo protocolo. A substituição de um pelo outro é feita num esquema dual stack ou pilha dupla. Algo parecido com o que acontece hoje com a TV na maior parte do território nacional. A transmissão digital está no ar e a analógica também. Assim os usuários não ficam sem sinal e vão adaptando os receptores para a nova tecnologia.

REGRAS PRECISAM DE INTELIGÊNCIA

De um lado especialistas aprimoram protocolos e estabelecem alguns padrões. Eles tomam como base os hábitos de uso que vão sendo observados entre os Internautas. Do outro lado, políticos surfam na popularidade cada vez maior da Internet e fazem leis para serem cumpridas por bits.
Esse tipo de interferência serve mais para criar incertezas no ambiente virtual. Nos Estados Unidos, o chairman da FCC está revendo decisões tomadas no Governo anterior. Ajit Pai reclassificou o serviço de banda larga de forma a encaixa-lo numa regulamentação mais branda. Na prática, isso deve atrapalhar a neutralidade da rede e a aplicação de outros princípios importantes que estavam se consolidando.
Nesta semana o Brasil deu mais um passo em direção a um marco regulatório nacional para a proteção de dados pessoais. Uma nova audiência pública, promovida pela Câmara dos Deputados, em Brasília, reuniu 6 especialistas para debaterem o tema. Esse tipo de regulação busca garantir mais respeito aos cidadãos. Não é o que pensa o chairman do FCC, que já tratou de pôr abaixo muito do que tinha sido feito nesse sentido nos Estados Unidos. Ele justifica essas alterações pela busca da geração de mais negócios e mais empregos. Porém, mais parece que o interesse é desfazer ao máximo tudo que foi feito pelo Democrata Barack Obama.
É, não falta mais nada nesse mundo virtual. Até intrigas políticas ameaçam a tranquilidade de quem passa por aqui.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

ELES QUEREM CHORAR



A cada ciber ataque ressurge a ficção do domínio da máquina sobre o homem. Mas a questão crucial é quando o homem vai dominar a máquina. Desde os teares do Século XIX a máquina transforma a sociedade de forma completamente alheia ao controle de seus construtores/operadores.

A culpa dessas geringonças, ao contrário do que reza a lenda, está em atender de forma tão fiel e eficiente aos desejos humanos. Guardamos em algum lugar profundamente oculto do nosso “sistema operacional” um malware avassalador que é acionado à menor aproximação de arquivos da pasta “poder”. Máquinas em geral, quando caem em mãos hábeis, são capazes de encher a tal da pasta. Depois da catástrofe inventamos ficções para dividir a culpa entre o mordomo e a máquina.

Com os computadores, verdadeiras multimáquinas, a ironia é mais engraçada ainda. O ciber ataque da semana passada, mais do que o bilhão de dólares estimado em resgates via bitcoins, serviu para rastrear meandros da irresponsabilidade humana. Gente poderosa, com muitas atribuições sérias, brincando de roleta russa com a cabeça alheia. E desta vez foi russa mesmo.

A cena que mais inspiraria Kafka foi o protesto da Microsoft contra as vulnerabilidades do sistema que ela criou e que a enriquece mais e mais a cada dia. Fosse nos tempos dos teares o fabricante abaixaria a cabeça, ficaria envergonhado e pediria desculpas pelos transtornos. Nem precisa ir tão longe. A indústria automotiva está cansada de publicar chamadas de recalls por falhas em seus modelos. A anatomia dos fatos mostra o quanto estamos vulneráveis aos nossos próprios desejos.

É POR ISSO QUE AS COISAS ACONTECEM

À primeira vista parece que o início de tudo está numa das falhas de segurança do sistema Windows. No entanto, há quem considere mais sensato culpar a tolerância, por parte de governos e do mercado, de um monopólio tão amplo sobre algo tão sério. O Windows tornou-se o fígado do planeta. Todas as atividades humanas, da guerra à agricultura, passam pelo algoritmo para serem elaboradas.

Aprofundando mais ainda, esse domínio reflete a hegemonia econômica que permite desenvolver pesquisas, rastrear as maiores competências, organizar projetos que integrem todos esses recursos e inspirar uma obstinada busca pela inovação. Palmas pra eles, com certeza! O mundo avançou muito por conta disso. A falha é das outras nações que acharam mais cômodo utilizar o que é tão bem produzido pelos americanos. Poderiam desenvolver outros sistemas, compatíveis com os que já existem, a exemplo do Linux. Não por acaso, também americano.

É neste cenário de dependência tecnológica que tudo começa. Uma falha de segurança do Windows foi descoberta pela NSA, que batizou o bug de “EternalBlue”. A NSA é a agência do Governo Americano encarregada de apoiar exatamente os trabalhos de segurança. Porém, ao invés de informar a Microsoft para que o problema fosse resolvido, a agência decidiu guardar para si a informação. Ela seria útil para que a agência desenvolvesse vírus para eventuais ataques cibernéticos, uma vez que, em tempos de guerra, tudo pode virar arma.

O “EternalBlue” era um segredo da NSA até que um grupo de hackers denominado Shadow Brokers conseguiu invadir os arquivos da agência. Eles encontraram a descrição da falha e divulgaram mundo afora. Foi por aí que criminosos tomaram conhecimento de mais essa vulnerabilidade do Windows e desenvolveram o vírus que assustou o mundo inteiro.

Eles criaram um ransomware do tipo wannacry, que significa “eu quero chorar”, em tradução livre. Ao ser aberto o vírus criptografa todos os arquivos do computador e entra na rede do usuário para se espalhar. Depois envia uma mensagem avisando que os arquivos só poderão ser abertos depois de descriptografados. E, para isso, cobram um resgate em bitcoins num valor aproximado de R$ 1 mil. Só pra lembrar, a técnica de criptografia entrou na informática justamente para dar mais segurança aos arquivos.

Nas primeiras horas o ataque atingiu 16 hospitais na Inglaterra, uma empresa de telefonia móvel da Espanha, a FedEx nos Estados Unidos, uma montadora de veículos na França e, principalmente, muitos alvos na Rússia. Ao todo, pelo menos 99 países foram atingidos, inclusive o Brasil. O problema poderia ter sido muito maior se um jovem inglês, de 22 anos, não tivesse conseguido parar o vírus de forma quase acidental. A Microsoft se defende dizendo que já tinha divulgado uma atualização do Windows em março, corrigindo a falha. Mas poucos clientes tinham baixado a nova versão.

SACO CHEIO DE BACKUPs

O episódio traz à tona, mais uma vez, a importância daquela primeira lição da aula de informática: “-Faça sempre um backup.”.  Quem não aprendeu por bem agora vai ter que fazer um monte de backups para se proteger. Vai dar pra encher um saco. Especialistas acreditam que, a partir de agora, os HDs externos vão se multiplicar. A nuvem de dados também seria uma alternativa para proteção de arquivos.

Mesmo com tanto alvoroço fica a forte sensação de que nada vai mudar tão cedo. A maior parte das pessoas tende a falar do problema sem nem saber o que está dizendo. As medidas de segurança vão continuar dependendo de normas e ações corporativas. E uma grande corrida deve ganhar novas proporções em busca de mais conhecimento e autonomia na Tecnologia da Informação. As máquinas, vão continuar sem culpa de nada.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

ENTRANDO EM ÓRBITA PARA INOVAR


Brasil vai operar satélite.
E lá se vão R$ 2,8 bilhões pro espaço...
Desta vez para felicidade geral da nação! O assunto é o primeiro satélite que vai ser controlado daqui do Brasil e deve entrar em operação no mês que vem. Até agora esse é o custo do SGDC – Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação, lançado na semana passada da base de Kouru, na Guiana.
Para as telecomunicações um satélite geoestacionário funciona como uma super antena de 36 mil quilômetros de altura. Basicamente ele tem os equipamentos de uma repetidora e gira na mesma velocidade da Terra (velocidade angular). Por isso se diz geoestacionário, uma vez que ele fica parado em relação a um observador fixo em solo.
Com uma “antena” a essa altura é possível ter visada (ou visão, na linguagem não técnica) de qualquer ponto do Brasil. No caso das redes terrestres cada torre precisa ter visão de pelo menos duas torres: primeiro a que envia o sinal, depois a que vai receber a repetição do sinal. Assim vai, de torre em torre, até cobrir toda a área da rede. A 36 mil quilômetros de altura a visada permite enviar um sinal de TV, por exemplo, para um posto de saúde num ponto da selva amazônica. Ou para uma escola em Fernando de Noronha. Pode enviar também a comunicação via rádio de várias frequências e a Internet, principal ferramenta de comunicação no mundo atual. Sem dúvida, um instrumento de mil e uma utilidades para integrar polos de inovação de várias partes do país. Facilita ainda a vigilância das fronteiras e outras operações militares.
Por isso durante o lançamento, no dia 4 de maio, o que se ouvia do Presidente Temer e dos Ministros Gilberto Kassab (Ciência, Tecnologia e Comunicações) e Raul Jungman (Defesa) eram palavras e frases patrióticas do tipo “independência e soberania”. O Presidente Temer disse que "o satélite revelará o grande avanço tecnológico do País", frase aparentemente enigmática, uma vez que a fabricação do satélite é francesa e o lançamento também não aconteceu em solo brasileiro, por falta de uma base operacional para tanto.

BENEFÍCIOS GARANTIDOS, CUSTOS QUESTIONÁVEIS

A partida do foguete Ariane foi um sucesso. Nesta semana o satélite deve abrir os painéis solares, mais uma etapa de apreensão. E, nos próximos dias vai atingir a órbita final, para então ser posicionado. Se tudo correr bem a empresa francesa Thales Alenia, fabricante dos equipamentos, começa uma fase de testes. Em junho o SGDC entra em operação. Deve se tornar um marco para as telecomunicações brasileiras.
Então tá, o satélite vai estar lá, sendo operado pela Telebras e garantindo muitos benefícios estratégicos e sociais para o Brasil. Mas não são poucas as polêmicas que envolvem este projeto, astronômico sob qualquer ponto de vista.
Especialistas afirmam que esses R$ 2,8 bilhões – ou cerca de US$ 900 milhões, no câmbio atual – representam três vezes o que se pagaria no mercado. O final do “apartheid digital”, anunciado entre as vantagens do satélite, não conta com nenhum projeto até agora relacionado a áreas carentes de infraestrutura. A “operação totalmente brasileira”, que garantiria a “blindagem” das comunicações nacionais, na verdade dependerá de parcerias da Telebras com empresas privadas.
Kassab prometeu “acesso à banda larga dentro de alguns meses” para 7 mil escolas públicas mapeadas por um convênio entre o Ministério da Educação e a Telebras. Haveria também o mesmo benefício para unidades de saúde em regiões afastadas e carentes. Porém, de acordo com o site “Tela Viva”, especialistas garantem que o uso dedicado da capacidade do Governo no SGDC permitira 2 Mbps para 5 mil escolas, no máximo. Convenhamos, uma velocidade muito baixa.
Porém, o capítulo que promete mais agitação é o leilão da maior parte da capacidade comercial do satélite para a iniciativa privada (a capacidade de Defesa está totalmente garantida para as forças armadas). A Telebras, que vai ficar com apenas 20%, disse que o leilão é necessário para viabilizar o projeto. Já se fala que o Governo vai pagar para essas empresas, por exemplo, para alcançar o atendimento da banda larga dentro das metas anunciadas para a Educação e para a Saúde.

ALCÂNTARA E AS TESES CONSPIRATÓRIAS

A baixíssima capacidade de gestão nas questões nacionais rende histórias que seriam cômicas, se não fossem trágicas. Temos silício de ótima qualidade mas não dominamos a tecnologia de purificação em grau eletrônico; temos as maiores jazidas de minérios para produção de aços especiais, mas exportamos ferro para comprar trilhos de trem fabricados lá fora. Dentre tantas outras contradições desse tipo, temos também o melhor espaço físico para lançamentos em órbita, mas precisamos pagar para lançar em outros países.
A tecnologia aeroespacial é importantíssima sob vários aspectos. O mais candente deles, sem dúvida, é o estratégico/militar. Um foguete que lança satélites é basicamente um míssil de longo alcance com uma estação repetidora no lugar das ogivas nucleares. Ele atinge uma velocidade próxima a 30 mil quilômetros/hora.
Santos Dumont não precisou inventar o aeroporto antes do avião, mas para quem pensa em desenvolver satélites, ter um “espaçoporto” nas condições favoráveis de Alcântara, é meio caminho andado. A pequena cidade maranhense é muito próxima da linha do Equador o que torna possível economizar 30% da energia necessária para colocar um satélite em órbita. Tivesse ali uma base, seria utilizada por vários países do mundo, gerando receita e uma aproximação tecnológica importantes para o desenvolvimento do setor aqui no Brasil.
Em 2001 os Estados Unidos propuseram instalar uma base em Alcântara, com a condição de que o Brasil não poderia, em hipótese alguma, fiscalizar o que seria lançado de lá.
Anos antes, em 1997, a Aeronáutica Brasileira tentou disparar um VLS – Veículo Lançador de Satélite. Alegando necessidade de segurança, em função de uma pane, foi detonado um artefato que desintegrou o foguete poucos segundos após o lançamento. O mesmo se repetiu em 1999, com outro VLS nacional partindo de Alcântara.
A nova oportunidade ficou para agosto de 2003 porém, num episódio até hoje nebuloso, o foguete explodiu em terra, 3 dias antes do lançamento. De lá para cá ficou essa fumaça no ar. Só no começo deste ano o então Chanceler José Serra voltou a propor o acordo com os Estados Unidos e acenou que aceitaria as condições americanas.
Mesmo com todo o otimismo oficial do último dia 4 de maio, Kassab disse que a operação de satélites é o primeiro passo para transferência dessa tecnologia. E previu, para “dentro de algumas décadas”, chegarmos à capacidade tecnológica para produzir um satélite. Décadas! Em termos de inovação, isso é praticamente “tempo geológico”.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

O QUE FAZ SUA MÃE CHORAR?


Colocar a mãe no meio da conversa sempre conduz a injustiças. Depois elas acabam levando a culpa pelos erros dos filhos. Dessa vez foi o zagueiro Maicon, do São Paulo F.C, ao comentar uma atitude do colega Rodrigo Caio. Foi no primeiro jogo da semifinal do Campeonato Paulista deste ano, contra o Corinthians, em pleno Morumbi.
Numa disputa de bola com o atacante Jô, do Corinthians, Rodrigo Caio tocou o pé do goleiro do próprio time, que também estava no lance. O árbitro não viu com clareza e acabou punindo Jô com o cartão amarelo. O atacante estaria fora do segundo jogo da final. Mas Rodrigo Caio fez questão de se acusar diante do árbitro, que revogou o cartão.
fair play foi exaltado pela mídia e por partes das torcidas, mas alguns colegas de equipe questionaram. Embora dizendo respeitar a atitude do parceiro, Maicon fez um comentário em tom de advertência: ”-É melhor a mãe dele chorando do que a minha em casa”, referindo-se à mãe do adversário Jô, beneficiado na situação. Mas será que a mãe de Rodrigo Caio chorou ao ver a atitude digna do filho? É ela, afinal, a principal suspeita de ter passado o ensinamento que se viu em campo.
Você já pensou o que sua mãe sentiria numa situação dessas? Veja bem, estamos falando de honestidade, de dignidade, num momento da história em que o brasileiro, mesmo eternamente desconfiado em relação aos políticos, se vê estarrecido pela desonestidade que a Operação Lava Jato está revelando. Muito além do que poderíamos supor. Apontamos diariamente o dedo para acusar mais e mais nomes da República. Manifestamos decepção e críticas implacáveis contra os políticos, cujas mães devem estar sorridentes. Ou estariam infelizes e desoladas pelo que se revela sobre o caráter de seus filhos?

É BONITO SER ESPERTO

Jô foi tão enfático ao defender a atitude do adversário – em seu favor – que até acabou revelando algo contra sí próprio: “-Ele foi homem de dizer a verdade”, afirmou à mídia depois do jogo. Mas no dia seguinte o meio campista Jucilei lembrou que, num jogo recente, contra o São Bento, o mesmo Jô do Corinthians cometeu um pênalti, mas afirmou ao juiz que sequer havia tocado no adversário. Ora, Jô estaria depondo contra a própria hombridade?
A conclusão é de que ser honesto é difícil e até arriscado. Isto é, pelo menos num país como o Brasil, onde a honestidade é exigida o tempo todo... dos outros! Tente avisar o garçom de que ele cobrou a menos na conta da sua mesa, quando estiver reunido com alguns casais amigos.
Há cerca de 20 anos uma série de TV chamada “Você Decide” apresentava situações ao público e pedia que telefonassem para escolher o final. Um caso levado ao ar era sobre dois homens, até então desconhecidos, lado a lado em um vôo. Um deles começou a se sentir mal e ao perceber que não resistiria, entregou ao outro uma mala cheia de dinheiro, suplicando que encaminhasse a uma determinada entidade beneficente, destinatária da doação. O confidente ocasional estava numa situação financeira difícil. A pergunta era: você entregaria o dinheiro ou ficaria com ele? Não houve a opção meio honesta – se é que honestidade pode ser parcial – de entregar parte para entidade e ficar com outra parte. Era cumprir ou trair. O final escolhido pela grande maioria foi ficar com o dinheiro e não entregar nada à entidade.
Naquele caso a decisão veio de uma amostragem anônima. Mas no caso recente em campo são vários os que fazem questão de manifestar a contrariedade publicamente. A “estética do mal” é sedutora a ponto de inverter o valor. Muitos gostam de exibir a esperteza, o anti-senso de justiça, como prova de maturidade, de preparo para a vida. Como nas conversas em festas e em mesas de bares, quando políticos são criticados. Em dado momento sempre aparece um que faz questão de desafiar os outros, como quem confessa orgulhosamente a própria opção imoral: “-Se você estivesse lá, não faria a mesma coisa?”

COLOCANDO À PROVA

O fenômeno parece ser global e não apenas brasileiro. As doses admissíveis de honestidade, no entanto, parecem variar. Hollywood já optou há tempo pela vingança como valor inescrupuloso exaltável. A palavra vende filmes e séries aos montes. Justiça sumária e feita com as próprias mãos também é campeã de audiência. Até os super-heróis do passado são resgatados com um caráter adaptado ao desonesto, como aconteceu com Batman e tantos outros.
Talvez seja necessário que as coisas aconteçam assim. Afinal o bem nos foi apresentado historicamente como sofrimento e perda. Principalmente pela cultura cristã, que nunca ofereceu a imagem de um santo sorridente e feliz. A Reforma Religiosa do Século XVI revelou mais acertadamente outra essência do cristianismo, cada vez mais recepcionada por diversas religiões.
Com o avanço das liberdades individuais estaremos colocando o bem a prova: ao ser honesto, mesmo cedendo em favor do outro, estaremos tornando o mundo melhor? A sua fé na humanidade e nos valores é que vai conduzir a sua resposta.
Por enquanto, as nações onde a ética e o respeito são mais valorados, apresentam os melhores indicadores de qualidade de vida. A violência é muito menor, a saúde física e mental dos cidadãos também, as pessoas convivem com mais facilidade. É o que se constata na Noruega, Dinamarca, Finlândia, países que encabeçam as listas da Transparência Internacional.
Por aqui os fatos parecem apontar na mesma direção. Embora o São Paulo F.C não tenha conquistado a vaga na final, a qualidade das equipes se equivale e uma opção oposta não garantiria a vitória. Foi o que se viu no clássico anterior, entre Corinthians e Palmeiras. Mesmo reconhecidamente superior ao Corinthians o alviverde recusou-se ao fair play e ajudou a expulsar injustamente um corinthiano que sequer participara da jogada. E mesmo com um jogador a mais viu o Corinthians vencer a partida, diante de um estádio abarrotado de palmeirenses.
Vale a pena cada um continuar a reflexão. A Lava Jato prossegue e vai nos trazer mais oportunidades para pensar. Pode ser mais esclarecedor deixar em paz as mães dos políticos e tentar entender a situação pelos olhos das nossas próprias mães.